Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




O Movimento “Bife todos-os-dias”

por Rui Crull Tabosa, em 08.11.12

Parece, de facto, que a demagogia encontrou em Portugal um terreno fértil.

Dá quase ideia de que muitos ainda não perceberam as razões da ruína nacional.

Ainda há dias um jornal dava conta de que cada Português deve hoje mais 20 vezes do que em 1974. A dívida pública aumentou de 14% do PIB nacional para 120%.

Mas, que interessa?

Fernando Ulrich foi crucificado há uma semana quando tentou lembrar ao País que a nossa situação pode ser ainda muito pior do que a actual e que temos de ter muito cuidado para não a deixarmos resvalar para um descalabro à grega.

Isabel Jonet, que não conheço mas seguramente já deu muito mais de si a quem precisa do que os calvinistas que agora berram pela sua demissão – que fizeram eles pelo próximo, cumpre perguntar – é agora também vítima do crime de ter dito coisas óbvias e verdadeiras. Duras, mesmo impopulares, mas verdadeiras.

Aqui, prá rapaziada, se não há dinheiro, 'venhó' bife…

Se a conta é alta, deixe-se a torneira aberta que a água há-de correr (até um dia)…

Estamos falidos? Alguém há-de pagar…

Vivíamos acima das nossas possibilidades? Que se lixem as possibilidades e se dane a realidade…

Um bom exemplo desta absoluta falta de senso e até de patriotismo foi ainda hoje dado pelo impagável Tozé quando anunciou, com a gravidade de Pilatos, que a "austeridade é um disparate" (o Memorando de Assistência que o Socas assinou devia ser um programa de crescimento económico e emprego...), e que o PS lava as mãos da necessidade de introduzir cortes significativos na despesa do Estado. Olhá surpresa...

O que interessa, pois, é essa admirável festa socialista da demagogia, que a Merkel é que tem a culpa e não foram os tugas a rebentar com o País...

Assim, definitivamente, não vamos lá.

Uma nota final: certa vez, um amigo meu  - por sinal um alemão que se define a si próprio como um Kriegskind, uma "criança da guerra" que teve de ser evacuada por subnutrição quando a sua Pátria caiu sob o jugo estrangeiro – dizia-me que nas alturas de dificuldade temos de cerrar os dentes e seguir em frente. Se o não fizermos, e nos armarmos em baratas tontas, incapazes de perceber a gravidade da Hora do Destino que vivemos, morreremos, condenando as gerações futuras a uma miséria muito pior do que a actual.

Tenho pena pelos nossos filhos. Mas nenhuma pelos irresponsáveis que nos querem perder: terão o que merecem. Que essa corja não triunfe é pois o meu voto como Português e a minha esperança de Pai.

Autoria e outros dados (tags, etc)



12 comentários

Imagem de perfil

De jojoratazana a 09.11.2012 às 01:52

Não percebo o motivo de estarem tão chateados com as palavras da tia Isabelinha.

O que a tia Isabelinha queria dizer é simplesmente, que não há bife para todos, só para alguns como ela e muitos outros que despudoradamente de uma maneira ou outra, se fartaram de labutar para agora terem uns centimositos de parte para o bifinho.

Já são muitos tal como eu a estar fartos deste corja.

Imagem de perfil

De makarana a 09.11.2012 às 02:42

Rui,quem viveu acima das possibilidade, muito mas muito mais que o portuguses, foi o sector publico e os governantes.Isso de terem sido os cidadãos tem mais de história mitológica do que de verdade concreta.Um discurso de tasca.
Sim, houveram erros de governação, é lapalisse, mas lançar o terrorismo social, sobrecarregando a população com impostos, como os resultados indicam, estão a virar o nosso carro em direcção á grécia, antes do que á gloria!
Imagem de perfil

De makarana a 09.11.2012 às 02:47

Ah e seria bom ue o ui e mais outros do blog, omeçassem a falar do compadrio, da corrupção, e da cleptocracia ds politicos, dos quais os senhores(psd) teem a vossa quota de responsabilidade.Essas são as verdadeiras causas do estado a que chegámos.Mas enfim, há discursos mais convenientes e certinhos do ponto de vista politico para justificar
Imagem de perfil

