Quanto mais ganha ritmo e balanço a caminhada de Portugal para o Terceiro Mundo - graças às diligências dos socialistas em geral, e de Guterres e Sócrates em particular - mais refrescantes e necessárias se tornam as férias grandes.
De descanso verdadeiro servem as férias longe, no estrangeiro, em países democráticos e civilizados que nos retemperam o ânimo e nos consolam a apagada e vil tristeza. Quanto às férias cá dentro, das que nos recomenda Cavaco, são elas cada vez menos repousantes. É que, dispensados das rotinas de casa-trabalho, mergulhamos de súbito e intensamente no espaço público. E o espaço público em Portugal, hoje em dia, é uma exibição constante e sonora do empobrecimento intelectual, comportamental e cultural dos Portugueses, e do seu empobrecimento propriamente dito.
É no espaço público que nos submergem as cada vez mais numerosas famílias disfuncionais, a cujas crianças não foram ministradas as competências sociais mínimas, e cujos pais as agridem e lhes gritam nos termos e tons mais desbragados e humilhantes; mais os grupos de chicos-espertos que estacionam o chapéu de sol junto ao letreiro que os proíbe naquela zona - e gritam que «a praia é de todos» (menos, é claro, do pobre empresário que pagou uma renda para vir a alugar toldos e barracas, enquanto garante a presença de nadadores-salvadores), mas se retiram veneradores e encolhidos se intervém a Polícia Marítima. Pior ainda quando não intervém ninguém, e se disfruta ao vivo do desprezo por regulamentos e normas, e de um nojo absoluto aos mínimos da convivência. Voam bolas contra cabeças e cães urinam em toalhas porque «a praia é de todos». É no espaço público que se convive com a multidão dos que passam o ano a encher a boca de «Natureza» e «Ambiente» mas ficam ansiosos e inseguros se na praia, e na esplanada, e no passeio, e no carro, e no jardim, e em casa, não houver música aos berros com batuque, que os poupe de ouvir o som do mar, ou do vento nas folhas, ou dos pássaros. É na via pública que se sofre daquele condutor que barra o trânsito e a rua porque «foi só ali num instantinho», e é no estacionamento público que se contempla o carro atravessado no espaço onde caberiam três carros. É na via pública, e na esquina, e no areal, e no terreiro que se é atropelado por multidões sôfregas da «borla», do que quer que seja que uma empresa ou autarquia decidiu distribuir gratuitamente - seja uma T-shirt, um balão, uma palhinha de plástico ou um palito. Hordas alvoroçadas atropelam-se.
A intromissão do Estado em tudo, a aversão à responsabilidade pessoal, o assistencialismo, o medo, os exemplos indignos vindos de cima, a confusão entre autoridade e autoritarismo, o desprezo de leis e regulamentos e polícias, o relativismo que toma por igualmente bom escarrar no chão e bater nas fêmeas e nas crias, a despromoção do saber, da exigência, da cultura, do esforço, da disciplina - trouxeram-nos a isto, a este Portugal boçal e ignorante, sonoro e chico-esperto, pobre e presunçoso.
Este Portugal, obviamente, elege o primeiro-ministro à sua medida e há-de ver-se nele ao espelho.
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