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Memórias de um fantasma (II)

por Luís Naves, em 24.10.08

O ar nocturno

Talvez fosse Verona, mas lembro-me de canais, paredes húmidas, um melancólico embalo da água. As sirenes de um porto ao longe. O nevoeiro denso. Podia ser Veneza, Génova, Amesterdão.

As ruas tinham adormecido, soturnas e geladas. A minha capa negra deslizava entre as sombras, que respiravam vagas ameaças. O sopro da noite fechada anunciava outros fantasmas (princesas espectrais e pálidas rindo nos salões dourados; marinheiros inchados do seu afogamento lento; capitães de longo curso encalhados em terra; caixas de banco premeditando desvios de fortunas; e estudantes anarquistas escondendo, sob os capotes, armas com manchas de sangue).

 

Ouvi passos que se aproximavam, ganhando vida rápida; um frenesim musical ecoava nas portas impacientes, na pedra indiferente, na escuridão agitada. Eram bengalas de cegos, em fileiras mortais, procurando a presa nos caminhos estreitos.

Escorreguei na direcção da última luz, a linha fina de uma porta mal fechada.

A velha taberna de porto. Dentro, o besouro das vozes, o ocasional riso desorbitado. A luz morna, quase vermelha, desenhava profundas sombras; e cheirava a vinho demasiado fermentado.

Sentei-me numa mesa, em frente a um homem jovem, que estava pensativo.

 

Chamava-se Emilio, disse. A princípio, conversámos sobre banalidades (ele estava fascinado com alguma coisa imprecisa, talvez a forma como eu me apresentara, um tenente português que estivera ao serviço de Sinbad, Paxá Ali Babá) até que Emilio me pediu que lhe contasse as aventuras que vivera no oriente, séculos antes de me tornar uma aparição de fantasma.

Falei-lhe nas selvas de Mompracem, do meu fiel criado Sandokan, que comigo partilhou tantos naufrágios e perigos; contei-lhe tudo sobre as aventuras dos mercenários nas terras do alto Tibete e da Índia impenetrável, da Malásia distante, onde tigres infestam selvas opacas e aventureiros são engolidos por pântanos esponjosos, sem tempo sequer para reverem toda a sua vida antes de respirarem misteriosos venenos.

Narrei a história de um homem que vagueou trinta anos por ilhas incontáveis dos mares da Ásia, em busca da sua amada, que piratas malabares tinham levado. Ainda ali vagueia à procura dela.

Falei dos corsários de Al Baleed e do tesouro de rubis, ametistas e incenso que se perdeu no Mar Vermelho. Mas também mencionei as águas tépidas do Godavari, o suave arvoredo de Taungoo.

Vi vulcões que explodiam e tufões endiabrados e ainda multidões sem fim. Contei mil histórias; de aflição e castelos e emires perversos e lutas sem a mais pequena esperança de vitória.

“Gostava de viver aventuras como as tuas. E como era esse teu companheiro, Sandokan?”, perguntou Emílio, que tomava vagarosas notas num bloco seboso.

Contei-lhe tudo sobre o meu fiel servente e amigo, que nos seus livros Emilio transformou em príncipe e herói vagabundo, acompanhado do fiel tenente português, figura secundária na literatura.

De certo modo irónico, isso não deixava de ser essencialmente a verdade.

Alfredo (fantasma desocupado)

 

 

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5 comentários

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De Margarida Pereira a 24.10.2008 às 14:49

... tão bom que até dói.

Âmago do ser - modo de usar.
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De Luís Naves a 24.10.2008 às 21:00

agradeço o seu comentário
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De Margarida Pereira a 25.10.2008 às 11:37

'comentário' foi nota de rodapé.
'Linkei-o' e vou descobrir os seus livros.
You're wonderful...
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De Ana Vidal a 26.10.2008 às 12:16

Critiquei-o duramente pelas atitudes que tomou neste blogue, e mantenho o que disse. Mas não posso deixar de dar-lhe os parabéns por este magnífico texto. Espero que o fantasma continue desocupado.
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De Luís Naves a 26.10.2008 às 13:01

agradeço a sua leitura do fantasma e o seu comentário

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