De Rui Crull Tabosa a 09.11.2012 às 07:32

Claro que houve e há corrupção e já por vária vezes ecrevi aqui contra tal prática, seja do ps, psd ou cds, pc ou be.
E essa de só os políticos roubarem é muito boa... roubam os grandes e os pequenos, o material da obra, os pascotes de leite que eram destinados a crianças,  as baixas fraudolentas, não sao são roubar?
E não pode dizer que os portugueses não viveram acima das possibilidades, porque viveram, com um SNS gratuito e de país rico, um sistema de ensino gratuito até ao 12º ano e ridiculamente pago ao nível universitário, onde foi de borla durante muitos anos, um sistema de pensões em que estas eram calculadas pelo último vencimento, os melhores anos, as baixas fraudolentas, etc, etc. ec.
Sem imagem de perfil

De Pipoca a 09.11.2012 às 09:46

Uma crónica de António Lobo Antunes dedicada a Isabel Jonet
por Sérgio Lavos
“Os Pobrezinhos
Na minha família os animais domésticos não eram cães nem gatos nem pássaros; na minha família os animais domésticos eram pobres. Cada uma das minhas tias tinha o seu pobre, pessoal e intransmissível, que vinha a casa dos meus avós uma vez por semana buscar, com um sorriso agradecido, a ração de roupa e comida.
Os pobres, para além de serem obviamente pobres (de preferência descalços, para poderem ser calçados pelos donos; de preferência rotos, para poderem vestir camisas velhas que se salvavam, desse modo, de um destino natural de esfregões; de preferência doentes a fim de receberem uma embalagem de aspirina), deviam possuir outras características imprescindíveis: irem à missa, baptizarem os filhos, não andarem bêbedos, e sobretudo, manterem-se orgulhosamente fiéis a quem pertenciam. Parece que ainda estou a ver um homem de sumptuosos farrapos, parecido com o Tolstoi até na barba, responder, ofendido e soberbo, a uma prima distraída que insistia em oferecer-lhe uma camisola que nenhum de nós queria:
- Eu não sou o seu pobre; eu sou o pobre da minha Teresinha.
O plural de pobre não era «pobres». O plural de pobre era «esta gente». No Natal e na Páscoa as tias reuniam-se em bando, armadas de fatias de bolo-rei, saquinhos de amêndoas e outras delícias equivalentes, e deslocavam-se piedosamente ao sítio onde os seus animais domésticos habitavam, isto é, uma bairro de casas de madeira da periferia de Benfica, nas Pedralvas e junto à Estrada Militar, a fim de distribuírem, numa pompa de reis magos, peúgas de lã, cuecas, sandálias que não serviam a ninguém, pagelas de Nossa Senhora de Fátima e outras maravilhas de igual calibre. Os pobres surgiam das suas barracas, alvoraçados e gratos, e as minhas tias preveniam-me logo, enxotando-os com as costas da mão:
- Não se chegue muito que esta gente tem piolhos.
Nessas alturas, e só nessas alturas, era permitido oferecer aos pobres, presente sempre perigoso por correr o risco de ser gasto
(- Esta gente, coitada, não tem noção do dinheiro)
de forma de deletéria e irresponsável. O pobre da minha Carlota, por exemplo, foi proibido de entrar na casa dos meus avós porque, quando ela lhe meteu dez tostões na palma recomendando, maternal, preocupada com a saúde do seu animal doméstico
- Agora veja lá, não gaste tudo em vinho
o atrevido lhe respondeu, malcriadíssimo:
- Não, minha senhora, vou comprar um Alfa-Romeo
Os filhos dos pobres definiam-se por não irem à escola, serem magrinhos e morrerem muito. Ao perguntar as razões destas características insólitas foi-me dito com um encolher de ombros
- O que é que o menino quer, esta gente é assim
e eu entendi que ser pobre, mais do que um destino, era uma espécie de vocação, como ter jeito para jogar bridge ou para tocar piano.
Ao amor dos pobres presidiam duas criaturas do oratório da minha avó, uma em barro e outra em fotografia, que eram o padre Cruz e a Sãozinha, as quais dirigiam a caridade sob um crucifixo de mogno. O padre Cruz era um sujeito chupado, de batina, e a Sãozinha uma jovem cheia de medalhas, com um sorriso alcoviteiro de actriz de cinema das pastilhas elásticas, que me informaram ter oferecido exemplarmente a vida a Deus em troca da saúde dos pais. A actriz bateu a bota, o pai ficou óptimo e, a partir da altura em que revelaram este milagre, tremia de pânico que a minha mãe, espirrando, me ordenasse
- Ora ofereça lá a vida que estou farta de me assoar
e eu fosse direitinho para o cemitério a fim de ela não ter de beber chás de limão.
Na minha ideia o padre Cruz e a Saõzinha eram casados, tanto mais que num boletim que a minha família assinava, chamado «Almanaque da Sãozinha», se narravam, em comunhão de bens, os milagres de ambos que consistiam geralmente em curas de paralíticos e vigésimos premiados, milagres inacreditavelmente acompanhados de odores dulcíssimos a incenso. Tanto pobre, tanta Sãozinha e tanto cheiro irritavam-me. E creio que foi por essa época que principiei a olhar, com afecto crescente, uma gravura poeirenta atirada para o sótão que mostrava uma jubilosa multidão de pobres em torno da guilhotina onde cortavam as cabeças aos reis"
Imagem de perfil

