No sempre excelente Hoje Há Conquilhas, Tomás Vasques refere os números da crise em vários países. O autor não vai além da enumeração do problema, no entanto tenho visto na área socialista tendência para concluir que a dimensão das dificuldades dos outros iliba os nossos governantes de qualquer responsabilidade na actual situação.
A tese esquece um detalhe: quando a Alemanha, a Irlanda ou os Estados Unidos terminarem o período de crise, Portugal ainda continuará a sua. Os nossos problemas não se vão resolver quando o crédito e o consumo recomeçarem a circular. Será difícil atrair investimento externo e recuperar o emprego, mas haverá demasiados desempregados. Teremos de cumprir os critérios do euro e cortar nas despesas, o que até agora ninguém conseguiu. Os subsídios europeus deverão diminuir depois de 2014. O crescimento lento dos últimos anos era sintoma de uma doença mais funda, que não está curada: em conjunto, o País vive acima das suas posses e o dinheiro dos impostos está mal distribuído.
A Alemanha recuperará quando os seus mercados de exportação recuperarem e a Irlanda logo que recomece o investimento internacional. O caso português será bem mais difícil.
A influência dos jornalistas na mensagem é um tema que nos levaria longe, mas julgo que o exemplo escolhido neste post de José Pacheco Pereira, que cita outro com a mesma tese, de João Gonçalves, não apenas é errado mas confunde o sintoma com o vírus.
Neste exemplo, houve uma interpretação de uma frase de Manuela Ferreira Leite suficientemente ambígua para ser interpretada de várias formas. Além disso, o PSD enredou-se na explicação da explicação. Perdeu-se a excelente mensagem sobre os problemas do país, escreve José Pacheco Pereira, mas sem razão para o afirmar. Como o Tiago escreve em baixo, a mensagem passou, para quem ouviu a entrevista ou tenha lido os artigos de jornal sobre ela (eu ouvi e li e acho que a mensagem foi clara).
A questão é que a líder do PSD consegue ser eficaz quando fala de economia, mas não o consegue em temas de estratégia partidária, devido às divisões internas da sua formação, de lutas que as lideranças do PSD têm cuidado com carinho e que não foram os jornalistas a inventar.
No futuro, o jornalismo poderá interferir com a mensagem, mas isso não tem a ver com Santos Silva (que no máximo será um político a tentar fazê-lo, como aliás acontece com Pacheco Pereira). Acima de tudo, este não é um fenómeno português e resulta da actual velocidade dos média. Faz parte da natureza das sociedades contemporâneas. Parece-me que esta é a reflexão que falta nos dois posts citados. Quando Obama, Berlusconi ou o Papa não são claros nas suas afirmações, toda a gente tenta interpretar as palavras e a mensagem perde-se inevitavelmente na tradução. Eles devem considerar os efeitos como um erro da sua lavra.
Acredito que porei os teóricos do passoscoelhismo-corta-fiteiro com a cabeça à roda, mas achei a entrevista de Manuela Ferreira Leite excelente. Discordo, portanto, do Bernardo Pires de Lima e subscrevo totalmente o texto do André Abrantes Amaral. No entanto, vou mais longe. Manuela Ferreira Leite é constantemente apontada como uma má comunicadora. É verdade. Não faz parte da sua natureza a política espectáculo e isto não é novidade para absolutamente ninguém. Por outro lado, José Sócrates é tido como o mestre do marketing político. Pessoalmente pensava assim até há uns meses atrás.
A entrevista que José Sócrates deu à RTP mostrou um Sócrates igual, mas entediante. O registo de herói, salvador, pai do povo (não dos povos, que não o tenho assim em tão má conta), de quem sabe de tudo e vai à televisão explicar-nos, a nós e aos jumentos dos jornalistas, que aquilo que defende é o que está certo, aquele tom de professor primário a falar para os jovens pupilos, a mim, e julgo que a muitos mais, já não convence. Passou. Foi novidade durante uns tempos, mas tudo o que é demais enjoa.
Por seu turno, a entrevista de Manuela Ferreira Leite mostrou alguém que, pelo menos, não pareceu estar a pensar na resposta mais polida - se perder, perdi - e deu uma reconfortante sensação de genuinidade, coisa rara na política. Para além deste lado humano, que muitos se calhar não apreciarão, mostrou um discurso sólido e ideias concretas. A diminuição da taxa social única, que me parece ser uma proposta excelente, a recuperação da rede ferroviária nacional, total ou parcialmente, em vez do TGV, a proposta de um verdadeiro corte na despesa pública, já para não falar do desmascarar dos sucessivos pacotes de apoio às famílias que acabam por resultar em nada; tudo envolto numa aura de autoridade na matéria - ela sabe do que fala, pensei quando a ouvi, nomeadamente na parte em que afirmou considerar possível a entrada numa situação irreversível daqui a alguns anos.
Eu sei que José Sócrates tem o carisma, a imagem, o vigor e o facto de ser Primeiro Ministro do seu lado. Eu sei que muitos portugueses ainda vêem o investimento público como uma forma de criação de emprego, a única, ou pelo menos a melhor, e, portanto, defendem essa via, mesmo sem saber as restantes consequências. Mas seria interessante prestar um bocadinho de atenção ao que Manuela Ferreira Leite propõe como alternativa. É verdade que as diferenças não são muitas, não nos enganemos, nem nos deixemos enganar, mas são, quanto a mim, mais que suficientes para se perceber quem deve e quem não deve governar nos próximos quatro anos.
