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Memórias de um fantasma (V)

por Luís Naves, em 03.11.08

O falso libertino

Naquele tempo, Veneza ainda não era a cidade exausta que seria mais tarde, mas nas cicatrizes de alguns palácios empobrecidos já pairavam todos os sinais da sua futura decadência. Naquele tempo, havia sonhos embalados em suaves murmúrios, por entre canais onde deslizavam barcas melancólicas. Por vezes, quando dobrávamos uma esquina, ainda víamos a fuga apressada de dois amantes surpreendidos.

Naquele tempo, a cidade era uma mulher ainda bela, que tentava esconder as rugas do antigo esplendor macio. Mas algo brilhava ainda, no seu olhar impudico, na pose leviana e desapiedada, e era isso que sobretudo incendiava o coração dos incautos. A armadilha imprecisa das fachadas sisudas, esculpidas a mármore, a disposição feérica das igrejas, mas também os silêncios impregnados de desejo.

 

Uma noite, em que me perdi nas ruas esconsas, deambulei horas entre aquelas veias consumidas de tempo. E, nessa jornada, fui ter às traseiras de um palacete, e quase por acaso entrevi, encolhidos na sombra do grande muro, alguns homens de má catadura, com aspecto de meliantes, certamente na expectativa de um lucrativo assalto. Era noite cerrada, sem lua, o silêncio inquietante tomara conta dos becos limítrofes. Decidi não prosseguir: fiquei a ver o que acontecia.

De súbito, moveu-se um vulto no topo do muro e um homem saltou graciosamente, olhando em volta. Foi nesse momento que se ergueu uma voz de comando e as três sombras atacaram a sua vítima desprevenida. Corri para salvar o intruso, o que aliás não foi difícil. Era um gentil-homem e já se defendia à espadeirada, com galhardia. Juntei-me a ele, a proteger os flancos, e juntos despachámos os agressores, que fugiram; um deles, trespassado pela minha lâmina, esbaforido, cambaleava no amparo dos outros. Ouvimos os seus passos em fuga e a silenciosa noite envolveu-nos de novo.

E foi assim que conheci Don Lorenzo di Mezzaluna. Perdera a peruca no meio do combate, tinha a casaca rasgada do frenesim da luta, parecia feliz.

“Isto é o início de uma bela amizade”, disse ele.

 

 Levou-me ao seu palazzo, uma sombria construção que parecia um ilhéu despido no meio da lagoa. E em frente à lareira do grande salão me contou a sua história, enquanto o fiel criado, Leporello, nos trazia iguarias finas e clarete.

“Meu caro Alfredo”, explicou don Lorenzo, “sou um povoador em busca de anjos virginais. Mas não consigo decidir-me sobre quem amar, pois para mim amar é algo espiritual, como quem usa a coroa de espinhos perante o desprezo dos beatos”.

Enquanto bebia, entusiasmava-se. Explicou que saltara o muro após um encontro galante com Zerlina di Mozzarela, cuja lânguida inclinação do pescoço a obrigava a um olhar míope que devastara a sua alma com o mesmo gentil abrasamento com que Átila, o Huno, arrasara a aflita Panónia. Mas o encontro deixara o meu amigo num estado de desalento:

“Ela soube da minha ligação com Leocádia de Lamermoor, que tentei seduzir para fazer ciúmes a Zerlina, mas esta confrontou a rival num intervalo da última récita em La Fenice. Leporello ouviu a conversa. O despeito levou-as a concluir um pacto que jamais conseguirei destruir: combinaram punir a minha vacilação fazendo de mim gato-sapato, o seu escravo. Estou perdido, serei como um eunuco no gineceu, na esperança vã de que uma delas ceda. Vivemos tempos estranhos: agora, só há afectos, deixou de existir a desmesura de soçobrarmos nos braços uns dos outros. Serei a partir de agora o falso libertino que tombou na rede, manipulado numa áspera batalha onde a doce derrota é ansiar por perder ainda mais. São sobretudo desejáveis as mulheres que não podemos conquistar, ou não seremos todos assim: sonhamos com o inatingível e submetemo-nos ao seu feitiço?”

  

Don Lorenzo não era frívolo. Ele desejava dona Leocádia e amava certamente dona Zerlina. Mas, ao fracassar em fazer ciúmes às duas, estava condenado a tornar-se num ser errante, que ambas aniquilavam num amável e sumptuoso cativeiro feito de esperança. E assim deambulou alguns meses no labirinto daquele sortilégio e apenas por sorte se salvou, ao ficar fechado (um estúpido acidente) num convento de noviças.

Alfredo (fantasma desocupado)

 

 

 

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4 comentários

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De Anónimo Veneziano a 04.11.2008 às 05:16

"Sei pur bella, Venezia, in mezzo all'onde
Specchio tranquillo ai monumenti alteri".
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De Margarida Pereira a 04.11.2008 às 10:20

Busareti siora mare! Se l'hai capita, sei veneziano! Altrimenti, complimenti!
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De Margarida Pereira a 04.11.2008 às 10:20

Mrs. Muir is feeling happy...
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De Luís Naves a 04.11.2008 às 12:04

agradeço muito os vossos comentários

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