
Martin Munkacsi, “Greta Garbo” on vacation, ca. 1932
1. Vai atrasado, mas mando na mesma um beijo de parabéns à Ângela: o seu excelente blogue, Com a Luz Acesa, festejou o primeiro aniversário.
2. Também a Porta do Vento apagou a primeira vela. É um blogue de que gosto muito. Sempre gostei. Parabéns, Ana.
3. Visitei pela primeira vez este blogue e fiquei cliente. A começar pelo título: Sinusite Crónica.
4. Gostava que alguém me informasse o que se passa no Causa Nossa. Os seus oito "autores" terão entrado todos ao mesmo tempo de licença sabática?
Estou de acordo com o Tomás Vasques: qualquer partido que apareça agora, em qualquer quadrante, arrisca-se a ser a grande surpresa das legislativas de 2009. As pessoas estão fartas de mais do mesmo e nem se importam de mudar só por mudar. Lembrem-se do que aconteceu nas presidenciais de 2006. E nas autárquicas do Verão passado em Lisboa.
Um dos dados políticos mais relevantes do nosso tempo é o progressivo desaparecimento dos partidos comunistas – incluindo nos países da Europa Ocidental que durante décadas tiveram uma forte representatividade eleitoral vermelha. Em França, nas presidenciais ganhas por Sarkozy em 2007, a candidata comunista não conseguiu melhor que 1,5%. Nas legislativas de 9 de Março em Espanha, os comunistas só conseguiram eleger um deputado (com 3% nas urnas). Agora, em Itália, também os comunistas se afundam, caindo para metade da percentagem anterior: estão abaixo dos 3% a nível nacional, perdendo a representação parlamentar. Portugal é uma excepção a esta regra da Europa latina: aqui o PCP está cada vez mais duro e cada vez mais forte. É um sintoma evidente do nosso atraso. E um sinal claro de que José Sócrates, por meros desígnios eleitoralistas, continua a desguarnecer toda a ala esquerda. É bom que os militantes verdadeiramente de esquerda no PS percebam isto. Para que a esquerda portuguesa não se torne refém do PCP, o mais ortodoxo da Europa.
A carta de compromisso que a distrital do PSD-Porto preparou para distribuir aos candidatos à liderança do partido faz-me lembrar aqueles contratos pré-nupciais que servem para acautelar o futuro dos nubentes, sobretudo nos casos em que se receia que não venham a ter futuro nenhum.
THE CATERED AFFAIR
(1956)
Realizador: Richard Brooks
Principais intérpretes: Bette Davis, Ernest Borgnine, Debbie Reynolds, Barry Fitzgerald, Rod Taylor
"Todos os intérpretes são excelentes." (Manuel Cintra Ferreira)
Jardim só reconhece o novo líder se este obtiver maioria absoluta. Jardim não põe de lado «a hipótese da reformulação de um novo espectro partidário», seja o que for que isso signifique. Jardim é a cada dia que passa menos parte da solução e mais parte do problema. Como aliás era bom de prever.
Quando sou confrontada com notícias como esta, lembro-me, invariavelmente, da conversa que tive há alguns anos com um juiz, no Centro de Estudos Judiciários, sobre o perfil dos homicidas portugueses. Bem sei que não é de homicídio o caso que está neste momento a abalar a Áustria, mas para o efeito a comparação serve. Esse magistrado disse-me então que, tal como os outros povos latinos, os portugueses não são dados a crimes que envolvam grande planeamento e sofisticação. Falta-lhes método e sangue-frio. O homicida típico português, apesar de o padrão, no contexto do crime urbano, se estar a americanizar, continua a ser o fulano que movido pela raiva ou pelos ciúmes ataca com uma sachada na tola, ou dois tiros no peito.
Torturas, sequestros, violações continuadas, cadáveres às postas quase não constam do nosso cardápio.
Em compensação é no coração das sociedades tidas como o expoente máximo da civilização que medram os monstros. Será que demasiada civilização faz mal à saúde?
