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Emoções básicas (29)

por Luís Naves, em 26.10.08

Esquerda-direita

Para muitos observadores, o Corta-Fitas é um blogue de direita. Sempre detestei os excessos da taxionomia e ainda hoje tenho dificuldade em aceitar rótulos fáceis. Não me sinto nem de esquerda nem de direita, o que não quer dizer que os observadores estejam errados. Significa apenas que as coisas são um pouco mais complicadas, pois o mundo contemporâneo deixou de ser ideológico.

 

As claques

É humano querer pertencer a alguma coisa. E acho que todos gostam de se auto-classificar, dizer que fazem parte de uma tribo qualquer, que são de um clube de futebol ou de um partido. Depois, para confirmarem a escolha de claque, usam cachecóis e entusiasmam-se com as vitórias, choram as derrotas. Mas as diferenças entre as tribos são sempre superficiais, ligadas a símbolos.

Ali não existe verdadeiro conflito e a diferença não tem substância. Levando isto para o plano político, a distinção entre partidos é cada vez mais difícil de fazer. Todos os líderes são europeístas e a favor da intervenção do Estado na defesa dos desfavorecidos. O discurso é mais ou menos liberal e há diferenças em certos temas, mas à medida que nos afastamos do quadro e deixamos de ver as nuances, os retratos tornam-se idênticos.

Há até jogadores que mudam de equipa, como se fossem mercenários. Os políticos estão menos preocupados com a causa pública e defendem interesses pessoais, um pouco porque a política se transformou num banal meio de ascensão social.

 

Competição

Um recuo no tempo mostra bem o que mudou. No final dos anos 80, havia dois modelos competitivos, que tinham desprezo um pelo outro. O sistema comunista era um beco sem saída e entrou em colapso. Entretanto, os regimes autoritários tradicionais da direita, que sustentavam oligarquias, também entraram em crise. Mas ainda me lembro das previsões que davam como inevitável a vitória final do socialismo ou das teses que defendiam mão de ferro para cada problema, nem que fosse para uma minúscula greve. Nem uma picada de mosquito se tolerava.

 

Exemplos de ficção

A literatura explicou bem a natureza destes regimes. Contos de Kolimá, de Varlam Chalamov, é o mais devastador testemunho literário que conheço do chamado GULAG, o sistema prisional criado pelo totalitarismo comunista soviético. Muitas das histórias são verdadeiras, algumas delas vividas. O estilo é seco e sem ornamentos, de um realismo brutal. É um dos livros mais impressionantes que já li. E, apesar de ser uma das jóias da literatura do século XX, este livro nunca foi traduzido em Portugal, embora estejam traduzidos alguns dos contos.

Por outro lado, no que respeita às ditaduras militares, o conto Quatro Gotas Locas, escrito pelo uruguaio Jorge Onetti (1931-1998), num pequeno livrinho chamado Siempre se Puede Ganar Nunca, narra a história de uma chantagem repugnante sobre um casal. Em poucas páginas, o autor faz-nos perceber qual o verdadeiro significado do poder absoluto na vida precária das suas vítimas.

 

Desfocagem

O ponto é que estes regimes pertencem a um passado onde era fácil estabelecer divisões nítidas entre esquerda e direita. Esse mundo acabou. Hoje, há diferenças por exemplo nas políticas fiscais e sociais, mas quando os partidos chegam ao poder a prática é semelhante, como se o sistema tivesse perdido flexibilidade. Ninguém se espanta com uma direita que defenda o ambiente ou com a esquerda a apoiar baixas de impostos. E se olharmos para o exemplo europeu, estes estereótipos ainda se tornam mais difíceis de sustentar.

