Segunda-feira, 2 de Junho de 2008
Miguel Marujo

 

Bowling for Darfur

 

«Os assassínios entre tribos eram resolvidos por meio de uma escala variável de indemnizações de sangue - cem camelos por um homem, cinquenta por uma mulher.
Uma máquina com quatro quilos e meio de peso, composta por onze peças desmontáveis, acabou com estas tradições ancestrais.
A vaga de carabinas Kalashnikov a baixo preço que invadiu Darfur fez diminuir o valor da responsabilidade individual na guerra. Minou o poder das autoridades tribais. Os jovens que outrora entoavam cânticos às suas vacas favoritas, agora dedicam serenatas às suas armas: "A Kalash dá cash, sem Kalash é-se trash".»
[Paul Salopek
http://ngm.nationalgeographic.com/2008/04/sahel/paul-salopek-text, NGM, Maio, 2008]


Este breve excerto de uma reportagem no Sael, de um jornalista que acabou preso e maltratado às mãos de combatentes pró-Cartum, é uma pequena mostra da imensa hipocrisia em que se mete a chamada comunidade internacional. O Darfur, o Chade, a Tchetchénia, o Médio Oriente, a Cova da Moura ou a Bela Vista, seriam locais mais felizes sem kalashes. Os países ocidentais e a Rússia e a China fingem-se preocupados com os conflitos que estalam aqui e ali, estendem as mãos para a ajuda humanitária, mas com uma mão tiram o que a outra dá: mantêm uma indústria cada vez mais lucrativa de armamento que, em tempo de pax romana, só pode viver destas guerras pequenas, fratricidas.

Como Portugal se sobressalta de quando em vez com carjackings e crimes na noite, enquanto o Governo promove campanhas de recolha de armas ilegais (dois anos depois da aprovação da Lei nº 5/2006, de 23 de Fevereiro, que não penalizava os detentores de armas não licenciadas e que pretendessem regularizar a sua situação ou entregá-las), mantém uma forte aposta nas suas empresas de armas. A hipocrisia é deliciosa. A crise humanitária a que a dita comunidade internacional vai acorrendo resolvia-se com a proibição de armas e o não fabrico das mesmas. É claro que é mais fácil – e uma boa maneira de começar – atacar as minas antipessoais. Dá uma boa foto com uma princesa do povo. Mas falta também atacar aquelas que são as armas que fazem diminuir o valor das vidas humanas nas terras áridas do Darfur, nas ruas de Gaza, nos musseques de Luanda ou nos becos da Cova da Moura. Chamem-me ingénuo. Quero acreditar que se pode mudar um bocadinho este mundo.

 

Miguel Marujo

(dos blogues Cibertúlia e E Deus Criou a Mulher



publicado por Pedro Correia
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Comentários:
De Anónimo a 2 de Junho de 2008 às 15:36
Então e este convidado não tem pissadeira perdão passadeira?


De Pedro Correia a 2 de Junho de 2008 às 16:03
Aí está a passadeira. Arre que vocês são mesmo apressadinhos com as reclamações!


De Anónimo a 2 de Junho de 2008 às 16:06
outra vez bermelha?


De Teresa Ribeiro a 2 de Junho de 2008 às 15:39
Cinismo às tantas torna-se cansativo. Estou consigo, Miguel Marujo. Excelente texto!


De Asnónimo a 2 de Junho de 2008 às 16:08
"A Kalash dá cash, sem Kalash é-se trash".

Épá, essa não é do dicionário do IDT?


De Anónimo a 2 de Junho de 2008 às 16:30
Em Tugal, o que está a dar é: A bola dá cash, sem bola é-se trash


De selim a 2 de Junho de 2008 às 18:38
Quem é que encheu África de kalash´s quem foi?Ainda agora vimos um carregamento ser "devolvido" a um dos monstros sagrados do anti-colonialismo esse grande democrata e nada racista Mugabe, daquele paraíso que se chama Zimbabwe.
Ora convém realçar que a nossa esquerda é todinha ela anti-colonialista, logo co-responsável por aquelas armas todas em África e pelos resultados.Mas infelizmente as consequências dos seus actos são pagos não por eles mas por cidadãos anónimos e duplamente:corridos sem bens e agora contribuintes para os fugitivos de África, cá, no rectângulo, quase transformado em regulado...


De Miguel Marujo a 2 de Junho de 2008 às 18:59
eh pá, "a nossa esquerda é todinha ela anti-colonialista, logo co-responsável"... eu como sou de esquerda, anticolonialista, logo sou corresponsável. caro selim, o tema é demasiado sério para andarmos a brincar aos selins ideológicos.


De blogdaping a 4 de Junho de 2008 às 02:14
Estou-me a lembrar dum "perigoso esquerdista ... " chamado Salazar que nunca pôs nem uma arma em África .....
Estes direitinhas... !!
Chama aos outros antes que te chamem a ti !!
Onde é que eu já ouvi isto ??


De Pedro Correia a 2 de Junho de 2008 às 19:26
Excelente texto, Miguel. Obrigado pela visita.


De Carlos Alberto Videira a 2 de Junho de 2008 às 23:49
O Darfur, não é mais uma guerra civil como existe em muitos países africanos. É uma questão de Direitos Humanos, a partir do momento em que uma raça se julga superior a outra e a extermina usando todo o tipo de atrocidades.

Mais do que falar em direitos humanos, fará sentido falar em deveres humanos que devem ser cumpridos escrupulosamente: o dever de agir, o dever de denunciar e o dever falar...

Sabemos, certamente, que não seremos nós a levar a paz ao Darfur, mas tenhamos a consciência de que pelo menos não foi por nós que a situação continuou. Tal como disse Madre Teresa de Calcutá, o que nós fazemos, é apenas uma gota no meio do oceano. Mas sem ela, o oceano seria menor. E se a cada gota se juntar mais uma, a paz voltará rapidamente para junto daqueles, que neste momento, sofrem no Darfur.


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