É natural que as notícias puxem para título as afirmações mais optimistas de Ricardo Salgado proferidas ontem durante a apresentação trimestral de resultados. «O pior da crise já passou» é um título bem mais uplifting do que qualquer outra das frases que proferiu: Que não pode garantir nada, que um novo sinistro bancário apesar de improvável pode acontecer, que não é possível pronunciar-se sobre o impacto da revisão em baixa pelo Banco de Portugal porque «as nossas estatísticas estão sempre atrasadas» e não nos permitem dizer de que forma evoluirá o PIB em 2008. Em síntese, aquilo que foi dito pelo CEO do Banco de Espírito de Santo não é o suspiro de alívio que transparece após uma leitura rápida dos jornais. Lendo melhor, é só uma pausa para descontrair. Um momento KitKat , até mais ver.
O Pedro Sales alinha com os restantes opositores a Manuela Ferreira Leite os mesmos argumentos. Gosto em especial deste: «Manuela Ferreira Leite não tem nada para dizer que a diferencie de José Sócrates». É curioso ver como uns vêm dizer que Sócrates roubou o campo político ao PSD, enquanto outros apontam o facto de ter uma prática idêntica ao líder socialista como o seu maior defeito. Parece-me óbvio que MFL é bem diferente de Sócrates, mas não é aqui e agora que me darei ao trabalho de sustentar esta certeza. E evidente que a colagem da sua prática enquanto ministra áquela que vier a ter enquanto líder do Governo uma falácia redutora.
Seja como for, é bom para o partido que neste momento a discussão seja entre ela e Passos Coelho. Entre o PSD retomar os valores da credibilidade e ordem ou apostar num futuro com garra e mais aventuroso. Seja qual for a escolha dos militantes, o futuro é efectivamente agora que se decide, parafraseando o slogan de Passos Coelho. E será sem dúvida melhor do que o presente e o passado mais recente.
Membros do XVI Governo Constitucional, que teve Pedro Santana Lopes como primeiro-ministro, agora apoiantes declarados de Manuela Ferreira Leite:
Álvaro Barreto (ministro de Estado, das Actividades Económicas e do Trabalho)
Nuno Morais Sarmento (ministro de Estado e da Presidência)
José Pedro Aguiar Branco (ministro da Justiça)
José Luís Arnaut (ministro das Cidades, Administração Local, Habitação e Desenvolvimento Regional)
Fernando Negrão (ministro da Segurança Social, da Família e da Criança)
Luís Pais Antunes (secretário de Estado adjunto do ministro das Actividades Económicas e do Trabalho)
Jorge Neto (secretário de Estado da Defesa e dos Antigos Combatentes)
António Montalvão Machado (secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares)
Henrique de Freitas (secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros e da Cooperação)
Paulo Rangel (secretário de Estado adjunto do ministro da Justiça)
José Cesário (secretário de Estado da Administração Local)
José Eduardo Martins (secretário de Estado e do Desenvolvimento Regional)
Os até agora quatro - links - quatro dedicados à última crónica dos croquetes. De entre eles, destaco este por ser da autoria da sempre nossa Miss Pearls. Aqui na barra lateral à distância de um clique e unida umbilicalmente ao CF, quanto mais não seja pelo amor partilhado à cor amarela. Blogues «irmões», portanto.
As capas dos dois jornais económicos de hoje não deixam dúvidas quanto ao estado calamitoso em que se encontra o País. No Diário Económico titula-se em manchete que "Estónia e Eslováquia vão ser mais ricos que Portugal". O Jornal de Negócios diz o seguinte: "Bruxelas pessimista - Inflação come poder de compra pelo terceiro ano". O nosso primeiro-ministro e o Governo que lidera continuam, contudo, a viver na lua e a apostar no mesmo modelo económico-financeiro. Até quando?
No DN de hoje (peça do Francisco Almeida Leite)
Finalmente uma boa notícia, pelo menos para mim: Já chegou finalmente às FNACs do Chiado e do Colombo o meu opúsculo literário, e mesmo a tempo de ser a prenda escolhida por todos os filhos extremosos para oferecerem às suas mamãs no domingo que vem. É verdade que no site modificaram o título do livro e deixaram cair o til no meu nome de baptismo. But, who cares?
