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254 (ou da inovação avaliada por reaccionários)

por henrique pereira dos santos, em 03.08.17

Este é um post em causa própria (não como profissional mas como dirigente pro bono de uma ONG interessado no assunto).

Há já uns anos que tenho andado envolvido, quer profissionalmente, quer civicamente, na defesa do pastoreio como instrumento de gestão da paisagem e contributo para uma resposta socialmente útil às alterações sócio-económicas das últimas décadas, que estão no origem do regime de fogos que existe em Portugal.

Nada me prende a uma visão saudosista, folclórica, etnográfica e reaccionária do pastoreio de percurso tradicional, ou a outras formas de pastoreio que eram fundamentais na gestão da fertilidade até à descoberta da síntese industrial da amónia, permitindo a produção barata de adubos azotados, a base em que assenta a actual alimentação da humanidade.

A única vez (sou sobretudo um intelectual, não sou um realizador) em que consegui estar envolvido na apliação prática destas ideias, com a Aguiar Floresta e financiamento do Fundo EDP de Biodiversidade (que descanse em paz), conseguimos fazer uma avaliação bastante concreta de três questões centrais:

1) Existem, ou não, maneiras simples, baratas e eficazes de fazer contenção de cabras, em cercados amovíveis, em territórios difíceis como os das nossas serras?

2) A aplicação de elevados encabeçamentos (no caso, cerca de 800 cabras por hectare) por períodos curtos tem implicações ambientais negativas relevantes, quer para a flora e vegetação, quer para o solo?

3) Os custos de gestão usando a técnica de pastoreio dirigido são comparáveis às alternativas para a gestão de combustíveis (corte ou fogo)?

Tal como estive eu envolvido neste projecto, há outras pessoas envolvidas noutros projectos que usam o pastoreio como instrumento de gestão, como é o caso do Hugo Novo, da 5ª Lógica, do Júlio Ricardo, na cooperativa Terra Chã, José Mota, na URZE, Joaquim Dantas, Território Com Vida e vários outros que podem expandir a ideia e a prática de um pastoreio de gestão ou que podem dar solidez a este trabalho, avaliando-o, escrutinando-o e produzindo resultados palpáveis e replicáveis.

Este conjunto de organizações juntaram-se para fazer uma candidatura a uma medida de apoio ao mundo rural, os chamados grupos operacionais, medida essa que tem como objectivo promover "O funcionamento de Grupos Operacionais que desenvolvam, em cooperação, um plano de ação para realizar projetos de inovação que respondam a problemas concretos ou oportunidades que se colocam à produção e que contribuam para atingir os objetivos e prioridades do Desenvolvimento Rural, nas áreas temáticas consideradas prioritárias pelo setor tendo em vista a produtividade e sustentabilidade agrícolas, conforme consideradas na PEI".

Numa primeira apreciação as brilhantes cabeças que tomam decisões sobre milhões atribuíram zero de inovação ao que esta parceria propunha porque o ""Grupo Operacionais"não conduz à inovação de um novo produto, processo/tecnologia ou marketing face aos existentes atualmente. Verifica-se que o plano de ação assenta no desenvolvimento de metodologias de pastoreio dirigido como estratégia para a otimização da produtividade e do incremento da caprinicultura em sistema extensivo em articulação com a aplicação de boas práticas de gestão ambiental. Conclui-se assim que o plano de ação não tem como objetivo introduzir um novo produto no mercado, atendendo a que não é feita qualquer referencia direta a um novo produto. Quanto à avaliação de um novo processo ou método de produção, considera-se que o plano de ação não apresenta na metodologia de abordagem a identificação de um método ou prática de produção novos ou melhorados, não se verificando alterações significativas ao modo de produção animal já existente, nomeadamente no que respeita às técnicas de pastoreio. Salienta-se que o plano de ação incide maioritariamente em medidas de "avaliação", não sendo apresentado um plano de pastoreio efetivo e diferenciado do já praticado. Não é apresentada uma nova estratégia de marketing de posicionamento junto do consumidor ou em mercados previamente identificados".

A profunda ignorância dos avaliadores não lhes permitiu sequer perceber que em qualquer das experiências que listei acima havia uma experiência única de transformação de uma actividade tradicional num instrumento contemporâneo de gestão do território que respondia a uma das mais graves falhas de mercado do mundo rural português: a ausência de gestão de quase dois terços do território, por falta de retorno para os gestores e proprietários.

Depois da reclamação feita, demonstrando que esta avaliação não tinha pés nem cabeça e que violava objectivamente a definição de inovação que estava nos regulamentos, foi-nos dada parcialmente razão e passámos a saber que há, em Portugal, 253 projectos para a criação de grupos operacionais que são mais inovadores e relevantes para o mundo rural que ter uma rede de transformação da pastorícia num instrumento contemporâneo de gestão dos territórios marginais, contribuindo para a solução de um problema a que a sociedade e o Estado não têm sabido dar resposta: a gestão socialmente útil do fogo nas nossas paisagens.

Contra todas as regras, a lista dos 253 projectos (e dos mais não sei quantos mais mal classificados que este sobre o qual escrevo) ainda não está disponível, não sendo por isso possível ainda entender que inovações maravilhosas existem em Portugal que não existam na Galiza, onde um projecto de pastoreio estará em primeiro lugar no mesmo tipo de candidaturas, e que sejam mais relevantes e inovadores para o mundo rural.

Mas a julgar pelo enlevo e carinho com que foi tratada a fantasia de andar a fazer monitorização de espécies com drones (não estou a ser irónico, um milhão de euros aprovado para isso) restam-me poucas dúvidas sobre a responsabilidade da loucura normal que campeia nos decisores dos fundos comunitários nos resultados desastrosas na gestão do mundo rural e do fogo: ter uma organização a brincar aos drones é muito, mas muito mais sexy e inovador que um monte de cabras a comer mato e estrumar montes de forma sustentável e, sobretudo, muito mais relevante para o país e as pessoas que por aqui vivem.

Não faço a menor ideia de quem são as pessoas que tomam estas decisões, mas espero que consigam dormir de noite quando perceberem a responsabilidade concreta que lhes cabe no desespero de quem tem de viver lado a lado com os barris de pólvora que ajudaram a encher.

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3 comentários

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De Tiro ao Alvo a 04.08.2017 às 19:16

As pessoas que decidem estas coisas têm nomes, e era bom que fossem conhecidos, para serem censurados pelos seus amigos e conhecidos e, também, para se poderem defender das "acusações" que aqui lhes são feitas. 
Não haverá jornalistas que queiram pegar no tema?

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