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Justiça poética

por José Mendonça da Cruz, em 30.05.17

É consolador recordar que o júri do progama Ídolos considerou que o comportamento de Salvador Sobral em palco indiciava que ele «não levava as coisas a sério».

É especialmente consolador ver que, segundo o parecer do lamentável júri, hão-de revelar falta de seriedade interpretações diversas como esta ou esta.

Ou, de forma mais clara: é consolador verificar que há uma incompatibilidade fundamental entre o talento e os produtores de plástico.

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Do tempo novo

por João Távora, em 30.05.17

(...) Os críticos de Passos ainda não perceberam o que se passou: Costa descobriu um novo “arco da governação”, que lhe permite fazer o que é preciso para manter a correr o dinheiro do BCE, e ainda por cima com “paz social”. O PSD e o CDS não fazem greves, não marcham nas ruas, não inspiram bloqueios no Tribunal Constitucional, nem existem na televisão, a não ser através daqueles “comentadores de direita” que, por acaso, até apoiam Costa. Na medida em que não servem para criar “conflitos sociais”, o PSD e o CDS também não servem para garantir “paz social”. Para que quereria Costa a sua ajuda? Para fazer “reformas estruturais”? Mas quem precisa de reformas, quando o BCE dá dinheiro e o turismo alegra as ruas?

 

Rui Ramos no Observador aqui na integra

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Europa: Uma nova ordem

por Maria Teixeira Alves, em 28.05.17

Imagem relacionada

O discurso da Chanceler alemã não deixa margens para dúvidas. Merkel disse que a Europa de hoje é de "cada um por si", depois da Cimeira do G7 em Itália e da NATO na Bélgica.

"Os tempos em que podíamos contar completamente uns com os outros (aliados), acabaram em certa medida, percebi isso nos últimos dias, e é por isso que só me resta dizer que nós europeus temos de tomar as rédeas do nosso destino, mantendo claro a amizade com os Estados Unidos e com a Grão Bretanha e como bons vizinhos onde for possível com outros países e até mesmo com a Rússia. Mas temos de saber que temos de ser nós próprios a lutar pelo nosso futuro e destino enquanto europeus, e é isso que quero fazer em conjunto com vocês", disse Angela Merkel num discurso no comício perante 2.000 pessoas em Munique.

Parece-me cada vez mais que vamos ter novos blocos, sendo que a Europa vai voltar a ser dominada pelo eixo franco-alemão. Para Portugal esta nova ordem até veio ajudar, porque passaram a ser mais tolerantes com os países incumpridores porque precisam de promover a união dos países da União Europeia para evitar mais dissidentes. O Reino Unido por sua vez vai caminhar sozinho e aliado dos Estados Unidos.

 

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Abertura solene da época de caça ao incendiário

por henrique pereira dos santos, em 28.05.17

Decorre hoje a abertura solene da caça ao incendiário, promovida pela associação patronal dos bombeiros.

O programa para a época que se segue foi claramente enunciado pelo presidente da referida associação patronal, a Liga dos Bombeiros Portugueses, Jaime Marta Soares, comentando o processo reivindicativo que está em curso, no sentido de se aumentar o desvio de recursos de todos para as organizações de bombeiros (não confundir a captação de recursos pelas organizações de bombeiros com a captação de recursos para os bombeiros, isso seria o mesmo que dizer que o apoio à capitalização das empresas é um apoio aos trabalhadores portugueses, relacionam-se, mas não são a mesma coisa): "Quanto aos meios mobilizados para o combate aos incêndios deste ano, constituem "o dispositivo possível", para o presidente da Liga. "Está preparado para uma média de 200 a 250 fogos por dia. O problema é que num país como o nosso, em que andam à solta os incêndiários criminosos, ocorrem 300 a 400 e às vezes até 500 fogos por dia"".