O livro está em excelente companhia ao lado de «Admirável Diamante Bruto e outros contos» de Waldir Araújo, «Mister Mouse ou a Metafísica do Terreiro» de Phillipe Delerm e ainda «E como ficou chato ser moderno» do Luís Filipe Cristóvão, o editor a quem tudo devo menos dinheiro (e mesmo isso não estou certo).
Marcelo Rebelo de Sousa mantém o espaço de comentário político mais interessante da televisão portuguesa.
O que disse o ex-presidente do PSD no seu programa do passado domingo na RTP?
Disse que apoia Manuela Ferreira Leite na corrida para o posto de comando na São Caetano à Lapa, como já se esperava.
Mas de caminho foi anotando isto:
1. É a quarta vez que "o destino bate à porta" da ex-ministra das Finanças. "Nem toda a gente tem quatro hipóteses."
2. Esta candidatura representa "um regresso à geração Cavaco Silva" - dez anos mais velha que a geração de Fernando Nogueira e do próprio Marcelo, vinte anos mais velha que a de Durão, Santana, Mendes e Menezes.
3. Principal ponto fraco de Manuela Ferreira Leite: ser apoiada por "barões a mais do barrosismo". Os mesmos que estiveram com Santana quando Barroso rumou a Bruxelas. "Não pode aparecer com mais do mesmo", advertiu Marcelo.
4. A candidata precisa de um "discurso novo", que mobilize eleitorado jovem. "Tem que ter um discurso de futuro. As pessoas querem um suplemento de alma, de esperança."
5. Última observação, talvez a mais importante para refrear tanto entusiasmo que por aí anda, como se Ferreira Leite fosse a Padeira de Aljubarrota: "A um candidato a primeiro-ministro não basta ganhar o partido - tem que ganhar o País."
Todas estas observações confirmam que Marcelo está em plena forma. Para ele, ao contrário de outros, o comentário político não se confunde com adulação servil a gregos ou troianos.
E enganosa também. Vejam só o convite por nós recebido na caixa do correio:
GIGI
(Gigi, 1958)
Realizador: Vincente Minnelli
Principais intérpretes: Leslie Caron, Maurice Chevalier, Louis Jourdan, Hermione Gingold, Jacques Bergerac, Eva Gabor
"Paris nunca teve tanto encanto." (Angela Errigo)

![]()
Ouvi PSL na SIC, há uns dias, a tratar a questão do déficit como algo démodé e a falar do Pacto de Estabilidade e Crescimento como coisa do passado. Percebemos de imediato qual será o argumento central na candidatura contra MFL:
“A Dra. Manuela Ferreira Leite propôs o que propôs, foi o rosto de uma política que o meu Governo continuou no âmbito do anterior Pacto de Estabilidade e Crescimento. Se Manuela Ferreira Leite for candidata não mudou o seu pensamento. Acha que os portugueses vão aceitar mais da mesma política? Ela sabe bem o que faz, a minha opinião é que tem uma política errada”
Depois de ouvir estas palavras, não consegui deixar de pensar
Para lá da primeira letra do nome, Sarkozy e Santana têm ainda em comum o facto de terem saído os dois a meio de uma entrevista…
O meu amigo Duarte anda animadíssimo com a perspectiva de uma vitória de Manuela Ferreira Leite nas directas do P"SD" e antevê até já isso como um marco para a regeneração do partido, que "bateu no fundo" (nas sábias palavras de Rui Rio) ou toma posições "abaixo de cão" (segundo o douto Marcelo Rebelo de Sousa). Lamento, mas não consigo partilhar deste optimismo. Mantenho o que escrevi aqui diversas vezes: este partido que se prepara para eleger o sexto "líder" da última década tornou-se uma confederação de interesses em torno de umas quantas fatias de poder. Nada há que una ideologicamente um Pacheco Pereira a um Alberto João Jardim, uma Helena Lopes da Costa a uma Paula Teixeira da Cruz, um Miguel Veiga a um Ribau Esteves, um Aguiar Branco a um António Preto. Perdido o poder, excepto a nível autárquico e no feudo madeirense, o P"SD" demonstra ser um albergue espanhol onde os ódios pessoais se sobrepõem às rivalidades políticas, internas ou mesmo externas. Santana, como "líder", não teve um momento de sossego: desde o primeiro instante a oposição interna mobilizou-se para lhe fazer a cama. O mesmo sucedeu com Mendes e Menezes. Alguém imagina que o próximo " líder", seja quem for, deixará por milagre de sofrer a contestação dos "companheiros" e passará a ser encarado com a veneração que os cardeais dispensam ao Papa recém-eleito em conclave? É óbvio que não.
