Quinta-feira, 24 de Julho de 2008
Heróis e vilões: um retrato português

1. Um casal que anda há cinco anos a desrespeitar sucessivas ordens de sucessivos tribunais sequestrando uma criança que ficou irregularmente à sua guarda é levado em ombros pela opinião “esclarecida” e transformado em modelo de cidadania. Inventa-se até um novo conceito, inexistente na lei – o de “pais afectivos” –, para enaltecer ainda mais este edificante modelo de fuga permanente à justiça.
2. Um jovem que anda há cinco anos a procurar obter por todos as vias legais a tutela sobre uma filha que ninguém nega ser sua, e que viu todas as instâncias jurisdicionais confirmarem esta pretensão, é transformado em vilão pela mesma opinião “esclarecida” e vaiado na praça pública como se estivesse a cometer um acto ilícito. Na mesma sociedade, recorde-se, onde o conceito de paternidade responsável tantas vezes – demasiadas vezes – é mera letra morta perante a sistemática indiferença de gregos e troianos.
3. A advogada do casal – que chegou a ser transformada também em heroína de uma causa justa – abandona subitamente este patrocínio. E, num país onde tudo se sabe, de repente parece que ninguém quer indagar quais foram os motivos de tão surpreendente decisão.
É tempo de pararmos para tentar reflectir um pouco no meio desta gritaria “comunicacional” que demoniza uns e notabiliza outros. É tempo de percebermos quem transforma quem em herói e em vilão. E como. E porquê.
E para quê.
 
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NOTA: Este texto foi originalmente publicado aqui, em resposta a um simpático convite do Rui Castro, do 31 da Armada. Decidi republicá-lo agora por manter toda a actualidade.

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publicado por Pedro Correia
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24 comentários:
De cristinamaf a 24 de Julho de 2008 às 23:18
Acho que é no que dá pretender fazer-se justiça fora dos tribunias, com emoção pura e dura ( e, claro, absolutamente obscura).


De tiago menor a 25 de Julho de 2008 às 01:15
As coisas da vida não são pretas, nem brancas - assim, de forma radical.
Penso que haverá razões de ambos os lados. Só conheço a questão - mal, evidentemente - pelos relatos dos media, como sempre, tendenciosos e mal aprofundados, ao sabor de subjectividades ou interesses...
Julgo que ambas as partes terão razões - um, porque é o pai biológico (mas tratou sempre bem a filha? E é pessoa confiável?); o outro, o casal que a tem consigo e a tem educado, dado-lhe carinho e conforto, quiçá melhor que os pais biológicos...

Mas .. e por que razão a criança vive com casal do Sr. sargento e mulher? Quais os motivos que estão na base deste facto?

É preciso conhecer profundamente toda a situação, sopesar bem tudo, para, depois, se poder emitir uma opinião suficientemente segura... Se é que se podem emitir opiniões "seguras" em questões de sentimentos humanos.
Só Deus consegue perscrutar os corações...


De Anónimo a 25 de Julho de 2008 às 02:17
Pedro Correia
Valha-me Deus! Como é que você agora acertou. Sim senhor, muito bem, pensei que só eu é que achava que era uma vigarice e uma estória mal contada dos pais adoptivos. Porra até que enfim que mais alguém percebeu o embuste daquele processo. Realmente o que o casal fez e desfez com a criança e as decisões dos tribunais que nunca foram cumpridas no devido tempo, porque se o fossem não havia drama para a criança, pois já lá vão 4 a 5 anos, o que quer dizer que a tal afectividade se criou (bem sabemos como) durante este tempo todo. Mais, um militar da GNR (salvo erro) andou anos a esconder a criança, como é que podemos confiar num agente da autoridade que escondeu a verdade de um tribunal. Meu caro tem toda a razão, isto é tudo uma farsa um embuste, com figuras nacionais e publicas a dar a mão a esta palhaçada. De facto “quando os lobos julgam a justiça uivam” onde é que já ouvi isto. Vejam bem a onde nós já chegámos.
Pronto, você só tem é um azedo aos comunas, será trauma de infância, ou alguma situação mal resolvida, se é isso, compreendo a sua mágoa, mas tudo se há-de resolver vai ver. B M A


De Ana Costa a 25 de Julho de 2008 às 10:00
Eu tambem não compreendo o que se tem passado,mas na minha opinião fica mais uma vez provado que quem tem amigos ricos e influentes com acesso á comunicação social,safa-se sempre.Efectivamente há uma justiça para ricos e outra para pobres.


De pepe a 25 de Julho de 2008 às 10:21
Também se podem ordenar os factos de outra maneira:
1) um casal "adopta" uma criança recém-nascida (creio que era)
2) resistem a entregar a criança quando são intimados a faze-lo
3) com isso têm conseguido adiar a entrega ao longo de anos (seis?)
4) enfrentam a prisão, os tribunais, a possibilidade de perderem empregos
5) arriscam-se a pagar e pagam uma indemnização maior do que as que tenho conhecido por homicídio (involuntário ou não)
conclusão: ou são cínicos calculistas ou completamente loucos.

Independentemente do problema parental strictu senso, coloco-me a questão: do ponto de vista emocional, existencial, etc, como ficará uma criança de 6 anos sujeita a ser retirada do seu meio familiar para ser entregue a um (quase) desconhecido?

