Quinta-feira, 4 de Setembro de 2008
A nova estrela do Partido Republicano

Nasceu uma nova estrela política no Partido Republicano dos Estados Unidos: a intervenção de Sarah Palin na convenção de St. Paul, esta madrugada, desfez as dúvidas que restavam. A governadora do Alasca exibiu confiança, autenticidade, consistência. Agrupou as bases do partido, que a vitoriaram sem reservas, e trouxe à campanha de McCain o suplemento de carisma que lhe faltava. Ela tem um atributo cada vez mais invulgar e até por isso cada vez mais valorizado na vida política: algo a que no cinema se chama star quality. Não se via ninguém assim nas hostes republicanas desde Ronald Reagan, um conservador que alargou consideravelmente a base eleitoral do partido porque somava à eficácia do discurso uma transbordante simpatia natural a que nunca parecia faltar uma dose considerável de convicção. O democrata Barack Obama tem também esta star quality, que lhe permitiu cativar muitos jovens e um sem-número de americanos há muito desmobilizados da política. Mas o caso de Palin é ainda mais surpreendente porque, ao contrário de Obama, que anda em campanha há 19 meses, ela mal teve tempo de estudar o papel de candidata: John McCain escolheu-a há poucos dias e para a maioria dos eleitores ela era até agora totalmente desconhecida.

Com algumas frases do discurso, muito bem estruturado e articulado ("Alguns servem-se da mudança para promoverem a carreira, McCain serve-se da carreira para promover a mudança"), um sorriso extremamente fotogénico e um apelo vibrante ao tradicionais valores americanos, sem repetir ladainhas do passado, ela demonstrou não estar minimamente abalada pelos inúmeros artigos demolidores publicados nos últimos dias na imprensa americana. Como já aqui escrevi, se queriam renovação na política dos EUA, ela aí está - com Sarah Palin. A primeira mulher a concorrer à vice-presidência pelo campo republicano.

A campanha está relançada, permanece tudo em aberto. Comparando o discurso de Palin com o do seu oponente Joe Biden, na recente convenção democrata, a diferença é notória - a favor da governadora do Alasca. Cada vez mais me convenço que Obama cometeu um clamoroso erro ao não escolher Hillary Clinton para o acompanhar na corrida à Casa Branca. Mais que nunca, serão as mulheres a decidir esta eleição.



publicado por Pedro Correia
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19 comentários:
De JMI a 4 de Setembro de 2008 às 15:28
Foi um bom discurso para o eleitorado republicano, sem dúvida, a senhora é de facto muito fotogénica, com muito bom aspecto, mas convém nao esticar muito os elogios...

Nao há uma única linha naquele discurso que tenha sido escrita ou pensada por ela... simplesmente botou discurso para fora a partir do teleponto, que foi brilhantemente escrito pelos estrategas de McCain.

Agora sem dúvida que a prestacao foi brilhante. De facto nasceu uma estrela no partido Republicano - a pergunta é: nao estará a ofuscar demasiadamente McCain e as mensagens que quer transmitir...?

E a boataria ainda nao acabou. Palin está a ser investigada por uma comissao de ética no seu Estado.
Para nao referir que Obama tocou esta semana pela primeira vez nos 50% nas sondagens...


De fernando antolin a 4 de Setembro de 2008 às 17:20
Meu caro,não me custa acreditar que os EUA fiquem bem servidos com Obama,pelo menos há menos argumentos (talvez!!),para lhes "bater",mas tem a certeza que Obama,Biden e McCain escrevem os seus próprios discursos??


De JMI a 4 de Setembro de 2008 às 17:30
Claro que os candidatos democratas tb não escrevem os seus discursos. Mas tenho a certeza que contribuiram mais que Palin para a sua redacção...

Em todo o caso, não retiro mérito a Palin pela noite de ontem. Para "principiante" teve uma postura impressionante, e vai dar um novo impulso à campanha republicana, embora ofuscando McCain - o que poderá ter efeitos perversos...


De clara martins a 4 de Setembro de 2008 às 15:37
Também acho que Obama fez mal ao não escolher Clinton, mas, mesmo assim, não tenho dúvidass que Obama vai ganhar.


