As sondagens repetem-se, a tendência acentua-se. O PS detém-se no limiar da maioria absoluta, sem a alcançar devido ao crescimento dos partidos à sua esquerda que disputam eleitores palmo a palmo com a feroz rivalidade que costumava separar trotsquistas de estalinistas no tempo em que os amanhãs cantavam. O CDS, que recebeu um súbito balão de oxigénio nos Açores, luta pela sobrevivência ainda ligado à máquina. E o PSD - agora entregue a Manuela Ferreira Leite, "líder" tão volátil como os que a antecederam na sede da Rua de São Caetano à Lapa, que mais parece uma casa assombrada - confirma-se como um partido inútil para uma alternativa de poder em Portugal.
Exagero? Leiam com atenção a sondagem hoje publicada no Diário Económico: o "novo" PSD de Ferreira Leite consegue 28,7%. Apenas a pior marca de um ano que tem sido dominado pela crise.
Na recta final das presidenciais norte-americanas e em plena crise internacional, houve um caso - e este é o termo certo, "caso" - que passou despercebido ou entre os pingos da chuva. Dominique Strauss-Kahn, socialista e presidente do FMI, saiu incólume da polémica sobre uma ligação perigosa com uma economista sénior da instituição. Houve um inquérito interno e um relatório de investigação que condenou eticamente o envolvimento de DSK com Piroska Nagy, mas tudo ficou por aí. Consequências: zero. A actual crise internacional falou mais alto, porque nesta altura ninguém quis levantar ondas.
O editorial desta quarta-feira do The Wall Street Journal põe o dedo na ferida e recorda que Paul Wolfowitz, que foi presidente do Banco Mundial, não teve tanta sorte. Ele que antes de aceitar o lugar pôs tudo em pratos limpos. Eu acrescento: não teve sorte por ter sido um dos gurus de George W. Bush e por não ser de uma certa esquerda. O jornal diz que quem salvou DSK foram alguns europeus sofisticados. Concordo, mas se Wolfowitz fosse de esquerda, modernaço e com ligações aos media safava-se do caso. Como não era e não é, tramou-se. Dois pesos e duas medidas. É esta mesma esquerda, os sofisticados e os media que já elegeram Barack Obama, mesmo antes de ir a votos.

Natalia Belova
Muitos autores da blogosfera portuguesa manifestam uma esperança (a meu ver deslocada) em relação aos eventuais efeitos revolucionários da vitória de Barack Obama nas presidenciais americanas de terça-feira. As sondagens apontam para uma grande vantagem do candidato democrata, mas a votação ainda não acabou, embora já possa estar decidida. A tendência favorece Obama, pelo que este texto parte do princípio de que será ele o próximo presidente dos EUA.
Vantagens em casa
A nova administração terá provavelmente duas vantagens: Congresso favorável e muitos aliados com imagem positiva, dispostos a aceitar as suas propostas. Mas estes factores serão temporários.
McCain não teria estas vantagens, mas o seu programa não seria muito diferente. O candidato republicano tem posição oposta ao do democrata em pouquíssimos temas, na questão do aborto, por exemplo. Mas nas restantes questões sociais, económicas ou de política externa, os dois candidatos concordam no essencial.
Uma administração Obama não acabará com a pena de morte ou com o porte de arma; nos casamentos homossexuais, Obama não é favorável, mas também não se opõe. Haverá maior esforço na educação das crianças pobres, mais impostos para os ricos e, na saúde, regras menos favoráveis para as seguradoras. Mas mesmo neste assunto, o candidato democrata é mais conservador do que a sua rival derrotada, Hillary Clinton.
No ambiente, Obama defende a liderança americana na redução de emissões com efeito de estufa, mas também é um entusiasta dos subsídios de etanol. Na regulação financeira, as diferenças em relação a McCain são mínimas; e, no comércio livre, Obama é menos entusiasta do NAFTA do que o adversário, mas apoia a globalização tal como ela existe. Imigração ou energia são outros exemplos de áreas onde há diferenças mínimas entre os dois.