Meu caro Duarte, o problema do P"SD", como há muito venho escrevendo, é ser dois partidos num só. Esses partidos estão condenados à cisão - e o que sucedeu na Câmara de Lisboa, no Verão passado, confirma isso. Enquanto a cisão não ocorrer, vamos assistindo a este indecoroso espectáculo: sucessivos Césares apunhalados na Lapa por uns quantos Brutos.
Será que o Duarte Calvão e o João Távora, entusiastas da solução Manuela Ferreira Leite para a liderança do PSD, tomaram a sua decisão depois de Rui Rio dizer que o avanço da antiga ministra das Finanças tem um certo "traço monárquico"?
A VOLTA AO MUNDO EM 80 DIAS
(Around the World in 80 Days, 1956)
Realizador: Michael Anderson
Principais intérpretes: David Niven, Cantinflas, Shirley MacLaine, Robert Newton, Buster Keaton, José Greco, John Gielgud, Robert Morley, Marlene Dietrich, Frank Sinatra
"Um grande espectáculo - cheio de alta e baixa comédia, atracções de circo, um cenário atraente e dezenas de caras que nos são familiares." (Hollis Alpert)
O PSD, que bateu no fundo (Rui Rio dixit), exige uma intervenção de emergência. É preciso salvá-lo, dizem.
Pois bem: Luís Filipe Menezes facilitou a tarefa aos putativos salvadores, demitindo-se.
Avançou Rio? Não.
E Marcelo Rebelo de Sousa? Não.
E José Pacheco Pereira? Também não.
E Paula Teixeira da Cruz? E Nuno Morais Sarmento? E António Borges? E Alexandre Relvas? Não. Não. Não. Não. E não.
Agora que a cadeira de “líder” ficou vaga, ao menos o deputado Aguiar Branco, que antes se mostrara disponível para avançar, decidiu enfim arregaçar as mangas?
Nada disso. Primeiro disse que talvez sim, depois disse “nim”. Finalmente, disse não.
Quem sobra então para “salvar” o partido?
Manuela Ferreira Leite, garantem em coro os outros todos, que têm minoria absoluta nos congressos e maioria absoluta nas colunas dos jornais. É ela, é ela.
Aguardemos. Para já, é consolador ver como tantos “salvadores” potenciais, na hora da verdade, assobiam para o lado e esperam que seja o vizinho ou a vizinha a avançar.
Isto diz tudo sobre tais “notáveis”: quando a luta aquece, ei-los ausentes em parte incerta.
É isto um partido. E nunca a expressão “partido” teve aqui tanto cabimento como agora.
Cheguei ao Sorumbático através deste post do João Távora. Uma história sombria (deve o nome ao blogue) que Barreto corrige, afinal. Em todo o caso, uma curiosidade, a de perceber como funcionam na blogosfera alguns daqueles que temos por fazedores da opinião que vale a pena - António Barreto, Alfredo Barroso, José Luís Saldanha Sanches, Alice Vieira, Carlos Medina Ribeiro, e outros.
No meu tempo as bonecas serviam-me para brincar às casinhas ou recriar as minhas histórias de encantar preferidas. Sem sexo e sem curvas, as minhas filhas de plástico, mesmo quando faziam papéis de crescidas, nunca perdiam a inocência. Aliás, para mim, a definição de boneca passa por essa noção de inocência perene, resistente até aos desvios inevitáveis da imaginação infantil pelo mundo misterioso da sexualidade.
