
Já que puxas o assunto, FranciscoUma das piores características que noto em muitos portugueses é uma espécie de
apologia permanente do insucesso: adoramos os derrotados, os perdedores, os deserdados. Paralelamente, abunda entre nós a inveja pelo mérito alheio. As caixas de comentários deste blogue estão cheias de proclamações raivosas contra Luiz Felipe Scolari em reacção a textos que aqui tenho escrito há mais de um ano. Dir-se-ia que
toda esta gente convive mal com o facto de se tratar do treinador com melhor currículo da história do futebol português, a nível internacional. Não é matéria de opinião: é matéria de facto.
Há muito de xenofobia nestas críticas: no Fórum da TSF e na "Opinião Pública" da SIC Notícias não faltaram sequer apelos ao ministro dos Negócios Estrangeiros para "deportar o brasileiro" de território nacional na sequência do Portugal-Sérvia. São opiniões tão irracionais que não merecem mais comentário: mas funcionam como um sintoma. Esclarecedor.
O que pretendiam muitos detractores de Scolari? O seu insucesso - mesmo que isso acarretasse, obviamente por extensão, o insucesso da selecção portuguesa. Isso ficou bem patente, vezes de mais, nos sucessivos atestados de incompetência passados ao técnico por todo o género de treinadores de bancada.
Tudo serviu para o denegrir: ou porque não sabia escolher a equipa, ou porque lia mal o jogo, ou porque tinha mau feitio, ou porque "não via os jogos do campeonato português", ou porque ousou confrontar "o senhor Jorge Nuno Pinto da Costa", ou porque convenceu os portugueses a pôr bandeiras às janelas num sinal de perigoso "populismo".
Ouviu-se de tudo. Na TV, em pleno Mundial da Alemanha, não faltaram sequer os pessimistas encartados - com ou sem gel no cabelo - prevendo sempre o pior resultado de jogo para jogo.
Foi assim? Infelizmente para eles, não.
Scolari, depois de levar o Brasil à reconquista do Campeonato do Mundo, transformou Portugal numa das equipas mais admiradas e mais temidas à escala planetária. Este é o seu maior feito, superior até aos resultados em campo, ainda assim nada negligenciáveis: vice-campeão da Europa em 2004, quarto lugar no Campeonato do Mundo de 2006 (com o dobro das equipas em torneio, comparado com o mítico Mundial de 1966, em que Portugal ficou em terceiro).
Mais que isso: com Scolari não houve Saltillos, não houve a vergonha do Mundial de 2002 na Coreia do Sul que deixou a imagem de Portugal pelas ruas da amargura. O "sargentão", como lhe chamam, construiu uma equipa, moralizou-a e disciplinou-a. Mais ainda: chamou para os estádios portugueses milhares e milhares de mulheres, anteriormente divorciadas do desporto-rei. Depois dele, o futebol entre nós não voltará a ser um desporto só para homens.
Cometeu erros? Claro - a começar pela absurda exclusão de Vítor Baía da baliza da selecção, nunca explicada. Mas de homens infalíveis está o inferno cheio. E de infalíveis génios domésticos cobertos de "vitórias morais" está cheia a história do nosso futebol.
Cansámo-nos desse futebol que nos dava uma alegria fugaz de vinte em vinte anos. Eu, pelo menos, fartei-me. Estou com Scolari, estou com a selecção. Contra o coro de carpideiras que têm falhado sucessivas profecias, vaticinando desaire após desaire para depois poderem dizer que foram as primeiras a prevê-los. Azar dessas carpideiras: Scolari soma muito mais triunfos que derrotas. Por isso o apoio. Faço questão de não ser ingrato.
De j.seabra a 2 de Dezembro de 2007 às 04:33
não concordo que Scolari seja o aqui proclamado salvador da pátria.
defendo que as vitórias dele são o aproveitamento lógico do que por outros foi conseguido, em piores condições, com um menor custo e com menos reconhecimento:
1) por Queirós, esse sim, o primeiro a levar a selecção ao povo. esse sim, o primeiro a construir uma base para a selecção. o primeiro, esse sim, a projectar meninos portugueses para o sucesso futebolístico internacional.