No mundo
Na política externa, estão em causa pormenores, por muito que isso custe aos entusiastas. Obama pretende negociar com o Irão e McCain quer mais sanções; no Iraque, o candidato democrata defende que as forças americanas serão retiradas num prazo de ano e meio (até meados de 2011). McCain defende o mesmo, embora para 2013. Nenhum dos dois parece saber muito bem o que irá fazer no Afeganistão. E, ao contrário do que afirmam muitos observadores, a Rússia não é um problema para os Estados Unidos.
O estilo e a personalidade têm importância em política, mas também a experiência. Obama será provavelmente um presidente menos centralizador do que McCain seria, e talvez mais prudente.
No entanto, quem espera grandes mudanças está a antecipar um Barack Obama que não existe.
- Há rumores de que Palin seja candidata a Presidente em 2012...
- Hihihi... viste isso nos Contemporâneos?
- Não, no Público.
- ![]()
Nada daquela retórica chatíssima cheia de citações e excitações a certificar competências temperamentais, culturais e outras. A (Des) conversa de Mike é fluida e despretensiosa tanto quanto a prosa blogosférica pode ser. E reflecte sobretudo o desejo de partilha, que é o que mais me encanta nos seus posts.
Onde fica esse lugar onde as árvores conversam? Gosto de imaginar que estamos então aí. Que ainda podemos pisar as poças da chuva e que colocamos salpicos de lama em vários beijos. Gosto de beijos molhados pela chuva.
Gosto da chuva porque imagino os teus dedos, sem recuos, a descolar alguns pedaços escorregadios do meu cabelo, no pescoço. Gosto da chuva quente, insinuante, que aconchega a roupa ao corpo. Não gosto da chuva que provoca medo, nem da que bate na janela invadindo o silêncio. Gosto da chuva para poder escrever o teu nome nos vidros. Gosto da chuva cansada para correr lado-a-lado com ela. Gosto quando, depois da chuva e da trovoada, se adivinha o arco-íris. Um dia, vi um partido ao meio por uma nuvem. Tu estavas numa ponta e eu noutra.
Gosto da chuva porque me acentua a tua presença. Gosto de abrir as portas da varanda e ficar a ouvir a chuva a cantar.
E o que sei eu de ti para poder imaginar gostar de estar contigo à chuva? Poderá a chuva arrefecer-nos?
- O Paulo Portas também bebia?
- Não. O Paulo era só comprimidos.
A entrevista do Fernando Esteves ao Miguel Esteves Cardoso na Sábado é absolutamente imperdível.
Oiço que Barack Obama gastou cerca de 6 milhões de dólares num anúncio de 30 minutos. Haverá 30 minutos mais caros que estes?
Vitória de Pirro
No terceiro século antes de Cristo, um general grego, Pirro de Epiro, lançou uma campanha militar contra Roma e venceu vários combates que lhe custaram os melhores soldados do seu exército. Após uma dessas batalhas, disse famosamente que se tivesse mais uma vitória como aquela, isso representaria o seu fim.
O episódio deu origem à expressão “vitória pírrica”. Se os custos de um triunfo forem excessivos, uma vantagem táctica temporária pode facilmente transformar-se em derrota estratégica.
O exemplo húngaro
Em 2006, os socialistas húngaros (MSzP) venceram as eleições no seu país, com um primeiro-ministro (na imagem, à direita) que chegara à chefia do partido em 2004, Ferenc Gyurcsány (lê-se Ferentz Giurtxaine). O novo líder parecia mais dinâmico e substituíra um primeiro-ministro socialista impopular, no poder desde 2002.
Poucos meses depois da vitória, foi divulgada uma gravação de uma reunião partidária que ocorrera alguns dias após as eleições. Na ocasião, o primeiro-ministro disse (e numa linguagem franca que chocou a opinião pública) que o partido mentira durante dois anos e meio, para ganhar as eleições.
Houve um escândalo e o partido no poder tem vivido um martírio. Se houvesse eleições agora, o MSzP seria massacrado e a oposição conservadora obtinha dois terços do parlamento.
Na realidade, em 2006, os socialistas húngaros conseguiram uma vitória pírrica de elevado custo para o seu país. O défice orçamental chegou a ultrapassar 9% e o país endividou-se alegremente, vivendo muito acima das posses, com um défice da balança de transacções semelhante ao português e que só os islandeses superavam, com os resultados cobnhecidos.
