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Crónica de uma Morte Anunciada

por Teresa Ribeiro, em 02.11.08

Já me surpreenderam a defendê-la em demasiadas ocasiões para poder continuar a ignorar este meu impulso que já me valeu o título de “ferreira leitista envergonhada”. A verdade é que o laranja nunca foi sequer o tom da minha camisola que aliás, nos tempos que correm, é cada vez mais cor de burro quando foge.

O que me leva a defender a mulher que quando foi ministra da Educação e das Finanças tantas vezes foi alvo das minhas críticas e poucas ou nenhumas objecto da minha simpatia? Eu e o meu umbigo, após rápida reflexão concluímos que foram as circunstâncias que a transformaram aos meus olhos. Afinal não é sempre assim?

A tão debatida degradação da classe dirigente, com a fuga dos melhores e a consolidação dos profissionais mais empenhados na gestão das suas carreiras do que da coisa pública, propiciaram um enquadramento que lhe foi muito favorável. O facto de saber que ela é um dos poucos políticos que está na política para servir e não para se servir conferiu-lhe  a qualidade humana que alterou a minha perspectiva. E quando as suas inabilidades ao nível comunicacional e os vários erros tácticos começaram a minar e a ameaçar o seu consulado fui a primeira a relativizá-los.

São graves essas incompetências na política? Diz que sim. Eu sei que sim. Estamos na era da comunicação, comunicar é tudo, bla, bla, bla. Mas a verdade é que também todos, com a mesma convicção, criticamos a espuma da política e a política que se faz de espuma.

Acredito que Manuela Ferreira Leite estivesse convicta de que os portugueses, habitualmente queixosos de tanta inconsequência e arbitrariedade fossem sensíveis ao seu modo espartano de fazer política. Em teoria não seria esse um sinal inequívoco de seriedade, honestidade e vontade de se demarcar do estilo palavroso e inconsequente dos seus antecessores?

Estou convencida de que ela, ingenuamente, acreditou nesta estratégia. Não contou, porém, com a duplicidade da natureza humana. Os portugueses e mais especificamente os jornalistas e opinion makers que criticam ferozmente a demagogia, o som e as luzes da política espectáculo, paradoxalmente cobram aos políticos que dela se demarcam a ausência de ruído e falta de brilho.

Poucos dias depois de ter assumido a presidência do PSD começou a campanha contra o seu “silêncio”. Agora a palavra de ordem é a “tristeza” do seu discurso, tão contrastante  com o optimismo de Sócrates que também, diga-se em abono da verdade, tem sido amplamente criticado mas nunca com o propósito de reconhecer mais realismo nas palavras da sua oponente. A crítica ao anúncio do aumento do salário mínimo pelo Governo também foi mal acolhida, embora ninguém conteste que se trata de uma medida eleitoralista.

Na verdade acho que ela já chegou ao ponto de não retorno em que nada que possa fazer ou dizer poderá reverter a imagem negativa que lhe colaram desde o primeiro momento. Os baixos índices de popularidade de M.F.L. divulgados há dias reflectem que o pensamento único está a fazer o seu caminho.

Não partilho muitas das suas ideias, mas confesso que gostava de ver um político como ela, um político inábil a comunicar, mas sério, desinteressado e consequente a fazer alguma coisa. Quem sabe, talvez não ficasse tudo na mesma. Mas fazer política é dar espectáculo com sessões diárias a partir das 20h (hora a que começam os telejornais). Não é a política que tem horror ao vácuo. Pelos vistos somos todos nós, espectadores impenitentes, sempre ávidos de estímulos que nos preencham a vida.

 

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18 comentários

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De Gajo a 02.11.2008 às 14:07

Tirem essa velha daqui!!!...
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De Manuel Leão a 02.11.2008 às 14:17

Teresa:

Compreendo o seu discurso, mas não posso concordar com ele.

Permito-me citá-la: « Não partilho muitas das suas ideias, mas confesso que gostava de ver um político como ela, um político inábil a comunicar, mas sério, desinteressado e consequente a fazer alguma coisa».

Hoje, por força da vida mediática que nos tem sido imposta e da qual não gosto, «um político inábil a comunicar» mais vale dedicar-se à pesca, por muito que custe ouvir isto.

Depois (mas antes no tempo), a altura que ela teve para demonstrar as qualidades que lhe atribui já a teve quando foi ministra e pouco ou nada mostrou. Como ministra das finanças, nunca conseguiu fazer aquilo que defendia. E o rigor que apregoa, foi escasso, na altura.

Como candidata a primeira ministra, ela tem que ter um domínio mais abrangente da vida social. E aí, quando tem falado, tem sido um desastre. Então sobre o aumento do salário mínimo foi de bradar aos céus. Sobre o casamento homossexual, aquela trapalhada da procriação, esclareceu muita coisa.

Enfim, para mim, não tem perfil para ser primeira ministra. E, assim, Sócrates fica mais à vontade.

