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Emoções básicas (31)

por Luís Naves, em 29.10.08

 

A reflexão da esquerda

O interessantíssimo artigo de Manuel Alegre publicado no DN de terça-feira, e cujo link deixo aqui, é de leitura obrigatória. Este texto vai certamente agitar a política nacional e forçar os partidos da esquerda a uma reflexão (que aliás já começou).

Escrevi antes que não acredito muito na divisão esquerda-direita e que o mundo contemporâneo é bem mais complicado. Na minha opinião, esta será a grande dificuldade da reflexão dos partidos de esquerda, pelo menos nos termos colocados por Manuel Alegre, para quem “os defensores do Estado mínimo” foram “ideologicamente derrotados” nesta crise financeira. Mas o que importa, na discussão, é tentar perceber quais são os caminhos possíveis para esta “nova esquerda”, que tem sectores com aversão visceral ao capitalismo e a quererem dar novo sentido às ideias de Marx e Engels (na imagem).

 

O poder das nações

Regular os mercados financeiros mundiais é algo que qualquer político adepto do Estado mínimo defenderá sem hesitar. Os produtos financeiros que levaram ao actual colapso eram um exemplo típico de vender gato por lebre, só possível por estes produtos não estarem regulados. Ou seja, a primeira e inevitável consequência da crise (a regulação dos produtos tóxicos) não é uma questão exclusiva da esquerda ou da direita.

Combater a depredação das multinacionais, taxar as transações financeiras internacionais ou abrir os mercados dos países desenvolvidos aos produtos dos países em desenvolvimento são exemplos de ideias políticas mais uma vez não exclusivas da esquerda ou da direita. Têm a ver com o poder das nações, com a abertura de fronteiras, com a liberalização do comércio. Nada que um neo-liberal furioso não defenda.

Combater os tráficos ilegais ou a degradação ambiental são questões de bom senso e não têm nada a ver com a esquerda ou a direita.

 

A ordem injusta

Os partidos da esquerda consideram, e com razão, que a ordem económica mundial é injusta, pois os pobres estão em desvantagem. Mas essa ordem capitalista assenta numa estrutura que nenhum dos países dominantes vai colocar em xeque. Por exemplo, colocar FMI e Banco Mundial sob o controlo da ONU é algo que não irá acontecer. O capitalismo está a viver uma crise, mas não se encontra sob ameaça de desaparecimento: se acabasse hoje, estaríamos todos na miséria e não haveria nenhum sistema que o pudesse substituir.

Assim, a ordem económica mundial continuará a ser financeira, pois dezenas de milhões de empregos nos países desenvolvidos dependem dessa circunstância. A OMC pode ter “outra lógica”, mas se a liberalização de comércio se transformar em protecção dos mercados nacionais, serão destruídos milhões de empregos nos países ricos, pois tudo se tornou interdependente.

O Estado produzir os bens públicos essenciais parece fazer sentido no papel, mas as economias industrializadas têm dois terços do seu emprego e riqueza nos serviços; a definição de bem essencial também não é fácil. Isto inclui as fábricas de automóveis, por exemplo? As de panificação? A agricultura e as pescas? Só a Caixa Geral de Depósitos ou a banca inteira?

Na Europa, o papel do Estado é bem mais alargado do que nos EUA, mas o nível de impostos também é diferente, o desemprego inferior, a mobilidade dos trabalhadores mais fácil.

 

 

Conclusão

Os actuais sistemas que formam o capitalismo internacional (e que misturam multinacionais e governos) são dinâmicos e vão certamente mudar. A questão está em saber até que ponto vão mudar e se a mudança virá de dentro ou de fora (reforma ou revolução).

É preciso que os leitores percebam um aspecto crucial neste início de debate: Barack Obama, que tudo indica se prepara para ganhar as eleições nos EUA, não é socialista nem sequer uma ameaça à actual ordem económica mundial. Pode ser reformista, mas nada tem de revolucionário e, certamente, nada tem a ver com as ideias de Marx e Engels.

 

 

 

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10 comentários

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De Manuel Leão a 29.10.2008 às 16:45

«Barack Obama, que tudo indica se prepara para ganhar as eleições nos EUA, não é socialista nem sequer uma ameaça à actual ordem económica mundial. Pode ser reformista, mas nada tem de revolucionário e, certamente, nada tem a ver com as ideias de Marx e Engels».

