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Livros de instrução (5)

por Luís Naves, em 25.10.08

 

Winston Churchill

Quando lemos River War (1899) ou alguma das duas monumentais histórias das Guerras Mundiais que Winston Churchill escreveu, percebemos melhor a razão do antigo primeiro-ministro britânico (1874-1965)  ter recebido o Prémio Nobel da Literatura (1953). Os livros de história são gigantescos, hoje lidos em versões compactas, mas Churchill revela-se um hábil estilista.

River War narra a campanha de reconquista do Sudão, na qual o autor participou. O livro possui elevado interesse contemporâneo, pois um dos lados deste conflito travado em 1898 tem semelhanças com a moderna história dos Talibãs. É inevitável pensar em O Choque de Civilizações, de Samuel Huntington, ensaio de 1993 cujas ideias dominam numerosas interpretações dos conflitos do nosso tempo.

Churchill usa os seus livros para hábeis manipulações políticas, sobretudo as histórias onde foi uma das personagens. Para citar um exemplo, o episódio dos Dardanelos, em The World Crisis (1923-1931), surge como boa ideia estratégica que o azar e a incompetência operacional transformaram em fiasco. Em muitas passagens, o autor é cruel com os erros alheios e não hesita em crucificar adversários políticos. Quem conta a história pode sempre conduzir o leitor para as interpretações convenientes, sem parecer estar a exagerar o seu papel.

Regressemos a River War: o regimento do jovem Winston Churchill esteve envolvido na última fase da guerra sudanesa e, nessas páginas, o livro ganha intensidade dramática. O autor transforma-se em actor. O capítulo sobre a batalha de Omdurmam, a 2 de Setembro de 1898, é impressionante. Churchill descreve com pormenores quase físicos (sensuais) a última carga de cavalaria do exército britânico, na qual participou.

O mesmo homem cujas palavras traduzem a vivência da batalha e da morte consegue ser objectivo e comovente, com respeito pelos vencidos, mostrando toda a crueldade inglória da derrota. River War é um clássico, escrito de forma brilhante por um jovem oficial de cavalaria, correspondente de guerra nas horas vagas, e que seria mais tarde um dos políticos mais influentes do seu tempo. Ele sabia bem qual era o destino dos perdedores, cadáveres abandonados no deserto, como papéis ao vento.

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