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Revisionismo Estético

por Paulo Cunha Porto, em 13.10.08

Ao ler esta peça do DN, fiquei perplexo. Nunca tinha visto o quadro apresentado como uma imediata meditação sobre envelhecimento ou fealdade, antes vinha sendo dado como o retrato realista de uma Mulher, Margarida da Caríntia, cujo carácter era, também, de fugir, conforme dei conta aqui.

Não tive ainda acesso à tese agora exposta, mas parece de todo improvável que seja o tratamento de uma degeneração do final da vida, já que relatos da época davam conta do horripilante rosto do modelo mal entrada na idade núbil. E era  generalizado o espanto de que um físico daqueles pudesse suscitar desvairadas fidelidades como as que desencadeou. Além de que, sabe-se, os poderosos eram sempre um pouco beneficiados, pelo que um relapso pessimista como sou tem de especular que ainda deveria o original ser pior do que a cópia.

As tentativas de explicação do Ser enfermavam outrora do Complexo da Rainha Má, aquele que obriga a vilã da Branca de Neve a abdicar da sua beleza física para praticar o envenenamento, transformada em Bruxa. Uma inseparabilidade do Mal e da Fealdade que encontra hoje uma superstição subversora, de sinal oposto: a de que a monstruosidade não é pensável salvo por acidente, com a infeliz carga que obriga às absolvições antecipadas. No mundo dos tratamentos de beleza popularizados e massificados a impermeabilidade originária a eles não pode ter direito de cidade.

A imagem é Branca de Neve, de Wen Hsu.

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14 comentários

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De Carlos Portugal a 13.10.2008 às 13:25

Muito bem observado, Caríssimo Amigo. A personagem seria, na realidade uma verdadeira «bruxa má». Mas não quereria o retratista plasmar a alma de tão horrenda criatura?
É que custa a acreditar que qualquer homem se sentisse atraído por um virago daqueles... A menos que fosse masoquista, ou adorador do horrível.

Abraço.
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De Profeta da Desgraça a 13.10.2008 às 15:40

Desde que ela não seja uma das próximas meninas das sextas...
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De Anónimo a 13.10.2008 às 16:24

Uma dessas nem o Cavaco queria a um metro dos sapatos...
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De Ana Vidal a 13.10.2008 às 17:08

Talvez seja uma espécie de "maldição ducal" que ataca de tempos a tempos, Paulo, sendo a vítima mais recente a pobre Duquesa de Alba, de Espanha... ;-)
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De Anónimo Veneziano a 14.10.2008 às 05:16

"Pobre"? Nem de espírito, com confessor 24 h por dia...
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De Paulo Cunha Porto a 14.10.2008 às 08:05

Caro Anónimo Veneziano,
a pobreza, aqui, vai como o Vencidismo, segundo Eça: a desilusão das aspirações. Não trocaria a Aristocrata muitos dos seus milhões poer uma carinha laroca?
E a necessidade desse auxílio espiritual não visará aplacar muito sentimento consequente menos bom?
Abraço
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De Anónimo Veneziano a 14.10.2008 às 13:13

I agree. Mas Sua Graça teve tempo e meios para disfrutar a vida como poucos. Que se submeta agora à democracia da temporalidade...
Outro abraço
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De Paulo Cunha Porto a 14.10.2008 às 14:09

Oh, sim, a da devastação, como é próprio das Democracias. Claro que para um crente o suplício da pobre Senhora não terminou, já que parece que na ressurreição final as almas reentram nos corpos que tiveram no apogeu. E o da Grande de Espanha, pelo que toca ao rosto, não era lá essas coisas.
Mais um, Caro Anónimo Veneziano
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De Ana Vidal a 14.10.2008 às 11:33

Tem razão, Anónimo Veneziano. A duquesa de Alba não tem nada de pobre: nem de espírito, porque é uma excêntrica bem-disposta, que sempre fez o que lhe deu na real gana. Tem mais títulos do que o rei e até do que a rainha de Inglaterra, pelo que é um embaraço protocolar ambulante com que, aliás, não se importa nada. E quanto ao confessor privado... as 24h horas de serviço estão absolutamente correctas: casou com ele! ;-)
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De Paulo Cunha Porto a 14.10.2008 às 14:12

Querida Ana,
creio que o nosso Erudito Amigo, o Anónimo Veneziano, usou aqui a expressão "Pobre de Espírito" no sentido técnico-Bíblico, daqueles que prosseguem a procura.
Beijinho
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De Mialgia de Esforço a 13.10.2008 às 17:19

Meu caro Paulo,

Eu, ignaro da obra de Massys, me confesso: não conhecia este quadro, mas arriscaria uma outra leitura. É sabida a atracção e o fascínio humanos pelo grotesco ao longo dos tempos, bem exemplificada no caso de John Merrick, o Homem Elefante, atracção circense da sociedade vitoriana e uma espécie de monstro domesticado. A discussão sobre o que é o Belo e o Grotesco é muito interessante e daria pano para mangas (“Quem feio ama, belo lhe parece”, etc.).

Posto este arrazoado, pergunto: não estaremos perante um extraordinário testemunho do fascínio do autor pelo grotesco?

A Duquesa é grotesca, mas o quadro é de uma beleza extraordinária -:)
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De Paulo Cunha Porto a 13.10.2008 às 17:43

Meu Caro Carlos Portugal,
custa realmente. Por isso, muito antes de estar generalizado o jargão psicológico e o diagnóstico psiquátrico que conhecemos, os autores do tempo diziam da fascinação sofrida pelos maridos dela que era uma doença, uma patologia, diríamos nós hoje.

Meu Caro Profeta,
no que me toca, tem compromisso convergente com a Sua preocupação. Quanto aos meus Colegas de Blogue, resta rezar para que o receio expresso não se traduza em uma das Suas visões antecipatórias.

Caro Anónimo das 16,24H,
acaba de me dar ideia para Sexta. Calma, confie em mim.

Querida Ana,
é bem verdade que a Duquesa dos nossos dias tem as feições de um talhe tosco. Mas compará-la a isto não será um tanto injusto?

Mei Caro Mialgia de Esforço,
é importantíssimo o cotejo que o Meu Caro Amigo faz da exibição do Belo e do Horrível. Pensemos no espectáculo oitocentista e dos primórdios do Século XX, maxine o circense, em que a crueldade levava a mostrar ao público tanto o deformadíssimo Homem-Elefante, como a mais deslumbrante Mulher do Tempo, Lola Montes (Ophuls, lembra-Se?), igualizada à anormalidade repugnante pela jaula que a rodeava.
Claro que nenhuma destas mostras pagas sobreviveria se não tivesse a contrapartida de um público magnetizado pelo insólito. Da mesma forma que o Pintor e os Maridos dela?
Beijinhos e abraços
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De Rudolfo Moreira a 14.10.2008 às 11:45

Falam muito do Mistério do Belo. Mas o Feio também tem o seu
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De Paulo Cunha Porto a 14.10.2008 às 14:17

Sim, Caro Rudolfo Moreira. E não pode residir no desinteresse, ao contrário do que queria Emerson, por todas as razões que o Amigo Mialgia adiantou. Em última análise, a decifração do enigma repousará também em nós, nas causas profundas que levam a uma reacção de repulsa. Mas é difícil a definição, pela dupla característica de que o cânone interiorizado se reveste - é tão variado nas nuances que permite, quanto impiedoso nas variações que segrega.
Abraço

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