Domingo, 11 de Janeiro de 2009
Heróis, vilões e o 'jornalismo de causas'

 

Parece ter chegado ao fim um dos maiores folhetins que alimentaram nos últimos anos a comunicação social portuguesa, dando origem a diversas erupções do chamado 'jornalismo de causas', que adora transformar uns quantos em heróis e outros tantos em vilões. Refiro-me ao caso Esmeralda, que deu até origem a uma ternurenta figura de estilo - a dos 'pais afectivos', enquanto se estigmatizava o chamado 'pai biológico', como se de uma besta se tratasse.

Em que consistiu afinal este caso? Na contínua e persistente fuga à justiça de um casal que tinha indevidamente acolhido uma menina que no próximo dia 12 completará sete anos. Esmeralda, registada como filha de pai incógnito por uma brasileira então imigrante ilegal, foi entregue pela mãe ao casal Luís Gomes-Adelina Lagarto com três meses e 16 dias, a 28 de Maio de 2002.

Sucede que o pai da miúda tinha rosto e nome: Baltazar Nunes disponibilizou-se a fazer exames hematológicos comprovativos da paternidade, confirmada a 8 de Janeiro de 2003. Um mês depois, perfilhou Esmeralda.

Sublinho: isto aconteceu há seis anos.

 

Seguiu-se um longo calvário de tribunal em tribunal, ilustrativo da degradação a que chegou a justiça portuguesa. A primeira sentença de regulação do exercício do poder paternal que atribuiu a guarda ao pai data de 13 de Julho de 2004, já Esmeralda tinha dois anos e meio. Mas o casal que a mantinha a seu cargo recusou cumprir a ordem judicial: sucedeu-se uma catadupa de recursos.

A Relação de Coimbra e o Supremo deram razão a Baltazar, que desde Julho de 2004 procura - sempre pela via judicial, com um civismo irrepreensível - ficar com a filha. O casal recusou invariavelmente a entrega da menina: nos dois anos seguintes, Luís e Adelina mudaram várias vezes de casa, evitando as notificações do tribunal. Os jornalistas encontravam-nos, a polícia nem pensar (Luís é sargento da GNR). A situação configurava um autêntico crime de sequestro, aplaudido pelo 'jornalismo de causas' e várias senhoras 'da nossa melhor sociedade', como antigamente se dizia.

O sequestro manteve-se mesmo após a Relação de Coimbra, a 26 de Setembro de 2007, confirmar a sentença da regulação do poder paternal que concedia a guarda ao pai. Só em Março de 2008 este teve pela primeira vez acesso à filha - em ambiente de histeria colectiva, onde não faltou quem promovesse o linchamento moral de Baltazar na praça pública, enquanto o sargento e a esposa se desdobravam em campanhas mediáticas.

 

Só agora as decisões dos tribunais estão a ser respeitadas: tarde e a más horas, cumpriu-se a determinação do poder judicial. Pai e filha vivem finalmente sob o mesmo tecto.

De caminho, assistiu-se a um festival de barbaridades. Desde os (ir)responsáveis da Segurança Social que deram luz verde para que Luís e Adelina ficassem com Esmeralda em 2004 sem terem ouvido Baltazar uma só vez até um ilustre pedagogo e uma zelosa pedopsiquiatra que, retomando o tom de histeria das campanhas anteriores, alertam agora para a possibilidade de suicídio da criança. É ainda a mania de forjar vilões - com uma leviandade que arrepia.

 

Ler também:

- António Pais, no Fim de Semana Alucinante (aqui e aqui)

- Eduardo Pitta, no Da Literatura

- Jorge Sousa, no Oh Não!

- Manuel Henriques, n' O Beirão Recalcitrante

- Joana Lopes, no Entre as Brumas da Memória

- Carlos Barbosa de Oliveira, no Delito de Opinião


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publicado por Pedro Correia
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28 comentários:
De joão melo a 11 de Janeiro de 2009 às 09:32
concordo Pedro.


De Pedro Correia a 11 de Janeiro de 2009 às 12:34
Uma vez mais de acordo, João.
Abraço


De Joana Lopes a 11 de Janeiro de 2009 às 10:33
Até que enfim que alguém diz o que pareceria óbvio !!!


De Pedro Correia a 11 de Janeiro de 2009 às 12:34
Bem me parecia que havia mais gente a pensar como eu, Joana...


