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Colecção de crónicas (IX)

por Luís Naves, em 10.02.07

Há uma espécie de febre contagiosa que nos faz não suportar que alguém nos ultrapasse. Não é bem inveja. A inveja é uma paixão muito perigosa, enquanto isto de que falo não passa de uma reacção inócua, pouco reflectida e quase infantil.
Um dia fui ao supermercado, com a lista de compras e a missão muito particular de não me esquecer do pão. Disciplinadamente, esperei a saída de uma nova fornada. Pairava no ar um cheiro delicioso e, enquanto aguardava a vez, juntou-se nas redondezas um grupo largo de gente, que se entreolhava com desconfiança, também à espera da saída do pão acabado de cozer no forno.
À medida que crescia o odor requintado, picando a fome (palavra imperfeita para essa ansiedade que ia dominando as personagens), aumentava também a desconfiança entre as pessoas daquele grupo de desconhecidos, enfim, de vizinhos, nenhum deles com aspecto de viver carências. E, quando os empregados do supermercado colocaram a fornada à disposição dos clientes, houve um momento de descalabro daquela espécie de sociedade ainda composta. Cada um correu para apanhar o máximo de pão escaldante. Não posso dizer que houvesse encontrões significativos ou cotoveladas, mas ocorreu uma quase luta, duas mãos que agarravam ao mesmo tempo um só embrulho, olhares cruzados que mal dissimulavam fúria, o passo mais veloz na direcção do alvo, como se a caça pudesse espantar-se, esconder-se atrás das prateleiras altas.
Não pense o leitor que fui virtuoso. Também reclamei a minha dose de pão quente.
O que pretendo com esta crónica não é criticar o humano e concluir dizendo que devíamos ser mais pacientes, que devíamos aprender a partilhar, pelo menos com os da nossa comunidade. Tudo isso é evidente. Mas penso por vezes neste episódio. Não na perspectiva de lamentar as minhas falhas, que lamento, mas na perspectiva da fragilidade do nosso verniz.
As pessoas corriam para agarrar o pão, que teria sobrado para uma multidão dez vezes maior. Ninguém pensou em passar fome, ou algo dramático. O gesto colectivo de correr foi um movimento competitivo. Aquelas almas perdidas de si próprias tinham sido transformadas por leves segundos em seres sem o embrulho sofisticado de qualquer civilização.
Depois, quando caíram de novo em si, as pessoas afastaram-se umas das outras, talvez um pouco envergonhadas. Tentavam ainda esconder o pão muito quente e que largava um cheiro divinal.

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4 comentários

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De Pedro Correia a 10.02.2007 às 23:00

Deliciosa crónica. Nas linhas e nas entrelinhas. Adorei, meu caro. Grande abraço.
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De Cristina Ribeiro a 10.02.2007 às 18:15

O pior é quando esse tipo de"fraqueza" se apodera de tal modo de uma pessoa,passando a ser já como uma segunda pele,de tal modo que ela nunca vai cair em si,tomar consciência do atropelo,não vendo,por isso, razões para se envergonhar.
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De Anónimo a 10.02.2007 às 17:36

Pinhalnovense 0 SPORTING 6
Ah...ah...ah...
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De Anónimo a 10.02.2007 às 17:03

Luis Naves, queira desculpar em o assunto não estar relacionado mas tem graça que o nome Corta-Fitas chegou a Timor-Leste.
Ora leiam:

"Fretilin sozinha não faz bom governo"

O líder do Partido Social Democrata timorense, Mário Carrascalão, considera que a Fretilin sozinha não tem quadros suficientes para fazer um bom governo, o que só será possível juntando pessoas "de todos os partidos".

"Não há um único partido em Timor que sozinho consiga constituir um bom governo", afirmou Mário Carrascalão, em entrevista à Lusa, a propósito da publicação da sua autobiografia política e do período eleitoral que se aproxima.

"Se formos buscar pessoas de todos os partidos, teremos um bom governo, suficiente para dar uma resposta adequada às nossas necessidades", explicou Mário Carrascalão.

"A Fretilin sozinha, não", adiantou o antigo governador de Timor durante a ocupação indonésia (1982- 1992), argumentando que "os bons `Fretilins`" foram mortos durante a guerra.

"A guerra e a ocupação indonésia liquidou muitos.
Os sobreviventes são os que foram para fora", como é o caso de Mari Alkatiri, secretário-geral da Fretilin e ex- primeiro-ministro.

"Não sabem o que foi o sofrimento deste povo e tomam decisões administrativas que não levam em consideração o aspecto emocional que existe", acusa Mário Carrascalão.

A biografia política de Mário Carrascalão saiu em Janeiro, com o título "Timor Antes do Futuro", mas o líder do PSD admite que o título com o qual primeiro trabalhou foi "O Ciclo do Fogo".
Este título acabou por não vingar porque, explica o autor, o ciclo de violência em Timor "ainda não se fechou. Voltámos à fase da repetitividade".

Mário Carrascalão, fundador da UDT, considera que a Fretilin beneficiou do favorecimento de Portugal em 1975 e da comunidade internacional em 2001/2002, no momento da independência.
Um dos pontos que merece maior crítica por parte de Mário Carrascalão é o da saída precoce das Nações Unidas, depois de uma transição de três anos: "Foi um grande erro. Foram-se embora e nada estava feito. A máquina não estava montada".

Olhando para o início da guerra civil, o fundador da UDT é também directo nas críticas ao comportamento de portugueses e de Portugal, que "prepararam o abandono de Timor": "Sacanas!" Mário Carrascalão nota, ao mesmo tempo, que "foram os portugueses que, indirectamente, concederam a independência a Timor", ao diferenciarem pela língua as duas metades da ilha.
"A língua portuguesa poderá não ter muita utilidade no contexto geográfico da região", afirma Mário Carrascalão, "mas por enquanto há dois elementos que constituem a nossa identidade: a língua portuguesa e a religião católica".
Das duas, Mário Carrascalão é peremptório sobre qual é a mais importante: "A língua! A religião católica temos aqui, mas há mais católicos no Timor Ocidental do que aqui. A língua portuguesa é que eles não falam. Só nós. Esta é a nossa verdadeira identidade".

Sobre a década em que foi governador de Timor, Mário Carrascalão revela que "por várias vezes" admitiu "a hipótese de tomar uma posição em relação à Indonésia do género daquela que de Gaulle tomou quando fez a sua visita ao Canadá: `Vive le Québec libre!`.
"Não estou arrependido", salienta Mário Carrascalão. "Teria sido travado imediatamente a minha acção em Timor. A Indonésia arrumava-me de uma maneira ou outra.".

O PSD ainda não escolheu qual o candidato presidencial às eleições de 9 de Abril, "mas escolheu o perfil", adiantou Mário Carrascalão, sem contudo referir nomes.
Questionado sobre um possível apoio do PSD a José Ramos-Horta, Mário Carrascalão afirma que "já apoiou", mas que o primeiro-ministro não soube aproveitar.
"Quando Ramos-Horta, depois de saber que era o candidato do Presidente Xanana, depois de saber da minha boca que o PSD não poria obstáculos para ele avançar, vai declarar publicamente que o candidato dele é Taur Matan Ruak, significa que não está à altura", conclui Mário Carrascalão.

Mário Carrascalão não exclui a hipótese de ser ele o candidato presidencial, mas deixa bem claro que prefere concorrer nas legislativas, "para não ser um Presidente corta-fitas".

Agência LUSA

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