Sexta-feira, 6 de Junho de 2008
Leonel Vicente

 

Memória da escrita

 

E agora, como “descalço eu esta bota”?

Eu que gosto de escrever sobre temas que me interessam, sem que, muitas vezes, tenham particular interesse para outros... Num rápido flashback, sobre o que tenho escrito ultimamente? Eleições nos Estados Unidos; recordações dos dez anos da EXPO’98; os decisivos jogos de futebol de final de época... enfim, nada realmente palpitante; nada mais que um mero fixar de memória(s), qual arquivista ou coleccionador.

E que, tendencialmente, me vou esquivando à análise da espuma dos dias, numa agenda mediática que vai desde a lei anti-tabágica aos preços dos combustíveis, passando pelas eleições partidárias; sem, todavia, conseguir evitar uma colherada na questão do acordo ortográfico… por isso mesmo, por ter também a ver com a “Memória”, no caso, da escrita.

Memória que começara por ser oral – com “homens-memória” como guardiões da história –, tendo os primeiros meios gráficos surgido há cerca de vinte mil anos, datando as mais antigas formas de escrita a cerca de seis mil anos, no que constituiria uma nova forma de preservação dessa memória e de comunicação, transpondo as barreiras do tempo e do espaço.

Somos ainda tributários dos escribas ou copistas que, no seu scriptorium, ajudaram a perpetuar a memória (da) escrita, escrevendo, primeiro sobre rolos de papiro, só mais tarde em pergaminho, precursores do que viria, com o advento dos caracteres móveis e da imprensa (apenas cerca de 1450), a tornar-se num meio de expressão de difusão universal.

E, assim, aqui aproveito também a oportunidade que me foi proporcionada para, publicamente, prestar uma singela homenagem aos que, ainda nos dias de hoje, continuam a dedicar-se ao estudo dos materiais de escrita, das formas gráficas, à leitura dos documentos e livros, assim como dos mais antigos testemunhos do português enquanto língua escrita, a partir da segunda metade do século XII.

Numa era em que a palavra escrita parece viver momentos de crise, chegando mesmo a projectar-se o hipotético eclipse de livros e jornais, com o hipertexto (forma de escrita não sequencial já antecipada por Leonardo Da Vinci nas múltiplas anotações aos seus textos) virtual a conquistar cada vez mais preponderância, são igualmente de louvar iniciativas como a da UNESCO que, preocupada com a preservação, criação e manutenção das diferentes instituições de memória e dos seus acervos, criou o Programa “Memória do Mundo”, propondo que se intensifiquem os esforços visando a preservação de documentos e arquivos históricos.

Também a preservação da memória virtual – a Internet como “memória colectiva da Humanidade” – não poderá deixar de constituir igualmente uma outra preocupação, nomeadamente no que respeita a questões como a longevidade dos suportes ou as restrições de acesso.

E, com dedicatória, assim completo o círculo; para que serve um blogue se nele não podemos escrever o que queremos?

 

Leonel Vicente (do blogue Memória Virtual)

 



publicado por Pedro Correia
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8 comentários:
De Dasse a 6 de Junho de 2008 às 20:23
Depois deste Daniel, a lista telefónica vai continuar com quem?


De Pedro Correia a 6 de Junho de 2008 às 20:58
Consigo, quando aprender a escrever.


De Dasse a 6 de Junho de 2008 às 21:03
Tomaras tu, Pedro!


De Pedro Correia a 6 de Junho de 2008 às 21:20
Eu prefiro continuar a escrever 'dá-se'. Ainda não aderi ao acordo ortográfico.


De Dasse a 6 de Junho de 2008 às 21:52
Nem eu. Mas, como sou muito educado, não ia escrever foda-se.


De O último pingo a 6 de Junho de 2008 às 23:12
Este dialogo foi dos melhores momentos "blogosféricos" que assisti.
Bravo.


De Pedro Correia a 8 de Junho de 2008 às 11:49
Gostei muito desta visita, Leonel.
Abraço


De Leonel Vicente a 8 de Junho de 2008 às 12:06
Eu é que agradeço o convite, caro Pedro.

Um abraço.


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