Ilusões
Em busca dos eleitores, o governo húngaro continuou a abrir os cordões à bolsa, carregando nos impostos. A economia perdeu competitividade, a taxa de crescimento foi descendo.
A vizinha Eslováquia fez as mudanças que os conservadores húngaros tentaram entre 1998 e 2002 e que os socialistas travaram: reforma fiscal, competição, apoio às empresas, aposta num crescimento rápido. O partido liberal eslovaco que seguiu esse caminho perdeu as eleições, mas o resultado foi uma economia dinâmica, capaz de entrar na zona euro.
Por outro lado, tendo perdido a sua oportunidade, a Hungria está à beira da bancarrota e vai agora receber um pacote de emergência do FMI e do Banco Central Europeu. A moeda local caiu 20% este mês, depois da população ter perdido poder de compra durante dois anos. A partir de agora, os cortes sociais serão cegos e à bruta. O país vai viver uma cruel recessão durante um bom par de anos e levará talvez meia década a recuperar do descalabro. Gyurcsány dificilmente aguentará até 2010.
O que nos ensina esta história? Que em política a mentira dá origem a vitórias pírricas. Ocultar a verdade à opinião pública, insistir na propaganda, repetir à exaustão as mesmas fantasias, tudo isto leva ao desastre, pois a realidade não tem compaixão pelos que vivem num estado de ilusão sistemática.
Isto é muito bom.
«Numa cidade em crise absoluta, cujo município parece não ter programa, políticas ou discurso, em que os prejuízos colossais das empresas municipais não coíbem os respectivos gestores de comportamentos como os apontados no caso Gebalis, não é possível admitir que o maior investimento previsto pelo Estado para Lisboa vá no sentido da diminuição dos direitos dos munícipes».
Miguel Gaspar, no Público
«O mau romance é aquele que conta uma história»
Acabo de ouvir Mário Soares no seu habitual programa da RTP. Faz duríssimas críticas a todos os dirigentes europeus - Angela Merkel, Gordon Brown, Nicolas Sarkozy...
Todos? Todos não. Abre uma calorosa excepção para José Sócrates, "uma pessoa responsável, com coragem". Sobre as legislativas do próximo ano, parece não ter dúvidas: "Acho que as pessoas vão escolher outra vez o Sócrates."
Não sei se isto é serviço público. Mas é seguramente um excelente serviço prestado pelo fundador do PS ao actual secretário-geral do seu partido. No mesmo canal em que Marcelo Rebelo de Sousa se viu recentemente forçado a reduzir para metade as suas intervenções em antena por determinação dos cronometristas da ERC, legitimamente preocupados com a salvaguarda da equidade política.
Temo o pior. Será que o cronómetro subitamente se avariou?
Luís Ferreira Lopes deu um verdadeiro "baile" à líder do PSD e a líder do PSD tergiversou e repetiu à exaustão a única coisa consistente até agora supostamente apresentada como alternativa diferenciadora, no que respeita à política económica do partido: Nada mais do que o programa que Luís Marques Mendes já criara no que respeita ao apoio às PME's e que desde aí tem rendido o peixe das direcções seguintes, como uma vez mais se provou com o artigo de Aguiar Branco publicado há dias no "Meia Hora".
No fundo, entre «as empresas e as famílias», Ferreira Leite encontra-se na posição de alguém que não percebe que uma coisa não é a outra e é incapaz de escolher. Para além disso, quando a interrogaram claramente sobre se o PS tem hipóteses de perder a maioria absoluta, respondeu «Haaaaaa....». E não bastando tudo isto, nos últimos minutos da entrevista pareceu-me que ainda conseguiu arranjar fôlego para atacar o sistema bancário. Finalmente, encostada à parede na recta da meta, invocou a sua «palavra de honra» para garantir que não percebia o que lhe perguntavam. Eu, também sob palavra de honra , asseguro que não percebi o que ela respondia. Mas de uma coisa estou certo: No final, ela e ambos os jornalistas sairam certa e igualmente mal dispostos. Uma chatice.
