Sábado, 4 de Setembro de 2010
Férias no Terceiro Mundo - 1

 

Quanto mais ganha ritmo e balanço a caminhada de Portugal para o Terceiro Mundo - graças às diligências dos socialistas em geral, e de Guterres e Sócrates em particular - mais refrescantes e necessárias se tornam as férias grandes.

 

De descanso verdadeiro servem as férias longe, no estrangeiro, em países democráticos e civilizados que nos retemperam o ânimo e nos consolam a apagada e vil tristeza. Quanto às férias cá dentro, das que nos recomenda Cavaco, são elas cada vez menos repousantes. É que, dispensados das rotinas de casa-trabalho, mergulhamos de súbito e intensamente no espaço público. E o espaço público em Portugal, hoje em dia, é uma exibição constante e sonora do empobrecimento intelectual, comportamental e cultural dos Portugueses, e do seu empobrecimento propriamente dito.

É no espaço público que nos submergem as cada vez mais numerosas famílias disfuncionais, a cujas crianças não foram ministradas as competências sociais mínimas, e cujos pais as agridem e lhes gritam nos termos e tons mais desbragados e humilhantes; mais os grupos de chicos-espertos que estacionam o chapéu de sol junto ao letreiro que os proíbe naquela zona - e gritam que «a praia é de todos» (menos, é claro, do pobre empresário que pagou uma renda para vir a alugar toldos e barracas, enquanto garante a presença de nadadores-salvadores), mas se retiram veneradores e encolhidos se intervém a Polícia Marítima. Pior ainda quando não intervém ninguém, e se disfruta ao vivo do desprezo por regulamentos e normas, e de um nojo absoluto aos mínimos da convivência. Voam bolas contra cabeças e cães urinam em toalhas porque «a praia é de todos». É no espaço público que se convive com a multidão dos que passam o ano a encher a boca de «Natureza» e «Ambiente» mas ficam ansiosos e inseguros se na praia, e na esplanada, e no passeio, e no carro, e no jardim, e em casa, não houver música aos berros com batuque, que os poupe de ouvir o som do mar, ou do vento nas folhas, ou dos pássaros. É na via pública que se sofre daquele condutor que barra o trânsito e a rua porque «foi só ali num instantinho», e é no estacionamento público que se contempla o carro atravessado no espaço onde caberiam três carros. É na via pública, e na esquina, e no areal, e no terreiro que se é atropelado por multidões sôfregas da «borla», do que quer que seja que uma empresa ou autarquia decidiu distribuir gratuitamente - seja uma T-shirt, um balão, uma palhinha de plástico ou um palito. Hordas alvoroçadas atropelam-se.

A intromissão do Estado em tudo, a aversão à responsabilidade pessoal, o assistencialismo, o medo, os exemplos indignos vindos de cima, a confusão entre autoridade e autoritarismo, o desprezo de leis e regulamentos e polícias, o relativismo que toma por igualmente bom escarrar no chão e bater nas fêmeas e nas crias, a despromoção do saber, da exigência, da cultura, do esforço, da disciplina - trouxeram-nos a isto, a este Portugal boçal e ignorante, sonoro e chico-esperto, pobre e presunçoso.

Este Portugal, obviamente, elege o primeiro-ministro à sua medida e há-de ver-se nele ao espelho.



publicado por José Mendonça da Cruz
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8 comentários:
De Luísa Correia a 5 de Setembro de 2010 às 00:03
Como já alguém disse, o «guterrismo», com a sua política de «diálogo» e «facilitismo», trouxe à tona os piores atributos do povo português, revelados nalguma falta de civismo e hombridade, e numa sistemática fuga às responsabilidades. Lamentavelmente, as marcas desse «ferro» continuam vivíssimas.


De Adsensum a 5 de Setembro de 2010 às 01:57

Brilhante.
Permita-me acrescentar a tristeza que nos é proporcionada pelo recente convívio profissional com os recém-licenciados em cursos de reforma "de Bolonha". Melhor dizendo, "bolonhesa".


De Anónimo a 5 de Setembro de 2010 às 12:44
Então? Os licenciados da Bolonha, até têm mestrados! Não estará «invejoso»? Note que alguns não dão erros a escrever.


De Melhoras, nenhumas a 5 de Setembro de 2010 às 09:30
Lendo-se o último parágrafo e lembrando-se a gente do calçadão dessa magnífica praia chamada Quarteira, a conclusão a que se chega é que o primeiro-minstro em que Portugal se há-de ver ao espelho mora em Massamá.


De José Mendonça da Cruz a 6 de Setembro de 2010 às 01:54
Pode bem ser. Tremo só de pensar nas continuações que esta bambochata ameaça ter.


De Samuel de Paiva Pires a 5 de Setembro de 2010 às 10:53
Um texo excelente, caríssimo José. Permite-me que o "roube" lá para o burgo?


Saudações


De José Mendonça da Cruz a 6 de Setembro de 2010 às 01:58

Obrigado, e faça favor, meu caro Samuel


De Marquesa de Carabás a 6 de Setembro de 2010 às 09:49


Há regras que convém nunca quebrar na escolha do destino de férias, sobretudo se delas consta este programa de areal.

1) Nunca descer abaixo do Tejo
2) Nunca passar férias em praia nenhuma que não tenha nevoeiro, garantido, pelo menos até ao meio dia
3) Águas tépidas são perigosissimas. Agora dizem que até têm tubarões. Escolher, portanto, águas frias que enrijecem e dão saúde
4) O vento. O vento é um "capital essencial" para garantir umas férias frescas.

Com estes pequenos conselhos, vai ver que os próximos posts serão um oásis de tranquilidade e nem precisa de ir para o estrangeiro. Boas férias!



Cumprimentos,




Marquesa de Carabás


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