Aqueles corpinhos amorfos e os rostos bochechudos, de aspecto mais infantil que o meu, nunca me desafiavam. Dóceis e afáveis, adaptavam-se às exigências dos meus guiões na perfeição. Se numa brincadeira rodopiavam, triunfantes, nos braços de um príncipe imaginário, na seguinte regressavam ao meu colo, na condição de bebés sem que algo na sua anatomia se revelasse contraditório em relação a qualquer dos papéis.
No meu tempo as Barbies não estavam na moda. Nem eu nem as minhas amigas simpatizávamos com aquela serigaita em tudo mais perfeita que nós. Instinto? Talvez. Acredito que foi bom para a minha geração ostracizá-la. Poupámo-nos a preocupações desnecessárias. Mas infelizmente o marketing acabou por vencer, impondo a boneca de cintura fina e pernas longas às gerações que se seguiram. Imagino que não deve ser fácil sair da infância tendo aquela vamp como referência e pergunto-me até que ponto a mania das dietas precoces estará associada ao ícone preferido das garotinhas de sete anos.
Rompendo com a inocência original das bonecas, esta loira estilizada foi fazendo escola ao longo dos 49 anos que já leva no mercado mundial. Hoje há sucedâneos da Barbie e marcas da sua cultura all over. O produto mais recente da cultura rosa shocking de que tenho notícias é de suporte digital. Trata-se de um jogo chamado Miss Bimbo, que convida as participantes a fazer das suas bonecas as mais belas, famosas e ricas do mundo. Para o efeito é possível recorrer a cirurgias plásticas, comprar-lhes lingerie e adquirir comprimidos para emagrecerem. O objectivo é entrar em competição com outras meninas a fim de transformar as suas bonecas num sucesso, conquistando fama e maridos milionários para elas.
Muito popular entre as meninas dos 9 aos 16 anos, o Miss Bimbo é jogado por milhões de crianças de 200 países.
Evangelho segundo São João 14, 15-21
Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Se Me amardes, guardareis os meus mandamentos. E Eu pedirei ao Pai, que vos dará outro Paráclito, para estar sempre convosco: Ele é o Espírito da verdade, que o mundo não pode receber, porque não O vê nem O conhece, mas que vós conheceis, porque habita convosco e está em vós. Não vos deixarei órfãos: voltarei para junto de vós. Daqui a pouco o mundo já não Me verá, mas vós ver-Me-eis, porque Eu vivo e vós vivereis. Nesse dia reconhecereis que Eu estou no Pai e que vós estais em Mim e Eu em vós. Se alguém aceita os meus mandamentos e os cumpre, esse realmente Me ama. E quem Me ama será amado por meu Pai e Eu amá-lo-ei e manifestar-Me-ei a ele».
Da Bíblia Sagrada
1
Após o ruidoso semestre de presidência portuguesa, a ratificação do novo Tratado de Lisboa pela Assembleia da República decorreu no maior secretismo. O Corta-Fitas está em condições de revelar, em primeira mão, que o processo incluiu uma espectacular operação de agentes internacionais, protagonizada pelos famosos Thunderbird. A missão era evitar que alguém soubesse do que acontecera.
Quando foi contactada pelo Governo português, a família Tracy ainda não sabia da complexidade do problema que tinha em mãos:
“É preciso evitar que o povo perceba a importância do conteúdo deste tratado”, disse o representante do governo à família de agentes, reunida no grande salão da sua mansão inglesa.
Três conselhos familiares depois (cada um deles a fazer lembrar um conselho europeu), começou a emergir um plano devastador.
2
Foi sem grande dificuldade que a sensual Lady Penelope convenceu Santana a prolongar o suspense sobre a sua candidatura.
Dias antes, o Thunderbird one convencera Menezes à desistência, abrindo uma oportuna crise no maior partido da oposição. Convencidos de que essa crise tinha mesmo importância (manobra extremamente inteligente dos nossos agentes), a população seguiu com interesse as peripécias dos políticos da oposição. Mas a atitude de Santana seria crucial. Aí, surgiu Lady Penelope, que atraiu Santana a uma conversa a dois:
“Quero que prolongues o suspense sobre a tua candidatura”, disse Lady Penelope, usando a sua irresistível magia.