Comecemos por um rasgado elogio à política de comunicação da associação patronal dos bombeiros que conseguiu a notável conquista de convencer toda a gente que a Liga dos Bombeiros Portugueses é uma associação de bombeiros e não, como efectivamente é, uma associação das associações de bombeiros. Com este passe de mágica (que seria semelhante à CIP convencer a sociedade de que é legítima representante dos trabalhadores portugueses e, consequentemente, apoiar a CIP é apoiar os trabalhadores portugueses) a Liga dos Bombeiros Portugueses consegue transformar o esforço voluntário e generoso de milhares de pessoas no seu principal activo económico e político, quando reivindica mais dinheiro do Estado para os seus associados (as corporações de bombeiros, não os bombeiros em si), que é a sua principal actividade.

É essa notável campanha cerrada de comunicação que, pelos vistos, constrange os jornalistas a fazer perguntas básicas sobre as afirmações que são feitas por Jaime Marta Soares, um homem muito económico no uso da verdade quando discute fogos.

A pergunta central que qualquer jornalista informado deveria fazer é a seguinte:

"Se, como diz, o sistema está preparado para 200 a 250 fogos por dia, se a variação diária de fogos depende essencialmente das condições meteorológicas, se os dias em que há 300 a 400 fogos, o mesmo 500, são os dias de condições meteorológicas extremas, e se é nesses dias de condições meteorológicas extremas que arde 80% da área que arde num ano, a sua afirmação significa que o dispositivo só está preparado para os dias em que não faz grande falta, não estando preparado para os dias em que é preciso, é isso?".

O jornalista informado poderia acrescentar:

"É então isso que explica que o objectivo principal do Dispositivo Especial de Combate aos Incêndios Florestais não tenha qualquer relação com a defesa da sociedade em relação aos efeitos negativos dos fogos em condições extremas, mas sim um objectivo de auto-preservação: ter baixas zero."

Colérico como é o actual presidente dos patrões dos bombeiros, o mais natural é que respondesse em altas vozes, dizendo qualquer coisa sobre os 35 a 40%  dos fogos nocturnos que demonstram que isto é tudo obra dos incendiários, e que sobre isso os bombeiros não podem fazer nada (aliás, sempre que lhe fazem perguntas difíceis, o patrão dos patrões dos bombeiros saca de um argumento cuja resolução não diz respeito aos bombeiros).

E poderia até citar a autoridade do Senhor Secretário de Estado da tutela, que acha que "33% dos incêndios começam entre as oito da noite e as oito da manhã. Um terço dos incêndios em Portugal começar de noite é preocupante. Isto quer dizer alguma coisa".

Na verdade esta afirmação (que quase todos os secretários de estado do sector acabam por repetir de cada vez que a situação foge do controlo) só quer dizer que o Senhor Secretário de Estado não estudou bem o assunto, nem sequer foi ver a informação produzida pelos serviços, como estes gráficos:

fogos por hora.jpg

Se os senhores secretários de estado, e o senhor presidente da associação patronal dos bombeiros, quisessem deixar de ser demagógicos, em vez de falar de um terço de fogos à noite, explicariam didacticamente que o período da noite é definido administrativamente, das oito da tarde, às oito da manhã, o que significa que, no Verão, inclui muitas horas diurnas.

Explicariam também que a distribuição horária desses fogos não é uniforme, pelo contrário, concentra-se, como é normal, nas horas do fim do dia, sendo a maior parte nas duas ou três primeiras horas do tal período nocturno, a maior parte do qual ainda é dia.

Explicariam também que a hora a que um fogo é registado é a hora a que é detectado, não tanto a hora a que realmente começa, podendo haver desfasamentos importantes (de várias horas, mas muito frequentemente de uma a duas horas, o que é perfeitamente normal).

E que dos famosos 35 a 40% de fogos nocturnos que alimentam as teorias de conspiração que alimentam os orçamentos das entidades patronais dos bombeiros, em especial a ideia de que o problema não é a inadequação do dispositivo às necessidades mas sim os incendiários (apesar de 1% das ignições darem origem a mais de 90% da área ardida), dos 35 a 40%, dizia, apenas cerca de 5% ocorrem entre as duas e as seis da manhã, a maior parte sendo, provavelmente, reacendimentos que são reportados como novos fogos.

