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A América vista ao espelho

por Pedro Correia, em 03.11.08

No momento em que, segundo todas as sondagens, os Estados Unidos se preparam para eleger o primeiro Presidente com raízes africanas, vale a pena determo-nos um pouco sobre um dos melhores romances editados na última década, que nos fornece o pano de fundo desta América aparentemente recém-convertida à harmonia racial. O romance intitula-se A Mancha Humana (The Human Stain, 2000), foi escrito por Philip Roth, um dos grandes ficcionistas da actualidade, e fala-nos da mais insidiosa forma de racismo: a que faz um indivíduo sentir vergonha do seu próprio tom de pele.

A novidade aqui é que esse indivíduo é uma pessoa instruída, letrada, pertencente à elite universitária norte-americana. Coleman Silk, especialista em estudos clássicos, uma autoridade em Homero e outros autores da Grécia antiga, um transmissor de conhecimentos – alguém que poderíamos apontar como um pilar da sociedade.
“Ninguém sabe a verdade de uma pessoa, e com muita frequência a própria pessoa menos do que as outras.” Palavras de Roth, visando Silk, a figura central deste romance que disseca como nenhum outro os labirintos da América contemporânea.
O professor universitário, figura respeitável e até reverenciada, é afinal alguém que vive mergulhado há décadas num ciclo interminável de mentiras que o levou a quebrar os laços com a família de sangue em benefício da ascensão social. Branco filho de mulatos negros por capricho da genética, percebe durante a juventude, vivida na próspera América de Truman e Eisenhower, que jamais deixará de ser um cidadão de segunda se não renegar as raízes negras.
É já no fim da vida que Coleman se confronta com esta marca indelével do seu passado, ignorada pela mulher e pelos quatro filhos – fortuitamente de pele clara, como ele. “Este homem idealizado de acordo com os mais convincentes e credíveis traços emocionais, este homem benignamente astucioso, suavemente encantador e aparentemente viril em todos os aspectos, tem, no entanto, um segredo imenso.” Assim nos surge este anti-herói de Roth na excelente tradução portuguesa de Fernanda Pinto Rodrigues (Publicações Dom Quixote, Lisboa, 2004).
 
Toda a ilusória solidez deste edifício se desmorona quando o professor, por um inesperado golpe do destino, é confrontado com uma absurda acusação de discriminação racial por parte de uma aluna negra, logo protegida pelo establishment universitário. Este episódio, que o leva a demitir-se da faculdade, funciona como um choque vital para o velho professor com genes negros que toda a vida se comportou como um ser despigmentado. “Pensas como um prisioneiro. É verdade. És branco como a neve e pensas como um escravo.”
É esta América ainda cheia de fantasmas que vai amanhã a votos. A América de Barack Obama, que é também a América de Coleman Silk – a América onde muitos alimentam a suave ilusão de que o racismo se apaga por efeito automático de um boletim eleitoral. O próprio Roth parece vislumbrar uma luz de esperança: “As pessoas envelhecem. As nações envelhecem. Os problemas envelhecem. Às vezes envelhecem tanto que deixam de existir.”
E no entanto deste romance memorável desprende-se uma visão desencantada da condição humana que nenhum apelo festivo à mudança é capaz de redimir: “Nós deixamos uma mancha, deixamos um rasto, deixamos a nossa marca. Impureza, crueldade, mau trato, erro, excremento, sémen. Não há outra maneira de estar aqui.”
Não nos deixemos iludir excessivamente pelas manchetes dos jornais, que se limitam a reflectir a espuma dos dias. Sob a América de Obama, esconde-se a América de Silk. Imóvel, dúplice, secreta, manchada pelo preconceito. Essa América ver-se-á ao espelho dentro de 24 horas. Gostará desse retrato de si própria?  

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17 comentários

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De Manuel Leão a 03.11.2008 às 16:10

Pedro Correia:

Gostei do seu "post". Bem escrito, sem adornos e bastante sintético, atendendo ao tema tratado. Um dos melhores "posts" que aqui tive a oportunidade de ler.

Mas gostei principalmente porque as suas interrogações são muito semelhantes às minhas e, com certeza, partilhadas por muitas outras pessoas.
E é esta abrangência que dá qualidade àquilo que se escreve.

Tomo a liberdade de fazer apenas um pequeno reparo. Do que tenho lido - literatura, jornais, revistas, etc, - concluo que não existe uma só América.

Dentro de 24 horas, haverá uma resposta dada nas urnas. E as várias Américas deverão confirmar quem é de facto «Imóvel, dúplice, secreta, manchada pelo preconceito». Por outro lado, acredito que haverá uma outra América que, ao assumir-se, confirmará a sua urbanidade, transparência e avanço civilizacional. Resta saber qual delas prevalecerá, no que diz respeito à eleição.
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De Pedro Correia a 03.11.2008 às 16:34

Existem, de facto, duas Américas, meu caro. Aliás, muitas Américas numa só. Gostei de saber que, apesar de tudo, está um pouco menos pessimista do que eu.
É sempre um prazer receber as suas visitas.
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De Manuel Leão a 03.11.2008 às 17:16

Engana-se meu caro.
Eu sou predominantemente pessimista. Estou com receio do efeito Bradley, desde que o Obama foi nomeado. Aliás, já tive oportunidade de escrever isto em vários comentários.
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De l.rodrigues a 03.11.2008 às 16:17

Mas a verdade verdadinha, é que o mundo muda.
Em espirais, em circulos por vezes, mas muda.
Não quando se quer, é certo.
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De Pedro Correia a 03.11.2008 às 16:35

O mundo muda, sim. Mas, como bem diz, muitas vezes em espirais ou em círculos - não em linha recta, como sublinham os optimistas históricos.
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De Anónimo a 03.11.2008 às 16:37

As linhas curvas que aprecio são as da Madame Palin. Quero lá saber se está ou não preparada.
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De Manuel Leão a 03.11.2008 às 18:16

Boa!

