Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Memórias de um fantasma (III)

por Luís Naves, em 27.10.08

A melodia

O velho hotel, imponente e gasto, parece um grande navio encalhado. O estuque frágil, a pintura descorada. Enquanto me aproximo através da floresta, ouve-se na distância a música triste de um piano. Ao pisar a mortalha de folhas caídas, quero assobiar levemente a melodia, mas não consigo; tenho os lábios rígidos do vento frio e, ao fundo, ergue-se, majestoso, o som baço das ondas, que se precipitam na direcção da muralha.

Vejo nuvens velozes trespassadas por raios do sol e a luz que se derrama sobre o mar cor de cinza; e a água fervilha, transformando-se em espuma, que a tempestade arrasta.

 

As árvores dobradas pelo vento, despidas, criam a ilusão de que é o velho hotel que se inclina a bombordo, fora de água, incapaz de resistir ao próprio peso. Beirais, telhados, varandas, tudo adormecido, o átrio que espera a chegada dos viajantes. Algures pelo jardim, desliza uma bruma repleta de desgosto.

Abro a porta do salão: o piano ao fundo e a mulher sentada, de costas para mim, o espaço vazio, lençóis brancos a cobrirem os móveis que alguém afastou para as paredes. E a luz imprecisa que entra pelas grandes janelas torna mais pálida a pele despida (o longo decote das costas do vestido negro). Aproximo-me, inclino-me sobre o piano, ela observa-me, sorri, mas não pára de tocar.

 

“Que música bela…”, interrompo.

“Bach. Wer Nur Den Lieben Gott Laest Walten. É um coral sobre as grandes dores e a esperança, sobre a vida… Sim, sobre aquilo que deixámos… E, no entanto, parece apenas iluminar o sofrimento…”

 “Vão demolir este hotel” murmuro. “Já ninguém vem aqui. Não se pode recuperar o edifício, dizem eles. Vão construir um novo. Para onde irás?”

“Talvez me lance de novo à água sem ninguém reparar em mim. Resta-me vaguear à toa. Mas sem a música é como se a alma fosse um deserto. Morrerei outra vez por amor, quem sabe?”

“Ele não te amava…”

“Sim, tens razão, morri pela minha ilusão de amor. E só depois percebi a indiferença dele. Ao receber a notícia da minha morte, limitou-se a encolher os ombros, displicente, e vi o seu coração insensível. O coração que o mataria trinta anos mais tarde. Envelheceu sem remorso; vinha muitas vezes a este hotel, nos tempos do esplendor, antes das guerras, e morreu ali, sentado numa cadeira, enquanto eu tocava esta música. Recordo a confusão alucinada na sua cabeça: a dor no peito, a solidão, a sensação da morte iminente e a ver-me, um fantasma que lhe surgia do passado, a tocar ao piano esta música sobre a esperança”.

“Se calhar morreu de susto, o velho patife”.

Ela riu-se. E eu acrescentei:

“Mas nem assim acabou a tua deambulação”.

“A morte dele não fez terminar a minha pena. Havia outra inquietude e agora sei que tinha a ver com este hotel. Ficarei aqui até que o destruam”.

“Não fiques, vem comigo…”

“Em verdade não posso. Estou cansada desta morte”.

E recomeçou a tocar. E num gesto breve, despediu-se de mim para sempre, erguendo uma das mãos.

 

Saí pelo átrio vazio. Lá fora, o vento assobiava uma melodia. Afastei-me pela alameda desabitada. E quando chegaram os operários que vinham demolir o velho hotel naufragado nas margens do Báltico, pairava no ar uma música que parecia emanar da respiração das paredes e que lhes provocou uma sensação de arrepio na espinha, pois não compreendiam se aquilo era lamento ou protesto.

 

Alfredo (fantasma desocupado)

 

Autoria e outros dados (tags, etc)



3 comentários

Sem imagem de perfil

De Margarida Pereira a 28.10.2008 às 15:26

...e se eu fosse a Mrs. Muir?...
Imagem de perfil

De Luís Naves a 28.10.2008 às 17:21

que grande filme, o fantasma e mrs. muir, um dos meus favoritos...
Sem imagem de perfil

De Margarida Pereira a 28.10.2008 às 17:24

Likewise..., foi a partir daí, long time ago, de olhos arregalados e coração enternecido, esquecido o chocolate e o cavalinho de madeira, que passei a devotar uma profunda ternura por fantasmas.
E nunca mais receei nenhum.

Comentar post



Corta-fitas

Inaugurações, implosões, panegíricos e vitupérios.

Contacte-nos: bloguecortafitas(arroba)gmail.com




Notícias

A Batalha
D. Notícias
D. Económico
Expresso
iOnline
J. Negócios
TVI24
JornalEconómico
Global
Público
SIC-Notícias
TSF
Observador

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Comentários recentes

  • joao

    Ontem na TVI deu uma reportagem da Ana Leal sobre ...

  • Anónimo

    Parece-me contestável que um subsídio a artistas s...

  • José Fernandes

    O subsídio em causa terá integrado o conceito de c...

  • slade

    E quem mede o que cada um merece? Propõe alguma po...

  • Francisco

    Permita-me partilhar para quem quiser preparar na ...


Links

Muito nossos

  •  
  •  
  • Outros blogs

  •  
  • Links úteis


    Arquivo

    1. 2017
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2016
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2015
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2014
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2013
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2012
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2011
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2010
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2009
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2008
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D
    131. 2007
    132. J
    133. F
    134. M
    135. A
    136. M
    137. J
    138. J
    139. A
    140. S
    141. O
    142. N
    143. D
    144. 2006
    145. J
    146. F
    147. M
    148. A
    149. M
    150. J
    151. J
    152. A
    153. S
    154. O
    155. N
    156. D