Quinta-feira, 13 de Novembro de 2008
A maioria nas mãos de Alegre

 

Manuel Alegre pôs o dedo na ferida: "Como reformar a educação, sem ou contra os professores?”, questionou o histórico deputado socialista, afirmando em voz bem alta, como é seu costume, aquilo que muitos trampolineiros do partido do Governo vão já dizendo também por aí, mas por enquanto ainda em sussurro. A crítica de Alegre é política, mas Maria de Lurdes Rodrigues, incapaz de enfrentar o contraditório, levou a questão para o plano pessoal, procurando desqulificar o interlocutor ao insinuar que o vice-presidente da Assembleia da República lhe dirigira "insultos". A fragilidade actual da ministra ficou bem patente no facto de José Socrates ter sentido necessidade de fazer coro contra Alegre, deixando estalar o verniz: na sua opinião, o poeta "não tem razão nenhuma".

Chega tarde à refrega. Este primeiro-ministro que assim fala é o mesmo que em Janeiro tirou Correia de Campos do Governo, precisamente no auge das críticas de Alegre ao ministro da Saúde, e pôs no lugar de Campos uma apoiante da candidatura presidencial do autor da Trova do Vento que Passa. Como já aqui escrevi, a "escovadela" de que o titular da Saúde foi alvo reforçou a legitimidade da acção política de Alegre, dentro e fora do partido. Sócrates detesta as posições críticas de Alegre, embora só agora isso tenha ficado transparente. Mas não ignora que o poeta, quando fala, não se limita a exprimir teses pessoais: dá voz a uma ampla corrente de opinião, cada vez mais dissonante de um governo que se multiplica em trapalhadas. Estamos a falar de um milhão de votos. Por outras palavras: a revalidação da maioria absoluta socialista está cada vez mais nas mãos de Alegre. Basta ele querer. Ou não.


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publicado por Pedro Correia
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22 comentários:
De Nuno Santos a 13 de Novembro de 2008 às 02:32
No meu livro falo bastante do Manuel Alegre e do seu resultado nas Presidenciais, que considero extraordinário. Mas, de facto, neste momento, não se entende... ou melhor, eu entendo: o Alegre quer que o expulsem para ter o efeito Marques Mendes/Valentim Loureiro e poder vitimizar-se, por outro, o Sócrates já percebeu e não lhe faz a vontade. O resultado é absolutamente patético! Ambos andam a fazer uma figurinha triste que o eleitorado não entende.


De João André a 13 de Novembro de 2008 às 08:38
Na minha opinião, duas coisas caracterizam Alegre: a vontade e liberdade (ou coragem) de dizer o que pensa e a sua lealdade. Ir contra Mário Soares numas presidenciais que ele veja como eleições essencialmente individuais, ainda vá. Ir contra o seu partido de sempre já me parece mais complicado.

Mas é verdade: assim o queira Alegre e o PS perde a maioria absoluta. Mais: o país arrisca-se a tornar-se um sistema de três partidos. Pelo menos por uns tempos.


De Co-Incinerador a 13 de Novembro de 2008 às 09:21
E ele a dar-lhe! Trata-se de um mamão da AR que apenas quer mandar umas bocas de vez em quando porque sabe que tem os jornalistas todos solícitos a ouvi-lo.

Não assume tornar-se militante de base ou passar a deputado independente ou sequer deixar a vice-presidência da AR, para que foi escolhido pelo PS.

Não faz a menor ideia do que seja dizer duas frases sem vir a despropósito mencionar o seu passado antifascista, nem sabe o que é ter responsabilidades executivas.

Enfim, mais um cromo do regime.


De André Campos a 13 de Novembro de 2008 às 12:12
Ora nem mais! Além do que disse aqui o amigo Co-incinerador, e que eu assino por baixo, julgo ser de uma miopia atroz analisar assuntos desta envergadura do ponto de vista meramente partidário, se há querelas internas, se há perigo de perder a maioria, etc., etc. Aqui trata-se de instrução, de escola, de futuro, de base técnica, cívica, profissional e moral de uma sociedade inteira - que importa o partido X ou o ministro Y?! Isso são questiúnculas absurdas! É difícil não reconhecer razão ao Salazar quando afirmou que a democracia levaria à secundarização do interesse nacional em detrimento dos interesses partidários. O que pouco ajuda, de resto, e a figura referida de exemplar nada tem. Estamos encurralados, é o que é, eternamente subjugados, mesmo em democracia. Já dizia o João Bernardo, delegar o poder é perdê-lo, o "povo" tem tanto poder no momento do voto como antes e depois dele: nenhum. O mais são constitucionalismos e esperança.