De Joana Lopes a 11 de Janeiro de 2009 às 12:41
O seu post suscitou-me este que acabo de publicar.

http://entreasbrumasdamemoria.blogspot.com/2009/01/venceu-esmeralda.html


De Pedro Correia a 11 de Janeiro de 2009 às 12:57
Já lido, já comentado e... já transcrito.


De António P. a 11 de Janeiro de 2009 às 11:14
Bom dia Pedro,
Os meus agardecimentos pela referência e uma pequena correcção sou Pais e não Paes.
Abraço


De Pedro Correia a 11 de Janeiro de 2009 às 12:33
Olá, António. Já emendei.
Abraço


De Ana Pereira a 11 de Janeiro de 2009 às 11:42
Tudo o que se passou á volta deste caso é efectivamente uma vergonha nacional.Como foi possível que só agora fosse cumprida uma sentença de 2004?Quem apareceu a apoiar Luís Gomes quando ele foi condenado,altas figuras influentes da sociedade portuguesa,ex-primeiras damas,ordem dos médicos atraves do grupo de pedopsiquiatria,cantores do passado,produtores de espectaculos teatrais,todos eles a condenar as decisões judiciais e os juízes,uma teia que pretendia transformar o Estado de Direito em estado de espectaculo.E mesmo depois da entrega tardia de Esmeralda a seu pai Baltazar Nunes com quase cinco anos de atraso,o espectáculo continua.Como é possível que o Villas Boas que dirige um estabelecimento que acolhe crianças continuar a faze-lo depois das barbaridades que proferiu no debate da SIC,que não teve vergonha de dizer que uma criança com quem não convive e viu para aí duas vezes está á beira de cometer um acto desesperado que a pode levar á morte.De que forma podemos continuar a acreditar no trabalho do Instituto de Apoio á criança quando vimos a sua presidente Dr.Manuela Eanes a assistir a um espectáculo de apoio do cantor José Cid a Luís Gomes depois de ele ter sido condenado por subtracção de menor desde o tribunal da 1ªinstancia até ao Supremo Tribunal de Justiça.Este triste calvário de um pai,pessoa de origem humilde,mostrou-nos o tráfico de influencias e a falta de moral de pessoas que querem dar a entender á sociedade que se dedicam a instituições beneméritas,como o Refúgio Aboim Ascensão e o Instituto de Apoio á Criança,que se consta estar a preparar um documento a criticar esta decisão judicial.Por fim a comunicação social que transformou a vida destas pessoas numa novela de quinta categoria,que utilizou para fazer julgamentos dos juízes portugueses nos estúdios de televisão.A RTP paga com os nossos impostos tambem foi por esse caminho tendo tido um comportamento por vezes ainda mais vergonhoso que as privadas.Muitos mais envolvidos teria para comentar,mas já vai longo o meu comentário,concordo com tudo o que diz no seu texto


De Pedro Correia a 11 de Janeiro de 2009 às 12:36
Ana, você disse melhor que eu. Cumprimento-a também por isso.


De mcorreia a 11 de Janeiro de 2009 às 14:23
Subscrevo inteiramente.

Parabéns pelo post.


De Pedro Correia a 11 de Janeiro de 2009 às 16:38
Obrigado. Apareça sempre.


De Manuel Leão a 11 de Janeiro de 2009 às 16:24
Pedro Correia:

Concordo plenamente. Bom "post". Este artigo é "serviço público".

Só vou acrescentar o seguinte: A justiça costuma ser lenta. Mas, neste caso, isso não foi o pior. O pior foi a fuga ao cumprimento das decisões dos tribunais, durante anos. O único argumento era a defesa do facto consumado. O que, a vingar, seria um precedente perigoso. E, se fosse um caso que tivesse começado logo por um rapto, interrompido tempo depois depois pela polícia? Também se aceitava o facto consumado da criança já estar afeiçoada ao raptor?

Não sabemos se a história vai acabar bem ou mal, mas o caso estava a correr sobre linhas tortas e isso não é admissível num estado de direito. É que só Deus sabe escrever direito por linhas tortas. Os homens não sabem fazer isso.