Que Jaime Marta Soares defenda os interesses das corporações de bombeiros (o que não é o mesmo que defender os interesses dos bombeiros, repetirei sempre) eu entendo, está no seu papel (só não entendo como nunca ninguém achou que havia um conflito de interesses entre ser presidente da câmara a tomar decisões que beneficiavam a corporação de bombeiros a cujos orgãos sociais pertencia).

Que os secretários de estado, aflitos, digam qualquer coisa para se esquivar politicamente a um problema politicamente irresolúvel, porque resolvê-lo significa afrontar directamente os interesses das corporações de bombeiros e das autarquias, o que ninguém quererá fazer, eu também compreendo.

O que não compreendo é um jornalismo tão pobre, tão pobre que se satisfaz com teorias de conspiração que não resistem à mínima análise empírica de factos, cujos resultados estão disponíveis e são facilmente acessíveis.

Para quem acha que é assunto que não lhe diz respeito, será bom lembrar que tudo isto é um dos exemplos mais clássicos e bem documentados do velho princípio de que quando se atira dinheiro para cima de um problema, uma das duas coisa desaparece, mas raramente é o problema: o dispositivo custava trinta milhões, hoje custa mais de cem milhões, sem que na análise dos dados se consiga detectar a menor alteração de resultados na gestão do fogo em Portugal.

ADENDA: para o caso de alguém perceber melhor o atraso que está associado ao discurso do Presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses, dos responsáveis pela protecção civil, dos responsáveis pelo Governo que tutelam os fogos em Portugal, talvez seja útil ver este video dos serviços florestais americanos, que é excelente.

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Domingo

por João Távora, em 28.05.17

Conclusão do santo Evangelho segundo São Mateus


Naquele tempo, os Onze discípulos partiram para a Galileia, em direcção ao monte que Jesus lhes indicara. Quando O viram, adoraram-n’O; mas alguns ainda duvidaram. Jesus aproximou-Se e disse-lhes: «Todo o poder Me foi dado no Céu e na terra. Ide e ensinai todas as nações, baptizando-as em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, ensinando-as a cumprir tudo o que vos mandei. Eu estou sempre convosco até ao fim dos tempos».


Palavra da salvação.

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Banco Alimentar – Hoje e Amanhã

por Vasco Mina, em 27.05.17

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Decorre, hoje e amanhã, mais uma campanha de recolha de alimentos do Banco Alimentar.

Segundo Isabel Jonet “a retoma económica ainda não chegou às famílias mais carenciadas. É para estas que estas campanhas de recolha de alimentos se dirigem e que continuam a existir muitas pessoas que precisam de ajuda para viver, neste caso para viver.”

A campanha estará presente em mais de 2.000 hiper e supermercados.  “É preciso mais, para que falte ainda menos” é o mote da Campanha que vai ao encontro das “periferias” de que tanto fala o Papa Francisco. Este é o momento em que todos podemos ajudar os mais necessitados. Não, não é mero assistencialismo, é ajuda mesmo! Para quem entenda que é “caridadezinha”, levante-se do sofá e ofereça-se como voluntários nos Bancos Alimentares, mas para colaborar no dia a dia!

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Fundo ambiental aprova projectos de 20 milhões

por henrique pereira dos santos, em 27.05.17

A vergonhosa utilização de fundos com objectivos específicos, que o Estado usa para se financiar em vez de financiar as pessoas e a economia, está profundamente enraizada, de maneira que nem deputados, nem jornalistas, nem associações empresariais, nem ONGs, nem simples pessoas comuns parecem hoje incomodar-se com este abuso.

Infelizmente não vejo absolutamente ninguém interessado em discutir a separação das águas, definindo-se com clareza que o Estado se deve financiar via orçamento de Estado e que a utilização de fundos com objectivos específicos deve estar vedada a todas as entidades em que o Estado tenha mais de 25% do capital.

