Domingo, 28 de Maio de 2006
Vida de cão

É um cãozito rafeiro, habituado ao convívio humano. Suponho que foi abandonado por um dos condóminos do bloco de prédios onde vivo. O problema é saber qual – há cem apartamentos neste conjunto de cinco prédios. O facto é que o cãozito decidiu ficar à minha porta: há três dias que o vejo por lá, com a sua triste coleira castanha. É já velhote – certamente o motivo por que foi abandonado – mas parece bem de saúde. Anda esfomeado. Mas anda sobretudo com uma imensa fome de carinho. Para um cão, o dono é uma espécie de deus – senhor de todo o bem. Custa imaginar, a um ser dócil e crédulo como este, que o seu deus possa ser tão mau e tão mesquinho ao ponto de abandonar quem sempre se revelou grato e fiel, cúmplice atento de todas as horas.
Observo o rafeirito: olha a toda a volta e fareja, na fútil esperança de encontrar o dono. Tem uma imensa desolação no olhar. Levo-lhe comida, um recipiente com água. Não tarda a matar a fome e a sede, depois mira-me de novo com uma indescritível expressão de ansiedade. Quem disse que os cães não são inteligentes e sensíveis certamente nunca conviveu com eles...
Afasto-me por fim. Ele lá fica no seu improvisado posto, aguardando quem nunca mais virá. E vou reflectindo: como pode uma pessoa ser tão desumana ao ponto de abandonar assim um animal?
De Anónimo a 2 de Junho de 2006 às 11:11
Já sei porque é que o PSD quis instituir o Dia Nacional do Cão. Marques Mendes lê este blogue!
De J Ferreira a 29 de Maio de 2006 às 00:11
Gostei.
Tenho uma rafeira que é "a mais inteligente do mundo"
Lá diz o ditado
Quanto mais observo os homens mais gosto dos cães.
De LFM a 28 de Maio de 2006 às 22:23
Tenho um cão (e uma gata) e sei o que os donos representam. Sei o trabalho e a responsabilidade que tenho e da qual não abdico.
Sou a favor dos novos sistemas de identificação e localização dos animais.
Não apenas para o caso de estes se perderem, mas para os casos em que se tenham de encontar as bestas dos donos!
De marta r a 28 de Maio de 2006 às 19:22
Giro, giro, era um dia os cães poderem abandonar os seus donos assim... deixá-los à porta. Em sofrimento e carência. Mas desconfio que nem assim, provando do próprio remédio, se tornariam pessoas melhores.
De Anónimo a 28 de Maio de 2006 às 19:14
Até para ser cão é preciso ter sorte, diz o povo.
De qualquer modo, como é que tem a certeza de que o rafeiro foi abandonado?
Até pode ter acontecido qualquer coisa ao dono, sei lá.
De João Távora a 28 de Maio de 2006 às 15:44
Faz muita impressão a descrição que faz o Pedro. Eu não sei se o olhava assim de frente nos olhos ou se assobiava para o lado.
De Rodrigo Cabrita a 28 de Maio de 2006 às 13:48
São donos a prazo! Enquanto estão na moda são muito giros, são uns pequerruchos, uns fofinhos...depois chegam a velhos já não tem piada nenhuma. Lembro de um caso idêntico pelas minhas bandas.O olhar dele impressionava, fui mimá-lo, e ele simplesmente rejeitou-me. Deve ter pensado " tu és um deles..."
De Cãocompulgas a 28 de Maio de 2006 às 13:34
Nem todos os cães conhecem o paraíso...
Crianças, idosos, animais... o seu abandono reflecte ausência de humanidade, de afecto, quem pode dar o que não tem? É o vazio da histeria social q vivemos.
De Cereja_no_Bolo a 28 de Maio de 2006 às 13:10
Se há quem abandone crianças nas maternidades e idosos nos lares, mais fácil será abandonar um animal. Há, realmente, pessoas desumanas. Infelizmente, há.
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