Salvam-se certamente os adjectivos de séria e desinteressada.
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De Ana Pereira a 02.11.2008 às 15:20

Por acaso e apesar de eu nunca ter votado no PSD nem ter intenções do o fazer,sentia-me um bocado incomodada dos disparates da dupla Santana/Menezes,e quando MFL foi escolhido para lider do PSD pareceu-me que tinha sido uma atitude sensata.Porque eu acho que é bom para a vida democrática a existencia de uma oposição com politicos competentes e com propostas credíveis.Agora até lamento que ela tenha abandonado o silencio e resolvido falar todos os dias.Mas tem sido muito infeliz nas suas prestações relacionadas com questões que mexem bastante na vida das pessoas como foi o caso do SMN.E depois apresenta-se sempre com um ar de quem está num velório,e tudo uma tragédia não se ve um pouco de esperança e confiança,Cavaco Silva apesar de dizer a verdade sobre os grandes problemas que nos esperam dá sempre uma palavra de esperança.A continuar assim bem pode Sócrates preocupar-se só com os partidos de protesto á sua esquerda,porque durante quase quatro anos o PSD ainda não se conseguiu organizar
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De Luísa a 02.11.2008 às 15:23

Teresa, partilho a sua adesão a políticos sérios e sóbrios. O problema da MFL é que, nestes tempos que correm, o espaço comunicacional que ela não ocupar é ocupado pela propaganda do governo. E esta sua sobriedade acaba por se confundir com aprovação. Quem cala, consente. Penso que os portugueses querem – e precisam! – mais do que nunca, de oposição. E de uma oposição séria. Mas tem de ser activa, presente e audível. Para silenciosa, basta-nos a maioria que talvez sejamos… ;-)
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De maria nunes a 02.11.2008 às 16:57

Uma medida decidida em 2006 pode ser considerada hoje eleitoralista?
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De Anónimo a 03.11.2008 às 11:24

sim
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De Mialgia de Esforço a 02.11.2008 às 17:59

"...confesso que gostava de ver (...) um político inábil a comunicar, mas sério, desinteressado e consequente a fazer alguma coisa."

Também eu gostava, mas estou convicto que essa espécie já se extingiu por cá. O que está a dar são os vendedores do Magalhães.
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De Mialgia de Esforço a 02.11.2008 às 18:05

"...mas confesso que gostava de ver (...) um político inábil a comunicar, mas sério, desinteressado e consequente a fazer alguma coisa."

Também eu gostava, mas estou convicto que essa espécie já se extinguiu por cá. O que está a dar são os vendedores de Magalhães para Tintins.
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De Teresa Ribeiro a 02.11.2008 às 18:14

Manuel Leão: Também me vou permitir citá-lo: "Hoje, por forç da vida mediática que nos tem sio imposta e da qual não gosto, «um político inábil a comunicar» mais vale dedicar-se à pesca, por muito que custe ouvir isto". Pois é este paradoxo que me causa engulhos. Não gostamos da vida mediática que nos é imposta, mas dispensamos os que ela não se pretendem submeter.
Quanto à sua prestação como ministra das Finanças, sempre tão comentada, lembro que foi interrompida abruptamente com a saída de Durão Barroso para Bruxelas e que na época ela mostrou bem a sua frustração por numa fase de viragem ser obrigada a abandonar o cargo.

Ana Pereira: Em contrapartida ao Sócrates cobra-se o excesso de optimismo. Em que ficamos?

Luisa: Ela quis ser consistente nas suas primeiras intervenções e deixar claro que não andaria a reboque das agendas mediáticas. Mas provou-se que a pressão da "sociedade mediática" foi mais forte. Clamamos por propaganda, embora a desqualifiquemos quando nos é servida em abundância (como tantas vezes acontece com o governo de Sócrates).

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De Anónimo a 03.11.2008 às 11:32

Não deve ter engulhos, pois há dois tipos imiscíveis de eleitores:
1 os que não gostam da vida mediática que nos é imposta;
2 os que dispensam os que a ela não se pretendem submeter.
O nosso drama é que o tipo 2 é muito mais frequente do que o tio 1.
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De Manuel Leão a 03.11.2008 às 13:46

Teresa:

Não há contradição, trata-se de uma constatação, quer gostemos ou não. E, pelos vistos, ambos não gostamos.
Quem me dera que os políticos fossem impolutos na sua esfera de acção.

O mundo estaria certamente melhor.
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De Tiago Moreira Ramalho a 02.11.2008 às 20:47

Onde é que eu assino?

Concordo plenamente com a sua análise e asseguro que não apoio MFL, pelo menos, ainda não sei quem apoio no presente. A verdade é que MFL recebeu do PS aquilo que o PSD não soube dar a José Sócrates. É que toda a gente gosta de relembrar que MFL foi ministra das Finanças e deixou-nos um défice enorme (a conjuntura não era propriamente favorável), mas ninguém lembrou que José Sócrates, bem como alguns dos seus "braços-direitos" vieram directamente do "pantanoso" mandato de Guterres que numa conjuntura de prosperidade a nível mundial nos deixou na penúria.
É verdade que não é uma figura simpática, diz "piqueno" e parece mais velha do que aquilo que realmente é, mas tal como a Teresa, gostava de a "testar", ver se pegava e se a política nacional deixava de ser o folclore que já dura há cem anos.

cumprimentos,

TMR
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De mike a 02.11.2008 às 21:57

Sabe que mais, Teresa?... haja outros estímulos que nos preencham a vida, que esses...

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