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Quatro rapazes de Liverpool

por Pedro Correia, em 12.10.08

 

Tal como o crítico teatral que na estreia de Humphrey Bogart na Broadway vaticinou que aquele actor nunca iria longe, Mike Smith, responsável pela descoberta de novos talentos musicais na editora Decca, certamente se arrependeu mil vezes da péssima opção que assumiu no 1º de Janeiro de 1962. Foi o dia da estreia de quatro rapazes de Liverpool em estúdio: gravaram 15 canções numa sessão de uma hora – entre elas a balada Till There Was You, do musical The Music Man – e foram despedidos com frases de circunstância. “Obrigado por terem vindo. Depois dizemos qualquer coisa”, disse-lhes Smith após a sessão, que não o deixou entusiasmado. Dick Rowe, director de gravações da Decca, vaticinou que os grupos de guitarras estavam “a sair de moda” nesse início dos anos 60, a década de todas as transformações.

Smith e Rowe eram duros de ouvido. Os quatro rapazes de Liverpool – John Lennon, Paul McCartney, George Harrison e Pete Best – eram os Beatles, em marcha acelerada para se tornarem o grupo musical mais famoso de sempre. Em Outubro desse ano, já com Ringo Starr no lugar de Best, lançaram o primeiro disco, o single Love Me Do. O segundo, posto à venda em 11 de Janeiro de 1963, era o LP Please Please Me, com entrada directa no topo dos tops. Foi um sucesso instantâneo. With the Beatles, o segundo álbum, lançado em 22 de Novembro de 1963, tinha já 250 mil pré-encomendas à partida. Nesse Natal, alcançava a cifra de um milhão de cópias.
 
Beatles – A História Secreta, de Geoffrey Giuliano e Avalon Giuliano, conta-nos estes e muitos outros episódios relacionados com a década de carreira dos Beatles, desde os tempos em que actuavam em obscuras caves de Liverpool até ao abrupto anúncio da dissolução da banda, em comunicado de McCartney difundido a 10 de Abril de 1970. Uma década vertiginosa – cheia de sexo, drogas e rock n’roll.
“As pessoas falam da separação do grupo como se fosse uma tragédia. Ninguém diz que é extraordinário que tenham durado tanto tempo. Para mim, é espantoso, sendo a natureza humana o que é, que eles não se tenham separado antes, sob a pressão do superestrelato. Eles viviam numa prisão de ouro”, diz George Martin, o produtor dos Beatles, citado na obra.
Estas páginas permitem-nos perceber melhor o processo criativo dos Beatles e a forma como nasceram algumas das suas mais célebres canções. When I’m Sixty Four, composta por Paul em 1961 e oferecida ao pai no Natal de 1966, quando completou 64 anos. Julia, homenagem de John à mãe, que morreu atropelada – a única canção de todo o reportório dos Beatles interpretada só por Lennon. Ob-La-Di, Ob-La-Da (que significa “a vida continua” num dialecto da Nigéria), parcialmente composta pelo percussionista nigeriano Jimmy Scott, que entraria em litígio com McCartney por direitos autorais.
Não faltam outras revelações. Be-Bob-A-Lula, de Gene Vincent, foi o primeiro disco que Paul comprou. A mãe de Lennon era admiradora incondicional de Cole Porter – e passou este gosto ao filho. Lennon “inventou no momento o memorável solo de harmónica” de Love Me Do, para dar “um ar de blues ao tema”.
 
Quem ainda não sabia, fica a saber que houve outros Beatles, além dos quatro e do enjeitado Best: Tommy Moore, Tony Sheridan, Bill Nicol, o malogrado Stuart Sutcliffe. Mas deles (quase) não reza a história.
Memoráveis foram os encontros de John, Paul, George e Ringo com Bob Dylan (Nova Iorque, 28 de Agosto de 1964) e Elvis Presley (Bel Air, 27 de Agosto de 1965). Chegaram a tocar com o ‘rei’ de Memphis, numa improvisada sessão em casa dele que terá sido gravada. Esta gravação, a existir, será a mais valiosa da história da música moderna.
Apesar de todas as zangas, havia um elo profundo entre John e Paul – que, segundo os autores do livro, se deveu ao facto de ambos terem perdido as mães quando eram muito jovens. A última vez que se viram, em 31 de Março de 1974, foi ainda sob o signo da música. Tocaram juntos na casa de Lennon, na Califórnia, numa animada sessão que contou com as participações de Stevie Wonder e Harry Nilsson, entre outros. Uma sessão que também terá sido gravada – o registo permanece inédito.
Lucille, de Little Richard (ídolo da adolescência), foi o último tema que Lennon e McCartney tocaram juntos. Jamais voltariam a encontrar-se. Caía o pano, começava a lenda.
 
Beatles – A História Secreta, de Geoffrey Giuliano e Avalon Giuliano (Ulisseia, Lisboa, 2008, 310 páginas)
Classificação: ***

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7 comentários

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De l.rodrigues a 12.10.2008 às 21:30

Palavras que odeio: Quetro.
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De Pedro Correia a 12.10.2008 às 21:32

Eeheheh! Boa malha. Já emendado, meu caro.
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De Teresa a 13.10.2008 às 00:45

O meu agradecimento ao Paulo Cunha Porto, que me avisou deste post. :)

Ainda não li o livro, coisa vergonhosa para uma maníaca dos Beatles como eu. Mas detecto já um erro de datas: Please Please Me (o álbum) foi gravado numa sessão-maratona a 11 de Fevereiro de 1963 e foi posto à venda a 22 de Março.

Please Please Me (o single), esse sim, foi lançado a 11 de Janeiro de 1963.

E uma observação, que espero que o autor do post não leve a mal: repertório é mais correcto do que reportório...

P.S. O encontro com Elvis Presley (não é seguro que haja gravação, George foi peremptório a negar) foi no dia em que eu fiz cinco anos... :)


Um abraço a todos.
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De Pedro Correia a 13.10.2008 às 15:37

Olá, Teresa. Obrigado pelo seu contributo. E anotei a feliz coincidência...
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De Ana Vidal a 13.10.2008 às 17:32

Nem de propósito, Teresa: essa maratona que referes foi gravada no dia em que eu fiz seis anos. Será que os Beatles nos quiseram dar um presente?

Já agora, uma observação à tua observação: tanto quanto sei, ambas as formas - "repertório" ou "reportório" - estão correctas e podem ser usadas, embora o étimo latino seja "repertoriu", com "e".
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De Pedro Correia a 13.10.2008 às 19:03

Correcto, Ana.
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De Cristina Ferreira de Almeida a 13.10.2008 às 21:30

Gostei de ler.

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