De Pedro Correia a 11 de Janeiro de 2009 às 16:42
Caro Manuel Leão,
Uma vez mais, de acordo. Não há vidas escritas por antecipação. O livre-arbítrio humano é imponderável. Nenhum pedopsiquiatra, nem ninguém, pode antecipadamente garantir que esta criança viverá feliz para sempre, como nos contos de fadas. Nem poderia garantir que isso existiria se tivesse permanecido com o sargento e a mulher. A vida não é um caminho sem pedras a caminho de um ocaso paradisíaco. Mas considero inconcebível que "pedagogos" e "psiquiatras" vaticinem o pior para a menina sem conhecerem nada de nada sobre o enquadramento familiar que o pai lhe proporciona. Um pai que luta há seis anos na justiça por aquilo a que tem direito: o exercício de uma paternidade responsável.


De mc a 11 de Janeiro de 2009 às 17:05
eu recuso-me a tomar partido nesta triste história. Se tomasse era pela criança. Só pelo facto de que não disponho de dados suficientes para decidir. Porque, como o Pedro muito bem diz, a comunicação social, mais as tais almas caridosas, transformou isto num caso seu.
Espero do fundo do coração (também sou sensível q.b.) ;) que os jornalistas se esqueçam rapidamente destas pessoas e elas possaam adquirir alguma paz e tranquilidade para viverem em privado as suas vidas.


De Pedro Correia a 11 de Janeiro de 2009 às 20:40
Esperemos, de facto, que a pequena Esmeralda deixe de ser joguete de interesses que nada têm a ver com os direitos dela, MC. Obrigado pela sua reflexão. Volte sempre.


De SeaKo a 11 de Janeiro de 2009 às 19:10
Disse quase tudo, mas o jornalismo desta "causa" não devia deixar de ser jornalismo ISENTO.

Que forças ocultas forçaram quase toda a comunicação social (excepção para o JN) a só veicular apenas um lado da historia? Qts jornalistas (e demais personalidades-especialistas-comentadeiras) leram de facto o que foi produzido e provado em tribunal?
Exemplo: http://www.verbojuridico.net/jurisp/1instancia/circulotomar_sequestromenor.pdf

Ou que forças impediram a GNR de deter o Sargento qd este passava 2 vezes por dia à porta do Posto a caminho do Quartel onde estava colocado? E o que feito ao pessoal do Hospital local que ignoraram o mandato de captura aquando das visitas de Maria Adelina com a menor 'fugida'?

Uma vergonha pegada e encoberta....


De Pedro Correia a 11 de Janeiro de 2009 às 20:40
Pois...


De Fernanda Valente a 11 de Janeiro de 2009 às 20:04
Perfeitamente de acordo.


De Carlos Saraiva a 11 de Janeiro de 2009 às 20:21
Parabéns e congratulo-me por ver alguém a defender quem devia ser defendido, o pai, mesmo com alguns erros iniciais, e a miúda que foi um joguete nas mãos de ilustres que se serviram do caso para ganhar mais notoriedade. A comunicação social na generalidade foi vergonhosa na campanha que moveu contra o pai, de que destaco um Prós e Contra onde FCFerreira até chegou a ser mal-educada com o advogado de Baltazar e tomou nitidamente partido dos ilustres que se serviram deste caso.
E há um psicólogo, com falinhas mansas, que baptizou o pai, o verdadeiro, como "o lobo mau", sem o conhecer de lado nenhum. E diz-se este senhor entendido em psicologia de crianças.
Este caso demonstrou como este País ainda está muito atrasado e há alguns poderosos que até conseguem obstruir que as decisões da justiça sejam respeitadas e mais, até se dão ao luxo de lhe desobedecer sem nada lhes ter acontecido. Não é o sargento que é poderoso, mas quem demagogicamente a ele se associou e andou a fazer estas palhaçadas todas. A CS é poderosa e desempenhou um papel vergonhoso neste caso e fizeram do pai Baltazar um demónio que andava por aí à solta, quando o seu erro ou talvez não, cada um é que sabe de si, será igual a tantos outros milhares de homens que têm relações ocasionais com mulheres que têm vários parceiros ocasionais. Como podia Baltazar assumir a paternidade duma criança que por razões óbvias, tanto poderia ser sua como de outro homem qualquer? Assim que soube que era sua, nunca a enjeitou e sempre quis ficar com ela. Não sei que erro tão ignominioso cometeu para merecer tão vil perseguição da CS e de ilustres figuras.


De Pedro Correia a 11 de Janeiro de 2009 às 20:43
Nem mais, Carlos. Bem lembrado esse exemplo do pedopsiquiatra de falinhas mansas a clamar pelo lobo mau...


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