
Estilista incomparável no romance,
José Cardoso Pires foi também um excelente cultor da narrativa curta, atingindo a expressão máxima da sua arte de ficcionista num dos melhores volumes de contos de toda a literatura portuguesa
: Jogos de Azar (1963). São oito histórias com raízes muito diferentes: umas tinham sido originalmente publicadas no livro de estreia do autor
, O Caminheiro e Outros Contos (1949), de temática tradicional, embora inovadores e arrojados na escrita; outros constam da obra
Histórias de Amor (1952), de cunho mais urbano e até político, que acabaria por ser apreendida pela PIDE. Exigente ao extremo, o autor viria a expurgar vários deles ao lançar esta colectânea. Foi mau juiz em causa própria, o que aliás é frequente em literatura.
Jogos de Azar é, na definição do escritor, um conjunto de "histórias de
desocupados, de criaturas privadas de meios de realização", num país de horizontes estreitos e ansiedade à flor da pele, pastoreado por um ditador quase invísivel. Um país ainda acentuadamente rural e cheio de marcas campestres transplantadas para as malhas citadinas. É nesse terreno de inadaptados, verdadeiros apátridas, que circulam as personagens de um filme como
Verdes Anos, de Paulo Rocha (estreado no mesmo ano de
Jogos de Azar), e também as que
José Cardoso Pires introduz nestes contos.
Um deles, o que me traz aqui, chama-se
Week End: história de um amor fugaz que se dissolve na espuma dos dias, por imposição das circunstâncias. Uma história banal como as ondas do mar a rebentar na praia, mas também como elas de uma beleza indescritível.
Cardoso Pires revigorou a técnica narrativa então vigente em Portugal, muito adjectivada e cheia de inúteis preciosismos literários, impondo um ritmo quase cinematográfico às suas histórias, assente num discurso directo credível por influência dos melhores autores americanos - Hemingway, desde logo.
É um estilo despojado, directo "ao osso" da intriga (para usar uma expressão a que JCP recorria com frequência), que nos apresenta as duas figuras centrais deste enredo: ele apaixonado e disponível, ela casada e incapaz de tornear o espartilho das convenções sociais. Despedem-se num quarto de hotel à beira da praia, numa tarde ardente de sol. Não podia ser mais acentuado o contraste entre a atmosfera exuberante de calor meteorológico e o gelo afectivo subitamente instalado naquele aposento, entre os
"banhistas sentados na esplanada, perdidos no tempo", e os dois jovens desamparados que contam os minutos para o último capítulo de um romance chegado ao fim.
"Nada disto faz sentido. O pior é estamos cercados por coisas sem sentido e termos de aceitar o cerco", diz-lhe ela, resignada.
Nesta admirável teia de metáforas, oculta em diálogos só na aparência banais, o cerco expandia-se das paredes daquele quarto, atingindo a dimensão do País submerso na ditadura. Linhas paralelas de uma linguagem afinal só tornada eficaz pelo talento sem medida de um escritor como
Cardoso Pires.
De Pedro Correia a 31 de Outubro de 2006 às 14:34
Obrigado, João. Com incentivos como este a série vai chegar aos vinte e não apenas aos dez como era minha intenção inicial. Abraço.
De João Villalobos a 30 de Outubro de 2006 às 13:15
Manter este nível de textos sem variações é obra, Pedro! A lista promete e a inclusão do Miguéis é justíssima para alguém que é hoje praticamente ignorado. Abraço
De Pedro Correia a 29 de Outubro de 2006 às 20:37
António, nesta série seguem-se a Sophia, o Updike e o Truman Capote. Depois talvez o Rodrigues Miguéis. E o Eça, claro.
De AM a 29 de Outubro de 2006 às 20:23
Cardoso Pires!? "Talento sem medida"!? "Será que é mais um daqueles medíocres promovidos pela esquerda bem pensante dos jornais?" :)
(Gostava de o ler sobre o "Dinossauro Excelentíssimo"...)
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