Domingo, 12 de Outubro de 2008

 

 Óleo alusivo de George Bellows

 

12 de Outubro marca mais um aniversário passado sobre a execução de Edith Cavell, Vida exemplar pela renúncia ao estatuto de herdeira rica, viajada e fútil, para mergulhar no serviço e no sacrifício, antes ainda de se inventar o Destino que, colhendo-A, a tornou venerável.

Não alinho em tornar as autoridades militares Alemãs os maus da fita. A participação da Generosa Enfermeira na rede que permitiu a soldados aliados fugir estava muito para além das actividades consentidas pela cobertura da Cruz Vermelha a que pertencia. E a própria declarou que sabia a pena que arriscava. Mas nem pela simpatia dos neutros, nem pela propaganda Britânica que A endeusou, devemos esquecer que, de facto, existiu, Que foi real a recusa de um dos soldados do pelotão de fuzilamento em tomar parte no castigo, o que demonstra mais uma inépcia da contemporaneidade, ao transformar em carrascos homens comuns, contrariamente ao Ancien Régime, que confiava a macabra tarefa a profissionais mais coriáceos.

E que, mais do que o amor ao seu País numa Mulher, foi o afecto pela Humanidade inerente à profissão que escolheu que fez apiedar-se do sofrimento de uma geração atirada para trincheiras escusadas. As últimas palavras proferidas revelam-no: Entendo que o Patriotismo não é suficiente. Tenho de ser capaz de não alimentar ódio ou amargura contra quem quer que seja.

A canção com que ganhou coragem na véspera do dia fatal era a de Henry Lyte em face de um agonizante e rezava assim:

 

 

Abide with me: fast falls the eventide;
The darkness deepens; Lord, with me abide!
When other helpers fail, and comforts flee;
Help of the helpless, oh, abide with me!

Swift to its close ebbs out life's little day;
Earth's joys grow dim, its glories pass away;
Change and decay in all around I see;
O Thou who changest not, abide with me!

Hold Thou Thy cross before my closing eyes;
Shine thro' the gloom, and point me to the skies;
Heav'n's morning breaks, and earth's vain shadows flee;
In life, in death, O Lord, abide with me

 

Se aprendermos a render o preito devido aos que foram melhores do que nós, não estaremos a ser um bocadinho menos maus?


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publicado por Paulo Cunha Porto
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10 comentários:
De PALAVROSSAVRVS REX a 12 de Outubro de 2008 às 15:44
Pois, Paulo, mas a igualização dos direitos extrapolou uma igualização generalizada que faz com que poucos reparem e rendam preito a algumos devido à abnegação e ao sacrifício revelados em nome de valores de uma nobreza e de uma validade a toda a prova.

São tempos de grande cegueira: o preto está reservado às estrelas do fútil.


De Ana Vidal a 12 de Outubro de 2008 às 16:06
Estamos, Paulo, sem dúvida.
São estes os que eu mais respeito e admiro: os que põem a humanidade acima de um patriotismo que é, frequentemente, um excelente alibi para cometer as mais diversas atrocidades e injustiças.


De Cristina Mendes Ribeiro a 12 de Outubro de 2008 às 17:50
Sim, exemplos destes são para não esquecer, e quando somos tentados a desacreditar na Humanidade, porque vemos tanta mesquinhez, cegueira, como bem diz Joshua, e desilusão, é para eles que temos de olhar.
Beijo


De Paulo Cunha Porto a 12 de Outubro de 2008 às 18:56
Meu Caro Joshua,
é, a cultura dominante sente-se desconfortável com os Exemplos Admiráveis. Nada que não seja conhecido de todas as épocas de decadência da História.

Querida Ana, claro que o Patriotismo também deu muitas abnegações notáveis e também está presente no instante decisivo da acção de Cavell. Mas pensar um passo além é sempre uma superação.

Querida Cristina,
a época não ajuda, é certo, Julgo que as palavras finais da supliciada são do mais conforme à Mensagem Evangélica; e que estarão para lá do que eu, por exemplo seria capaz.
Beijinhos e abraço


De ATAEJ a 12 de Outubro de 2008 às 19:12
Caro Paulo, prevaleço-me da incontroversa oportunidade deste post, para o baptismo da minha sigla, que o Paulo apadrinhou :):):):)


De Paulo Cunha Porto a 12 de Outubro de 2008 às 21:12
Querida ATAEJ,
que alegria saber que a sugestão não desagradou! E ninguém pode dizer que seja designação falha de originalidade!
Quanto ao postal, triste é que o muito sentido que faz no Presente seja por contraste com o que percepcionamos...
Beijinho


De fugidia a 12 de Outubro de 2008 às 22:19
Sim, Paulo, espero que sim.
Embora o meu amigo, com mais este belíssimo post, seja muito menos mau do que eu... e digo-o a sério.
Um beijinho.


De Paulo Cunha Porto a 13 de Outubro de 2008 às 12:02
Pronto, lá está o afecto da Fugidia a fazer-me pavonear com as penas alheias. As de Edith Cavell, no caso.
Beijinho


De fugidia a 13 de Outubro de 2008 às 23:50
Nada disso, meu querido amigo!
Beijinhos.


De Paulo Cunha Porto a 14 de Outubro de 2008 às 08:06
Sempre Magnânima!
Beijinho


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