A integração europeia tem acelerado em toda a Europa, tornando os países mais parecidos uns com os outros. É, aliás, curioso que a maioria pareça estar em crise (ou pelo menos a opinião pública acredita nisso) e penso que a razão tem a ver com a crescente noção daquilo que acontece nos vizinhos do lado. Por outro lado, é difícil afirmar se os trabalhistas britânicos são de esquerda ou de direita. E José Sócrates? Qual seria a definição dada por uma pessoa vinda de fora a quem fossem explicadas as políticas deste Governo, mas sem se revelar a cor política do partido no poder?

 

A verdadeira competição

No mundo contemporâneo, a verdadeira competição ideológica é religiosa. Cada religião, pelo menos o sector fundamentalista de cada grupo, pensa ter os valores mais perfeitos. Isso é particularmente nítido no conflito entre Islão e modernidade. Não estou a referir-me a exemplos relacionados com a cultura local (as mulheres não guiarem automóveis na Arábia Saudita, por exemplo), mas a conflitos íntimos de natureza verdadeiramente religiosa: o cientista que convive com a ideia de que não é preciso mais nenhum livro senão o do Profeta (todos os livros estão errados ou não acrescentam nada àquele).

 Em resumo, a meu ver, a ideia de esquerda e direita não permite compreender o mundo que nos rodeia. É uma explicação simplista, válida entre 1789 e 1989. Há rastos deixados pelo mundo anterior onde faz sentido a visão a preto e branco, mas penso que a política é hoje mais complexa, com zonas de sombra, misturas, vastas áreas onde nem faz sentido falar nesta dicotomia. As classes sociais não desapareceram e há conflitos de trabalho, mas as sociedades são muito mais livres, os governos muito menos poderosos e os países muito mais ligados uns aos outros.

 

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16 comentários

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De Isabel Teixeira da Mota a 26.10.2008 às 11:27

Luís,
Vive-se hoje da convicção de que o homem e a mulher democráticos, livres e pluralistas vencem apoiados numa neutralidade moral, a qual é encarada como o expoente da modernidade. Essa neutralidade, que é boa porque recusa a imposição de uns valores sobre outros, tem o senão de se erigir ela própria como único caminho possível. Por isso, penso que o problema de base não está em cada religião pensar que tem os valores mais perfeitos, está em que a democracia liberal quis tomar o lugar das religiões.
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De Luís Naves a 26.10.2008 às 12:50

bem observado, isabel. a modernidade tenta ser moralmente neutra e exclui outras visões
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De tric a 26.10.2008 às 13:30

é caso pra dizer, que o Corta-Fitas é um blogue da modernidade
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De Luís Naves a 26.10.2008 às 18:16

não insistam, não vale a pena, e ponham o nome
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De Manuel Leão a 26.10.2008 às 11:46

Luís Naves escreveu:

«Não me sinto nem de esquerda nem de direita, o que não quer dizer que os observadores estejam errados. Significa apenas que as coisas são um pouco mais complicadas, pois o mundo contemporâneo deixou de ser ideológico».

Poderá não se sentir mas estas duas frases são sintomas, muito fortes, que se se trata de uma pessoa de direita. A pessoa de esquerda., assume-se como tal. Por outro lado, o discurso de que o mundo não é ideológico, é uma manifestação de desejo próprio da direita e do seu apêndice do centro, o qual não é mais do que uma direita envergonhada. Diga-me qual é a pessoa de esquerda que é capaz de dizer que o mundo deixou de ser ideológico.

Não confunda o que é ter ideologia e o que é votar. As pessoas com ideologia nunca foram uma grande percentagem dos eleitores. Esses esperam para ver como correm as modas para depois votarem. E muitas vezes vão atrás de sondagens, para sentirem aquela alegria, efémera, de estarem com os vencedores. É por isso que elas são, muitas vezes, manipuladas.
Sendo que o terreno ideológico não interessa à direita, o melhor seria decretar a morte das ideologias. Foi o que fez. Espere mais uns tempos e verá.

Para si as diferenças ideológicas estão nas religiões?

