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Trotsky dixit

por Duarte Calvão, em 15.10.08

Consigo encontrar, a custo, a minha edição brasileira do “Programa de Transição”, escrito por Leon Trotsky em 1938, para o congresso da fundação da Quarta Internacional. Já não abria este pequeno livro (ou, talvez, guia revolucionário), que tem como incisivo sub-título “A agonia mortal do capitalismo e as tarefas da Quarta Internacional”, há quase 25 anos, desde que saí da Convergência Socialista, partido trotskista na altura integrado do Partido dos Trabalhadores, já que os ditadura militar brasileira, mesmo nos seus estertores, não permitia a existência legal de organizações marxistas.

Lembrava-me vagamente do impacto que tiveram sobre os meus 20 anos as frases iniciais do livro e não fiquei desapontado. Eis um excerto do princípio do primeiro capítulo:

“A condição económica necessária para a revolução proletária já alcançou, no geral, o mais alto grau de maturação possível sob o capitalismo. As forças produtivas da humanidade deixaram de crescer. As novas invenções e os novos progressos técnicos já não conduzem a um crescimento da riqueza material. Sob as condições da crise social de todo o sistema capitalista, as crises conjunturais sobrecarregam as massas com privações e sofrimentos cada vez maiores. O crescimento do desemprego aprofunda, por sua vez, a crise financeira do Estado e enfraquece os sistemas monetários instáveis. Os governos, tanto democráticos quanto fascistas, vão de uma bancarrota a outra”.

Trotsky concluía então que:

“Todo o falatório segundo o qual as condições históricas não estariam ‘maduras’ para o socialismo, são apenas produto da ignorância ou de um engano consciente. As condições objectivas necessárias para a revolução proletária não estão somente maduras, elas começam a apodrecer. Sem uma revolução socialista no próximo período histórico, toda a humanidade está ameaçada de ser conduzida a uma catástrofe. Tudo depende agora do proletariado, ou seja, antes de mais nada, da sua vanguarda revolucionária. A crise histórica da humanidade resume-se à crise da direcção revolucionária”

E não é que agora estas palavras poderão voltar a fazer sentido para muita gente? Para mim não, que desde essa altura fiquei vacinado contra teorias marxistas de qualquer espécie, mas, a julgar pelo que oiço e leio por aí, calculo que haja quem se prepare já para dirigir a revolução e sonhe em formar um soviete na Rotunda, tomando de assalto o edifício dos Correios, seja lá onde for. Que tal o socialista revolucionário trotskista Francisco Louça para o papel? E haverá outros que dirão que ainda não é altura, que as condições não estão “maduras”. Que tal o estalinista-maoista “reformista” Luís Fazenda para combater os ímpetos de Louçã?

Para já não falar do “burocrata” Jerónimo de Sousa, que, como sempre, fará alianças com os sociais-democratas e trairá a revolução que se adivinha. Para a “nova” esquerda que aí vem, só falta José Sócrates como arauto do New Deal keynesiano, construindo aeroportos em vez de barragens, salvando o capitalismo da sua agonia. Mas Trosky, há 70 anos, já previu tudo no “Programa de Transição”: A crise actual, longe de se ter esgotado, já demonstrou que a política do New Deal nos Estados Unidos, assim como a política da Frente Popular em França, não oferecem qualquer saída ao impasse económico”.

 

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3 comentários

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De Anónimo a 16.10.2008 às 10:27

Contra o trotkismo, a monarquia!
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De l.rodrigues a 16.10.2008 às 10:54

É muito curioso.
Ainda há poucas semanas, qualquer um que sugerisse qualquer coisa vagamente Keynesiana, levava logo com o rótulo de extrema-esquerda. Agora já é preciso invocar Trotsky.

Como Keynes já não é um papão, é preciso ressuscitar outros rapidamente para controlar os estragos.
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De A. R a 17.10.2008 às 22:36

Tinha futuro o Homem. Só foi pena morrer com uma picareta espetada na massa cinzenta ... mas se calhar foi bem menor o sofrimento que seria se morresse desiludido e ressabiado

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