Sei que os leitores deste blogue já andam deprimidos com os nossos posts, não queria agravar a situação, mas se sobrevivermos ao actual governo, aos candidatos europeus em geral, à crise financeira em particular e sobretudo à gripe mexicana, ainda temos este encontro celestial com o asteróide Apófis. Leiam aqui como o céu continuará a cair em cima da nossa cabeça.
É comovente ler a eurodeputada Ana Gomes mergulhada na sua especialidade: a economia. Melhor é constatar que é a prova viva de que Jorge Coelho está certo quanto à fraca memória na política e nos políticos (sim, porque o PS de Guterres não está em nada relacionado com o défice do princípio da década). A cereja no topo do bolo é comparar a economia portuguesa (nomeadamente ao nível do endividamento em percentagem do PIB e ao nível das despesas do Estado) com as economias ocidentais na sua generalidade. Um must aquele texto.
Ainda não li nada sobre a entrevista, mas normalmente notícias sobre entrevistas acabam sempre por sair uma coisa meio estranha. Por isso, deixo aqui para quem estiver interessado a entervista dada ontem pela Manuela Ferreira Leite ao Mário Crespo. Serviço público, do bom.
@ruitavares MFL queixa-se de ser mal entendida. "Não desista! Somos todos imprecisos" http://is.gd/v8rT
Não entendo de política o suficiente para extrair interpretações múltiplas de frases menos claras sobre estratégia partidária, como se esta fosse física quântica. Gosto de coisas simples. Vi a entrevista de Manuela Ferreira Leite à SIC e ouvi a frase que está a ser tão discutida e à qual o João Villalobos alude mais abaixo neste blogue. Na altura, interpretei o que foi dito da mesma forma que refere Carlos Abreu Amorim neste post. A líder do PSD não excluiu nenhum cenário e não especificou as hipóteses que considerava desfavoráveis. Qualquer observador sabe que o resultado das próximas eleições legislativas será incerto e admitirá que o Bloco Central está entre as possibilidades finais. É lícito escrevê-lo e acho lamentável que um líder político seja suficientemente ambíguo para, cada vez que fala, parecer o Oráculo de Delfos e exigir explicadores.
Estou com Marcelo, Passos Coelho, Santana e Morais Sarmento. Não vi a entrevista de Mário Crespo à Drª Ferreira Leite. Na sua compreensível estratégia de autopromoção, a entrevista divulgou o único fragmento que entendeu ser minimamente interessante e digno de menção: A Drª Ferreira Leite terá afirmado que se sentiria «confortável com qualquer solução em que acredite». Leia-se (ou outros leram) uma solução que passasse inclusive por uma coligação com o PS.
Houve quem tratasse a entrevista com o destaque que merece - caso do Público - e quem lhe desse protagonismo de primeira página - caso do Diário de Notícias. E foi neste estimável jornal, onde escrevem respeitáveis pessoas desta casa corta-fiteira e também a igualmente respeitável Paula Sá, que li a citação da Drª Ferreira Leite dizendo o seguinte: «O País está a evoluir para pior». Não pude deixar de reparar que o jornal cita a referida frase como se ela fosse - digamos - normal. Tal como, aliás, foi considerado normal que um dos comentadores de jogo recente do FCP contra uns gajos estrangeiros tenha afirmado que algo (não me recordo o quê) se tratava de uma «ascensão meteórica».
Enfim...Todo este post é uma tergiversação tonta e, vai-se a ver, talvez a Drª Ferreira Leite nem conheça aquele político brasileiro que prometia «O Brasil está à beira do abismo. Comigo vai dar um passo em frente». Vai-se a ver também e talvez a Drª Ferreira Leite acredite mesmo - à semelhança de tantos conservadores por nós conhecidos - que é possível evoluir para pior e, num lapso freudiano, tenha apenas revelado todo o seu horror ao progresso.
Ou talvez, afinal, o que parece seja. Isto é, a Drª Ferreira Leite tenha dito o que disse sem ela própria se dar conta do significado das palavras que proferiu. A ter sido assim, não me parece avisado da parte do DN (ou de outro qualquer jornal) encher páginas de caracteres com os eventuais siginificados das polissémicas afirmações da Drª Ferreira Leite. Pela simples razão de que, lendo bem, elas mesmas - entrevista após entrevista - não evoluem para melhor.
O nome é sombrio, parece uma célula de um qualquer movimento monárquico. Nada disso. É o excelente blogue do Henrique Raposo e do Rui Ramos, dois dos melhores comentadores políticos da actualidade em Portugal. O Clube das Repúblicas Mortas vale muito a pena e, por isso, é o nosso blogue da semana.
É incompreensível que haja tanta gente neste país a passar noites em claro pelo facto de a Assembleia da República ter feito um voto de congratulação pela canonização de D. Nuno Álvares Pereira. Sim, porque não acredito que consigam dormir de noite, tal é o escândalo e o horror que mostram durante o dia.
A ideia de que a secularidade do Estado está posta em causa devido a isto é tão absurda como julgar que poderíamos estar a prestar vassalagem à Suécia quando nos congratulámos pelo prémio Nobel atribuído a José Saramago. É uma distinção, a maior feita por um Estado, e isso deve ser sempre motivo de orgulho. Do mesmo modo que seria um motivo de orgulho uma distinção feita por uma outra religião ou por um outro Estado.
O pior é que à conta de toda a pressão destes grupos de idiotas, ontem, no Vaticano, Portugal estive unicamente representado pelo Ministro dos Negócios Estrangeiros, por D. Duarte Pio de Bragança, pelo Paulo Portas e pela Matilde Sousa Franco. Uma parvoíce, tudo.