2) por Humberto e Oliveira, dois seleccionadores olhados de lado por serem símbolos reconhecidos e assumidos dos 2 maiores clubes portugueses, mas que puseram os meninos de Queirós a jogar o melhor futebol que a Europa viu desde Cruijff.
ambos foram afastados de forma pouco clara.
3) por Queirós, Humberto e Oliveira, que com a cultura de vitória e habituação aos grandes palcos, conquistaram os pontos que fizeram Portugal subir no ranking e tornar-se cabeça de série em apuramentos, agora muito mais acessíveis que nos seus tempos.
4) por Mourinho, construtor da equipa de sucesso que Scolari, correctamente, aproveitou para os sucessos (ou insucessos...) do euro'04 e mundial'06.
5) por Paulo Bento, Jesualdo Ferreira, Fernando Santos, que, por serem portugueses bem educados, podem ser enxovalhados, maltratados e ofendidos diariamente na imprensa, nos estádios, na televisão, e ainda saem sempre em defesa do seleccionador, protegendo a respectiva classe.
6) por Figo, Rui Costa, Couto, Baía, Deco, Ronaldo, Ricardo Carvalho, (...), que, ao se tornarem referências do futebol mundial ajudaram a que a nossa selecção fosse progressivamente mais respeitada.
Penso que não seria difícil a outro qualquer treinador cumprir os mínimos que Scolari cumpriu.
Depois de se ensinar o indivíduo a pescar, a pegar no peixe que esse recolheu e a cozinhá-lo, irrito-me se só se reconhece aquele que levou o peixe á boca do esfomeado...
De Pedro Correia a 30 de Novembro de 2007 às 19:57
Cada vez mais esmagado com a inteligente argumentação aqui esgrimida.
(um abraço, Gonçalo)
De Anónimo a 30 de Novembro de 2007 às 12:53
Uma coisa hoje, outra amanhã, outra no dia seguinte. Numa palavra o homem é um trapaceiro, um fala barato.
Scolari a jornal brasileiro: “Nem vamos discutir nova renovação" com a FPF
Luiz Felipe Scolari deu como certa a saída do cargo de seleccionador de Portugal no final do Euro’2008, em entrevista ao jornal brasileiro “Estado de S. Paulo”, adiantando ainda que depois poderá passar a orientar um clube europeu. Esta declaração contraria a feita ao sítio da Federação Portuguesa de Futebol (FPF), ao qual o técnico brasileiro afirmou ontem estar “muito bem em Portugal e na Selecção Nacional”, acrescentando que “mno Euro’2008 ou depois, logo se verá”. Scolari afirmou também não excluir “qualquer hipótese” e garantiu que não fizera planos. Ao “Estado de S. Paulo”, o seleccionador nacional, com contrato com a FPF até 31 de Julho de 2008, foi peremptório: "Nem vamos discutir uma nova renovação. Existe a hipótese de trabalhar em um clube europeu. Não tive contacto, mas tenho um filho advogado, trabalhando em Lisboa e o mais novo está a dois anos da faculdade. Hoje penso mais na minha família do que em mim". Sobre a selecção portuguesa, afirma que se fez "o que estava programado". “A equipa passou por grande transição. Perdemos líderes como Figo, Pauleta e Costinha, mas ganhámos Bruno Alves, Pepe, Miguel Veloso e Makukula. Temos oito meses até a fase final e teremos 23 dias de concentração total. É aí que vamos unir o grupo e aprimorar a parte táctica", diz. Scolari identifica como problemas principais a dificuldade em encontrar jogadores, num campeonato em que a maioria são estrangeiros, o não ter substituto para Deco nem um lateral-esquerdo esquerdino. "Cerca de 55 por cento dos jogadores que actuam em Portugal são estrangeiros. Temos dificuldade para encontrar atletas. Sem o Deco, não tenho um camisa 10. Falta um lateral-esquerdo canhoto. Mas tenho a certeza que seremos fortes e vamos chegar entre os primeiros, como vem ocorrendo nas últimas competições", afirma. Luiz Felipe Scolari vai estar presente domingo no sorteio da fase final do Europeu de 2008, em Lucerna, na Suíça, numa delegação lusa que inclui, entre outros, o presidente da FPF, Gilberto Madail, e Carlos Godinho.