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Lisboa antiga

por João Távora, em 26.05.17

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 Muitos blogs têm desaparecido nos últimos anos - na semana passada operei uma limpeza na barra lateral donde apaguei umas boas dezenas de links "mortos" - mas o facto é que ainda os há com muita qualidade. É o caso do Paixão por Lisboa (cujo autor AC não consegui identificar) que descobri há dias, e que é um manancial de boas fotografias antigas das paisagens, ruas e edifícios que reflectem a história desta minha cidade sempre em transformação - infelizmente nem sempre pelos melhores caminhos - imagens quase sempre bem legendadas reflectindo apurada pesquisa e investigação. Boas razões para uma atenta visita periódica.

 

Fotografia Paixão por Lisboa, com a devida vénia.

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Do medo de reconhecer o mérito do governo anterior

por henrique pereira dos santos, em 25.05.17

Manuel Carvalho faz um invulgar reconhecimento dos méritos do governo anterior ("teve coragem, energia e determinação para traçar um rumo. Governou o país na mais terrível conjuntura em décadas e deixou-o melhor para o primeiro-ministro que lhe sucedeu. Deixou-o com um défice controlável e, principalmente, liberto da sensação de que o Estado estava capturado por figuras como Ricardo Espírito Santo ou empresas como a Ongoing.").

Mas simplesmente reconhecer que o governo anterior cumpriu essencialmente o seu papel, entregando um país melhor que o recebeu, é o caminho certo para o abismo de um jornalista, a ruptura com as suas redes de influência, profissionais e de amizade, por isso é um passo que não pode ser dado pelas elites da imprensa.

Por isso, para fazer o reconhecimento de que o governo anterior foi um governo normal e que cumpriu o essencial das suas obrigações, é preciso acrescentar que o governo actual é igual ao governo anterior (sem nunca, mas nunca, fazer notar que os resultados governo actual não resultam da alteração das políticas anteriores, mas sim da sua manutenção, apesar da retórica demagógica que tenta demonstrar o contário) e que Passos Coelho e Costa são essencialmente iguais.

Como na verdade não são iguais (quando Passos Coelho demonstrava "coragem, energia e determinação para traçar um rumo", Costa empenhava-se em atacar as políticas que agora aplica com base em argumentos demagógicos, quando Passos Coelho evitava estar sempre a atirar responsabilidades para o governo anterior, que lhe deixou o país como deixou, Costa continua a falar sistematicamente da herança que recebeu, recusando-se a discutir seriamente a evolução que houve entre o que Passos herdou e o que deixou em herança, etc.) Manuel Carvalho vê-se obrigado a uns truques de retórica.

O culminar desta vontade férrea de evitar reconhecer que Passos Coelho foi muito melhor governante do que Costa tem demonstrado até agora, talvez sejam estes dois passos do artigo que Manuel Carvalho escreveu:

"o líder do PSD põe-se em bicos de pés e tenta que o ouçam com a mensagem de sempre - "não podemos cometer os mesmos erros", disse outra vez esta segunda-feira".

"a verdade é que este marco (a saída do procedimento por défice excessivo) do final de um ciclo só será mesmo importante se, como prometeu António Costa, esta "for a última vez que passamos por um processo tão traumático"".

Ou seja, Manuel Carvalho acha que tudo só será importante se, tal como dizem Coelho e Costa, esta for a última vez, mas Passos Coelho dizer isto é a demonstração de que é um idiota a pôr-se em bicos de pés, ao passo que Costa dizer o mesmo é a demonstração do comportamento responsável de Costa, provavelmente, acrescento eu, tão responsável como quando apoiou as políticas que nos levaram ao resgate e como, durante o resgate, fingiu que havia uma estratégia de empobrecimento absolutamente ilegitima provocada por um governo de masoquistas por mera cegueira ideológica e como hoje nega qualquer responsabilidade do governo anterior na melhoria da situação do país.

Eu entendo, é preciso fazer pela vida, e dizer simplesmente que Passos Coelho foi um razoável governante é um risco que qualquer jornalista é obrigado evitar, se quiser continuar a ser considerado pelos seus pares.

