Sexta-feira, 30 de Novembro de 2007
Friday's special

Pouco depois de Liduvina ter saído, entrou o cão.
Vem cá, Orfeu – disse o dono – vem cá! Pobrezito, que já tens poucos dias para viveres comigo! Ela não te quer lá em casa. Mas aonde te vou largar? que vou fazer de ti? que serás tu sem mim? És capaz de morrer, eu sei! Só um cão é capaz de morrer quando não vê o seu dono. E eu fui mais que o teu dono, fui o teu pai, o teu deus! Ela não te quer lá em casa, afasta-te de junto de mim! Porque tu és o símbolo da fidelidade, estorvarás lá em casa? Quem sabe!... Acaso um cão surpreende os mais secretos pensamentos das pessoas com quem vive e embora se cale... Mas eu tenho de me casar, não tenho outro remédio senão casar-me... De contrário, sabes, nunca mais deixo de sonhar! E tenho de despertar.
Mas porque me olhas desse modo, Orfeu? Parece que choras sem lágrimas... Queres dizer alguma coisa? Vejo que sofres por não poderes falar. Mas depressa me apercebi que tu não sonhas! Tu é que me estás a fazer sonhar, Orfeu! Porque é que existem cães, gatos, cavalos, bois, ovelhas e animais de toda a espécie e sobretudo domésticos? Na falta de animais domésticos para descarregar o peso da animalidade da vida, o homem podia chegar à sua humanidade? Se o homem não tivesse domesticado o cavalo, não andaria uma parte da nossa linhagem às costas da outra metade? Sim, é a vós que se deve a civilização. E também às mulheres. Mas não será a mulher outro animal doméstico? E se não houvesse mulheres, os homens seriam homens? Ah, Orfeu, vem de fora quem da casa te põe fora!
E apertou-o contra o peito e o cão, que parecia estar de facto a chorar, lambia-lhe a barba. – Miguel de Unamuno in Névoa
De filomeno2006 a 4 de Dezembro de 2007 às 18:52
Dócil can lusitano
De teresa ribeiro a 30 de Novembro de 2007 às 22:33
Caro anónimo da 1.43. Faço-lhe notar que a maioria dos textos que tenho transcrito aqui são da autoria de homens... Em todo o caso acho que está a exagerar quando diz que são sempre demolidores. Longe disso!
De Anónimo a 30 de Novembro de 2007 às 13:43
Ai a menina escolhe sempre uns textos tão demolidores para a nossa raça (não é da canina que estou a falar)
De Anónimo a 30 de Novembro de 2007 às 12:31
Só gosto de línguas de gato.
De Anónimo a 30 de Novembro de 2007 às 12:11
Qual deles o mais fofo!
De Anónimo a 30 de Novembro de 2007 às 11:49
Bravo! Desta vez a Teresa Ribeiro esmerou-se com a parte visual. Continue, continue, está no bom caminho!
De j.c. a 30 de Novembro de 2007 às 11:46
Um cão chamado Orfeu? Seria o do Fernando Pessoa? Mas ele não casou...
De Anónimo a 30 de Novembro de 2007 às 11:36
Afasta de mim essa língua!
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