Terça-feira, 27 de Janeiro de 2009
Estrelas de cinema (14)

 

 TODA A DOR DO MUNDO NUM OLHAR

 

Christine Collins existiu realmente. Mas não é isso que interessa. O importante é registar o seguinte: Christine Collins é desde já uma personagem fundamental na Sétima Arte. Clint Eastwood, no seu filme A Troca, elaborou um dos melhores retratos femininos das últimas décadas no cinema americano. Dando a Angelina Jolie, protagonista desta película inesquecível, o papel da sua vida.

Nas mãos de outro cineasta, A Troca não passaria de um docudrama banal, puxando à lágrima fácil, semeado de rodriguinhos. Eastwood, no seu classicismo depurado, segue o percurso oposto: expurga o filme de qualquer indício de ganga televisiva, centrando-o no retrato psicológico de uma mulher. O olhar, as dúvidas, a angústia, a contenção, a febre, as palavras e o silêncio de uma mulher confrontada com o pior dos cenários: o rapto de um filho.

Há uma banda sonora fabulosa – composta pelo próprio Clint Eastwood – a sublinhar o percurso desta mulher que viu a vida soçobrar por um inesperado capricho do destino. Desde os primeiros acordes, que acompanham as imagens de uma Los Angeles a preto e branco, num recuo temporal de oito décadas, pressentimos que esta toada musical, repassada de uma infinita melancolia, jamais nos abandonará até ao fim do filme. E mesmo depois de as luzes se acenderem permanecerá connosco. Porque o drama que abalou Christine Collins podia suceder a um de nós – é algo que acontece demasiadas vezes nos labirintos das nossas ruas.

Macabra ironia: tudo se passa na Cidade dos Anjos – Los Angeles, afinal habitada por mil demónios, incluindo as forças da ‘autoridade’, que utilizam métodos idênticos às corporações do crime. Questionar estes métodos, na América da Lei Seca e de Calvin Coolidge, poderia ser um passaporte para uma clínica de doentes mentais – cenário kafkiano caucionado por psiquiatras sem escrúpulos.

Christine passa por tudo isto – e muito mais. Vêmo-la sempre sob um intenso foco luminoso que contrasta com as superfícies negras que lhe emolduram o rosto quase imaterial. Eastwood dirige um verdadeiro bailado de luzes e sombras nas cenas capitais deste filme modelar, herdeiro directo do realismo crepuscular das velhas fitas da Warner Brothers. Tudo nos fala desse tempo irrepetível – automóveis, carros eléctricos, chapéus e penteados, numa irrepreensível reconstituição de época.

Mas o essencial do filme é Angelina Jolie, aliás Christine Collins, mulher que nunca voltará a ter um sono tranquilo na sua vida, assombrada pelo maior dos pesadelos. Despedimo-nos dela quando o filme acaba. Mas é uma despedida vã: o seu rosto dorido, trespassado de uma tristeza sem fim, há-de acompanhar-nos para sempre, como o de Ingrid Bergman em Casablanca. E continuamente nos interrogaremos como é possível concentrar toda a dor do mundo naquele olhar.

 

A Troca (The Changeling, 2008). De Clint Eastwood. Com Angelina Jolie, John Malkovich, Riki Lindhome, Jeffrey Donovan

* * * * *


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publicado por Pedro Correia
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12 comentários:
De Ana Vidal a 27 de Janeiro de 2009 às 01:14
Fui ver o filme, mais pela curiosidade de ver como se safava a Angeline Jolie de um papel difícil. E dou a mão à palmatória: ela tem uma interpretação soberba, de que nunca a julguei capaz. Mérito da direcção de actores, de Clint Eastwood? Talvez, mas com certezadela também. De resto, todo o filme é bom e cuidadíssimo nos pormenores de época. Uma única falha: o guarda-roupa de Christine Collins, todo ele lindo de morrer (é a minha época de moda preferida) é mais adequado a uma herdeira rica do que a uma simples telefonista. Alguém não resistiu a fazer brilhar a Jolie ainda mais, o que até é compreensível...


De Pedro Correia a 27 de Janeiro de 2009 às 23:05
Olho clínico, Ana. Olho clínico...


De l.rodrigues a 27 de Janeiro de 2009 às 10:32
Do que li sobre a direcção de actores de Eastwood, é tão minimalista como a sua técnica narrativa.
É raro repetir takes por considerar que este ou aquele actor podia fazer a coisa de outra maneira.
A diferença, e não vi o filme, está provavelmente entre Angelina Jolie fazer um papel em que tem que fazer de "angelina jolie/a mulher mais sexy do mundo" e encontrar um papel que não é um veículo para um nome de estrela, mas simplesmente um personagem.


De Pedro Correia a 27 de Janeiro de 2009 às 10:55
É uma grande diferença, asseguro-lhe. Veja o filme: verá que gosta.


De Once a 27 de Janeiro de 2009 às 15:00
Vi-lhe pela primeira vez esse olhar que tão bem descreve Pedro, em Beyond Borders no papel de Sarah ..


De Pedro Correia a 27 de Janeiro de 2009 às 18:10
Eu só a vi agora, Once. E não foi preciso mais. Voto já nela para melhor actriz do ano.


De José Gomes André a 27 de Janeiro de 2009 às 17:44
Excelente texto sobre um grande filme. Um abraço, meu caro!


De Pedro Correia a 27 de Janeiro de 2009 às 18:11
Muito obrigado, meu caro.
Abraço


De mike a 27 de Janeiro de 2009 às 19:40
Um texto à altura do filme. Parabéns, Pedro.


De Pedro Correia a 27 de Janeiro de 2009 às 23:04
Muito obrigado, Mike. Este texto foi escrito a pensar também nos leitores que são verdadeiros cinéfilos, como é o seu caso.
Um abraço.


De Carlos a 28 de Janeiro de 2009 às 23:26
Fui ver o filme, por ser mais um Clint Eastwood. E, mais uma vez, é soberbo. Lembrei-me do Mystic River e do Million Dolar Baby. Um bom argumento e uma direcção de actores que, actualmente, é dificil de igualar. A Angelina tem aqui o papel de uma vida. Incompreensível que este filme não esteja nomeado para os óscares de melhor filme e melhor realizador. Há uma frase sua que retrata bem os filmes deste grande realizador: não há ali ganga, nem encher chouriços, nem cedências ao facilitismo. Está lá apenas o essencial, deixando-nos sentir a história e sentir os personagens. Daí que como muito bem escreveu, a Christine Collins nos vá acompanhar durante muito tempo...


De Pedro Correia a 28 de Janeiro de 2009 às 23:54
Obrigado, Carlos. Também acho um escândalo que 'A Troca' não esteja nomeado para Óscar de melhor filme, em vez de (por exemplo) «Frost/Nixon», claramente inferior. Ponho este filme de Eastwood ao nível desses que menciona, «Mystic River» e «Million Dollar Baby» - e ainda «Cartas de Iwo Jima». Tudo obras-primas.


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