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Do boato

por henrique pereira dos santos, em 24.05.17

Vários jornais informam-me que Schauble terá dito que Centeno é o Ronaldo do Ecofin.

É-me completamente indiferente que o tenha dito ou não, o que me interessa é que estes jornais citam uma outra publicação on-line que diz que há uma fonte portuguesa anónima que diz que Schauble diz que Centeno é o Ronaldo do Ecofin.

Em tempos isto era apenas um boato, agora parece que os boatos, desde que sirvam a linha justa, também são notícias.

É pois natural que o Correio da Manhã, que tem mais notícias que os outros, venda mais que os outros: apesar de tudo custa um bocado pagar para ouvir conversas de porteiras.

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A prudência de António

por henrique pereira dos santos, em 23.05.17

António anunciou, urbi et orbi, que ia rapidamente levar a namorada a casa e já voltava.

Metade dos amigos, por serem seus amigos, tentaram demovê-lo, explicaram-lhe como era imprudente ir levar a namorada a casa depois de ter bebido uns copos a mais. Os mais dramáticos disseram mesmo que se ele pegasse no carro no estado em que estava, era o Diabo.

A outra metade dos seus amigos, que estavam interessados em se ver livres do chato do António, diziam-lhe que não ligasse a esses medricas, que fosse rapidamente levar a namorada e até aproveitasse para dar uma volta.

António, com medo que a namorada o achasse fraco, meteu-se a caminho.

Por mais copos que tivesse bebido, António não era parvo, foi guiando devagarinho, meteu-se por ruas com menos trânsito e mais largas e, mal deixou a namorada, encostou o carro e resolveu dormir um bocado.

No dia seguinte, quando António pontificava outra vez no grupo de amigos, a segunda metade ria-se da primeira metade dos amigos, concluindo que António tinha feito muito bem em não dar ouvidos aos desmancha-prazeres que queriam que optasse entre beber uns copos ou guiar o carro, pelo que daí em diante todos passariam a deixar de ligar aos copos que bebiam antes de guiar.

O simples facto de há vários dias ver toda a imprensa a fazer um raciocínio igualzinho a este, apenas substituindo o carro pelo governo, diz mais sobre a imprensa que sobre a prudência.

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O terror outra vez (2)

por João Távora, em 23.05.17

Sim, a ilusão da bondade do multiculturalismo é um erro tornado irremediável de há muito no ocidente europeu, e não existem soluções fáceis para resolver a desconfiança que legitimamente possa haver para com as comunidades islâmicas. Pela simples razão que a nossa civilização está fundamentada no primado da lei e não se podem expulsar emigrantes ou os seus filhos simplesmente porque se desconfia deles ou porque não nos agrada a sua cor da pele, os seus costumes ou religião. Haverá algum caminho a fazer no que respeita à intransigência para com quantos afrontem as nossas leis e costumes mas isso não resolve o problema da fragilidade da nossa sociedade liberal face ao terrorismo. Sim, estamos metidos num grande sarilho.

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O terror outra vez

por João Távora, em 23.05.17

O ataque da noite passada em Manchester tanto pelo seu simbolismo (é hedionda a ideia das crianças e adolescentes como alvo) como pelo número de mortos resultante vem relembrar a Europa multicultural da guerra civil que enfrenta por estes dias no seu seio. O inimigo é interno, formou-se e cresceu cá dentro qual parasita traiçoeiro - o erro há muito foi feito. O inimigo o mais das vezes não se distingue pela pronúncia e contra ele não se vislumbram soluções simples - por mais que o assunto seja pasto para promessas fáceis em eleições. O medo nunca serviu para nada de bom e o seu aproveitamento de nada serve para combater a insânia cobardia destes ataques. Certo é que não nos podemos render ao inimigo, cabendo-nos rezar e chorar pelos nossos mortos... mantendo o normal curso das nossas vida, sem demonstrar temor ou tibiezas.

