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Demeritocracia

por Teresa Ribeiro, em 07.11.08

 

Muito se fala dos maus alunos, objecto de todos os esforços e atenções. Com um olho nas estatísticas e outro nas correntes pedagógicas mais progressistas, estes meninos-problema têm sido tratados com pinças. São eles a razão de ser de um sistema de avaliação que já aboliu todos os conceitos que os possam traumatizar ou estigmatizar impedindo-os de entrar gloriosamente nas contas do Estado como casos de “sucesso”.

No entanto os bons alunos, quais párias neste universo escolar, são diariamente confrontados por um lado com a benevolência dispensada aos seus colegas menos aplicados e por outro, com a exigência em relação ao seu desempenho.

Em circunstâncias normais faz sentido exigir mais dos melhores. Mas no actual contexto regatear as notas dos mais capazes e premiar, por norma, o baixo aproveitamento dos maus alunos revela-se de uma injustiça intolerável aos olhos dos que são habitualmente prejudicados neste sistema de dois pesos e duas medidas.

A tentação, como se pode imaginar, é para estes miúdos desinvestirem no estudo. Afinal para quê queimar as pestanas se as suas notas pouco diferem das dos cábulas da turma?

Pouco discutido, este é um dos efeitos mais perversos da, chamemos-lhe, demeritocracia. Não há nada mais destrutivo, desmotivador e frustrante.

 

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21 comentários

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De Mialgia de Esforço a 07.11.2008 às 12:49

Subscrevo a sua análise, Teresa. No ponto a que chegaram as coisas, mais vale acabar com o ensino público e o Estado poupa uma batelada de guito. Este vai direitinho para as obras faraónicas e para estudos e pareceres que encherão de satisfação a camarilha do costume.

Quem quiser "estudar" vai frequentar as Novas Oportunidades que vai dar no mesmo.
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De Teresa Ribeiro a 07.11.2008 às 19:42

Eu não defendo a privatização do ensino como a solução para a crise, Mialgia. Mas concordo com a descentralização, a responsabilização das escolas e a avaliação correcta de professores e alunos.
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De Mialgia de Esforço a 07.11.2008 às 21:09

Eu também não concordo com a privatização do ensino, Teresa. Mas que parece ser essa a vontade do Governo, lá isso parece. Ou então é só estupidez pura e simples.
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De Anónimo a 07.11.2008 às 13:03

Ora, qualquer pessoa sabe que, na posse de um Magalhães, nenhum aluno é mau.
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De l.rodrigues a 07.11.2008 às 14:47

Nas escolas onde andei, todas publicas, nunca me pareceu que se dessem notas indiferentemente do mérito e aplicação, ou simplesmente da demonstração de conhecimentos adquiridos, posso ter tido sorte.

O que havia era uma cultura social mais abrangente que ostracizava o "marrão" ou o "intelectual". Se não quisermos ser o centro das atenções dos chamados "bullies", ou simplesmente quisermos ter relações normais com os colegas.

Reconheci isso por exemplo na entrevista de Miguel Esteves Cardoso. que dizia ter sido um aluno mal comportado por ser bom aluno: a única forma de se integrar no grupo.

Não sei como é hoje em dia, duvido que tenha mudado muito.
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De Teresa Ribeiro a 07.11.2008 às 19:26

L.Rodrigues: experimente sondar dois ou três miúdos que andem agora no básico e sejam bons alunos. Falo pela minha experiência, é claro. Não conheço um único que não se queixe desta dualidade de critérios.
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De Once a 07.11.2008 às 15:20

assino em baixo eu .. até porque sei o quanto as crianças lidam mal com este de tipo de "injustiças" ..