Neste trigésimo quinto aniversário desta nossa terceira República, existe um defeito que lhe é apontado, muito bem evidenciado pelo João Távora: o da manifesta partidocracia. A verdade é que, tirando a extrema-esquerda, onde houve algumas mudanças, o panorama político nacional manteve-se quase estático. Os mesmos partidos, as mesmas pessoas e a asfixiante sensação que o poder está na mão das mesmas pessoas ganhe quem ganhar, que o círculo é restrito e está vedado à alternativa não demagógico-populista. Mas para além do diagnóstico da situação, que se afigura desastrosa e que me leva a mim e não só a temer pelo futuro, é necessário procurar as causas. A verdade é que ao longo dos últimos anos têm surgido alternativas aos partidos existentes, tal como o Movimento Intervenção e Cidadania, o Movimento Esperança Portugal, o Movimento Mérito e Sociedade, o Partido Nova Democracia, o Partido da Terra, o Partido Humanista, o Partido Operário de Unidade Socialista, o Partido Nacional Renovador e provavelmente haverá outros para além dos que referi. O importante é que só aqui há oito partidos, oito, com um espectro ideológico bastante alargado: desde os socialistas do POUS aos nacionalistas do PNR e nenhum tem assento parlamentar.
Muitos imputam as culpas à comunicação social, como se a SIC e a TVI tivessem algum tipo de obrigação para com estes partidos. A RTP, por ser pública, já é diferente. Mas, ainda assim, isto não é motivo suficiente.
A pergunta certa
Recomendo vivamente este post de Gabriel Silva, em Blasfémias, sobre as perguntas que deviam ser feitas aos candidatos às eleições europeias. Sabemos que não serão estes os temas discutidos, pois a votação transformou-se já numa espécie de mega-sondagem que vai condicionar o período até às legislativas. Mais tarde ou mais cedo, os partidos terão de discutir as vantagens e inconvenientes de um governo económico europeu, do Tratado de Lisboa, da harmonização fiscal, de uma política comum no ambiente, da convergência dos sistemas de segurança social, do imposto a 27, da defesa europeia, da adesão da Turquia. Tudo isto faz parte da discussão sobre o futuro da união. Mas, neste caso, os eleitores continuarão a ver uma eleição interna, sem custos para o utilizador, ideal para mostrar cartões amarelos ou para a abstenção inócua.
Não estou a valorizar, é uma constatação. E, no entanto, com estas ou outras perguntas, Portugal ainda terá um destino europeu, pelo menos nas próximas décadas. Os portugueses parecem não se dar conta disso, que tudo mudou. Em 2006, a mortalidade infantil era de 3,3 por mil nascimentos, contra 17,8 em 1985. No mesmo ano, a educação superior abrangia um terço dos jovens em idade de terminar a universidade; a proporção, dez anos antes, era de 15%. Os números são da OCDE e estes são apenas dois exemplos de mudanças brutais, comuns a quase todos os indicadores. Sim, há excepções: as contas públicas são caóticas, o que se deve ao facto de Portugal não cumprir os critérios obrigatórios da zona euro, algo que não continuará por muito tempo depois da crise acabar.
O facto é que ninguém deseja discutir temas complexos quando a ameaça está à porta de casa. A Europa é difícil de explicar, não dá manchetes e não é de todo sexy, excepto quando se fala nos aspectos anedóticos (por exemplo, que serve para medir bananas). As perguntas sugeridas são as importantes, mas garantiam que a audiência ia mudar de canal.
«Se os processos contra jornalistas avançarem mais depressa do que as investigações do Freeport, a mensagem será muito clara».
Sempre tive grande admiração pelos bloggers que em quatro ou cinco frases conseguem dizer o essencial. Fazem lembrar os grandes couraçados que podiam resolver uma batalha numa rápida salva de canhão.
Gostava de saber dominar esta arte. Nesta casa há várias pessoas que sabem escrever assim, em poucas palavras, mas isto é sobre navegações e recomendo quatro exemplos recentes da concorrência:
Gosto muito deste autor, João Morgado Fernandes, que um dia me mostrou como é que se fazia isto dos blogues (infelizmente, não aprendi na altura).
Neste exemplo, Filipe Nunes Vicente consegue, numa única frase, sintetizar todo um programa político. A isto chama-se acutilância.
José Medeiros Ferreira é possivelmente um dos grandes mestres nesta arte (tão perfeita para o mundo dos blogues) de saber dizer muito em poucas linhas.
E, finalmente, um exemplo de um autor com quem raramente concordo mas que nunca desilude. Luis Rainha é mordaz e devastador. Veja-se este texto notável.
Neste 25 de Abril, mais que escrever, apeteceu-me ler. E li coisas de que gostei e coisas que me desagradaram profundamente. Apenas das primeiras falarei, que para coisas más já chega a memória do passado. Começo picante, com o Miguel Marujo a revisitar os acontecimentos de há 35 anos na sua forma bastante particular. Prossigo com o Rui Ramos a deixar-nos um relato bastante pessoal. E porque não é só o Abril que importa, mas também o que no Abril se faz, sugiro-vos o texto de Vítor Pimenta sobre uma certa praça de Santa Comba. As vivências pessoais são sempre deliciosas, principalmente quando revelam a ingenuidade da época, é disso que nos dá a Ana Vidal. Posso dizer que penso exactamente da mesma forma que Carlos Abreu Amorim, sem tirar, nem por. Não, ainda não acabou, que venha o Paulo Pinto e o seu excelente texto. É agora. Termino com o texto do Tomás Vasques, mais para pensar no futuro, esse gigante ponto de interrogação, que revisitar o passado, esse ponto de interrogação ainda maior.