De Sérgio a 4 de Setembro de 2008 às 16:13
Até parece que é candidata a Presidente e não a Vice.
Acho o seu optimismo em relação à Sra.Palin um manifesto exagero e um juízo equivocado das putativas qualidades da senhora.
Não me parece ser grande escolha e a única razão que esteve na base dessa decisão foi a hipótese teórica de roubar votos que tinham ido para Hillary Clinton nas primárias democratas.


De Anónimo ao Sul a 4 de Setembro de 2008 às 17:44
Meu caro Pedro, já agora deixe-me levantar uma questão: será que a Hilary Clinton aceitaria ser vice de Obama ? E Barak Obama não terá antes tentado convencer a senhora Clinton a acompanhá-lo, levando tampa? Como não temos respostas, também não podemos dizer que o afro-americano cometeu um erro.


De Pedro Correia a 4 de Setembro de 2008 às 18:36
Meu caro, a Hillary estava pronta - e os 18 milhões de democratas que votaram nela nas primárias não esperavam outra coisa. Obama pensou compensar o sau défice de "respeitabilidade" e de conhecimentos de política externa escolhendo um dos veteranos do Senado, que conhece pouco mais do que os corredores do poder em Washington, como seu parceiro na rota da "mudança". Achei um erro desde o início, e reafirmo. Hillary, que perdeu à tangente, seria a vice ideal. Foi isso, aliás, que fez Kennedy em 1960, escolhendo para seu vice Lyndon Johnson, que ficou em 2º nas primárias democratas desse ano.


De Margarida Pereira a 4 de Setembro de 2008 às 18:42
Insisto na tese do 'backstage' - e se ele a escolheu? E se ela recusou? E se...?
O que verdadeiramente se passa nas 'escolhas' só será sabido (se o for) daqui a uns anos, através dos livros de memórias. Ou daqui a uns meses, via 'mentideros'.
Há muitos sapos a serem engolidos, seguramente.



De JMI a 4 de Setembro de 2008 às 20:21
É sabido que Hillary Clinton se recusou a ser candidata a vice-presidente - e grande parte dos conselheiros de Obama sempre o pressionaram para que não convidasse Hillary, pois seria contrário à sua mensagem de mudança.
As duas campanhas mesmo depois de declarada publicamente a desistência de Clinton continuaram a trocar mimos entre si. Antes da Convenção Democrata houve uma grande tensão e expectativa sobre o comportamento dos Clinton em relação a Obama - que acabou por correr bem.

Em relação a Joe Biden - bom... se ele é apenas um veterano que "conhece pouco mais do que os corredores do poder em Washington" então não há nenhuma pessoa naquele País que sirva para o cargo!!
Biden já tinha sido candidato presidencial nas primárias democratas em 1988, voltou a sê-lo agora, já fez visitas de Estado a dezenas de países estrangeiros, a zonas de conflito, fala tu-cá-tu-lá com chefes de estado estrangeiros, é efectivamente um dos senadores + influentes dos EUA. Não traz mudança a Washington - muito bem - e McCain senador há 20 anos... ?


De Pedro Correia a 4 de Setembro de 2008 às 20:53
Meu caro, Joe Biden candidatou-se duas vezes à Casa Branca, com resultados desastrosos: em 1988 viu-se forçado a abandonar a corrida depois de ter sido acusado de plagiar nos seus discursos frases inteiras de intervenções públicas do então líder trablhista britânico Neil Kinnock; da segunda, em Janeiro deste ano, recolheu menos votos populares do que Sarah Palin na vilória do Alasca onde foi 'mayor'. Não traz um só voto suplementar a Obama.


De JMI a 5 de Setembro de 2008 às 10:18
Tenho pena de nao ter podido responder + cedo, mas aqui vai:
Biden nao traz mais votos a Obama - certo - nem as suas candidaturas presidenciais um sucesso. O que quis dizer é que Biden é um nome respeitado, domina a política externa norte-americana, e compoe bastante bem o ticket democrata. Nao acrescenta um voto, mas tb nao retira nenhum.
Enquanto que Palin atrai os evangélicos e conservadores sociais, e dispersa os Independentes - que seriam fundamentais para uma eleicao de McCain.


