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Memórias do Portugal respeitado*

por Pedro Quartin Graça, em 27.04.10

Corria o ano da graça de 1962. A Embaixada de Portugal em Washington recebe pela mala diplomática um cheque de 3 milhões de dólares (em termos actuais algo parecido com € 50 milhões) com instruções para o encaminhar ao State Department para pagamento da primeira tranche do empréstimo feito pelos EUA a Portugal, ao abrigo do Plano Marshall. O embaixador incumbiu-me – ao tempo era eu primeiro secretário da Embaixada – dessa missão. Aberto o expediente, estabeleci contacto telefónico com a desk portuguesa, pedi para ser recebido e, solicitado, disse ao que ia. O colega americano ficou algo perturbado e, contra o costume, pediu tempo para responder.

Recebeu-me nessa tarde, no final do expediente. Disse-me que certamente havia um mal entendido da parte do governo português. Nada havia ficado estabelecido quanto ao pagamento do empréstimo e não seria aquele o momento adequado para criar precedentes ou estabelecer doutrina na matéria. Aconselhou a devolver o cheque a Lisboa, sugerindo que o mesmo fosse depositado numa conta a abrir para o efeito num Banco português, até que algo fosse decidido sobre o destino a dar a tal dinheiro. De qualquer maneira, o dinheiro ficaria em Portugal.

Não estava previsto o seu regresso aos EUA. Transmiti imediatamente esta posição a Lisboa, pensando que a notícia seria bem recebida, sobretudo num altura em que o Tesouro Português estava a braços com os custos da guerra em África. Pensei mal. A resposta veio imediata e chispava lume. Não posso garantir a esta distância a exactidão dos termos mas era algo do tipo: "Pague já e exija recibo".

Voltei à desk e comuniquei a posição de Lisboa. Lançada estava a confusão no Foggy Bottom: - não havia precedentes, nunca ninguém tinha pago empréstimos do Plano Marshall; muitos consideravam que empréstimo, no caso, era mera descrição; nem o State Department, nem qualquer outro órgão federal, estava autorizado a receber verbas provenientes de amortizações deste tipo.

O colega americano ainda balbuciou uma sugestão de alteração da posição de Lisboa mas fiz-lhe ver que não era alternativa a considerar. A decisão do governo português era irrevogável. Reuniram-se então os cérebros da task force que estabelecia as práticas a seguir em casos sem precedentes e concluíram que o Secretário de Estado - ao tempo Dean Rusk - teria que pedir autorização ao Congresso para receber o pagamento português. E assim foi feito. Quando o pedido chegou ao Congresso atingiu implicitamente as mesas dos correspondentes dos meios de comunicação e fez manchete nos principais jornais. "Portugal, o país mais pequeno da Europa, faz questão de pagar o empréstimo do Plano Marshall"; "Salazar não quer ficar a dever ao tio Sam" e outros títulos do mesmo teor anunciavam aos leitores americanos que na Europa havia um país – Portugal – que respeitava os seus compromissos.

Anos mais tarde conheci o Dr. Aureliano Felismino, Director-Geral perpétuo da Contabilidade Pública durante o salazarismo (e autor de umas famosas circulares conhecidas ao tempo por "Ordenações Felismínicas" as quais produziam mais efeito do que os decretos do governo). Aproveitei para lhe perguntar por que razão fizemos tanta questão de pagar o empréstimo que mais ninguém pagou. Respondeu-me empertigado: - "Um país pequeno só tem uma maneira de se fazer respeitar – é nada dever a quem quer que seja".

Lembrei-me desta gente e destas máximas quando há dias vi na televisão o nosso Presidente da República a ser enxovalhado pública e grosseiramente pelo seu congénere checo a propósito de dívidas acumuladas. Eu ainda me lembro de tais coisas, mas a grande maioria dos Portugueses de hoje nem esse consolo tem.

 

Estoril, 18 de Abril de 2010

 

* Por Luís Soares de Oliveira

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19 comentários

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De vmos1 a 23.05.2010 às 23:09

É por estas e outras que ao fim de 3 décadas, o SAUDOSO foi eleito o maior portugues de sempre.Paz á sua alma
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De vmos1 a 04.01.2012 às 12:36

Parece os nossos politicos saidos da fornada da "abrilada",por isso temos o carimbo vergonhoso de "LIXO"VOLTA SALAZAR recupera o alvara de Pais deste lixo a beira mar plantado.
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De Anna a 26.12.2015 às 16:20

Vi testemunhos feitos por muitas pessoas sobre o Sr. Mauro Callipo, é assim que contactei-o para obter o meu empréstimo de 75.000€, para regular as minhas dívidas e realizar o meu projeto. É com o Sr. Mauro Callipo, que a vida, minha sorria de novo é o Sr. Mauro Callipo de coração simples e muito compreensiva jurar-los em nome de Deus que existe bel e muitos particulares prestamistas aqui na França. Eis o seu correio eletrónico:  maurocallipo94@gmail.com
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De João. a 27.12.2015 às 18:49


A quem quer enganar a direita radical.


Um ditador de um país atrasado à procura de simpatia dos americanos para e contra a corrente do século continuar com as colónias em África é confundido com um honrado homem de Estado pagador de suas dívidas...

Patético.
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De claudine a 16.02.2017 às 14:17


Eu sou eu, este é CLAUDINE,há muitos golpe
as ofertas de empréstimo entre o particular.Que eu possa sorrir novamente
é graças a LEBRON JULE
que me concedeu um empréstimo de 16.000€ devo pagar mais de 56 meses
com uma muito fraca interesse de sua parte é de 3%, qualquer que seja a soma
solicitado,o período de reembolso de 1 a 25 anos, dependendo, claro, o
emprestado soma de 16000€ e dois dos meus colegas também têm recebido
pronto para a sexta-feira 03/02/2017 manhã recebi o dinheiro sem protocolo.
Então eu aconselho você a entrar em contacto com ele e ele irá satisfazê-lo de todas as
os serviços que você pedir.:contato no endereço
seguinte: lebronjule68@gmail.com
Boa Sorte. E não se esqueça de compartilhar para ajudar
os seus amigos.

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