Há muito que digo que não percebo a abstenção para as eleições do Parlamento Europeu e vendo o gráfico do Tiago Moreira Ramalho ainda fico mais atónito.
Todos os Portugueses deveriam querer votar nas únicas eleições que servem para mandar políticos daqui para fora.
Ramalho Eanes disse hoje que a nossa democracia é "muito eleitoral, pouco participativa, quase nada deliberativa".
O Resultado da Abstenção
A primeira sondagem para as eleições europeias em Portugal mostra uma terceira mancha bastante grande: o Bloco de Esquerda. Não é propriamente uma grande surpresa, tal como escrevi neste post, considero que o Bloco tem, à esquerda, a melhor lista. No entanto, julgo que este resultado não se deve apenas à qualidade da lista apresentada. Sim, o Bloco segurou o eleitorado e, provavelmente, captou alguns indecisos, mas ainda assim isso não seria suficiente. A principal razão que encontro para este resultado verdadeiramente extraordinário é a abstenção. Existe um abandono generalizado por parte dos portugueses das questões europeias. Não conhecemos a Europa e não fazemos questão de a conhecer. O resultado é que acabamos por assistir a uma abstenção que rondará, segundo uma outra sondagem, os 75%. Num quadro em que apenas 25% dos eleitores exercerão o direito de voto e em que um partido cria uma lista verdadeiramente capaz de agarrar o eleitorado, o resultado só pode ser este. Parabéns ao Bloco. Os meus pêsames, Portugal.
Direitos de autor: gráfico roubado ao João Lopes, grafismo roubado ao Pedro Correia.
Segundo afirmou Vital Moreira, numa entrevista a emitir amanhã, se o PS não tiver maioria absoluta nas próximas legislativas, o Governo "será derrubado à primeira circunstância" e terá de ir a Belém "apresentar a sua demissão".
Pelos vistos, neste país é impossível negociar uma coligação. Os socialistas serão incapazes de fazer cedências, quando se confrontarem com um panorama bem diferente do actual: as sondagens mostram que o PS pode até não ganhar as eleições, sobretudo no caso de continuar por muitos mais meses o actual colapso económico. Se vencer as legislativas, tudo indica que o PS terá de se entender com o Bloco de Esquerda ou com o PSD. Em cada semana que passa, o bloco sobe mais um bocado nas sondagens.
O candidato socialista sabe bem que nos dois anos seguintes a estas legislativas não haverá repetição da eleição, pois a Constituição só o permitirá num curtíssimo período entre Abril e Junho de 2010 (o que não dá tempo para as organizar). Novas eleições só serão possíveis seis meses depois das presidenciais, em Junho de 2012. Sendo Verão, estamos a falar de Outubro de 2012.
Ao saber desta declaração infeliz, lembrei-me da forma como Medina Carreira, numa entrevista à TVI, explicava como foram más para a nossa democracia as maiorias absolutas dos dois partidos. Concordo. Esta gente adora a palavra "absolutamente" e precisa de um banho de humildade.
Uma memória pessoal
Ainda não tinha 13 anos a 25 de Abril de 1974 e a minha visão daquilo que se seguiu é uma mancha confusa de alterações caóticas e em catadupa. Lembro-me do medo de que a situação política descambasse em guerra civil, e talvez os historiadores do futuro, que possam estudar o período de forma distanciada, concluam que não andámos longe disso. Lembro-me da preocupação dos meus pais e sei que a minha família empobreceu. E, no entanto, tudo mudou naqueles dois anos, sobretudo na maneira como pensávamos. Terá sido o meu ponto de vista adolescente ou foi o rolo compressor da História?
Exercício de imaginação
Pode ser fútil fazer exercícios de imaginação, mas não creio que a minha vida tivesse sido muito melhor se o golpe militar falhasse ou se Portugal se tivesse transformado numa ditadura comunista, ou mesmo se o regime anterior conseguisse uma transição gradual, como aconteceu noutras ditaduras na Europa.
Um triunfo comunista tinha sido uma catástrofe sangrenta e o novo regime não teria passado de 1990. O fracasso do golpe militar implicava a continuação da guerra colonial e o isolamento do país, incapaz de se democratizar. O endurecimento da ditadura era forçoso e não vejo como podia ser evitada a derrota nas colónias. A transição progressiva podia funcionar, mas os processos graduais também têm defeitos e são lentos; penso que essa solução não teria permitido um leque tão grande de liberdades, mantendo crispações que a história factual eliminou.
Os costumes
Passados 35 anos, com a profissão de jornalista, ouvi muitas histórias, para mim quase incompreensíveis, de como a censura cortava notícias que hoje pareceriam inócuas. Só pela liberdade de Imprensa valeu a pena. Mas houve mudanças tremendas nos costumes. A nossa sociedade é hoje muito mais liberal do que a anterior. Ainda me lembro de como era difícil a vida das mulheres no antigo regime e atrevo-me a afirmar: a maior transformação deu-se no plano da liberdade das mulheres (divórcio, acesso a educação, contracepção, união de facto, participação política, poder económico). Desse ponto de vista, o que se seguiu ao 25 de Abril foi uma aceleração ou uma convergência muito rápida com o resto da Europa; o que levara duas gerações a fazer nos outros países levou aqui menos de uma geração.