De João Pedro a 10.11.2012 às 14:46

A crónica não é dedicada a Isabel Jonet, simplesmente já existia, pegaram nela e fizeram como se fosse. Vá enganar os parolos!
Imagem de perfil

De makarana a 09.11.2012 às 13:37

Há roubos em toda a parte, mas muio mais uns que outros , caro rui! Muito desse discurs das baixas fraudulentas, sendo nalguns casos verdade, é mera conversa de café, não chegando para justificar a forma errada com qu está a resolver a crise em portugal.Essesproblemasqe citou, não são actos de "viver acim de posiblidades" mas sm actos de gestão publica danosa.
Pior do que as baixas fraudulentas e do que o sns, são os privilegios escandalosos do gestores publicos e os privliegios dos politicoa e deputados(humm perdiz e vinho na assembleia), todos os assesores politicos e administrativos que há a mais, as fundacoes que há a mais.Os funcionarios que há a mais.Esses sãos os verdadeiros problems em portugal e não os habitos da classe média, e essa senhora pura e simplesmente fez tábua rasa disso.Depois queixem-se de serem alvos da ira das pessoas
Imagem de perfil

De Rui Crull Tabosa a 09.11.2012 às 08:41

Ao comuna de serviço, sei bem que o que deseja é a miséria social, o desemprego alto e o desespero popular, pois esses são as condições indispensáveis para a bolchevização das sociedades e a instalação do paraíso na terra...
A forma como se refere a IJ diz muito do que é.
Sem imagem de perfil

De Luís Santos a 09.11.2012 às 08:39

Excelente opinião. O que me revolta é este crescente de socialistas. Hoje em dia parece que quem diz a verdade ou apoia o evidente, é. Logo crucificado...vamos ter o que merecemos. Enfim...
Sem imagem de perfil

De O Falso Rei das Pampas a 09.11.2012 às 11:54

Já mataram a vaca?
Sem imagem de perfil

De carla LEMOS a 18.11.2012 às 10:56

É verdade, a mentalidade da nossa sociedade é preocupante e devia ser objeto de estudo. Passámos de guerreiros a parasitas encostados,  de mãos abertas aguardar que o estado ( com o dinheirinho dos impostos de quem trabalha e luta pela vida) lhes caia todos os meses sem que façam esforço algum. Estamos perante um fenómeno  sociológico em que a cultura de  valores por e simplesmente se enterraram

Comentar post



Corta-fitas

Inaugurações, implosões, panegíricos e vitupérios.

Contacte-nos: bloguecortafitas(arroba)gmail.com




Notícias

A Batalha
D. Notícias
D. Económico
Expresso
iOnline
J. Negócios
TVI24
JornalEconómico
Global
Público
SIC-Notícias
TSF
Observador

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Comentários recentes

  • Anónimo

    Ok! um pouco de demagogia à mistura. Até parece qu...

  • Tiro ao Alvo

    Inteiramente de acordo, Henrique. Mais, penso que ...

  • Aventino

    Que pobre e miserável é o vosso povo.Aventino, ex-...

  • Anónimo

    A mim o que espanta é pessoas adultas terem passad...

  • O SÁTIRO

    depende meu caro...depende do plano de ação anual....


Links

Muito nossos

  •  
  •  
  • Outros blogs

  •  
  • Links úteis


    Arquivo

    1. 2017
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2016
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2015
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2014
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2013
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2012
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2011
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2010
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2009
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2008
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D
    131. 2007
    132. J
    133. F
    134. M
    135. A
    136. M
    137. J
    138. J
    139. A
    140. S
    141. O
    142. N
    143. D
    144. 2006
    145. J
    146. F
    147. M
    148. A
    149. M
    150. J
    151. J
    152. A
    153. S
    154. O
    155. N
    156. D