«Não gosto de transformar números em quilómetros de auto-estrada».
Manuela Ferreira Leite, agora mesmo, na SIC Notícias

Luís Faustino
Miguel Sousa Tavares à entrada da reunião
Há coisas intrigantes nesta notícia. Podemos questionar o que fazem os camaradas da estiva à porta dos Paços do Concelho em pleno horário de trabalho e se ali estão com ou sem autorização da entidade patronal. Também podemos questionar se aquela mancha escura na fotografia atrás de muitas cabeças é o portátil de MST a acenar. Ou porque é que o comentador abandonou uma reunião sobre o alargamento do terminal de Alcântara quando se começou a falar do alargamento do terminal de Alcântara. Mas o que para mim é mais intrigante é o áudio associado à notícia, alegadamente dos apupos dos estivadores dirigidos a Miguel Sousa Tavares. Na verdade, só a credibilidade do Expresso me faz acreditar que se trata mesmo dos apupos em causa. Mas se o Expresso me dissesse que se tratava do áudio da fila de trânsito da IC 19 à hora de ponta eu também acreditava.
MILU
Não tivemos em Portugal nenhuma star que se equiparasse às estrelas de Hollywood. Mas houve alguém que andou lá muito perto: Milu. A nossa Milu, que irradiou beleza numa série de filmes na altura depreciados pela crítica da especialidade e que hoje são um sucesso renovado de público: O Costa do Castelo, A Menina da Rádio, O Leão da Estrela, O Grande Elias.
Conhecia-a, miúdo ainda, ao mesmo tempo que conheci Ingrid Bergman, Ava Gardner, Rita Hayworth, Sophia Loren e tantas outras divas da Sétima Arte. E sempre tive o sonho de a entrevistar, o que nunca aconteceu. Fui-a vendo em fitas de outras épocas, passada já a era de ouro - Vidas sem Rumo e Dois Dias no Paraíso, por exemplo. Naquele rosto, naquela prodigiosa fotogenia, perpassava a magia do cinema. Achei comovente, embora insuficiente, a homenagem que José Fonseca e Costa lhe fez em Kilas, o Mau da Fita. Depois, os projectores apagaram-se.
Onde andas tu, Milu? Queria ouvir-te, uma vez mais, cantar a "Minha Casinha". Como se toda a cronologia tivesse ficado suspensa e ao teu rosto voltasse a assomar aquela beleza antiga que me fazia suspender a respiração.
Nasceu a 24 de Abril de 1926 (tem 82 anos).
A reflexão da esquerda
O interessantíssimo artigo de Manuel Alegre publicado no DN de terça-feira, e cujo link deixo aqui, é de leitura obrigatória. Este texto vai certamente agitar a política nacional e forçar os partidos da esquerda a uma reflexão (que aliás já começou).
Escrevi antes que não acredito muito na divisão esquerda-direita e que o mundo contemporâneo é bem mais complicado. Na minha opinião, esta será a grande dificuldade da reflexão dos partidos de esquerda, pelo menos nos termos colocados por Manuel Alegre, para quem “os defensores do Estado mínimo” foram “ideologicamente derrotados” nesta crise financeira. Mas o que importa, na discussão, é tentar perceber quais são os caminhos possíveis para esta “nova esquerda”, que tem sectores com aversão visceral ao capitalismo e a quererem dar novo sentido às ideias de Marx e Engels (na imagem).
O poder das nações
Regular os mercados financeiros mundiais é algo que qualquer político adepto do Estado mínimo defenderá sem hesitar. Os produtos financeiros que levaram ao actual colapso eram um exemplo típico de vender gato por lebre, só possível por estes produtos não estarem regulados. Ou seja, a primeira e inevitável consequência da crise (a regulação dos produtos tóxicos) não é uma questão exclusiva da esquerda ou da direita.
Combater a depredação das multinacionais, taxar as transações financeiras internacionais ou abrir os mercados dos países desenvolvidos aos produtos dos países em desenvolvimento são exemplos de ideias políticas mais uma vez não exclusivas da esquerda ou da direita. Têm a ver com o poder das nações, com a abertura de fronteiras, com a liberalização do comércio. Nada que um neo-liberal furioso não defenda.
