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Emoções básicas (26)

por Luís Naves, em 14.10.08

Está a ser criada uma lenda sobre a crise financeira. Baseia-se na seguinte história: o plano europeu de salvamento foi montado com brilhantismo, mas só depois da UE ter falado a 27. Os americanos estão a ser salvos pelos europeus (leia-se UE). Portugal resistiu muito bem às tentações de directório de Sarkozy (aquela reunião a quatro foi quase ridícula). E só quando Portugal também participou nas decisões foi possível conceber um bom esquema.
Esta história é tão forte nos media tradicionais que num telejornal, ao falar da entrada dos Estados europeus no capital de bancos, um jornalista dizia a outro: “os russos e os chineses devem estar a rir-se”.
 
Uma risota
De facto, os russos parecem estar a passar um excelente momento: a bolsa local caiu 65% desde Maio, houve uma rápida fuga de capitais e o petróleo (a única fonte de rendimento) está perto de metade do valor que tinha antes da crise georgiana. Estão a abrir garrafas de champanhsky!
A China também tem fortes razões para festejar. Metade da dívida americana está nas mãos dos chineses e japoneses, que não têm outra solução senão continuarem a comprar, sob pena de perderem tudo o que investiram. Os chineses acumularam reservas de 2 biliões de dólares (milhões de milhões, triliões em inglês), mas 70% são títulos de dívida americana. As poupanças de uma década podem não valer nada. Uma crise financeira vem mesmo a calhar para esta visão conservadora!
Os europeus, por seu turno, estão agora a dar uma grande lição ao mundo: juntaram um plano financeiro cuja dimensão é superior ao dobro do plano americano.
 
Um risotto
Os americanos viviam acima das suas posses e os economistas diziam que a coisa era insustentável. Havia um rio de dívidas (casas, consumo) que se transformava em produtos financeiros fantásticos (era arroz, mas chamavam-lhe risotto para parecer mais fino). No fim da linha, alguém comprava: sabemos agora que eram os bancos europeus, que assim financiavam o estilo de vida americano. Agora, são os europeus que pagam a crise, mas isto não é uma transferência de riqueza, pois o que fica na sua posse não tem qualquer valor. Estamos num salve-se quem puder semelhante ao jogo das cadeiras, onde o último a reagir fica sem cadeira.
A lenda de que alguém tenha motivos para rir é de facto interessante, e parecida com a da “recuperação” da bolsa portuguesa. Na sexta-feira, caiu cerca de 10% e na segunda recuperou 14%. Foi considerado um excelente resultado de políticas sensatas!
Outra maneira de contar a história é que na sexta-feira os patos foram depenados pelos que ontem compraram muito barato.
 

 

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9 comentários

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De Margarida Pereira a 14.10.2008 às 12:43

'fino', não exactamente... - mais pequeno, como explica a Wikipédia:"O risotto é um prato típico italiano em que se fritam levemente as cebolas e o arborio, ou o arroz em manteiga, e se vai gradualmente deitando caldo de carne e outros ingredientes, até o arroz estar cozido e não poder absorver mais líquido.

Risotto, que significa literalmente pequeno arroz, é um prato típico da região do Norte da Itália, mais especificamente ele provém da Lombardia. O risoto data do século XI quando o sul da Itália era dominado pelos Sarracenos e esses trouxeram o grão usado para a preparação do ristoto.

A grafia correta em português seria com apenas um "t". RISOTO."

E a alegoria culinária é um 'must'!

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De Luís Naves a 14.10.2008 às 12:52

agradeço muito este comentário de quem visivelmente aprecia um bom risoto
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De Carlos Portugal a 14.10.2008 às 19:20

Excelentes conhecimentos da culinária transalpina, Cara Margarida! Parabéns! Contudo, eu traduziria «risotto» por «arrozinho». E tenho saudades de um bom risoto à Milanesa!

Cumprimentos.
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De Mialgia de Esforço a 14.10.2008 às 13:04

Embora também me babe pela gastronomia italiana, e prazeres da mesa à parte, certo é que os EUA não ficam nada bem na fotografia. Se bem entendi o seu raciocínio, o que diz é que os EUA fizeram a borrada e os saloios dos Europeus é que pagam a factura? Obama diz que é tempo de se começar a poupar...

A Rússia não depende apenas do pitról. Não se esqueça do gás. A Alemanha, pelo menos, não se esquece.

Gostei da imagem da morte do Capitão América. Bem alusiva!
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De Margarida Pereira a 14.10.2008 às 17:56

Meu caríssimo 'Mialgia...', agora fico triste..., então as asneiras e dificuldades levam-nos a escorraçar os aliados? A virar-lhes as costas com todo o desdém?
Fizeram asneira? Da grossa! Mas nós somos inocentes? Nem pensar!
É óbvio que os sujeitos do fenómeno nem é o caríssimo, nem eu, nem o estupendo 'publicador' do texto, nem os "anónimos" que por aí pululam.
Falamos de instituições, de procedimentos virtuais e pan-continentais, que se reflectem desgraçadamente, na vida de cada um. Além do rumo das nações. Que anda meio fora de eixos.
As 'altas' finanças destruíram o que levou décadas a recuperar e os governos (de lá e desta 'nossa' Europa) assobiaram para o lado até lhes ser impossível 'sacudir a água do capote'.
Mas existem as pessoas.
E a História.
A Europa é devedora à América (alguem perguntava algures se 'nunca mais pagamos Omaha Beach' - não, essas coisas não 'se pagam'!).
A América, com todas as suas contradições e embustes, mantém-se um farol vital da civilização ocidental.
Andamos muito aborrecidos (forma de dizer) com as manigâncias financeiras e esquecemos quem, na sombra, não dorme.
Reza.
Viva o 'Capitão América'!
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De Mialgia de Esforço a 14.10.2008 às 18:17

Minha Cara Margarida,

Não, não me esqueço da dívida da Europa para com os EUA. Mas não temos nem devemos ser nós a pagar sózinhos a conta deste festim.

Nada tenho contra os EUA. Adoro a sua cultura, mas a mentalidade de cowboys da alta finança teria que ter um triste fim. Como se vê.
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De Margarida Pereira a 14.10.2008 às 18:39

Acredite que os americanos andam a pagar esta factura já há muito...
Nós vamos 'de arrasto', pois, mas eles já penam desde há algum tempo.
Só que o seu espírito de 'bounce back' é infinitamente mais ginasticado e 'uplifting' que o dos europeus. Donde uma certa azia que nos acomete.
E estará para durar...
Eles pulam de estado para refazer a vida sem qualquer garantia, nós resmungamos se nos transferem para a outra ponta da mesma cidade, com emprego assegurado.
Coisa de Mayflower.
E de velhos do Restelo.
C'est la vie (?)
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De o sátiro a 15.10.2008 às 00:37

A risada é a prova do analfabetismo/antiamericanismo que grassa nos media tugas.
Quanto ao agradecimento aos USA, bem, até agora China, Japão, South Korea, Alemanha, etc tinham saldo positivo na balança comercial à custa do consumo USA.
Viviam à custa das exportações; e nós exportávamos para quem exportava para os USA.
A crise começou lá porque eles andam sempre à frente, quer seja nas crises, quer nas recuperações do PIB.
A economia mundial só recupera quando o consumo nos USA aumentar e aqueles países voltarem a exportar.
Logo, não há aqui qualquer favor ( que, de qualquer modo, bem que lhe devemos)
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De Luís Naves a 15.10.2008 às 12:26

agradeço todos estes comentários

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