Domingo, 29 de Outubro de 2006
Grandes contos (8): Cardoso Pires
Estilista incomparável no romance, José Cardoso Pires foi também um excelente cultor da narrativa curta, atingindo a expressão máxima da sua arte de ficcionista num dos melhores volumes de contos de toda a literatura portuguesa: Jogos de Azar (1963). São oito histórias com raízes muito diferentes: umas tinham sido originalmente publicadas no livro de estreia do autor, O Caminheiro e Outros Contos (1949), de temática tradicional, embora inovadores e arrojados na escrita; outros constam da obra Histórias de Amor (1952), de cunho mais urbano e até político, que acabaria por ser apreendida pela PIDE. Exigente ao extremo, o autor viria a expurgar vários deles ao lançar esta colectânea. Foi mau juiz em causa própria, o que aliás é frequente em literatura.
Jogos de Azar é, na definição do escritor, um conjunto de "histórias de desocupados, de criaturas privadas de meios de realização", num país de horizontes estreitos e ansiedade à flor da pele, pastoreado por um ditador quase invísivel. Um país ainda acentuadamente rural e cheio de marcas campestres transplantadas para as malhas citadinas. É nesse terreno de inadaptados, verdadeiros apátridas, que circulam as personagens de um filme como Verdes Anos, de Paulo Rocha (estreado no mesmo ano de Jogos de Azar), e também as que José Cardoso Pires introduz nestes contos.
Um deles, o que me traz aqui, chama-se Week End: história de um amor fugaz que se dissolve na espuma dos dias, por imposição das circunstâncias. Uma história banal como as ondas do mar a rebentar na praia, mas também como elas de uma beleza indescritível. Cardoso Pires revigorou a técnica narrativa então vigente em Portugal, muito adjectivada e cheia de inúteis preciosismos literários, impondo um ritmo quase cinematográfico às suas histórias, assente num discurso directo credível por influência dos melhores autores americanos - Hemingway, desde logo.
É um estilo despojado, directo "ao osso" da intriga (para usar uma expressão a que JCP recorria com frequência), que nos apresenta as duas figuras centrais deste enredo: ele apaixonado e disponível, ela casada e incapaz de tornear o espartilho das convenções sociais. Despedem-se num quarto de hotel à beira da praia, numa tarde ardente de sol. Não podia ser mais acentuado o contraste entre a atmosfera exuberante de calor meteorológico e o gelo afectivo subitamente instalado naquele aposento, entre os "banhistas sentados na esplanada, perdidos no tempo", e os dois jovens desamparados que contam os minutos para o último capítulo de um romance chegado ao fim. "Nada disto faz sentido. O pior é estamos cercados por coisas sem sentido e termos de aceitar o cerco", diz-lhe ela, resignada.
Nesta admirável teia de metáforas, oculta em diálogos só na aparência banais, o cerco expandia-se das paredes daquele quarto, atingindo a dimensão do País submerso na ditadura. Linhas paralelas de uma linguagem afinal só tornada eficaz pelo talento sem medida de um escritor como Cardoso Pires.


publicado por Pedro Correia às 18:58
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4 comentários:
De Pedro Correia a 31 de Outubro de 2006 às 14:34
Obrigado, João. Com incentivos como este a série vai chegar aos vinte e não apenas aos dez como era minha intenção inicial. Abraço.


De João Villalobos a 30 de Outubro de 2006 às 13:15
Manter este nível de textos sem variações é obra, Pedro! A lista promete e a inclusão do Miguéis é justíssima para alguém que é hoje praticamente ignorado. Abraço


De Pedro Correia a 29 de Outubro de 2006 às 20:37
António, nesta série seguem-se a Sophia, o Updike e o Truman Capote. Depois talvez o Rodrigues Miguéis. E o Eça, claro.


De AM a 29 de Outubro de 2006 às 20:23
Cardoso Pires!? "Talento sem medida"!? "Será que é mais um daqueles medíocres promovidos pela esquerda bem pensante dos jornais?" :)
(Gostava de o ler sobre o "Dinossauro Excelentíssimo"...)


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