Os discursos oficiais sobre os dois anos de revolução geralmente não incluem o lado mau, sobretudo o trauma da descolonização, que foi uma tragédia para centenas de milhares de pessoas. O país foi também tomado por uma febre política que destruiu muitas carreiras e permitiu revanchismos e oportunistas. Houve episódios que hoje nos espantam, pelo seu radicalismo, e Portugal foi também palco secundário do conflito entre as superpotências. O facto de pertencermos à NATO foi um elemento decisivo, que garantiu a estabilidade do novo regime político.
A Europa
Numa futura interpretação do período entre 1974 e 2000, talvez os observadores descomprometidos concluam que o facto histórico mais importante foi a democracia ter permitido a adesão portuguesa à comunidade europeia. Isto garantiu definitivamente a longevidade da terceira república, permitindo a sua prosperidade relativa. Recebemos subsídios em quantidades maciças (estão garantidos pelo menos 25 anos, mas podemos conseguir mais de 30) e acima de tudo adoptámos leis modernas e regras democráticas rigorosas. Temos uma moeda única que nos protege das turbulências financeiras externas, apesar de não conseguirmos cumprir as regras desse espaço monetário (e isso terá de mudar). No fundo, a integração europeia foi o nosso seguro contra todos os riscos.
Há nuvens no horizonte? Claro que há. A nossa economia continua a ser frágil e a sociedade possui grandes desigualdades, que geram injustiças gritantes. O país está em crise desde 2001 e o sistema político parece paralisado com o agravamento diário da situação económica. Nesse sentido, concordo com quem afirma que as maiorias absolutas se revelaram perigosas. A democracia portuguesa tem de saber dar o salto qualitativo e criar a sabedoria negocial dos governos de coligação. Os portugueses confiam pouco nos partidos e esse problema exige patriotismo, renovação das lideranças e bom senso. Seremos mais europeus, é esse o futuro, mas não podemos continuar na mediocridade, pois a Europa é também mais exigência.
Ah, o passado do futuro!
Leonor Barros, no sempre excelente Delito de Opinião, lembra a série de televisão Espaço 1999. Infelizmente, o post não comenta essa memória (ficamos sem saber a opinião da autora) e lembrei-me de escrever qualquer coisa sobre este tema feliz.
Como muitos recordam, Espaço 1999 contava as aventuras da tripulação de uma base lunar após a Lua ser ejectada da órbita terrestre por um acidente. Transformada em gigantesca nave espacial descontrolada, a Lua perdia-se no espaço, evitando colidir com estrelas, enquanto os protagonistas procuravam em cada oportunidade encontrar um planeta onde pudessem sobreviver.
A parte mais curiosa desta série italiano-britânica dos anos 70 era o facto de só haver perigos no exterior. Em cada episódio, os náufragos à deriva enfrentavam uma qualquer ameaça alienígena, que lhes iria restringir as liberdades ou transformá-los em saborosa comida.
A série ignorava alegremente as impossibilidades científicas da história básica, mas o pressuposto permitia o aparecimento de uma colorida galeria de visitantes cheios de surpresas (muitos humanóides e versados em inglês, naturalmente), num rosário de mal-entendidos galácticos, referências mitológicas e reflexões filosóficas sobre a existência de Deus e a pequenez do Homem.
Espaço 1999 era um hino à imaginação, que oscilava entre a aventura delirante, o politicamente correcto da época e uns pozinhos de soft horror. Também recordo as cores berrantes e as máquinas engraçadíssimas (que até talvez voassem) ou os uniformes com calças à boca-de-sino. O comandante Koenig era um imbatível, talvez o maior destruidor involuntário de civilizações extraterrestres na história da televisão.
No dia 24 de Abril, tal como quatro meses antes, é suposto que um blogger que se preze escreva um texto bonito. É, é suposto. Eu, desgraçado de mim, não consigo. E não consigo por um motivo muito simples: não sei o que foi o 25 de Abril.
Já li nos livros, já li na rede, já vi na televisão, já ouvi nas reuniões familiares, já vi os filmes, passei a vida a aprender Abril e, por mais que me digam, que me contem, que me expliquem, continuo sem sabê-lo, mesmo tendo mais informação que muitos dos que já por cá andavam na madrugada do dia 25 de Abril de 1974. E nunca o saberei. Nunca o saberei porque há coisas que não se aprendem nos livros, na rede, na televisão, nos filmes, nem nas reuniões familiares. Há coisas que só se aprendem vivendo. E eu, para felicidade minha, não vivi Abril. Felicidade, porque vivê-lo significaria ter passado por tudo aquilo que quem o viveu passou. Ter uma vida, seria vida?, miserável em que escrever num qualquer lugar que a nossa vida era miserável era crime. Viver, seria viver?, com medo de dar um passo e ser apanhado a fazer coisa nenhuma e condenado à prisão por ter nascido numa terra estranha, numa época estranha. Sentir tudo aquilo e calar, a bem dos brandos costumes e a mal do futuro que me esperasse.
É, não sei o que foi Abril. E não sei o que sinto, se confusão se pena, em relação àqueles que, não tendo vivido Abril, querem voltar ao país de Março. Se querem aquela merda para vocês e para os vossos filhos, mes frères, tratem de comprar uma ilha e fazer o festim bem longe.
Não sei o que foi Abril, mas há uma coisas que sei: sabe bem não conseguir escrever sobre o que Abril foi.