De C. Medina Ribeiro a 13 de Novembro de 2008 às 09:43
Achei graça à expressão "trampolineiros", que é muito usada no norte. Há, até, uma Federação Nacional de praticantes da modalidade - como se pode ver [aqui (http://sorumbatico.blogspot.com/2008/10/ontem-foram-notcia-mas-j-nem-se-percebe.html)]...


De Sérgio de Almeida Correia a 13 de Novembro de 2008 às 11:24
Aí é que te enganas, meu caro. O Manuel Alegre, para utilizar uma linguagem em voga do economês ", está descapitalizado. Deu cabo do que conquistou. Por isso se agita, convencido que tem o segredo da lâmpada de Aladino. Ele hoje não obteria nem 100.000 votos.


De Eng. J. Pitágoras a 13 de Novembro de 2008 às 14:04
Pelo contrário, meu caro. Mesmo que ele esteja descapitalizado e que o valor actual de cem mil votos estivesse correcto (coisa que falta demonstrar), Alegre possui um valioso pé-de-meia: nada tem a perder. Por isso, ele não se agita. Ele agita. Que é o que ele sabe fazer melhor...


De Pedro Correia a 13 de Novembro de 2008 às 15:24
Sérgio, mesmo adoptando o teu raciocínio dos 10% de 'capital' político - raciocínio que não partilho -, cem mil votos poderão dar imenso jeito numas legislativas muito disputadas quase ao milímetro, o que poderá muito bem acontecer no próximo ano.


De Eng. J. Pitágoras a 13 de Novembro de 2008 às 12:14
Nem mais. Sócrates sempre odiou as posições assumidas por Alegre, mas foi deixando isso por baixo do verniz. Até um dia.

Esse dia chegou. Sócrates não se conteve mais e decidiu passar do Plano A (o PS foi sempre um partido plural blá-blá-blá) para o Plano B (é habitual tê-lo sempre contra o partido).

O pior é que o Plano B estava guardado para uma qualquer batalha eleitoral; não estava estudado para vir a público no meio do estardalhaço do verniz a estalar. Sócrates só ganhou uma coisa com isto: mais comichão para se coçar...


De mike a 13 de Novembro de 2008 às 13:48
Gostemos dele ou não, o homem não é propriamente carneiro ou pessoa que se deixe algemar por razões partidárias, por isso...


De momento de cidadania a 13 de Novembro de 2008 às 13:51
Não gosto, não consigo gostar e não tenciono fazer qualquer esforço para gostar desse homem que pensa ser o representante da liberdade em Portugal. Falo obviamente de Alegre.
Irrita-me a maneira que ele fala das coisas, como só ele sabe o que é democracia. Quem o conhece e com ele priva de perto sabe que não é assim, pois ele é prepotente mal criado e um burgueses de merda .
Por tudo isso é que ele não faz não fez e nunca irá fazer nada de util para a sociedade.
Chega! Ele não percebe que nunca irá passar de um deputadito comum.


De Bruno - Planetas a 13 de Novembro de 2008 às 18:28
Concordo,
Manuel Alegre parece daqueles velhinhos que tem medo de ser ignorados pelo resto da familia e por isso estão sempre a ralhar com todos lá em casa, quando no fundo apenas querem um pouco de atenção e carinho...!


De Manuel Leão a 13 de Novembro de 2008 às 15:33
Mesmo triste, Alegre deve manter-se lá, no PS.

É lá dentro que o combate deve ser feito.
Fora, neste tipo de combate, fica vencido à partida. Isto é muito diferente das presidenciais.


De Rui Vasco Neto a 13 de Novembro de 2008 às 17:23
pedro, explica-me,
julgo perceber o sonho de uma troca: uma escovadela por um milhão de votos, toma lá dá cá, percebi bem?
é só para saber, mesmo.


De Pedro Correia a 13 de Novembro de 2008 às 18:26
É mais ou menos isso. Abraço.


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