De Gonçalo Soares a 29 de Novembro de 2007 às 13:59
Até que enfim, porra! O post do "porque no te callas?" aos chavistas do futebol português!Parabéns!
De pedro a 29 de Novembro de 2007 às 13:40
Três pontos:
1ºScolari apesar de usar bigode não tem fama de intelectual que Artur Jorge tinha e nem é acusado de ter destruído o Benfica logo, teve um tratamento diferente, mesmo tendo empatado na Arménia como o dito 'rei'.
2ºNunca Portugal teve, como base da equipa, 6 jogadores que dominaram o futebol europeu durante dois anos.
3ºDepois de estes jogadores se separarem a temível equipa portuguesa começou a ter monumentais vitórias por 1-0 frente a potências da modalidade como Angola
De Anónimo a 29 de Novembro de 2007 às 10:02
Eu acho que Scolari fez mal em não seleccionar o João Pinto, o Sérgio Conceição, o Fernando Couto: assim teve de ser ele próprio, Scolari, a andar ao murro.
De JFR a 29 de Novembro de 2007 às 00:53
Não foi Scolari quem impediu a continuidade de Vítor Baía. Foi a maioria dos colegas da selecção do Mundial de 2002. Um dia será contada a história dos graves acontecimentos, na sequência das pressões para colocar Vítor Baía na baliza (vindo de um longo período de ausência). Quem souber, diga quantos desses colegas se manifestaram em favor do guarda redes do FCP. Digam, também, como ficaram as relações entre Vítor Baía e o capitão Fernando Couto. Scolari arcou com a responsabilidade de o afastar. A pedido, provavelmente, da Direcção da FPF. Este é, também, um caso que enaltece Scolari. Assumiu com coragem as determinações da entidade patronal. Sem subtefúrgios!
De mcorreia a 28 de Novembro de 2007 às 17:57
"Cometeu erros? Claro - a começar pela absurda exclusão de Vítor Baía da baliza da selecção, nunca explicada."
Absurda?. Não era o que se afirmava quando ele tomou essa decisão, pelo contrário, isso era visto como uma demonstração de autoridade e os que questionavam e criticavam essa decisão (nomeadamente os portistas) não tinham nenhuma razão.
"E de infalíveis génios domésticos cobertos de "vitórias morais" está cheia a história do nosso futebol."
Carlos Queiroz e os 2 titulos mundiais nos sub21. Está cobertinho de "vitórias morais".
De Pedro Correia a 28 de Novembro de 2007 às 17:53
Luís, estamos de acordo num ponto: Humberto Coelho fez um trabalho muito positivo como seleccionador. Elejo-o mesmo como o segundo melhor seleccionador em Portugal do último quarto de século. Era o melhor antes de aparecer Scolari. Como é evidente, havia futebol antes de Scolari: nunca pus isso em causa. Vibrei, por exemplo, com o terceiro lugar no Europeu de França, em 1984. O problema nessa época era a falta de continuidade: em 1986 fomos ao Mundial do México e foi o que se viu...
(beijo, Custódia; um abraço, João)
De Custódia C.C. a 28 de Novembro de 2007 às 17:46
O que eu me divirto com estes comentários!
Pois estou consigo Pedro. Ele por vezes até tem mau feitio, mas tem mostrado trabalho e bons resultados e isso é que interessa! (Eu por vezes também tenho mau feitio ....)
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