O debate
A pior maneira de analisar um debate político é ter o desejo irreprimível de que um dos lados vença. É por isso que discordo desta análise e me espanto com esta outra estranha maneira de ver a realidade. No que me diz respeito, não voto e não tenho preferência.
O debate McCain-Obama de ontem pode ter dado pequena vantagem a Obama, pois o democrata partia com avanço em relação ao adversário e terá talvez consolidado essa margem. Sem inversão da tendência nos Estados divididos, Obama venceu, mas ainda não sabemos, pois a opinião que conta é a do indeciso no Ohio e no Colorado, não é a de Ana Gomes, a de Daniel Oliveira ou a minha.
O que se viu foi um Obama defensivo e um McCain a sublinhar a sua experiência e, em contraste, referindo a inexperiência do rival. Obama concordou várias vezes com McCain e este tentou fazer com que o senador mais jovem parecesse um júnior. No plano de salvamento financeiro, nenhum foi claro; na economia, havia diferenças: o republicano quer cortar despesas e reduzir impostos; o democrata pensa em aumentar impostos para os ricos e cortar para os pobres, tendo reconhecido que poderia não ter dinheiro para manter programas prometidos.
Nos assuntos internacionais, a única diferença foi o Iraque. A ideia forte da campanha de Obama é “mudança”, mas sinceramente não se percebe em quê. Caso seja eleito, os entusiastas vão levar com um Presidente que continuará a política externa americana. A promessa de uma data para sair do Iraque não poderá ser cumprida, o reforço no Afeganistão será também à custa dos europeus e eu não gostava de ser paquistanês ou inquilino do Kremlin. Só uma pessoa poderá dormir mais descansada: José Luis Zapatero. O discurso de Obama foi sempre moderado, mesmo do ponto de vista de um republicano: ele falou várias vezes em Ossama Bin Laden e foi McCain quem mencionou Guantánamo, numa de várias tentativas de se demarcar de George Bush.
Os candidatos estavam nervosos e com pouco sentido de humor. Nenhum teve uma tirada memorável.
Empate? Talvez. O debate foi um morno zero a zero. A mim é que ninguém me apanha em outra noitada às duas da manhã; e se me apanharam nesta foi por causa do arraial no técnico, que uma luminária da câmara municipal decidiu permitir, para inferno dos moradores de um bairro inteiro de Lisboa.
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