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Estrelas de cinema (12)

por Pedro Correia, em 10.11.08

QUANTUM OF SOLACE *

Mataram o James Bond. É verdade que a personagem se vai perpetuando de filme para filme, mas a febre da correcção política descaracterizou por completo o agente 007, roubando-lhe a aura imoral e cínica. A última película da série, recém-estreada, é um perfeito exemplo disso. Bond liofilizou-se, amansou, passou a beber os ares do tempo. Agora deu em odiar ditadores, abraçou a causa ecológica, trocou os cenários luxuosos pelo banlieu de Porto Príncipe e pelas tabernas mais ordinárias de La Paz. Faltou pouco para o vermos num comício de apoio a Evo Morales, o presidente-índio que proclamou o socialismo em versão andina. Deixou de dizer a frase que mais o celebrizou - "Bond, James Bond" - como se andasse em crise existencial. Trocou o sexo pelas mágoas de amor. Para cúmulo, despreza os atributos da bela de serviço, a esplendorosa Olga Kurylenko, com quem se limita a trocar um furtivo beijo. E já não bebe dry martini: sente um complexo de culpa quando empina uns copos nem ele sabe de quê.

Em suma: um verdadeiro enjoo. Há muito que não se via um Bond tão insípido. Salvam-se o fabuloso genérico e as cenas de acção, com inacreditáveis arraiais de porrada, mais devedores da banda desenhada do que do cinema. Aliás a cena de pancadaria mais emblemática decorre aqui num andaime, metáfora de um Bond que deixou de ter laivos aristocráticos para se tornar "operário". Mas talvez no próximo filme já isto nem exista: ainda havemos de ver um 007 a beber capilé por uma palhinha, de flores no cabelo, convertido ao hinduismo, leitor dos sonetos de Florbela Espanca e membro da Sociedade Protectora dos Animais. Vai uma aposta? 

 

Quantum of Solace (2008). De Marc Forster. Com Daniel Craig, Mathieu Amalric, Olga Kurylenko, Gemma Aterton, Judi Dench, Jeffrey Wright e Giancarlo Giannini

 

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16 comentários

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De Maria João Marques a 10.11.2008 às 23:49

Bem, eu ainda não vi o filme e até dou o benefício da dúvida ao post; mas não posso deixar de protestar por estarem incluídos, entre os bebedores de capilé e os membros da SPAnimais, os leitores dos sonetos da Florbela Espanca!
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De Pedro Correia a 11.11.2008 às 00:05

Nada contra, Maria João. Mas jamais imaginaríamos o Bond tradicional a fazer isso. Deste tudo é de esperar: a personagem mantém o nome e a condição de agente secreto, mas tudo o resto está virado do avesso, ao sabor das modas dominantes. Se fosse português, ainda o veríamos inscrito no programa Novas Oportunidades ou como pregoeiro do 'Magalhães' a mando de José Sócrates...
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De Eng. J. Pitágoras a 10.11.2008 às 23:56

«A última película da série» - dizes tu. Traído pela afirmação adiante de que «talvez no próximo filme (...)», acho que acertaste: este deve ser mesmo o último 007. Aquela figura emblemática que se chamou Bond, James Bond, era suportada pela Guerra Fria; tudo o que lhe deram em substituição foram tristes invenções.

Abatido o Muro de Berlim, Bond podia ter sido morto no seu próprio enredo e em tempo útil, como Poirot foi morto na sua literatura. Preferiram deixará-lo apodrecer e cair de cansaço? Pois bem: parece que o mataram agora, sem que ele tenha morrido mesmo. É pena.
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De Anónimo ao Sul a 11.11.2008 às 00:08

Pedro, a crise toca a todos, até ao melhor agente secreto do mundo. O Bond , James Bond , tem de aceitar os trabalhinhos todos, descer de nível sempre que exigido, controlar as despesas (qual dry Martini , beba água) se quiser manter o emprego. Se assim não proceder está tramado, é logo substituído por um estagiário disposto a tudo, até a trabalhar de borla. Como no jornalismo.
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De Pedro Correia a 11.11.2008 às 00:25

Meu caro, vivemos na era do 'descafeinado'. Já chegou ao Bond também. Nada a ver com a época áurea do Connery e alguns outros. Este é uma chachada.
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De Viagens Lacoste a 11.11.2008 às 00:31

Ontem, zangado que estou com o pobre futebol do Sporting, fui ver o Bond e concordo com o que o Pedro disse. Já o tinha dito em comentário a semana passada, o Bond sério não tem piada, já tinham levado a Moneypenny, agora o "Fawlty" Q. Só falta sair a M e o próprio Bond. Os gadgets limitam-se a um ecran táctil. Este carro nem sequer voa! O Bond antigo recebia (na horizontal)uma chamada da Moneypenny dizendo que estava ocupado à qual a eterna amada respondia "I see James". Só falta o próximo Bond ser sócio do Benfica e eu divorcio-me da saga de vez.
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De Pedro Correia a 11.11.2008 às 01:10

Só falta mesmo isso...
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De Ana Vidal a 11.11.2008 às 02:58

Pronto, é desta. Já me basta terem escolhido um Bond com ar de mafioso de leste, ainda por cima agora está em crise existencial... para mim é o golpe de misericórdia.

Ri-me com gosto do seu último parágrafo, não me apetece agora chorar de tristeza e sair do cinema de luto por um herói. Não vou, pronto.
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De maria papoila a 11.11.2008 às 08:44

E se fosse do Benfica, qual era o probglema?
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De arguto a 11.11.2008 às 10:48

Se fosse do Benfica ia tomar o capilé com o o Nuno Gomes..
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De Eng. J. Pitágoras a 11.11.2008 às 22:39

Se fosse do Benfica, o 'probglema' seria esse mesmo: um 'probglema'...
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De Anónimo a 11.11.2008 às 11:30

Sabe-se lá se o sr. Villalobos irá ser consultor do próximo filme do 007.
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De Mário a 11.11.2008 às 18:27

Admito que este Bond também não me encheu as medidas, mas atenção: estes filmes com o Daniel Craig mostram um Bond nos seus anos iniciais, em criação, (supostamente) + complexo.

Daqui a 1 ou 2 filmes veremos de novo o Bond + clássico!
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De mike a 12.11.2008 às 00:03

Só aposto quando existe a possibilidade de ganhar, Pedro. Por isso não aposto.
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De Pedro Correia a 12.11.2008 às 01:29

De tudo quanto vi, ouvi e de que não gostei, caro Mike, talvez o que mais me chocou foi não ter surgido a frase "Bond, James Bond." Há tradições que nunca deviam acabar.
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De josé alberto lopes a 14.11.2008 às 10:08

bem, o mário foi o único "comentador" a colocar "o dedo na ferida". de facto, tanto o casino royale como este quantum of solace são prequelas dos restantes filmes bond que conhecemos. estes filmes mostram-nos um james bond em início de carreira, depois de ter conquistado o estatudo de "00", ou seja, de agente secreto com licença para matar. daí ele ainda não pedir o martini "shaken not stirred", não se apresentar com o famoso "bond. james bond" e ainda não possuir aquela fleuma britânica que tanto o celebrizou.

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