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Memórias de um fantasma (I)

por Luís Naves, em 23.10.08

 

Início depois do fim

Para alguém com mais de 400 anos que quer escrever as suas memórias, o mais difícil é começar. Podia contar-vos como eram mágicas as florestas sombrias do meu tempo e serenas as margens dos rios sussurrantes; podia falar da crueza de cavalgar pelos campos e descobrir o leve céu e o azul do mar e ainda a festa de pétalas nos cabelos das mulheres que o Sol iluminava, fazendo brilhar jóias de um tesouro, carícias de verão. Mas talvez seja erro meu, lembrar o passado com cores mais intensas, como se fosse uma tela antiga e vagamente irreal.
 
Provavelmente, os fantasmas observam as coisas com menos exactidão, pois não têm consistência e, por isso, aquilo que observam também não parece ser material.
O passado é um sonho; de aventuras, de corpos amados; de sensações que não mais senti; de cidades maravilhosas, cujos telhados resplandeciam; de risos e falas estranhas, de terras distantes, de mistérios e viagens na bruma, enigmas em desordem.
 
Por vezes, aborreço-me, quando o silêncio cobre o palácio cujos corredores escurecidos assombro (o meu sobrinho Cornélio já dorme, tranquilo) e os meus pensamentos correm mais devagar, posso enfim saboreá-los, e sou tomado por uma nostalgia daquilo que vivi e vi viver; das ameias de um castelo que tomei, da praia deserta onde naufraguei, daquela rapariga que me sorriu num mercado oriental, tão devastadora como um exército mouro.
E, na casa vazia, ao longo da noite, a madeira range e lembro o murmúrio delicado das velas que o vento arqueava  (os panos produziam leves ritmos doces, quando se soltavam os cordames e a água do Índico deslizava no fundo do barco, como faziam os delicados rios da minha infância). A lareira apagada do palacete estala da mesma forma, num turbilhão secreto, de brasas adormecidas debaixo da cinza.
 
A existência de um fantasma é fria. Ia escrever vida, mas existência é palavra mais certa.
E as minhas lembranças ainda ardem.
E havia aquele fundo laranja de um fim de tarde tropical, na mansidão dos reflexos, as vagas preguiçosas que se derramavam na areia quente, enquanto uma brisa agitava as nervosas folhas das palmeiras.
E quando observo as coisas vivas que me rodeiam pareço-me com essas brasas que recusam dormir para sempre, reanimando a sua tonalidade de fogo interno, num reacendimento, sopro de ardor, desassossego.
 
Assim escolhi começar as minhas memórias, pelas sensações imprecisas e as paixões fugitivas que o tempo devia ter apagado...
Alfredo (fantasma sem ocupação)
 

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4 comentários

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De Once a 24.10.2008 às 11:02

"Assim escolhi começar as minhas memórias, pelas sensações imprecisas e as paixões fugitivas que o tempo devia ter apagado..." e que bem as escreve Caro LN .. :)

bom fim-de-semana
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De Cartas de Londres a 24.10.2008 às 13:28

Read My Lips: speechless...

Por Este Seu Mais Belo Texto Aceite Um Sorriso Meu.
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De Luís Naves a 24.10.2008 às 14:33

agradeço muito estas notícias de londres...
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De Margarida Pereira a 24.10.2008 às 14:57

Às vezes resisto. Tento, quero dizer.
Às vezes fico a olhar de lado, a abanar que não. 'Nã...'
Mas depois, logo depois, entre marejamentos e taquicardias suaves, cedo.
A beleza é avassaladora.
Venho e volto e penso que são muitos parágrafos e não tenho tempo.
Não ter tempo para a beleza! Ao que chegamos...
Não ter tempo para o cerne do rosa de nós...
Escreva. Ensine(-nos). Sempre e mais.
(e 'roubei' um bocadinho...; uma 'labareda'. Um pedacinho de mim. Para mim. Para que saiba, porque não sabia.)

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