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Domingo

por João Távora, em 21.05.17

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João


Naquele tempo, Jesus ergueu os olhos ao Céu e disse: «Pai, chegou a hora. Glorifica o teu Filho, para que o teu Filho Te glorifique, e, pelo poder que Lhe deste sobre toda a criatura, Ele dê a vida eterna a todos os que Lhe confiaste. É esta a vida eterna: que Te conheçam a Ti, único Deus verdadeiro, e Aquele que enviaste, Jesus Cristo. Eu glorifiquei-Te sobre a terra, consumando a obra que Me encarregaste de realizar. E agora, Pai, glorifica-Me junto de Ti mesmo com aquela glória que tinha em Ti, antes que houvesse mundo. Manifestei o teu nome aos homens que do mundo Me deste. Eram teus e Tu mos deste e eles guardam a tua palavra. Agora sabem que tudo quanto Me deste vem de Ti, porque lhes comuniquei as palavras que Me confiaste e eles receberam-nas: reconheceram verdadeiramente que saí de Ti e acreditaram que Me enviaste. É por eles que Eu rogo; não pelo mundo, mas por aqueles que Me deste, porque são teus. Tudo o que é meu é teu e tudo o que é teu é meu; e neles sou glorificado. Eu já não estou no mundo, mas eles estão no mundo, enquanto Eu vou para Ti».


Palavra da salvação.

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Sentido único

por João Távora, em 19.05.17

Entre 2011 e 2015, nunca pôde haver boas notícias. Depois de 2013, as exportações aumentaram, o desemprego caiu (de 16,2% em 2013 para 13,9% em 2014), o défice diminuiu, a economia voltou a crescer, o turismo começou a alastrar a Lisboa e ao Porto. Mas ai de quem se mostrasse animado. Eram só “números”. Se o desemprego caía, era porque os desempregados desistiam de procurar emprego. Os jornais e as televisões dispunham então de uma reserva inesgotável de “casos dramáticos” para desmontar as estatísticas. A economia estava destruída, o Estado social tinha acabado. Se Salvador Sobral tivesse ganho a Eurovisão em 2015, teria havido editoriais a lamentar a importância dada a um festival.

 

A ler Rui Ramos no Observador

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Fátima em Alepo

por Vasco Mina, em 18.05.17

 

Fátima na Síria  II.png

Custa a acreditar mas os cristãos puderam fazer uma procissão do 13 de Maio em Alepo sem medo de ataques.  Há seis anos que tal não acontecia. Não sei se será um sinal de novos tempos que se avizinham mas é, seguramente, um testemunho de uma comunidade que manteve sempre viva a Esperança de manifestar a sua Fé.

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O assunto agora é mais sério

por henrique pereira dos santos, em 17.05.17

António Costa resolveu fazer uma boa piada tomando conta dos filhos de João Miguel Tavares.

Mas o assunto de Eduardo Jorge é bem mais sério: o Estado entende que a vida independente de quem depende dos outros é um assunto menor e resolveu que o melhor é garantir a institucionalização das pessoas que dependem de terceiros.

"Ainda recentemente foi assinado o novo acordo de cooperação entre o Estado e os representantes da economia social, e por cada pessoa com deficiência o Estado atribui mensalmente ás IPSS mais de 1.000,00 por frequência de um lar residencial, e a um Centro de Atividades Ocupacionais 500,00.

Já para uma pessoa que tem a seu cargo, na sua casa, uma pessoa dependente o Estado atribui por mês aproximadamente 100,00".

Eduardo Jorge, com uma coragem de que provavelmente eu não seria capaz, decidiu entregar-se aos cuidados do Presidente da República, do Primeiro Ministro ou do Ministro da Segurança Social (e só deles) nos próximos dias.

Talvez estivesse na altura dos jornalistas de causas olharem para esta causa e do Primeiro Ministro se deixar de piadas com filhos de jornalistas e levar este assunto a sério.

