Segunda-feira, 16 de Novembro de 2009
A admirável podridão lusa

Esta é a ditosa pátria minha amada. Não.
Nem é ditosa, porque o não merece.
Nem minha amada, porque é só madrasta.
Nem pátria minha, porque eu não mereço
A pouca sorte de nascido nela.

Jorge de Sena

 

No outro dia defendi que a demissão de José Sócrates era a única escapatória possível depois de toda esta embrulhada. José Sócrates até pode estar inocente, no entanto, pela natureza do cargo que ocupa, não podemos, de modo nenhum, manter a dúvida – pelo menos não no grau em que está instalada.
No entanto, isso não implica que eu esteja confortável com tudo o que se passa. Em primeiro lugar a troca de recados quase pornográfica entre o Presidente do Supremo e o Procurador-Geral da República nem de terceiro-mundista pode ser chamada. Por uma vez concordo com o Daniel Oliveira: a falta de sentido de Estado do sr. Nascimento e do sr. Monteiro é extraordinária. Para além disso, torna-se assustador conceber o surveillance state montado à nossa volta. Um Estado em que meios são colocados à disposição de forças policiais e judiciais que não respeitam as regras básicas que devem pautar a sua actuação. A simples ideia de imaginar as minhas conversas escutadas por um departamento policial qualquer já é aterradora. Adicionar a divulgação nos jornais do conteúdo dessas conversas é simplesmente inaceitável.
Resumindo, no Portugal ideal, nós não tínhamos sabido das escutas, o cidadão Armando Vara continuaria a ser investigado. Provavelmente abrir-se-ia um processo para o cidadão José Sócrates (atenção, não foi Sócrates quem andou a ser escutado. Quem andou a ser escutado foi Armando Vara e Sócrates foi apanhado «por acidente»), a fim de se apurar eventuais envolvimentos em trafulhices pouco simpáticas, como todas são. Enfim, teríamos uma justiça a funcionar. Infelizmente, o Portugal que lemos nos jornais está longe do ideal e é com esse que temos de viver. No Portugal ideal nem se colocaria a questão da demissão de José Sócrates por este motivo. No Portugal real, parece-me a única saída aceitável. Pode ser que seja desta que se faça uma verdadeira reforma da Justiça para que todos os cidadãos, titulares ou não de órgãos de soberania, possam ter direito ao bom nome e ao estatuto de inocência até que a prova em contrário se revele inequívoca.



publicado por Tiago Moreira Ramalho
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6 comentários:
De Ah, pois pode a 16 de Novembro de 2009 às 10:24
Pois pode. Pode ser desta que se faça uma reforma da lei eleitoral, da divisão administrativa do país, do sistema fiscal, do sistema de ensino, das leis penais, dessas coisas todas.


De IsabelPS a 16 de Novembro de 2009 às 10:48
Nestas coisas convém sempre fazer a velha pergunta: cui bono? A quem interessa esta confusão? À investigação ou aos investigados? Não deixa de ser curioso que a borrasca só tenha rebentado a partir do momento em que houve constituição de arguidos. Até lá estava tudo fechado em copas, não é assim? Eu cá, se estivesse a ser investigada por corrupção para cima para baixo e para os lados, também punha a boca no trombone...


De Blondewithaphd a 16 de Novembro de 2009 às 11:03
"Pode ser que seja desta que se faça uma verdadeira reforma da Justiça", esta é a ditosa pátria minha em que deixei de crer.


De clara a 16 de Novembro de 2009 às 12:07
Mas qual dúvida?


De JR a 16 de Novembro de 2009 às 23:44
Onde tem andado o PR ? Será que entende o seu papel, por ele dito, de "garante da democracia e das instituições"? Parece que não.
E, por outro lado, aqueles que ouço defenderem as instituições, será que não acreditam na justiça quando os seus máximos agentes se pronunciam pela inexistência de indícios de crime, continuando a exigir conhecer as escutas?
Acho que todos temos algo de alcoviteiros.


De Nuno Castelo-Branco a 17 de Novembro de 2009 às 18:43
Onde tem andado o "pr"? No sítio do costume, a alcovitar, coisa que jamais parou de fazer desde que deixou de ser primeiro-ministro. Para cada panela, uma tampa para ela.


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