Por esse lado, Luís Naves, esteja descansado. Não tem mesmo». Mas penso que ninguém estava à espera que tivesse.
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De Luís Naves a 29.10.2008 às 17:41

tenho lido muitos comentários de pessoas que esperam transformações radicais e que ligam a vitória de Obama ao repensar da nova esquerda
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De Manuel Leão a 29.10.2008 às 18:23

Luís Naves:

Quando eu escrevi que «ninguém estava à espera que tivesse», referia-me a quem saiba pensar, não papaguear. E o problema é também esse - o da nova esquerda - que ninguém sabe verdadeiramente o que é, a começar naqueles que dizem que a querem repensar.

A tal nova esquerda, que eles procuram, deve ser um ponto de equilíbrio, que lhes permita viver bem com o sistema, que nos está a conduzir ao desastre, à custa de uns retoques que criem a ilusão de que algo muda, para que o essencial se mantenha.

A esquerda e a direita já existem, não carecem de ser inventadas. O que eles precisam são apenas máscaras, para ir a votos.
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De Ana Pereira a 29.10.2008 às 16:47

Se Obama ganhar as eleições vai ter muitos problemas para resolver desde logo a economia para travar o aumento do desemprego,depois as guerras,e tambem racionalmente rever a forma do seu país se relacionar com o resto do Mundo,acabar com a forma arrogante com que os seus antecessores tratavam tudo e todos.Quanto á UE na minha opinião precisamos de corrigir dentro das possibilidades os atropelos que tem sido cometidos ao "estado social europeu" o que no fundo será restabelecer a social democracia que estava a ser arrasada pelos governos neo-liberais.Contudo não deixo de lhe dizer que a analise de Marx acerca da evolução do capitalismo tem muito a ver com o que estamos a assistir e seria bom ler de novo O Capital.Mas não chegámos ao fim da história nem ao fim do capitalismo,agora que é preciso repensar a forma de organização e o papel importante que pode ter o facto de estarmos inseridos na União Europeia
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De Luís Naves a 29.10.2008 às 17:42

agradeço muito este comentário e concordo com a sua opinião, de que a actual crise provocará uma reflexão sobre o futuro da esquerda e da UE
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De Manuel Leão. a 29.10.2008 às 18:43

Se, por outro lado, McCain ganhar vai ter ainda muita coisa para destruir.

Relativamente à situação actual, ela foi prevista por Marx há quase século e meio. Algum mérito terá tido.
E, depois, é como diz: não chegámos ao fim da história. Mas, se o descalabro se agravar, e tudo indica que sim, vai haver muitos milhões, por esse mundo fora, que provavelmente vão chegar ao fim da "paciência".
O que é estranho, para muita gente, é não haver responsabilização de quem teve culpa nesta situação. Muitos gestores, no meio desta orgia financeira, devem ter agido com dolo. E vão ficar impunes?
Se alguém assalta uma agência bancária, leva uns anos de prisão. E quem "assaltou" por dentro, levando grandes instituições ao colapso, vão escapar?
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De l.rodrigues a 29.10.2008 às 17:07

Caro Luis Naves,
sem desprimor para a qualidade da sua escrita ou da sua indiscutivel mundivivência, este post lembra-me a estação de rádio que mais acertava nas previsões meteorológicas porque se limitava a prever para o dia seguinte o tempo que fazia nesse dia.

...E no entanto, ela move-se.
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De Luís Naves a 29.10.2008 às 17:39

Tem toda a razão na ironia. mas o método da estação de rádio é, de facto, quase imbatível, pois na maior parte das vezes não há mudanças em relação ao tempo que fez ontem, ou as mudanças são subtis. claro que quando chega uma tempestade, só acertam os pessimistas que levaram guarda-chuva.
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De Luís Naves a 29.10.2008 às 17:46

esqueci-me de acrescentar que também acertam os optimistas que esperaram todo o tempo pelo fim da seca (o excesso de bom tempo também tem o seu lado negativo). enfim, esta é uma pobre resposta a um excelente comentário, um abraço
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De De Puta Madre a 29.10.2008 às 17:14

Se o McCain fosse à frente nas sondagens que ideia y perspectiva de futuro teriamos? Um Irão certamente virado de pernas para o ar; uma militarização da UE sem precedentes, um entreposto alargado o continente da base das Lages.
Meu caro, não creio que o tom Obama-arrosado venha tornar o sonho "We Can" azedo, funesto, sórdido. Com McCain - digamos - teriamos à beira de dar um passo sórdido para a pocilga. ... "Yes! We Can" Evitar esse passo.

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