Sexta-feira, 20 de Março de 2009
BPN e BPP podem ser os detonadores de novas nacionalizações
Sucedem-se as revelações escandalosas no caso BPN. Agora é António Coelho Marinho, o mais antigo dos administradores do Banco, a declarar com toda a descontracção que recebia como parte do seu salário quantias em dinheiro, sobre as quais  não assinava recibos, nem pagava impostos. E que assim faziam todos.
 
Há dias foi a aflitiva audição de Francisco Comprido, a desmentir Dias Loureiro, e a não explicar o sumiço de 60 e tantos milhões de um fundo da SLN de que era presidente. Onde é que isto vai parar? E ainda não começou a explicação sobre o que se passou no BPP e a quem aproveitava aquele esquema.
 
Facto é que há precedentes: o BIP, em 1974, em relação ao qual alguém escreveu:


O caso BIP foi como que o detonador das nacionalizações. O BIP era o caso típico da actividade especulativa e fraudulenta e da degradação moral do capitalismo. (…) O grupo Jorge de Brito constituiu um monstruoso aparelho de empresas, recolhendo milhões de contos e fazendo-os desaparecer em benefício dos senhores do capital. 

 

Quando o Estado intervém no BIP (12-10-1974) para o salvar da falência, a operação custa milhões de contos dos dinheiros públicos.

 

O caso do BIP, e toda a podridão do sistema financeiro que o controlo dos trabalhadores vai pondo a nu, reforça as reclamações no sentido da nacionalização da banca, que acabará por ter lugar em 14 de Março de 1975.

 

Sabem quem escreveu isto? Cunhal em pessoa. E sabem que "as reclamações no sentido da nacionalização de toda a banca comercial" voltaram a fazer-se ouvir? Porque, como diz Jerónimo de Sousa, a semana passada, 


A moeda e o crédito, bens públicos, tal como o ar, a água e a energia, devem estar ao serviço do desenvolvimento económico, ao serviço da melhoria do nível e qualidade de vida dos trabalhadores e das populações, ao serviço do desenvolvimento humano e de um crescimento sustentável.


Fica assim mais evidente a importância deste sector estratégico ser predominantemente público. Como tal o PCP defende a nacionalização definitiva de todo o sector da banca comercial – actividade bancária que recolhe depósitos e concede crédito – e dos seguros.

 

Digo-vos uma coisa: cada vez que termina mais uma sessão do inquérito ao BPN no Canal Parlamento eu dou por mim a pensar se há outra maniera de conter a ganância dos banqueiros que não seja a nacionalização total da Banca. Haverá? Custa-me muito admitir que o PCP é capaz de ter alguma razão neste domínio. Ou não?

 



publicado por JTeles às 15:33
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7 comentários:
De douro a 20 de Março de 2009 às 16:55
O problema não é tanto o de nacionalizar para travar os banqueiros marotos, mas sim o de nacionalizar porque não há outro remédio face aos buracos que lá estão.


De Tiago Moreira Ramalho a 20 de Março de 2009 às 16:57
Claro que há: deixar falir. Mas pronto, continuemos a mandar fora o dinheiro público


De l.rodrigues a 20 de Março de 2009 às 17:18
"Ah ça ira, ça ira..."


De Tiago Moreira Ramalho a 20 de Março de 2009 às 19:30
O José que me perdoe, mas discordo totalmente.

Se uma gestão privada da banca pode trazer problemas como os que verificamos (que não se tratam de ganância, mas de crime, daqueles previstos na lei, como gestão danosa), uma gestão pública da banca traria problemas muito maiores. O dinheiro não é um bem público, porque o dinheiro custa... dinheiro. E se o Estado detivesse toda a banca, fixaria preços para o dinheiro, preços esses completamente artificiais e que, mais cedo ou mais tarde, levariam a um verdadeiro colapso. Lembremo-nos que tudo isto começou com o Fed a fixar a taxa de juro de referência na América em 1%.

O Jerónimo de Sousa é, tal como Cunhal o foi, um romântico: o crédito a servir o desenvolvimento humano. Mas isso é um perfeito disparate.

Abraço


De Anónimo Veneziano a 21 de Março de 2009 às 01:03
Não há soluções perfeitas. Todas têm vantagens e inconvenientes. Mas as entidades públicas responsáveis poderiam exercer uma maior e mais empenhada fiscalização sobre a banca privada, o que implicaria, entre outras coisas, exigir uma contabilidade limpa e obrigar a pagar os devidos impostos. E poderia começar por o Banco de Portugal levar a sério o seu papel fiscalizador. Julgo que no caso português o problema não foi das normas, foi do desleixo na sua aplicação. E por isso, embora uma nacionalização da banca não me repugne, arriscamo-nos a ter o mesmo problema: os objectivos da nacionalização traídos pela inépcia e laxismo das pessoas.


De Anónimo a 21 de Março de 2009 às 11:08
A experiência de muitos anos na actividade seguradora, a preocupação que, enquqntyo profissional de seguros sempre tive, em relação a gestão dos dinheiros que , pelos segurados, lhe são confiados parq bem gerir e assegurar que, em qualquer situação de emergência decorrente de sinistro, essas obrigações sejam satisfeitas, levam-sm a assegurar que estes sectores estratégicos para a economia nacional ( banca e seguros não podem funcionar em roda livre - com especulação e concorrência selvagem que tudo coloca em risco, desde que os lucros obtidos engordem as carteiras de uns tantos....
Estou absolutamente de acordo com a proposta de Jerónimode Sousa que, ao contrário do que li, não é ingénuo ou romantico, em relação a um caso desta envergadura que a todos toca. Estou de acordo em que tem que haver uma supervisão isenta , séria, sem compromissos com o poder económico ou político - seja na banca seja nos seguros. É indispensável. Mas que a Banca pública tem que tomar em mãos a responsabilidade de contribuir para a resolução da crise , apoiando os verdadeiros construtores da economia real, isso não tenho dúvidas . Não sou especialista, mas uma cidadã atenta . Não podemos ter preconceitos ideológicos, quqndo se trata de defender e acautelar o bem comum. Reflectir sobre o que se ouve, sobre as propostas que vão surgindo , adicionando-lhe a experiência vivida e os estudos que, a vários níveis, vão surgindo, parece-me que ajudará a melhor compreender a verdadeira razão de todo este descalabro e abrir horizontes aos mais recalcitrantes para uma solução que a todos beneficie e não deixe de fora os prevaricadores, seja qual for o seu papel em todo o processo. O sistema capitalista não está a dar resposta aos verdadeiros interesses da população em geral. Há que encontrar outras respostas. Mas não há tempo a perder.....Caso contrário, como diz o povo: "quem sai a perder é sempre o "mexilhão"...
MJ


De Anónimo Veneziano a 21 de Março de 2009 às 14:43
"O sistema capitalista não está a dar resposta aos verdadeiros interesses da população em geral".
Creio que é mais do que uma crise do sistema capitalista; é a crise da própria Economia e, pricipalmente, de todos os seus teóricos. O que, a meu ver, comprova que a Ecomonia (ainda) não é uma Ciência, mas apenas uma Arte.


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