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O homem sem convicções (diário - 6)

por Luís Naves, em 20.10.08

 

No intervalo

Não sei se repararam, provavelmente nem repararam, mas não tenho escrito aqui. A questão é que não conseguia encontrar em lado nenhum o senhor Naves, o ditador do corta-fitas, que costuma colocar os meus textos em linha.

Não conseguia, mas encontrei-o em São Carlos, ainda por cima refastelado num camarote (o que me surpreendeu), numa récita de Siegfried, de Richard Wagner. O Naves é um trabalhador e não sabe fazer mais nada. O camarote também era um exagero.

No intervalo, passeava ele no foyer, um bocadinho atarantado, sem ninguém com quem falar. A menina Mimi tinha ido à casa de banho (demorava-se por lá porque, para as senhoras, é preciso fazer fila) e aproveitei para interromper os pensamentos do meu colega de blogue:

“Não o tenho encontrado para enviar as minhas crónicas…”

De repente, o Naves pareceu-me visivelmente transtornado.

“Cornélio, pá, nem queiras saber da minha vida...”

“Mas, que se passa?”

“A crise financeira internacional. Estou numa preocupação”.

“Então, porquê?”

“Sou simpatizante da escola de Chicago. Como diria Lenin, que fazer?”

Quis tranquilizá-lo e afirmei:

“O Obama, de certa maneira, também é da escola de Chicago, pois estudou lá. Por isso, não se preocupe. O povo é que tem de se preocupar. Não somos nós”.

“Mas eu sou do povo”.

“Um bocadinho, mas também não é preciso exagerar”.

Como costumo fazer nestas ocasiões e é de bom tom, mudei de conversa:

“E que tal mandar-lhe um cronicazinha por estes dias?”, sugeri.

“Boa ideia! Uma sobre ópera!”, gritou ele.

E lá fui conceber a prosa, escadas acima, à procura do lugar. Estava a atravessar um dos corredores quando deparei com o meu tio Alfredo, o fantasma, acompanhado de um homem muito pálido, vestido com armadura medieval.

“Que está aqui a fazer, tio?”

“Vim visitar o meu amigo, o fantasma da ópera” e apontava para o tipo da armadura negra.

É uma figura curiosa, o fantasma da ópera: cantor medíocre morto por um candelabro em queda, não resiste a sequestrar os cantores com melhores papéis e substituí-los no último acto de certos espectáculos. Parecia ensaiar: mi, mi, mi, mi.

Quando já me afastava (ao fundo, ouvia-se o barulho do metal da armadura), o tio Alfredo ainda me perguntou se aquele gordo com quem eu falara no foyer era o Naves:

“Ele sempre aceita publicar as minhas memórias, sobrinho?”

Não tive coragem de lhe mentir. Disse que sim.

A menina Mimi já estava sentada. Deliciados, assistimos os dois ao terceiro acto do Siegfried. A menina Mimi estava cheia de calor e deixava cair o decote do vestido, sobretudo nos dós sustenidos, cada vez mais juntinha a mim, numa emoção pela beleza da música de Wagner. Só estranhei que aparecesse Wotan de armadura (em vez do excelente cantor coreano que vira no primeiro acto). Mas gostei da interpretação do substituto. Só depois soube que no final do espectáculo descobriram o verdadeiro Wotan amarrado e amordaçado no camarim.

Cornélio Suave

 

 

 

 

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9 comentários

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De Carlos Sottomayor a 20.10.2008 às 18:51

A saída de Paulo Cunha Porto deste Blog, não foi evidentemente um acto de censura, não foi esse o objectivo dos "donos do Blog", censurar, foi mais um acto de estupidez, de medo e de insegurança.
O PCP era sem dúvida, uma mais valia para este Blog, era culto, interessante e escrevia bem e muito soobre temas variados.
O problema é que entre os "donos do Blog", existem muitos adeptos do politicamente correcto. São aquele tipo de pessoas, que apesar de cultas e com estudos, falta-lhes algo de essencial : MUNDO ! Falta-lhes aínda, saber estar em sociedade, falta-lhes confiança na sua posição e no seu lugar na sociedade. Daí a necessidade de alinhar no politicamente correcto, para não fugir aos padrões establecidos na sociedade. Para estes senhores, o politicamente correcto é o seu porto de abrigo.
Paulo Cunha Porto, não era politicamente correcto, daí.......
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De Luís Naves a 20.10.2008 às 19:12

este comentário é muito mais engraçado do que a crónica do cornélio.
a mim, falta-me mundo? fui repórter em três guerras, vi coisas que não lhe passam pela cabeça, a si, que pensa ter facilidade no insulto.
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De Anónimo Veneziano a 20.10.2008 às 23:30

Pelo menos ir à Opera já é um princípio de obtenção de "Mundo". Quanto a guerras, só se foi para se bater por algo...
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De Carlos Sottomayor a 21.10.2008 às 10:48

Sr. Luís Naves, antes demais queria esclarecer que não foi minha intenção insultá-lo, (nem lá vejo qualquer insulto), mas sim, fazer uma análise genérica do caso com o PCP. O comentário não era destinado a sim em particular, mas a todos os que quiseram "moderar" o PCP.
Vejo, no entanto, que se sentiu particularmente tocado e reagiu da pior forma, pondo-se em bicos de pés ! Essa história das 3 guerras, revela que o Sr. naõ percebeu o significado da expressão " ter mundo ", que vai muito para além de se ser viajado ou de se ter estado em 3 guerras.
A sua resposta, leva-me a pensar que lá no fundo, o Sr. e os seus colegas já estão arrependidos da decisão que tomaram. Já perceberam que foi uma tempestade num copo de água, uma precipitação que prejudicou gravemente este blog. Marquem lá um jantar, bebam uns copos e reparem o mal que fizeram. Vamos sempre a tempo de fazer as coisas certas ! Cumprimentos
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De Luís Naves a 21.10.2008 às 11:19

não me arrependo de nada do que fiz e não tenho nada a lamentar. sim, considero insulto uma pessoa que não me conhece de lado nenhum e que certamente nunca me leu, afirmar que eu não tenho mundo. ninguém pretendeu silenciar o pcp, mas acontece que não fui consultado sobre a entrada dele no blogue onde escrevo e tenho todo o direito de pedir que ele não defenda ideias que me repugnam, nomeadamente a defesa de regimes não democráticos. se ele tinha essa agenda política, que a defendesse num local onde eu não estivesse. mas ele nem aceitou discutir a questão, achando-se imediatamente num patamar superior ao meu, que sou fundador deste blogue.
o senhor carlos sottomayor não compreende aqui um elemento importante: não me considero inferior a ninguém (nem superior, se quer saber).
Em relação à sua última frase, concordo inteiramente e não tenho qualquer dúvida de que estou a fazer a coisa certa.
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De hajapachorra a 21.10.2008 às 00:24

O Naves é jornalista (repórter, diz ele). Está tudo explicado.
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De Luís Naves a 21.10.2008 às 10:02

sim, e nunca se escondeu atrás de um nome falso
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De Cartas de Londres a 21.10.2008 às 01:31

Caro Cornélio,

cumprimentos ao Naves ;-)
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De Luís Naves a 21.10.2008 às 10:01

olá, prazer em receber mais esta carta de londres

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