Estes "intermezzos", de vez em quando, permitem suportar melhor as agruras dos tempos.

Obrigado, Anónimo das 16:37.
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De carlosbarbosaoliveira a 03.11.2008 às 16:42

Meu caro.
Partilho das tuas preocupações, mas não tive o engenho e arte de as expressar como tu lá no CR. Não ficarei nada surpreeendido se no dia 5 acordar com a notícia de que Sarah Palin é séria candidadta à Casa Branca, por incapacidade de Mc Cain em concluir o cargo.
Nem quero penasr nessa possibilidade, mas recorrendo à tua imagem, receio bem que a América se veja ao espelho e não consiga ver nada por detrás dele.
Abraço
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De Pedro Correia a 03.11.2008 às 17:05

Olá, Carlos. Achei muito interessante o paralelo entre o romance do Roth, sobre o racismo subliminar na sociedade norte-americana, e a candidatura de Obama, numa lógica supra-racial eventualmente sufragada pelas urnas, de acordo com todas as sondagens. As duas linhas, aparentemente, não se cruzam. Talvez seja só na aparência. Ou talvez não. Falta pouco para sabermos.
Um grande abraço
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De obamafã a 03.11.2008 às 17:28

Essa América imóvel, dúplice, secreta, manchada pelo preconceito, existe e continuará a existir e provavelmente não gostará de se ver ao espelho. paciência. A eleição de Obama, a confirmar-se, será o inicio de um caminho irreversível de avanço civilizacional, um reencontro com a história, e estas coisas não se passam sem dor. Mas é essa capacidade formidável que têm os EUA que fazem dele uma nação formidável. Mesmo elegendo Obama pelas "razões menos boas"...

O post é muito bom.

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De José Manuel Faria a 03.11.2008 às 18:51

Acerca de um spot publicitário sobre as eleições norte-americanas na Sic - notícias, diz-se: " O seu futuro passa por aqui"! Incrível.
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De jcd a 03.11.2008 às 19:43

Custou-me bastante ler esse romance, não porque não fosse bom (céus!) não porque não estivesse bem escrito (duplo céus!), mas porque é cínico. Fatalmente cínico. Este post de que gostei muito parece padecer um pouco do mesmo mal, com desencanto à mistura. Se a América é feita de tantas cores e fantasmas (palavra do post) eu acredito que o simples facto de se eleger Obama (e eu teria preferido Hillary, pois o estilo de Obama não me atrai) seja um pequeno passo na direcção do desfazer desses fantasmas, de os desvendar desconfiando, no entanto, que essa seja uma tarefa sem fim à vista.
Joana
Joana
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De Pedro Correia a 03.11.2008 às 20:49

Olá, Joana. Não achei nada cínico o romance: pareceu-me antes um retrato pungente de um intelectual à beira da velhice que traiu a sua consciência 'liberal' até ao tutano - retrato que podemos entender, como eu entendo, como metáfora de uma certa América do último meio século, cheio de luzes e sombras. Partilho pouco do teu optimismo. Mas - sem cinismo - espero que o tempo acabe por não me dar razão.
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De Ana Vidal a 03.11.2008 às 22:32

Já o disse mais do que uma vez, mas repito, Pedro: tinha saudades destas suas análises, sóbrias e consistentes.
Tento manter algum optimismo neste tema, mesmo sabendo que a mudança de mentalidades é mais lenta do que a minha vontade de vê-las mudar. Quero acreditar que as pessoas evoluem, aprendem, melhoram. A América tem uma excelente oportunidade de demonstrar ao mundo isso mesmo, e eu confesso que gostava de assistir. Depois da era Bush, para sempre de má memória, a eleição de um presidente "diferente" salvaria a face de um país contra o qual o mundo inteiro criou anti-corpos. Mas mesmo que não seja ainda desta vez, um dia será. Chamem-me lírica.
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De Pedro Correia a 03.11.2008 às 22:39

Obrigado pelas suas palavras amigas, Ana. A minha intenção foi também deitar alguma água fria no optimismo excessivo que vou vendo à minha volta. As diferenças entre as sociedades europeias e a norte-americana, nunca é de mais acentuar, são muito maiores do que às vezes julgamos.
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De Ana Vidal a 03.11.2008 às 22:53

Também acho que não há razão para optimismos excessivos. A América Silk tem ainda muito peso nos votos, que são secretos... mas talvez tenhamos a surpresa de um "silk cut", para usar uma imagem que ela própria produziu. Espero sinceramente que sim.
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De Anónimo a 04.11.2008 às 01:13

Eleições Americanas 2008

Sugestão para acompanhar online e de forma gratuita os principais canais de informação internacionais…

http://lugardoconhecimento.wordpress.com/2008/11/04/eleicoes-americanas/

uma boa sugestão para quem não tem TVcabo ou tv por satélite

Cumprimentos,
RM

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