Terça-feira, 30 de Janeiro de 2007
O fogo e as cinzas

VIAGEM A ITÁLIA, 1954. Um casal britânico ruma a Itália para vender uma propriedade de um falecido tio dela. Da propriedade avista-se a baía de Nápoles e a massa imponente do Vesúvio. Dez anos antes registara-se a última erupção digna de nota do vulcão, entretanto adormecido – metáfora perfeita para caracterizar a relação conjugal de Katherine e Alexander Joyce. “Nos teus olhos só vejo cinismo e ironia”, atira-lhe ela, enquanto ele deplora o “ridículo romantismo” dela. Logo no primeiro diálogo que travam, algures numa estrada a cem quilómetros de Nápoles, é fácil detectar os sinais de desgaste do casamento, que dura há oito anos. “É a primeira vez que estamos sozinhos desde que casámos”, lembra Katherine (Ingrid Bergman) a Alex (George Sanders), que reconhece serem “estranhos um para o outro”. Tão estranhos que dormem em quartos separados e não parecem partilhar gostos de espécie alguma. Estranho, para eles, é também aquele país meridional, inundado de luz solar, onde os pares se enlaçam, as brigas por ciúme são frequentes e há sempre uma canção romântica a irromper em fundo. É o país que encantou Byron, Ezra Pound e um jovem poeta amigo de Katherine, Charles Sutton, morto anos antes, vítima de tuberculose, depois de lhe dedicar uns versos que jamais se lhe apagaram da memória.
A ficção imita a vida real – ou será o contrário? O casamento entre Ingrid Bergman e Roberto Rossellini estava também à beira do fim quando o cineasta de Roma, Cidade Aberta rodou esta belíssima Viagem a Itália, uma das suas cinco longas-metragens que a actriz sueca protagonizou. Distantes pareciam já os tempos em que a bela Ingrid, deusa de Hollywood, trocara a Califórnia por Roma, rendida à explosão do cinema neo-realista que tinha Rossellini como mentor. Os americanos não lhe perdoaram a traição, os italianos sempre a trataram como estrangeira. E no entanto Ingrid era a força motriz daquela união com Roberto – uma “criança grande”, como ela lhe chamou nas suas memórias. Também no filme é Katherine quem guia: assim a vemos logo nos momentos iniciais. Ela de olhos fixos na estrada, ele de olhos fechados. À mulher, à vida, àquele país onde o “aborrecimento e o barulho andam a par”.
“É necessário que o cinema ensine as pessoas a conhecerem-se”, costumava dizer Rossellini, cultor de uma arte sem artifícios. Não conheço outro filme que exiba com tanta sensibilidade as surdas tensões capazes de abalar qualquer casamento, proporcionando o mais delicado dos retratos de uma mulher apostada em ressuscitar o amor. A mesma que, vendo circular nas ruas de Nápoles várias grávidas e jovens mães empurrando carrinhos de bebés, fala deste modo, com o coração magoado ao pé da boca: “O erro do nosso casamento foi não termos filhos.” Amarga ironia: foi ela quem não quis tê-los.
Viagem a Itália – uma obra que “reconcilia o quotidiano com o eterno”, no dizer de Claude Beylie – está cheia de cenas inesquecíveis. A do breve encontro entre Alex e a triste prostituta que planeara suicidar-se na noite anterior. A magnífica sequência do regresso dele a casa, quando Katherine finge estar adormecida e toda a ambiguidade de sentimentos conjugais se revela ao espectador naquele admirável jogo de luz e sombras. A visita às ruínas de Pompeia, onde ambos caminham sempre separados, sem o mínimo contacto físico, ao encontro dos ossos calcinados de um par surpreendido num abraço eterno, dois mil anos antes, pela lava do Vesúvio. “Encontraram a morte juntos”, surpreende-se ela. O amor também pode ser imortalizado assim.
É em Pompeia que Ingrid e George parecem tornar-se finalmente conscientes de que “a vida é breve” (diz ela) e “por isso temos de aproveitá-la” (diz ele). Mas a ressurreição do fogo que julgavam extinto ocorre no mais imprevisto dos cenários: no meio de uma procissão em honra da madonna que atrai milhares de napolitanos.
“Como podem acreditar nestas coisas? Parecem crianças!”, admira-se o inglês que esconde sempre as emoções.
“As crianças são felizes”, observa a mulher, que acredita em milagres.
E é num milagre que culmina este filme que nos fala sempre da terra enquanto nos mostra o céu. Separados pela torrente da multidão, Alex e Katherine acabam por cair nos braços um do outro. É afinal possível que das cinzas renasça o fogo que arde sem se ver? “Creio porque é absurdo”, dizia Graham Greene. Para quem crê, todos os vesúvios se movem. A qualquer tempo, em qualquer lugar.
Viagem a Itália foi exibida sábado, na Gulbenkian, no ciclo "Como o Cinema Era Belo". A exibir na Cinemateca dias 23 (19 horas) e 27 de Fevereiro (22 horas), no ciclo Rossellini.


publicado por Pedro Correia às 20:52
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6 comentários:
De Pedro Correia a 31 de Janeiro de 2007 às 23:14
Terei todo o gosto nisso quando tiver a maçada de declinar a sua identidade. Caso contrário sou capaz de dirigir-me à pessoa errada e não quero correr esse risco.


De Anónimo a 31 de Janeiro de 2007 às 20:20
Outra coincidência: A Sam, do Serendipity, também escreveu sobre esse filme exibido na Gulbenkian. Estou a ver que ando a perder muita coisa por não ir lá aos sábados de manhã... Quando é que me convida, Pedro?

Ass: The girl next door


De Pedro Correia a 31 de Janeiro de 2007 às 19:16
Obrigado, Hot Legs. Obrigado também, Cristina: que coincidência! De facto, Hugo, é um dos filmes mais modernos do cinema. Talvez o primeiro dos grandes filmes modernos. E concordo contigo: Ingrid Bergman é insuperável em "Stromboli", um filme de que também me apetece falar um dia destes.


De Hugo Alves a 31 de Janeiro de 2007 às 11:47
Um dos filmes mais modernos do Cinema. Graças a ele, pudemos antever muitos dos caminhos que Fellini, por exemplo, viria a explorar. Apesar de tudo, falta-lhe a fogosidade de Stromboli. Ingrid Bergman, aí, é absolutamente insuperável.


De Cristina Ribeiro a 30 de Janeiro de 2007 às 23:02
Coincidência,Pedro:no sábado comprei,na Fnac do Porto,o DVD,que vi no domingo!Faz aqui uma excelente análise do filme.


De hot legs a 30 de Janeiro de 2007 às 22:21
Melhor, só se o tivesse escrito em italiano...


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