É certo, os recursos não são infinitos, é certo que o argumento de que a dignididade não tem preço não é um argumento sério, mas também é certo de que é inaceitável que o Estado, no mínimo, não faça equivaler o apoio numa instituição ao apoio em casa (para já não falar da inacreditável restrição que discrimina negativamente as famílias face aos estranhos).

A mim parecem-me desarmantemente simples dois princípios centrais:

1) o apoio para ficar em casa deve ser pelo menos igual ao apoio à institucionalização;

2) a liberdade de escolha do que é melhor para mim é inalienável, sendo completamente inaceitável que o Estado restrinja a liberdade de quem já tem restrições que cheguem na sua vida, com base em argumentos dos especialistas que acham que sabem melhor que eu o que é melhor para mim.

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Falta a Maioria Absoluta

por Vasco Mina, em 16.05.17

O João Miguel Tavares, no seu artigo de hoje do “Público” coloca, em título, a seguinte questão: “O que é que mais pode correr bem?” Como habitualmente, o texto é excelente, sempre muito certeiro e com um humor inexcedível. Falta apenas a resposta e em minha opinião o que falta mesmo a António Costa é ganhar as eleições legislativas e com maioria absoluta. É que à atual solução governativa carece alguma legitimidade política em termos de votos. O grande desafio do PS em 2017 não é ganhar as autárquicas (cuja vitória já está garantida) nem cumprir o défice (que já se percebeu que vai conseguir atingir), mas sim livrar-se do PCP e do BE que (não surpreendentemente) vão aumentando semanalmente a parada de exigências ao Governo. Aguardar pelas eleições até ao final do mandato (ou seja, final de 2019) poderá ser muito arriscado pois apesar dos bons ventos (nacionais e internacionais) vivemos tempos em que o imprevisível é uma constante.

Nestas circunstâncias, António Costa necessita de gerar um acontecimento político que possa provocar eleições legislativas antecipadas. O atual PM já demonstrou habilidade política suficiente para uma manobra deste tipo. Precisa, apenas, de convencer Marcelo Rebelo de Sousa e para tal tem de encontrar argumentação que deixe o PR sem alternativa. Um cenário possível é o da apresentação do Orçamento para 2018 com propostas inaceitáveis para os seus atuais parceiros políticos. Note-se que as eleições autárquicas se realizarão a 01 de Outubro e que o OE terá de ser entregue na AR cerca de duas semanas depois. Tempo suficiente para o Governo introduzir alterações no OE que significarão, para comunistas e bloquistas,  “pisar” as tais linhas vermelhas e que jamais aprovarão.

Em Outubro deste ano o PS estará no topo das sondagens e com alta probabilidade de ganhar eleições com maioria absoluta. O PSD estará numa das suas maiores crises políticas de sempre, Assunção Cristas (mesmo com bom resultado em Lisboa) nunca conseguirá, em legislativas, um resultado acima do melhor resultado de sempre do PP. O PCP e o BE não serão levados a sério pela grande maioria do eleitorado (que se encontra ao centro e é quem decide as eleições) e não terão, por isso, resultados superiores aos alcançados nas legislativas de 2016. A somar a tudo isto, aquilo que João Miguel Tavares escrevia no artigo acima referido: “o país está tão espetacular que até parece mal dizer mal”.

O chumbo do OE conduzirá, fatalmente, a eleições legislativas antecipadas! É o que falta correr bem a António Costa!

