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Livros de instrução (7)

por Luís Naves, em 08.11.08

A Insustentável leveza

A história de Milan Kundera (nascido 1929) e da possível denúncia de um desertor espião, em 1950, é uma tragédia. Se o escritor denunciou, como sustenta um historiador checo, baseando-se num documento policial e no testemunho da mulher envolvida no caso, então o remorso e a culpa devem ter acompanhado a sua vida e escrita; se não denunciou, está a ser vítima de uma terrível acusação que pode manchar a sua herança literária.

Um grupo de grandes escritores publicou um carta a repudiar a acusação, mas de facto a admiração por uma obra não permite desculpar manchas na biografia. São duas coisas diferentes, que as pessoas gostam de misturar, como se um grande escritor não pudesse ser também um cobarde.

Nos anos 80, gostei muito de Kundera, após a leitura de A Insustentável Leveza do Ser. Nessa altura também descobri outro checo, Bohumil Hrabal (1914-1997), um dos meus favoritos.

Esta crónica não pretende argumentar se Kundera denunciou ou não o espião Miroslav Dvoracek, que passou 11 anos numa prisão horrível. Talvez a dúvida paire para sempre (esse, sim, um terrível castigo, sobretudo se o escritor estiver inocente, como afirma). Os regimes totalitários do Leste da Europa tiveram um poderoso impacto, criando um clima de medo e suspeita que atravessava todos os segmentos da sociedade. A delação era comum e a mentira um acto normal, que todos compreendiam. Isso, claro, não serve de desculpa.

 

Na literatura húngara existe um caso emblemático deste problema. O escritor Péter Esterházy (nascido em 1950) tornou-se um dos mais importantes da sua geração e, em 1999, publicou uma obra muito ambiciosa, Harmonia Celeste, sobre a história da sua família aristocrática (uma das mais importantes da Europa Central), que passou do esplendor para a vida sob o comunismo. O “herói” do livro é o pai de Esterházy, entretanto falecido. Para o autor, o pai era alguém que tinha desafiado o regime e que o fazia muito além das suas possibilidades, quase abertamente.

Péter Esterházy procurou na mesma altura consultar o que diziam os arquivos da polícia política sobre o seu pai (os arquivos tinham sido organizados num instituto especializado). Esterházy esperava encontrar documentos sobre aquilo que via como resistência, mas em vez disso descobriu que o seu pai era apenas um delator da polícia. Não o delator de uma noite e de um caso, mas um agente que trabalhara durante vinte anos para as autoridades, fornecendo informação sobre todos os seus amigos. Um agente duplo, portanto.

Esta história terrível, de um filho que, de súbito, percebe a verdade sobre o pai, é contada num livro notável, infelizmente não traduzido em Portugal, Revisto e Corrigido, que o autor diz dever ser lido com Harmonia Celeste. Portugal percebe mal o insustentável peso que permanece em toda esta região, pelo que livros como estes seriam oportunos.  

 

 

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2 comentários

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De Anónimo Veneziano a 08.11.2008 às 16:25

Este post aborda, de facto, um problema complexo que não é muito sentido em Portugal. Os informadores da Pide não eram levados muito a sério pela "Instituição" que os usava mais como arma dissuasora. O PC preocupava-se mais com traidores (de dentro) do que com informadores (de fora). Mas há que lembrar que muitas vezes os documentos das polícias políticas incluíam propositadamente factos falsos (ou com designações opostas) como forma de contra-informação
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De Sofia Loureiro dos Santos a 09.11.2008 às 00:23

Um grande escritor é uma pessoa, com os defeitos e as qualidades de qualquer ser humano. Temos a tendência de confundir a genialidade e a criatividade artística com valores morais. Há um filme magnífico que retrata a esquizofrenia que os cidadãos vivem em estados totalitários: "A vida dos outros", de Florian Henckel .

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