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João Tunes

por Pedro Correia, em 26.05.08
Uma coincidência no olhar o Sul
 
Uma coincidência será uma das formas fáceis de provocar uma tentativa de raciocínio político. Sobretudo nesta era de incertezas em que todas as âncoras ideológicas se mostram mancas por caruncho. Quando regressado de mais uma minha estadia em Cabo Verde, rebentou o escândalo controlado de um cantor mediático apontar o dedo à cleptocracia angolana, porventura com exagero medido no libelo provocatório. Daí a pensar na herança do pós-império português, encadeando comparações (pecado venial a caminho de mortal) é um passo de tentação. Irresistível, porque os pólos da bateria ficaram a acenar convite de sedução à energia de neurónios politizados.
 
Angola era a “jóia do império”, a mais difícil de largar, aquela que seria a última a guardar, juntando-se, em contraponto, o anticolonialismo mais débil e dividido. Ao petróleo e diamantes, somou-se uma independência mais geopolítica que nacional e tão volúvel e venal que não pestanejou na hora de mudar de amores a Brejnev e Fidel pelos bons amanhos com o Tio Sam. Hoje, Angola é o que é, não “nossa”, mas longe, muito longe, de ser dos angolanos. E é um dos expoentes mais detestáveis da parte rica de África, como a querer demonstrar que, depois de Mobutu, o pior ainda podia estar para chegar.
 
Cabo Verde era a colónia portuguesa mais longe de querer ser independente, a não ser no pensamento do lunático genial que foi Amílcar Cabral. A maioria dos caboverdianos pensava Cabo Verde, entregue à sua dimensão brutal de carências, como uma peça que, se solta, seria inviável. Sonhavam, quando muito, nos intervalos da morte pela seca, que mereciam, em salvação, um Alberto João mestiço a cantar mornas e a dançar coladeras e funáná, enquanto sacavam uma ajudas de migalhas gordinhas caídas da mesa do orçamento dos tugas que, durante séculos, refinando eroticamente o uso das ilhas como entreposto negreiro, tinham ganho gosto por camas de pretas e de cabritas. Hoje, Cabo Verde é a referência mais positiva em África, o melhor que, politicamente, África produziu. Tem uma democracia estável, com liberdade de expressão e alternância dependente somente do voto, saltou por cima da míngua e da fome, com um início incipiente de vida universitária local, tenta gerir o problema gordo do desemprego nos licenciados, tantos são eles. Honra os seus compromissos e é considerado internacionalmente como o ajudado mais exemplar pela forma escrupulosa como aplica e presta contas dos auxílios que recebe.
 
O colonialismo tardio que resultou da teimosia a-histórica de Salazar deu no que tinha que dar. Bem à imagem da sociedade anacrónica que plantou na metrópole em que tentou opor o atavismo à modernidade, numa segmentação anacrónica entre camadas sociais gostando de ser caricaturas. E que perdura na herança pós-colonial: desde o pobrezinho honrado e aplicado nos estudos até ao bando de senhorios ricaços e absentistas a gozarem herança rica de padrinho que desertou para parte incerta. 
 
É tão fácil raciocinar na base de uma coincidência, não é? É. Peço desculpa.
 
João Tunes (do blogue Água Lisa)

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2 comentários

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De nuno castelo-branco a 26.05.2008 às 22:25

Apenas uma questão: não tendo A.O. Salazar governado o Império Britânico, a França ou a Itália do duce, como se explica então que o resto da África esteja exactamente nas mesmas condições das antigas províncias ultramarinas portuguesas? Se não estiver muito pior!? Não será tempo de acabarmos com masoquismos patetas? Consultem os dados da ONU referentes a Angola e Moçambique antes de 1974 e comparem com o que hoje se vê. basta isso.
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De Ana Vidal a 27.05.2008 às 01:22

O que me parece é que Angola é rica de mais para aspirar a ter paz algum dia. Há-de ser sempre cobiçada por alguém (por muitos alguéns, aliás) com os resultados que decorrem dessa fatalidade. Um país pobre como Cabo Verde tem, por absurdo que pareça, muito mais hipóteses de estabilizar e, consequentemente, de prosperar.

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