Já o rei Salomão tinha um modo peculiar de resolver estas questões.


De Anónimo a 25 de Julho de 2008 às 12:26
faz falta ver as coisas por outro prisma e este texto é fantastico por isso. mas e a criança?! É só o que pergunto. Vale a pena "andarmos" nisto durante anos e fazê-la andar neste puxa e estica de um lado para o outro?! A justiça terá de ser sempre cega?! Quem ama não é capaz de abdicar?! MC


De Manuel Leão a 25 de Julho de 2008 às 16:39
Imaginemos o mesmo problema com outro cenário. Alguém rapta uma criança de tenra idade. Ela vive feliz quatro ou cinco anos com os raptores. Um dia são descobertos. A criança não conhece os pais verdadeiros. E a pergunta é: qual é o supremo interesse da criança?
Os argumentos do Sargento e de quem o defende (televisão, jornais, etc) não passa, lá bem no fundo, do chamado "facto consumado". Porreiro pá!
O que há, neste caso, além da pressão sobre os tribunais, que, aliás, tem resultado, é o facto de estar num dos lados um sargento e no outro um pobre-diabo. É quanto basta.
E, depois, acham estranho que não se acredite na justiça. Estranho seria se acreditássemos. Era sinal que, além de infelizes por ter de assistir a isto, ainda por cima seríamos burros.


De Carlos Semedo a 25 de Julho de 2008 às 12:05
Se há "herói" no meio desta confusão toda, acaba por ser a criança, pois não deve ser nada fácil conseguir estabilidade emocional com um cenário destes.
Contudo, acho a ideia de se considerar um sequestro aquilo que o casal fez relativamente à criança, um perfeito disparate. Um sequestro tem premissas totalmente diferentes e tenho a clara percepção de que o que fez muita falta foi um bom juiz ou juíza logo no arranque do processo. Alguém (ou um colectivo) com preparação e maturidade para analizar a situação. Neste momento e após uma exposição mediática tão poderosa, qualquer decisão gerará insatisfação. Espero que, no final, a mais satisfeita seja o herói, neste caso uma heroína.


De Fernanda Valente a 25 de Julho de 2008 às 14:19
Os acontecimentos que têm rodeado este processo são significativos da permeabilidade da Justiça portuguesa a pressões exteriores, tanto da opinião pública, por sua vez influenciada pelos "media", como de figuras de destaque da nossa sociedade.
O regime de ditadura já acabou há trinta e poucos anos, mas subsistem as mentalidades "caciquistas" (as que pensam que estão acima do próprio poder instituional, as que se regem pelos seus próprios padrões de moralidade) essas são bem mais difíceis de desenraizar.
E depois, temos a actuação propriamente dita dos agentes judiciários que deliberam na base dos "dois pesos e duas medidas".
A menina, na minha opinião, deveria ter sido imediatamente retirada da influência dos pais adoptivos e entregue a uma família de acolhimento, pelo menos até que as partes chegassem a acordo - por ex., numa espécie de tutela partilhada - ou então, até ser definitivamente entregue ao pai, a pessoa a quem reconheço a maior legitimidade para ficar com a guarda da criança.
Só espero é que o pai biológico utilize o valor da indemnização que recebeu para recorrer ao tribunal europeu - uma vez que aqui já se antecipa o desfecho - contrariamente à opinião do senhor sargento Gomes de que ele deveria com esse dinheiro abrir uma conta no nome da menina. Por aí se vê até onde chega o propósito deste casal em controlar e manipular tudo e todos com o seu ar de "virgens ofendidas". A leitura que fazem das decisões do tribunal é digna de países do terceiro mundo; decididamente não olham a meios para atingir os fins, e tudo isto sob os mais altos patrocínios.


De Manuel Leão a 25 de Julho de 2008 às 16:42
Muito bem!



De Maria Martins a 25 de Julho de 2008 às 14:26
Um sugeito que confrontado com a gravidez da mulher, com quem tirou uma horas de sexo lhe diz, para ela ir dar uma volta ao " bilhar grande ", porque não é pai da criança, nem quer saber, não merece NUNCA ser chamado de PAI.

NUNCA!


De Maria Martins a 25 de Julho de 2008 às 14:30

deverá ler-se no comentário anterior " sujeito ".


De Anónimo a 25 de Julho de 2008 às 17:30
minha Senhora,
Ela não era "mulher" dele. Por sinal até parece que dava umas voltas... Como é que alguém perante isto pode logo pensar que é realmente o pai? Não seria outro qualquer?
A grande culpada disto tudo é a justiça portuguesa que julga tarde e não consegue fazer cumprir, em tempo, aquilo que decide.
Já agora a mãe entregou a filha pelos lindos olhos do casal? Não é preciso ser jurista para saber que o que o casal fez é completamente ilegal.


De Fernanda Valente a 25 de Julho de 2008 às 17:41
Independentemente das condições em que é gerada uma criança, a partir do momento em que lhe é dada a vida, existirá para sempre um elo de ligação muito forte entre ela e os seus progenitores: o do sangue. E aos pais, neste caso ao pai, assistirá o direito inalienável de exigir a sua guarda, uma vez que o tribunal reconhece que estão verificadas as condições para que isso aconteça.


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