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A ditadura do ruído

por Pedro Correia, em 19.01.07
Como já aqui sublinhou o João Villalobos, António Barreto escreveu há dias uma notável crónica no Público sobre a ditadura do ruído na nossa vida diária. É um facto: para onde quer que vamos, somos submergidos por “música ambiente”, sinfonias de telemóvel, gritaria em geral. A conversa em tom moderado parece ter passado de moda. A estridência é moeda corrente: falar mais alto do que os parceiros tornou-se uma espécie de pergaminho social nesta sociedade onde o silêncio é quase pecaminoso. A reflexão, prima direita do silêncio, desapareceu para parte incerta.
“Em países civilizados, na Suécia e na Inglaterra, já é possível adquirir nas livrarias e nos quiosques guias de restaurantes, de hotéis, de comboios e de comércios sem "Musak" e sem televisões abertas. Começa a ser de bom-tom apreciar o silêncio. Nalgumas elites, o sinal já foi dado. Dentro de alguns anos, as classes médias, os intelectuais e as profissões liberais começarão a dizer que o barulho é próprio do povo, que a música empacotada é possidónia e que o silêncio é chique”, escreveu Barreto.
Em qualquer momento do quotidiano, o ruído irrompe. E nem a morte, que outrora convidava à meditação, ocorre sem o ruído de múltiplas campainhas. Num velório, é agora usual escutarmos autênticos despiques de telemóveis, cada qual a competir mais alto do que o outro em volume de decibéis. À saída de um funeral, seja de quem for, o povo habituou-se a aplaudir freneticamente a urna, como se estivesse no Coliseu dos Recreios: “The show must go on”, com fanfarra a preceito. Comunicar pelo silêncio tornou-se uma bizarria, olhada de soslaio. Incomoda, perturba. Lá vamos, pois, cantando e rindo, cada vez mais alto: siga a banda no coreto, o foguete estentórico, a batida de discoteca, a palavra de ordem, o berro ao virar da esquina, o anúncio gritado, o “toque polifónico” que não tem fim...

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8 comentários

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De Pedro Correia a 20.01.2007 às 19:18

Olá, Menir. Prazer em vê-la por aqui de novo.
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De Pedro Correia a 20.01.2007 às 13:01

É verdade, João.

Pois, José.

Não posso estar mais de acordo, El Ranys: "O paradoxo é que, com tanto som, estamos todos cada vez mais surdos."
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De Jose Gomes Andre a 20.01.2007 às 03:09

Muito, muito obrigado por este post! Eu pensava que estava sozinho na minha demanda pelo silêncio, mas não estou...

O barulho das obras, a gritaria, as apitadelas constantes, as palmas, as palmas!, os telemóveis no cinema (porquê???), os escarros, a tosse despropositada, o riso esbugalhado, a aceleração das motas, o ruído permanente.

Venha a Lua - ou caminhemos nós até ela.

Bem Pelo Contrário (http://bempelocontrario.blogspot.com/)
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De El Ranys a 20.01.2007 às 02:11

Plenamente de acordo.
Não sei se é causa ou consequência, mas o paradoxo é que, com tanto som, estamos todos cada vez mais surdos.
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De João Távora a 19.01.2007 às 23:56

Este foi assunto de um dos meus 1ºs posts aqui no Corta-Fitas. http://corta-fitas.blogspot.com/2006/04/h-msica-mais_20.html
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De Pedro Correia a 19.01.2007 às 18:05

Tem toda a razão, Susaninha. Essa é outra praga sonora que não nos larga.
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De Susaninha a 19.01.2007 às 18:04

E já reparou nas pessoas que se riem através das palmas? Não há programa humorístico de TV e, às vezes, peças de teatro em que o público não bata palmas a uma piada, em vez de rir. Não só é irritante, como interrompe o timing do comediante.
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De Anónimo a 19.01.2007 às 16:44

Até nuestros hermanos, que são estridentes por natureza, já lançaram há anos os guias do turismo do silêncio.

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