Onde foi arranjar essa ideia? Então quer dizer que os ateus e agnósticos estão irremediavelmente afastados da ideologia? Então deve fazer-lhe uma grande confusão que eu, sendo cristão, seja de esquerda. Imagino que julgue que são todos de direita. Olhe que está enganado. Francamente, não percebo em que se baseia essa teoria. Será no convertido Bush, aquele que diz que fala com Deus? Daí, as guerras que empreendeu?
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De Luís Naves a 26.10.2008 às 12:53

o que é assumir-se de esquerda? qual é a ideologia que sobrevive? e não me faz confusão nenhuma uma pessoa que se diz de esquerda e se afima cristão. pelo contrário, parece dar razão ao texto, de que tudo é muito mais complicado do que um simples esquerda-direita...
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De Manuel Leão a 26.10.2008 às 18:10

Luís Naves:

Ser de esquerda é:

1- Defender, efectivamente, a subordinação do poder económico ao poder político. Votamos em partidos, não votamos em multinacionais;

2 - Defender a protecção social, universal, e a obrigatoriedade universal de descontar para ela, podendo obviamente haver sistemas complementares, públicos ou privados, mas nunca em deterimento total ou parcial da proteção social pública;

3 - Defender a educação gratuita, com abrangência universal, , sem prejuízo da existência supletiva de escolas privadas a todos os níveis, com os curricula escolares aprovados pelo poder político, mas com garantia de equiparação;

4 - Defender um serviço nacional de saúde, universal e gratuito, sem prejuízo de sistemas de saúde privados e cooperativos, com instituições que prestem cuidados de saúde, a todos os níveis, incluindo hospitais, mas sempre sujeitos à fiscalização por parte do Estado;

5 - Defender o controlo do estado em algumas Empresas cujas actividades sejam consideradas estratégicas e fundamentais para garantir o controlo sobre o poder económico e, bem assim, a defesa nacional;

6 - Garantir uma justiça, onde vigore o primado dos direitos humanos, e onde não seja possível que a condição económica possa fragilizar qualquer índividuo quando recorre à justiça;

7 - Garantir a segurança de todos os cidadãos com forças de segurança de caracter exclusivamente público.

8- Garantir que ninguém possa ser prejudicado em função do sexo, etenia, credo religioso, país de origem, orientação sexual e qualquer outra forma de descriminação. Garantir, outrossim, liberdade religiosa, liberdade de pensamento e liberdade de imprensa.


Como vê, no essencial, não é difícil dizer o que é ser de esquerda.














,
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De Luís Naves a 26.10.2008 às 18:20

acho boa a sua definição, mas o ponto do meu post é que muitos governos ditos de direita defendem exactamente o que acabou de escrever. sarkozy, por exemplo, subcreve a maioria ou mesmo totalidade das alíneas. o mesmo na alemanha, dinamarca ou holanda
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De Manuel Leão a 26.10.2008 às 18:58

Luís Naves:

Que posso eu dizer? Se defende, acho muito bem.

Mais vale bom conteúdo sem forma do que forma sem conteúdo.
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De José Manuel Faria a 26.10.2008 às 12:36

Todos aqueles que dizem que não há esquerda nem direita, são de direita. Esta é uma velha ideia comprovada quotidianamente.
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De Luís Naves a 26.10.2008 às 12:53

à minha provocação, responde com outra. mas tem de explicar esta sua afirmação
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De José Manuel Faria a 26.10.2008 às 15:45

Luís Naves qualquer líder ou simples militante de um partido de esquerda, PS incluído, afirma-se de esquerda: mais estado, modernidade, respeito pelos mais frágeis, anti-xenófobos e pela imigração por exemplo.

O PSD diz-se de centro-direita uma vezes outras de centro-esquerda. O CDS quando lhe convém é direita, a maioria das vezes é centro-direita: liberalismo económico, assistencialismo aos pobres, protecção aos empreendedores, conservadores nos costumes ( CDS), defesa do tradicionalismo da família por exemplo.

