Sábado, 30 de Dezembro de 2006
No silêncio, entre cadáveres

Albert Camus escreveu um dos mais fabulosos textos que conheço para uma alocução proferida em Novembro de 1948, num encontro internacional de escritores. Este texto, intitulado "O Testemunho da Liberdade", tem uma espantosa actualidade perante os vertiginosos acontecimentos que se sucedem no mundo de hoje. É uma reflexão que devia constituir uma espécie de código de conduta para todos os intelectuais contemporâneos.
Passo a transcrever alguns trechos*:

"Os verdadeiros artistas não dão bons vencedores políticos, pois são incapazes de aceitar levianamente, ah, isso sei eu bem, a morte do adversário! Estão do lado da vida, não da morte. São os testemunhos da carne, não da lei. (...) No mundo da condenação à morte, que é o nosso, os artistas testemunham o que no homem é recusa de morrer. Inimigos de ninguém, a não ser dos carrascos! (...) Um dia virá em que todos o hão-de reconhecer e, respeitadores das nossas diferenças, os mais válidos de nós deixarão então de se dilacerar, como hoje o fazem. Hão-de reconhecer que a sua profunda vocação é a de defender até ao fim o direito dos seus adversários a não terem a mesma opinião que eles. Hão-de proclamar, consoante o seu estado, que mais vale uma pessoa enganar-se, sem assassinar ninguém e permitindo que os outros falem, do que ter razão no meio do silêncio e pilhas de cadáveres."

Hoje, mais que nunca, estas palavras devem merecer-nos profunda meditação.

* Tradução (excelente) de Luiza Neto Jorge e Manuel João Gomes para a editora Contexto (2001)


publicado por Pedro Correia às 17:43
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5 comentários:
De Cristina Ribeiro a 31 de Dezembro de 2006 às 00:20
Acusou-se,justamente,Saddam de monstro,mas acho que ao condená-lo à morte perderam qualquer autoridade moral que tinham;fez-se aquilo que ele faria no lugar deles.Para haver verdadeira justiça,no meu entender,condenar-se-ia a prisão perpétua,dando-lhe tempo para sofrer pelo mal que fez.É o regresso da barbárie...


De batuta a 31 de Dezembro de 2006 às 00:02
Há, em Londres, um justiceiro!

A Humanidade está cheia deles, e depois dá nisto...


De batuta a 30 de Dezembro de 2006 às 23:14
Excelente. Obrigado.


De Cartas de Londres a 30 de Dezembro de 2006 às 22:48
Pelos milhares de famílias das vítimas do regime ditado por Saddam, continuo a achar que a sua execução é mais do que justificada (ainda que a sentença final só remonte a cerca de uma centena de mortes).

Todos sabemos que mandou, ordenou, instruiu a sentença de morte a milhares - tirando-lhes a vida sem qualquer reconhecimento de direito civíco a um julgamento prévio sequer.

Não nos regemos pelas mesmas (falta de) regras, pelo que lhe reconhecemos o direito de se defender, e de justificar as suas acções do passado. Não conseguiu provar que era inocente. Logo, foi sentenciado. E "pouco importa" como foi capturado.

Considero que não merecia estar vivo, mesmo que preso, às custas do erário público. Há quem que com todo o potencial à nascença, morra logo na infância sem alguma vez ter comido uma malga de arroz, sentenciado apenas pela zona pobre do globo onde nasceu...!

Deixai-vos de demagogias idealistas pois estamos a lidar com a podridão da imperfeição humana. Todos testemunhámos a existência de uma monstrusidade humana que deveria ter sido parada mais cedo (e quiçá acompanhado psico-profissionalmente). Não o foi, "matámo-lo" agora.
"Paciência", era apenas um entre 6 biliões cidadãos deste planeta e não creio que o juízo final tenha sido injusto para com a criatura.
Mais: arrisco que não deixa "saudades".

Certamente que não é o único a merecer semelhante tratamento e julgamento público. Por mim, deveria mesmo servir de exemplo, tipo "friendly warning", a outros (impunemente) "ainda à solta"...
Enough is Enough.


De cinderela-dos-pes-grandes a 30 de Dezembro de 2006 às 20:32
Muito a propósito, Pedro Correia.
Obrigada!


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