À medida que o ambiente político fica mais crispado, torna-se difícil encontrar textos verdadeiramente interessantes escritos pelos protagonistas das eleições. De qualquer forma, há excepções e julgo útil fazer um passeio por blogues onde têm a palavra autores que são dirigentes partidários ou mesmo candidatos.
É o caso de Laurinda Alves, aqui e aqui. Seria bom que esta candidata tivesse mais acesso à opinião pública, mas as regras não favorecem os muito pequenos, como o Movimento Esperança Portugal (MEP).
Em Quarta República, encontrei este notável texto de Tavares Moreira, dirigente social-democrata. Também da área do PSD, gosto deste blogue, Europa das Ideias.
Destaque ainda para o excelente Rui Tavares, candidato às europeias pelo Bloco de Esquerda. Seria um óptimo eleito. Neste novo blogue, Tavares linca um artigo do Guardian sobre desigualdades, onde Portugal surge na pior situação europeia. Sim, o país europeu mais desigual em riqueza. Esta será uma das principais origens dos nossos problemas sociais, cujo agravamento só pode levar às piores consequências. Veja-se a posição da Espanha nos gráficos: este é talvez o maior fracasso do 25 de Abril.
Menos bom foi o que li em Causa Nossa, em posts da autoria de Ana Gomes. Aqui e aqui. Não se percebe o tom do primeiro post, pois a uma crítica política legítima responde-se num tom que eu consideraria ofensivo, se fosse comigo. É arrogância do poder, falta de chá ou uma forma muito peculiar de andar aos papéis? E, em relação ao segundo post, um comentário: será que o PS não tem renovação nas suas listas? Não haverá ninguém inexperiente a ser eleito? Já ouço a resposta: Vital Moreira leu os livros suficientes para conhecer todos os cantos à casa.

Gisele Bündchen
As eleições
Dediquei os posts anteriores a tentar explicar as limitações da União Europeia e o aspecto perverso das elevadas expectativas sobre os seus poderes, nunca concretizadas, produzirem cinismo na opinião pública. Ao ler alguns autores nos jornais, podia concluir que a UE tem poderes para resolver a crise económica internacional e que só não o faz por haver lideranças incapazes. É talvez o mito mais forte em Portugal e voltaremos ao tema. Serve esta longa crónica para contrariar outra ideia feita, segundo a qual estas eleições não interessam. Tenho consciência da aparente contradição: por um lado, escrevo que a UE possui limitações e que as expectativas são demasiado elevadas; por outro lado, as eleições europeias têm importância política. Ora, explique-se lá, Luís Naves.
Ligação directa
As eleições europeias são a única ligação directa que existe entre os eleitores e a União. Os chefes de Governo eleitos também representam os eleitores no conselho (que funciona quase como uma espécie de senado ou câmara alta do parlamento), mas a ligação ao voto é indirecta, pois estes líderes foram eleitos em legislativas. Bastaria este facto para dar grande relevância às eleições de Junho. No entanto, esta é também uma oportunidade para muitos eleitores se pronunciarem sobre as políticas internas sem o risco de causarem crises. Falo sobretudo das pequenas franjas. Nos casos de Portugal e da Alemanha, havendo legislativas logo a seguir, o que está em jogo é ainda mais importante.
Mesmo com abstenção histórica (digamos, 50%), o número de votos será mais elevado do que nas eleições americanas, ou seja, quase 200 milhões de votos. Infelizmente, aqui, haverá um somatório de 27 eleições nacionais e a comunicação social estará pouco interessada em ir além da leitura nacional do país em causa. Existe outro problema: os deputados não serão todos iguais e isso é raramente explicado.
Equilíbrio
O Parlamento Europeu tem várias funções, a mais importante das quais é a de participar na elaboração das leis produzidas pela UE. Estamos a falar de dois terços das leis que Portugal adopta e onde o parlamento tem uma palavra decisiva. Mas para participar nos trabalhos relevantes, o eurodeputado terá de pertencer ao grupo parlamentar de um partido europeu. Um exemplo: CDS e PSD estão no Partido Popular Europeu (PPE), em duas das facções; um deles terá mais elementos e, portanto, consegue colocar com maior facilidade os seus membros nas comissões relevantes. Este facto não tinha importância, pois nas anteriores eleições os dois partidos concorreram em lista conjunta, algo que não farão agora.
Em resumo, no plano estrito do interesse nacional, há vantagem em votar nos dois maiores partidos, pois socialistas e social-democratas estarão nos dois grupos mais fortes. Uma das perguntas que os eleitores não deviam deixar de fazer era sobre o partido europeu em que determinada lista tenciona integrar-se depois das eleições. O caso do Bloco de Esquerda é exemplar, pois está no grupo comunista, com os eleitos da CDU. Então, porque não uma lista conjunta? E porque razão os eleitos do BE não aderem ao grupo europeu dos verdes, que é da mesma dimensão?
No Parlamento Europeu, o PPE e o seu congénere socialista (PSE) são as duas forças mais importantes, respectivamente com 288 e 217 deputados seguindo-se os liberais, com 100. Em princípio, a vitória estará ao alcance do PPE, apesar do Partido Conservador Britânico ameaçar sair, pretendendo formar um grupo autónomo, mais eurocéptico, o que lhe reduzirá a influência política geral. Mesmo que isso aconteça, o PEE é o favorito. E o CDS, acompanha os conservadores britânicos, se eles saírem do PPE?