Combater os tráficos ilegais ou a degradação ambiental são questões de bom senso e não têm nada a ver com a esquerda ou a direita.
A ordem injusta
Os partidos da esquerda consideram, e com razão, que a ordem económica mundial é injusta, pois os pobres estão em desvantagem. Mas essa ordem capitalista assenta numa estrutura que nenhum dos países dominantes vai colocar em xeque. Por exemplo, colocar FMI e Banco Mundial sob o controlo da ONU é algo que não irá acontecer. O capitalismo está a viver uma crise, mas não se encontra sob ameaça de desaparecimento: se acabasse hoje, estaríamos todos na miséria e não haveria nenhum sistema que o pudesse substituir.
Assim, a ordem económica mundial continuará a ser financeira, pois dezenas de milhões de empregos nos países desenvolvidos dependem dessa circunstância. A OMC pode ter “outra lógica”, mas se a liberalização de comércio se transformar em protecção dos mercados nacionais, serão destruídos milhões de empregos nos países ricos, pois tudo se tornou interdependente.
O Estado produzir os bens públicos essenciais parece fazer sentido no papel, mas as economias industrializadas têm dois terços do seu emprego e riqueza nos serviços; a definição de bem essencial também não é fácil. Isto inclui as fábricas de automóveis, por exemplo? As de panificação? A agricultura e as pescas? Só a Caixa Geral de Depósitos ou a banca inteira?
Na Europa, o papel do Estado é bem mais alargado do que nos EUA, mas o nível de impostos também é diferente, o desemprego inferior, a mobilidade dos trabalhadores mais fácil.
Conclusão
Os actuais sistemas que formam o capitalismo internacional (e que misturam multinacionais e governos) são dinâmicos e vão certamente mudar. A questão está em saber até que ponto vão mudar e se a mudança virá de dentro ou de fora (reforma ou revolução).
É preciso que os leitores percebam um aspecto crucial neste início de debate: Barack Obama, que tudo indica se prepara para ganhar as eleições nos EUA, não é socialista nem sequer uma ameaça à actual ordem económica mundial. Pode ser reformista, mas nada tem de revolucionário e, certamente, nada tem a ver com as ideias de Marx e Engels.
Paris For President
(The real maverick in DC)
“As coisas mais desejadas não acontecem; ou se acontecem, não é no tempo nem nas circunstâncias em que teriam causado extraordinário prazer.” Jean de La Bruyére
Não sei qual é o último degrau da perfeição. Mas sabes o que nos resta? Um beijo, no meio da rebentação das palavras, a corromper os nossos corpos. No dia em que não tivermos as nossas bocas como ilusórias e em que os beijos não nos escaparem entre os dedos, resta deitarmos o tempo ao nosso lado, na escuridão, e dizer todas as noites: Dá-me a tua mão. Com ou sem perfeição. Neste ou num outro tempo. Porque as coisas mais desejadas devem acontecer.
E se alguma vez os beijos amargarem e tu continuares a dizer “O meu coração e tu estão sempre à mesma altura”, é porque atingimos essa tal perfeição.
«Se não fosse a cor da pele, este jovem político eloquente e disposto a tudo para chegar ao topo já nos teria lembrado os nossos velhos conhecidos Clinton e Blair».
Rui Ramos, no Público
Gosto de pegar em jornais, de sentir o seu cheiro, a textura das folhas e de ouvi-las marulhar, suavemente, quando as passo. O mesmo acontece com os livros e fotos - nunca fui adepta dos slides por esse motivo e ainda não me rendi às máquinas digitais. Para mim é essencial estabelecer esta relação física com as coisas. É por isso que fico preocupada quando me chegam notícias como a do fim das edições diárias em papel do The Christian Science Monitor, um dos jornais mais influentes dos EUA, fundado em 1908 e com sete prémios Pulitzer no currículo.
Dizem que a tendência é irreversível, mas há dez anos também se anunciava o fim dos livros em papel e eles ainda cá andam luzidios, nas suas capas de cartão. Espero que o mesmo aconteça com alguma Imprensa de referência. Sob pena de ficarmos aos poucos sem saber o que fazer com as mãos, é bom que resista off line.