De Margarida Pereira a 4 de Setembro de 2008 às 18:21
Se Sarah Palin é uma semi-desconhecida nos EUA, imaginem o quanto o é por cá.
E se imaginamos que os candidatos não têm tempo (nem cabeça) para redigir discursos, podemos, pelo menos, acreditar que não lerão algo com o qual estejam em desacordo (espera-se...).
E ainda, face à complexidade de que umas eleições desta importância e magnitude se revestem, o que sucede em bastidores deve ser tanto ou mais (provavelmente muitíssimo mais) do que aquilo que está sob os holofotes.
É um jogo tremendo.
É uma encenação e um pedaço de História que afecta não só os americanos, como o mundo inteiro.
A todos só resta especular, se houver interesse (e há-o), apostar, se houver consequência (e há-a) e desejar, havendo bom senso.
E bom senso é o que é o mais desejável.
No limite, o lado de todas as pelejas está definido desde a génese daquela nação.
As nuances são acessórias. Folclóricas. Pouco fundamentais.
O caminho é um.
É por esse que devemos torcer.


De O Réprobo a 4 de Setembro de 2008 às 18:39
Quanto à questão do interesse de Hillary pela candidatura a vp, ela própria se reafirmou muito honrada em servir nesse posto, cxaso viesse a ser escolhida por Obama e, depois, pelos eleitores, ao contrário de outro vice-presidenciável, o Governador do Ohio Ted Strickland, que se excluiu da liça com a citação do General Sherman: "se escolhido, não concorrerei, se nomeado, não aceitarei, se eleito, não servirei".

É preciso de uma vez por todas termos presente sobre o que versa a investigação da legislatura estadual a Palin. Um seu ex-cunhado foi, por autoridades não dependentes da Governadora, suspenso da sua actividade como agente de segurança, após ter proferido ameaças e exercido violência sobre um seu enteado, sobrinho da política. Um telefonema de um membro do gabinete dela sugeriu ao Comissário Estadual da tutela que a inadequação do comportamento não só justificaria a suspensão, mas, inclusivamente a demissão. O que se investiga, com a concordância da visada, é se esteve directamente ligada à "pressão", o que poderia configurar falta de imparcialidade. É muito pouca coisa. Claro que não somos uns anjinhos, o assessor não ia tomar uma iniciativa de cujo fundo ela discordasse, mas, não se comprovando ordem directa, pode sempre defender-se, dizendo que faz parte do seu trabalho apontar as sanções administrativas mais adequadas a funcionários, mesmo quando esteja envolfida a família da chefe.

Agora, Pedro, não concordo é com os lucros que Obama retiraria da escolha de Clinton. Para além de poderem pegar em todas as aleivosias que o casal do nome disse dele, achas mesmo que o Bill se conteria num papel de haaaam, Segundo-Cavalheiro?
Abraço


De Pedro Correia a 4 de Setembro de 2008 às 20:54
Pois. O Obama não quis correr esse risco. Mas a minha tese, já de há vários meses, é que sem a Hillary ele não ganha. Cá estaremos para ver.


De Anonimo a 4 de Setembro de 2008 às 18:44
Apenas um comentário não politico:

É impressão minha ou a Senhora faria sucesso numa Sexta-feira Corta-Fitense ?

Parece-me a mim....


De Pedro Correia a 4 de Setembro de 2008 às 20:55
Essa foi profunda, cara anónima. O seu discernimento merece toda a minha consideração.


De Anonimo a 5 de Setembro de 2008 às 08:39
Cara anónima ? Eu assinei anónimo.

Meu caro, está-se-me cá a parecer que está a precisar de novas ferias no Algarve em companhia da Sra. Palin.





De Joana a 4 de Setembro de 2008 às 23:27
Deve haver aqui um profundo desconhecimento do que é Joe Biden e do que representa ele naquele país. Só pode. Estou mortinha por ver Palin a falar de improviso numa das mil entrevistas que vai ter de dar ou por ver o debate entre ela e Biden. Estar a comparar-se Sarah Palin com Biden, para já (que Palin ainda não tem opinião conhecida sobre bem nada - economia, política externas, segurança nacional), é um insulto para o segundo. Tem um caso de plágio no curriculo? Tem, há mais de 20 anos, e era público da América. E depois disso afirmou-se como um senador de eleição. Palin em poucos dias de aparato público tem um caso de contradição evidente (na ponte de nenhures, em que mentiu declaradamente) e tem um processo sobre abuso de poder a decorrer.


De Joana a 4 de Setembro de 2008 às 23:32
E gostei do toque de classe no discurso de Palin, a ridicularizar o trabalho de Obama enquanto “community organizer”. Fica-lhe bem.


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