Leituras
A leitura europeia dos resultados costuma ser esquecida em Portugal, mas penso que desta vez haverá várias perguntas cuja resposta será importante, levando em conta o somatório das 27 eleições. Até que ponto vai crescer a extrema-direita? Como se vão comportar os partidos populistas anti-europeus? O que nos dirá o resultado irlandês sobre as hipóteses do Tratado de Lisboa? Quantas lideranças vão perder? E os derrotados serão mais socialistas ou mais conservadores? E qual a influência da crise nesta votação?
Nas leituras nacionais dos resultados, penso que a oposição pode subir muito em Espanha e Portugal, que os líderes do quarteto (Brown, Berlusconi, Sarkozy e Merkel) vão todos vencer a respectiva eleição e que haverá grandes perturbações em alguns países do leste. Na Hungria, por exemplo, a oposição conservadora surge com dois terços nas sondagens, o que deve ter algum tipo de consequências. Eleições antecipadas ou tumultos?
Folclore
Há entre nós certa tendência para se falar mais no folclore, embora ele seja redutor: fala-se mais no Partido Pirata sueco, nas candidatas de Berlusconi (a actriz Barbara Matera ilustra muitíssimo bem este post); e a propósito alguém sabe o que aconteceu aos bebedores de cerveja polacos?. A UE não tem poderes para resolver os nossos problemas e as grandes decisões continuam nas mãos dos chefes de Governo sentados à volta do conselho. No entanto, o Parlamento Europeu faz o seu caminho democrático, ganha espaço e aumenta a influência neste sistema. O reforço dos seus poderes é, para mim, uma razão muito forte para se apoiar o Tratado de Lisboa.
[O parlamento tem 785 deputados, mas após estas eleições terá apenas 736, que subirão para 751 após a ratificação do Tratado de Lisboa].
Depois do Brasil, Cabo Verde, Malaca, Ormuz, Ilha de Moçambique, Macau e Goa... Pré-Lançamento de 'Quanta Terra - Romance Oficial 7 Maravilhas de Origem Portuguesa no Mundo' (Quinta-feira, 23 de Abril, 21h30, na abertura na nova Ler Devagar no LXFactory). Conto convosco.

É perfeitamente aceitável que uma sociedade imponha que os seus jovens tenham um determinado grau de educação. Os jovens não são independentes, as suas vidas dependem da vontade das suas famílias e se existe um consenso quanto à importância dos estudos, então todos os jovens devem tê-los, tal como têm alimentação.
O futuro da Europa parece definido por duas posições competitivas. De um lado, os defensores de uma união que forme um vasto mercado único, o maior possível, mas pouco integrado. O grupo não tem nome, mas podemos chamar-lhe ‘soberanistas’. O segundo núcleo é o dos chamados ‘federalistas’, palavra que entre nós tem conotação negativa, mas que segundo o mito nativo é o dominante na UE.
A integração económica implica reduções de soberania mal aceites pela opinião pública. Alguns exemplos: o orçamento comunitário é pequeno (1% do PIB) e complicado ao nível das receitas, mas dificilmente os eleitores dos países ricos aceitam modificá-lo; a harmonização fiscal faz sentido num espaço de moeda única, mas o assunto é anátema; segundo os tratados, devia existir um mercado único de serviços, mas ele não existe e as “Constituições” podem cair por causa do assunto (lembram-se do canalizador polaco, na foto?); as diferentes regras de segurança social são um entrave à livre circulação de trabalhadores, mas é impossível obter uma harmonização; seria lógico um orçamento de 5% do PIB obtido através de um simples imposto europeu, mas o tema é poesia pura; e nem é preciso mencionar a hipótese de regras iguais para todos nas pensões de reforma (se existe livre circulação, porque é que uma pessoa que trabalhou cinco anos noutro país tem de ser prejudicada?)
A UE não possui políticas comuns na cultura, na educação, no ambiente, embora as questões sejam transversais; não prevê referendos europeus e mesmo as eleições europeias são um somatório de eleições nacionais. A maior fatia do dinheiro é gasta na única política comum com verdadeira dimensão: a agricultura e pescas, que serve uma minoria. Os partidos podiam concorrer nas suas formações europeias e podia haver listas multinacionais, mas esta perspectiva horroriza os políticos; o Tratado de Lisboa seria aprovado num referendo global, mas isso não irá acontecer nem com o tratado seguinte ao de Lisboa. E quando se fala em exército europeu ou diplomacia europeia, há um sopro de escândalo, embora fosse a única forma de poupar dinheiro e ter uma defesa e política externa eficazes.
Enfim, os soberanistas são os mais fortes na Europa e são eles que a definem. Na realidade, a UE forma um vasto espaço económico em alargamento e os federalistas nem sequer existem, embora entre nós a palavra seja usada para arrasar os argumentos de alguém que defenda mais integração.
Porque razão José Sócrates, na entrevista que deu à RTP, conseguiu fazer-me lembrar, à velocidade de uma vez por minuto, que Judite Sousa é casada com um dirigente do PSD?
Os textos que José Saramago publicou ao longo dos últimos meses no seu blogue O Caderno de Saramago foram agora reunidos, arrumados e transformados em livro. O Caderno foi editado pela Caminho e pela Fundação José Saramago e estará à venda a partir de dia 23 de Abril, próxima quinta-feira.
Informação e imagem colhidas no excelente blogue da revista Ler.
O Pedro Adão e Silva mistura um pouco as coisas neste seu texto.