Bom fim de semana Teresa *
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De Teresa Ribeiro a 07.11.2008 às 19:43

Bom fim-de-semana, Once :)
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De ergela a 07.11.2008 às 15:21

Tem toda a razão Teresa, com este sistema tanto é aprovado o bom aluno que se esforça, como aquele que passa o dia a dormir em casa ou a fumar charros e "curtir" "babes" (é assim mesmo que eles dizem) ou a "curtir" daqueles carros que trasportam barulho ambulante.
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De Teresa Ribeiro a 07.11.2008 às 19:45

Nem mais, Ergela (seja bem aparecido!)
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De J. Dias a 07.11.2008 às 16:14

Ensino em Portugal: Talvez um capítulo em falta na "Enciclopédia Natural da Estupidez"...
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De rxc a 07.11.2008 às 16:19

Não podia estar mais de acordo. Os professores andam tão sobrecarregados com "avaliações" e afins que nem se apercebem da golpada que está a ser feita, que muito provavelmente se vai traduzir num agravamento sério do nosso já crónico atraso cultural e educativo.
Alguns já vão tomando consciência do que tem sido feito, nomeadamente as manobras de "bastidores" do ME para mostrar "trabalho" (e como eles têm andado atarefados a trabalhar para as estatísticas!).
O povão até adere à coisa, 500 mil deles que nunca deram nada para a escola, e agora até têm o 12º, vejam lá que afinal até são todos bons alunos! E a seguir vão para a universidade (ou pelo menos o politécnico da terreola), como no anúncio das NO. Desde que não lhes falem de rigor, exigência ou esforço, eles aderem a tudo!
Vai ser um fartote de "educação", tão grande que depressa vai dar em ressaca...E vamos todos pagar estas brincadeiras que andam a fazer no ensino.
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De Teresa Ribeiro a 07.11.2008 às 19:55

rxc: Esta obsessão pelas estatísticas subverte qualquer reforma séria que se pretenda fazer...
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De fernando antolin a 07.11.2008 às 20:06

Concordo com a sua análise.Gostaria no entanto de realçar que a Escola Secundária Anselmo de Andrade,em Almada, faz questão de louvar e realçar o trabalho dos seus alunos que se distinguem: este ano,tal como no início do ano lectivo passado,os alunos de mérito áté aos 9º e 12º anos, receberam diplomas e lembranças em homenagem pública realizada na escola.Lá estive o ano passado e voltei este ano,para ver a minha filha mais nova receber os seus prémios,este ano o de ter sido o ano passado a melhor aluna do 10º ano,com média de 18,3 valores.Tenho orgulho e ainda bem que lhe(s) foi reconhecido.
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De Teresa Ribeiro a 07.11.2008 às 23:02

Ainda bem que ainda vão aparecendo excepções como essa.
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De Ana Vidal a 07.11.2008 às 20:35

É um problema de sempre, mas acredito que hoje em dia seja ainda mais premente, com o laxismo generalizado e a necessidade de cumprir mínimos para ficar bem nas estatísticas europeias.
E percebo muito bem o que aconteceu com o MEC, eu passei pelo mesmo problema. Era boa aluna, e a maneira de conseguir integrar-me era ter um comportamento difícil e ser líder nas asneiras. Mas quando comparo o meu "mau comportamento" com o que vejo por aí agora, chego à conclusão de que era uma santa, afinal...
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De Teresa Ribeiro a 07.11.2008 às 23:06

Sim, mas isso que o MEC referiu e que certamente ainda hoje acontece tem a ver com o comportamento entre miúdos...
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De Ana Vidal a 07.11.2008 às 23:43

Claro, Teresa. Códigos inocentes de integração entre miúdos.
O teor do seu post não nada tem que ver com comportamentos, mas com outra coisa: a gravidade do nivelamento por baixo, feito para "ficar bem na fotografia" da Europa. E dou-lhe toda a razão: se os bons alunos perderem o brio por manifesta falta de estímulo, a factura destas medidas vai ser altíssima.
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De mike a 07.11.2008 às 20:57

Entendo o que diz, Teresa. O "nivelemos por baixo" há-de ter lindas consequências no futuro e depois, daqui por uns anos irão aparecer uns iluminados a fazer estudos para tentar entender e justificar porque continuamos na cauda da Europa. Mas!... para além da escola há um papel que cabe aos pais neste âmbito. Mas!... isso é outro post, eu sei.
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De Teresa Ribeiro a 07.11.2008 às 23:08

Talvez os mesmos iluminados que hoje decretam que o melhor é não chumbar os mennos que não sabem nada de nada!

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