Um cidadão de direita tem muita dificuldade em assumir essa área ideológica, o de esquerda não! Isto desde o 25 de Abril . Então facilmente afirmam, bem hoje em dia há uma grande mistura, já não se sabe o que é de direita ou de esquerda, obviamente para esconder a sua costela direitista , há excepções, claro.
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De Nativo a 26.10.2008 às 15:29

"É humano querer pertencer a alguma coisa. E acho que todos gostam de se auto-classificar, dizer que fazem parte de uma tribo qualquer, que são de um clube de futebol ou de um partido. Depois, para confirmarem a escolha de claque, usam cachecóis e entusiasmam-se com as vitórias, choram as derrotas. Mas as diferenças entre as tribos são sempre superficiais, ligadas a símbolos."

"Ali não existe verdadeiro conflito e a diferença não tem substância"

Opinião Pessoal:Concordo que é humano querer pertençer a alguma coisa,conforme a ambição do homem mais se quer afirmar,mas aí o que bombeia o coração com essa vontade pode ter varias facetas,algumas ao mesmo tempo,ou umas em prol de outras,pode ser a ambiçao de poder para mandar ou para ganhar dinheiro ou pode ser poder para ter esse mesmo poder para mudar as coisas em prol dos outros,como pode ser só por ganancia ou por vaidade,ou como pode ser por carencia de afecto ou atenção.Sao fenomenos tao multifacetados que é impossivel generalizar.
Quanto ao que se refere de as diferenças serem superficiais,ligadas a simbolos,chamo lhe atenção que por trás dum simbolo pode tar muita mensagem e muita ideologia,mas em forma de simbolo para estar codificada,e acredite que nao faltam "tribos" em que as diferenças sao bem mais que superficiais.


"Hoje, há diferenças por exemplo nas políticas fiscais e sociais, mas quando os partidos chegam ao poder a prática é semelhante, como se o sistema tivesse perdido flexibilidade. Ninguém se espanta com uma direita que defenda o ambiente ou com a esquerda a apoiar baixas de impostos. E se olharmos para o exemplo europeu, estes estereótipos ainda se tornam mais difíceis de sustentar."

Opinião pessoal:Essa sua observação é demasiado simplista e dava conversa para horas,as razões dessas raras diferenças tao relacionadas com fenomenos socio culturais que vão desde ao consumismo e consequentemente o valorizar do objecto em prol do que realmente tem vida,desde a mafias e sociedades secretas que se apoderam do poder de fininho sem levantar muitas ondas,etc,etc...
Mais importante que os partidos acho que o futuro deve e pode passar por um ajuntamento de homens que sejam de direita ou de esquerda possuam nobres sentimentos,se amarem o seu povo como se fossem seus filhos,a politica pode guiar e os traços ideologicos idem,mas o coração deve ser o automovel dessa estrada de governaçao por assim dizer.

Comentario final:Uma coisa acho que todos devem tar de acordo,é que este estado de coisas em portugal tem que mudar e não vai lá nen com o PS nen com o PSD.
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De clara martins a 26.10.2008 às 15:49

Todos os que eu conheço , que dizem que não são de esquerda nem de direita e que já não há ideologias, são de direita.
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De Anti a 26.10.2008 às 16:24

Apetece-me dizer que ideologicamente a esquerda é uma autêntica fraude, sendo que na boca e na acção de Sócrates isso ganha proporções desmesuradas...
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De Manuel Leão a 27.10.2008 às 11:29

Não confunda esquerda, com aqueles que se aproveitam dos seus símbolos para melhor enganarem o povo.

Mário Soares meteu o socialismo na gaveta e hoje já não sabe o que lá meteu nem em que gaveta foi. Mas a bandeira do PS ele não mudou. Porquê?

A única coisa que fizeram foi arranjar um símbolo paralelo e menos ideológico: - a rosa. Poderia ter sido o cravo, mas preferiram a rosa.

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