Vou tentar ser sintético porque é a melhor forma de não causar confusão. Uma coisa é um indivíduo ter a sua vida normal e ver a sua conta devassada (o que não acontece propriamente com esta proposta) por alguém sem qualquer autoridade judicial para tal. Outra coisa completamente diferente é uma pessoa em dificuldades pedir apoio ao Estado. Ora, se alguém pede um subsídio, o mínimo que se pode exigir é que prove que o necessita. Para além disso, uma pessoa em dificuldades que não queira a sua conta investigada pode sempre optar por não pedir o apoio, ao contrário do comum mortal-cidadão que não pode escolher se quer a sua conta investigada ou não. Indignação selectiva, não. É apenas tratar coisas diferentes como coisas diferentes e não everedar por uma via demagógica de meter tudo no mesmo saco.
A União Europeia desenvolveu um sistema de equilíbrio de poder entre Estados que dá a cada um deles um certo grau de influência, ao mesmo tempo que impede resultados intoleráveis. Com este sistema, Portugal nunca foi tão influente na Europa.
Existe um mito de que a UE representa uma redução de poder para Portugal, mas os defensores desta ideia nunca fazem a comparação com o passado. Nas fases de grandes desequilíbrios entre potências (guerras napoleónicas, início do século XX) Portugal teve de optar por um dos lados do conflito europeu. Por exemplo, na Primeira Guerra Mundial, escolheu enviar soldados para as trincheiras, apesar do massacre que ali se vivia: essa era a condição de sobrevivência do país ou pelo menos do império. Nas guerras napoleónicas, há quem diga que Portugal terá perdido 10% da população, um sacrifício que preparou uma guerra civil e que não melhorou a nossa independência.
Nos períodos em que a Europa viveu em estabilidade, a situação era um pouco mais favorável, mas não inteiramente segura, como demonstraram os episódios do mapa cor-de-rosa, o colapso da primeira república ou a difícil crise de 75, quando o país hesitou entre as duas superpotências.
Tendo aderido à UE, Portugal nunca se desenvolveu tanto em tão pouco tempo. Isso é visível em todos os indicadores, da economia à educação. Felizmente, compreendeu-se que era necessário enviar para as instituições europeias os melhores funcionários, pois nestas instituições existe um sistema de carreiras por mérito. A influência do país está sobretudo nesta presença pouco apreciada entre nós. Infelizmente, os partidos políticos parecem ainda não ter compreendido que o mesmo princípio se devia aplicar às listas de candidatos a eurodeputados, onde só deviam constar nomes da maior qualidade.
Imagem: Batalha do Vimeiro (1808). Apesar do sacrifício, na história contada pelos ingleses, Portugal nem sequer é segundo violino. Há 200 anos, o exército anglo-português combatia os franceses no Porto.
E haverá coisa melhor que isso que viveste, vives, ou sonhaste, Rui? Não creio. Deixa-te estar a ronronar e se a ronha te leva a escrever desta prosa, que se fechem todos os centros de saúde, que médico que te secasse a fonte seria um assassino.
Muito bom, este texto de Rogério Casanova, em Pastoral Portuguesa, um dos meus favoritos, pelo sentido de humor e a boa escrita. O tema é a internet, com o único defeito de ficarmos sem saber o que está um nazi-SS a fazer na imagem ao lado do fato de astronauta.
Aqui, outro magnífico texto sobre a internet, de Pedro Rolo Duarte.
Miss Pearls escreve sobre Europa, mas atenção a esta excelente série de Gabriel Silva.
E Sofia Loureiro dos Santos, em Defender o Quadrado, faz esta pergunta pertinente.
A dois meses das europeias, inicio uma série de textos sobre a UE onde tentarei combater mitos que julgo serem nítidos na discussão pública. Hoje, no primeiro debate entre candidatos, aposto que vamos ouvir a frase “esta não é a minha Europa”. Trata-se de um argumento recorrente nas discussões, sempre acompanhado de uma ressalva: “mas sou europeísta”.
A União Europeia é a maior máquina de negociação política jamais inventada, além de ser uma fábrica de leis cuja aplicação tem aproximado os países. O objectivo deste mecanismo é conseguir a integração do continente e evitar conflitos entre os Estados. Existe livre circulação, um mercado continental relativamente homogéneo, também uma moeda única, mas acho que o mais notável tem sido a convergência de políticas, de níveis de rendimento (Portugal foi uma excepção nos últimos anos). As sociedades europeias estão cada vez mais parecidas umas com as outras, embora mantenham as suas culturas distintas. E os líderes falam constantemente entre si.
O argumento “esta não é a minha Europa” é no fundo anti-UE, pois não considera que numa negociação se atingem apenas os mínimos denominadores comuns. A Europa que estas pessoas querem é sempre uma que não pode existir.
Na minha opinião, a elite portuguesa tem sido profundamente anti-europeia e a sua desconfiança em relação ao processo de integração é enorme. Estas pessoas beneficiaram das ajudas comunitárias (3 ou 4% do PIB, por ano, durante duas décadas), usaram mal parte destas ajudas, mas cospem na sopa quando se começa a falar em responsabilidade. A nossa política europeia é uma espécie de pobre continuação da pior política nacional: veja-se o debate execrável sobre o segundo mandato de Durão Barroso. Se Durão foi um bom presidente da comissão e se é apoiado pelos três maiores países, ele será escolhido; pode ser necessária uma vitória do PPE nas europeias (quase certa), mas duvido que seja condição sine qua non. Na Europa, nada se faz sem pelo menos o voto de dois dos grandes e nada se faz contra o veto de um dos grandes. Muitos dirão “esta não é a minha Europa”, mas de facto é assim a nossa Europa.
Imagem: quadro de Noel-Nicholas Coypel (1726), Europa levada por Júpiter
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