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Alienação e pós verdade

por João Távora, em 16.05.17

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 Um sinal de alerta foi como senti quando há uns dias o meu filho de dez anos me manifestou o seu espanto e incredulidade por causa de umas imagens impressionantes que passavam no telejornal da tomada duma posição ao DAESH pelo exército iraquiano – “mas afinal existem guerras de verdade?” Fiquei com a sensação de que para o miúdo as guerras eram coisas do passado ou então entretenimento para os videojogos. Acontece que hoje em dia, por mais que os pais tentem convocar o Mundo para a mesa de jantar, os miúdos crescem dentro de um aquário mediático, a ver desenhos-animados em canais temáticos, a seguir os seus ídolos do Youtube a dizerem umas banalidades a propósito dos temas da moda ("youtuber" é o termo que define as estrelas que aglutinam multidões de seguidores nesta plataforma de vídeos auto-editados) e a brincar com jogos de consola, completamente a leste do mundo real. E não me parece que estejamos a poupar as crianças à crua violência: ela tornou-se um “bem de consumo” extremamente realista e brutal na forma dos jogos virtuais e nas séries e filmes de TV. É nesse sentido que sou levado a intuir que, com tanta tecnologia, além de mais preguiçosas, as novas gerações ficam a perder mundividência. A minha geração quando era criança, condicionada a dois canais de televisão e a pouco mais de meia hora por dia de programas infantis, era pedagogicamente obrigada a espreitar para o mundo dos adultos - certamente não muito atractivo. Além dos noticiários que espreitávamos mais ou menos involuntariamente, à segunda-feira levávamos com teatro clássico, à quarta havia “Noite de Cinema”, e em desespero, num domingo chuvoso até víamos o “TV Rural” enquanto esperávamos pela transmissão de um jogo de rugby ou duma corrida de Fórmula 1, já para não falarmos dos programas sobre a natureza e a bicharada. Mas principalmente, à minha geração era-lhe concedido o privilégio de longos momentos de “tédio”, que nos obrigava a fizermos acontecer alguma coisa, e nos dava muito espaço para exercitar a imaginação e para os livros.

Se é verdade que esta nossa era dos “media sociais” e dos canais temáticos e segmentados permite uma oferta muito alargada de informação e cultura (os blogs disso são exemplo), o outro lado da moeda é terrível. O completo alheamento da realidade. Sei por experiência própria como é difícil impingir aos jovens as preocupações e a consciência dos problemas e desafios complexos que grassam no mundo para lá do soundbite difundido pelas redes sociais. Nesse sentido desconfio que as novas gerações estão mais desprotegidas porque ausentes no menu dos “factos” que lhes interessam e das “verdades” que escolhem a cada momento consumir. Porque “a quem dorme, dorme-lhe a fazenda”.

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Incoerências discursivas

por henrique pereira dos santos, em 16.05.17

As afirmações recorrentes de que a oposição ficou sem discurso porque as boas notícias sobre o país o desmentem, fazem-me lembrar as minhas recorrentes discussões sobre a conservação do lince ou sobre fogos florestais.

Na verdade, quer na economia, quer nos linces, quer nos fogos, a relativa irrelevância da nossa capacidade para conduzir processos complexos é tratado no discurso dos responsáveis sempre da mesma maneira: quando as coisas correm bem é porque somos muito bons e estamos a trabalhar bem, quando as coisas correm mal, é porque há uns factores externos que não controlamos que estragam tudo.

Não há pois grande novidade neste ponto: quando a população de lince aumenta é por causa da política de conservação e quando diminui é por causa das doenças dos coelhos; quando o ano vai favorável em matéria de fogos é por causa da boa gestão do dispositivo de combate aos fogos, quando vai desfavorável é por causa dos incendiários; quando a economia nos dá boas notícias é porque o governo tem as políticas certas, quando nos dá más notícias é a crise internacional ou a austeridade ou a herança que nos é imposta pelos outros.

A única curiosidade menos vulgar é haver um grande consenso de que as últimas notícias sobre a economia liquidaram  o discurso da oposição (até há um jornalista a falar em xeque mate) e, aparentemente, ninguém dar pelo facto de, pelo mesmo critério, o discurso do PC, do BE e da esquerda do PS sobre a dívida e a impossibilidade de haver crescimento sem reestruturar a dívida ou, pelo menos, alterar as políticas europeias, ter ficado completamente vazio.

Infelizmente para nós, o essencial não são estes jogos florais mas a realidade que é muito mais difícil de influenciar que o que nos pretendem fazer crer, exigindo trabalho continuado, de longo prazo e assente em informação tão objectiva quanto possível e com a profundidade temporal adequada.

Uma maçada.

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