Local do destino
Campanha 2008
Campanha 2000
O José Vitor Malheiros via o Da Literatura: «O estacionamento em cima do passeio é causa não apenas de um enorme incómodo mas de perigo. Quando se estaciona em cima do passeio (explico para benefício de presidentes de câmara), isso significa que se sobe para o passeio, que se desce do passeio e que, muitas vezes, se fazem manobras em cima do passeio (há desenhos que ilustram a versão on-line deste texto para mais fácil compreensão). E é, para além disso, um sinal de desrespeito dos outros e da lei. Quem estaciona no passeio acha que a lei pode ser ignorada, que a polícia pode ser gozada e que um presidente da câmara não sabe contar até nove. Sabe?»
A Rita Barata Silvério, via o Rititi: «Porque em Lisboa o conceito de estacionamento vai mais além dos limites lógicos da física, o dono da carrinha achou que a sua viatura estaria mais segura tapando a saída da minha casa. Foi mais ou menos quando Mr. Pinheiro começou aos pontapés à carrinha que eu me dei conta da odisseia em que se ia transformar um simples e simpático passeio pelas ruas da cidade. E como se tira um carrinho de bebé de uma casa lisboeta? À bruta. Apanha-se no carrinho com garra e atitude e poisa-se em cima da viatura que obstaculiza a saída do prédio».
Um origami é um trabalho de paciência enquanto os dedos esculpem a folha com exactidão. É indispensável a calma, dizem. Eu não o sei, nervoso, inábil, desacostumado à espera.
Sonhaste-me feito de papel. Talvez o seja. Aqui, um para o outro, somos apenas pássaros cartonados, incapazes de voar. Não imóveis, isso não, mas girando lentamente em círculos como cisnes num pequeno lago.
Um origami pode atingir a perfeição, dizem também. E eu pergunto-te: Será isso o que nos resta?
«Onde está a esquerda?» interroga-se Manuel Alegre. Arriscar-me-ia a dizer que ela está, entre outros lugares, nele próprio e nos valores que representa. Alegre escreve ainda: «Uma nova esquerda só poderá nascer de várias rupturas das diferentes esquerdas consigo mesmas». Será isto a antecipação da sua própria ruptura com o PS? Ou o deputado socialista, que afirma como De Gaulle ter tido razão antes de tempo, preferirá repetir o erro?
«Onde está a esquerda»? Parte dela poderia estar onde ele quisesse e até agora não quis. A outra parte, essa está longe de pretender rupturas com «a cultura do poder pelo poder». Pelo contrário, antecipa o casamento com a expectativa de uma noiva ansiosa.
«Violar a correspondência privada - porque é disso que se trata - de centenas de funcionários de impostos apenas porque essa correspondência foi trocada com jornalistas é algo que, à escala a que foi realizado, não se deve ter feito em Portugal desde que a PIDE deixou de violar as cartas...»
José Manuel Fernandes, no Público
A útil reflexão de Daniel Oliveira sobre as consequências das eleições americanas. Está na altura de se fazerem estas análises.
A tabela de Miguel Frasquilho que vi num post de João Miranda, em Blasfémias, causa um calafrio. Embora misture realidade com previsões, o facto é que os números de 2009 podem ser ainda piores.
E este texto do excelente Filipe Nunes Vicente, num dos mais estimulantes blogues portugueses, Mar Salgado.
Sonhei que eras feito de papel.
Sentado, numa casa vazia, escrevias uma carta onde dizias que não estavas preparado para continuar a casar os olhos com as palavras. Fugias de nós. Sem mais nada confessares.
Depois, num instante, chegava alguém que te rasgava. Eu, tentava colar cada pedaço de papel e construir-te novamente. Mas tu já não existias.
Então, acordei. E tu estavas aqui. Como sempre. A dizer-me que venceremos o destino interno e incerto. A oferecer-me músicas.
Repouso na cor avelã dos teus olhos e continuo o romance.
Reafirmo: Pareces-me uma palavra pura.
Foi de repente que tudo mudou.
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