Fascinado, Santana rendeu-se:
“Farei tudo o que quiser, Lady Penelope, prolongarei o suspense durante vários dias, a ponto de, quando ocorrer a ratificação do tratado de Lisboa, só ser possível falar na crise do meu partido”.
3
Apesar deste primeiro êxito, a rede internacional de agentes secretos não podia correr qualquer risco.
Foi decidido enviar o Thunderbird two com ozono troposférico, para lançar este gás meio anestesiante para a atmosfera, reduzindo a visibilidade em Lisboa, mas também a atenção da opinião pública. A missão decorreu sem incidentes, embora provocasse excesso de calor na semana seguinte e um curioso efeito secundário: a equipa do Benfica sofreu copiosas derrotas, pois os seus craques pareciam distraídos e ausentes, intoxicados pela nuvem.
Mas a ideia funcionara: no dia da ratificação, o parlamento estava envolvido por uma nuvem ou bruma ténue, que reduzia a atenção dos transeuntes, hipnotizando os deputados.
4
Isto ainda não chegava. Era preciso garantir uma votação albanesa e reduzir o debate.
Um deputado de esquerda que queria votar contra a ratificação caminhava nos corredores cheios de fumo (o tal ozono troposférico) ao lado de um deputado da direita que também queria votar contra, quando os dois encontraram o piloto do Thunderbird Four, que se ofereceu para os escoltar (o perigo talibã, etc…).
“Ainda bem que você apareceu. Isto, dos talibãs, é um perigo”, disse o deputado da direita ao agente internacional.
“Temos uma votação muito importante”, explicou o deputado de esquerda. “Este Tratado vai mudar substancialmente o país e acelerar a chamada construção europeia. Os grandes países aumentam o seu poder e ficou por resolver o problema do défice democrático”.
“Pior ainda, perde-se a soberania e o mar português”, dizia o da direita.
“O mar já não era nosso, ó senhor deputado”, interrompeu o da esquerda.
“Ó sua besta, e a PAC, o que me diz da PAC?”
Foi nesse momento, quando os dois deputados pareciam à beira de uma cena de pugilato, que Thunderbird Four disparou os dardos tranquilizantes. Os dois deputados caíram no chão, inconscientes. Foram levados para um gabinete, onde dormiram a tarde toda. Quando acordaram, tinham sido vestidos com fardas dos Thunderbird e levados para um local secreto, onde ainda estão a ser interrogados. E houve dois votos a menos para os adversários da construção europeia.
5
Foi de facto uma votação discreta, para tal importância. A missão dos agentes internacionais constitui um grandioso êxito. Os Thunderbird já estão algures na Irlanda, onde irrompeu uma curiosa crise política antes do referendo e onde se verificou um estranho aumento do ozono troposférico nas sedes de campanha do “não”.
Respondi que sim. O meu tom, sem sombra de emoção, despertou de imediato a reacção de quem me acompanhou ao cinema. Fiquei então a ver, algo surpreendida, aquela reprise do filme a que tinha acabado de assistir, sublinhada pelos seus gestos eloquentes e exclamações. Fui comparando mentalmente as cenas, a tentar perceber se era a mim que me tinha escapado algo de essencial ou se toda aquela excitação não tinha grande fundamento. Mas não valorizei a dessintonia. Acontece tantas vezes.
O episódio registou-se há mais de uma semana. Como por um scanner, durante mais de uma semana correram pelos meus olhos milhares de imagens, mas aquelas têm sido estranhamente invasivas, o que não me sucedia há muito tempo com um filme. Reconheço quando me acontece: é o meu subconsciente a tocar as notas que me escaparam à primeira audição.
O subconsciente gosta de símbolos, por isso não são linhas de texto que me cruzam a memória, mas imagens: a de neve a cair sobre duas mãos sobrepostas, os biombos de vidro que separam vidas solitárias, os pés do ancião, já deitados, à espera da morte.
Coeurs, de Alain Resnais, uma adaptação da peça, do britânico Alan Ayckbourn, Private Fears in Public Places, fala-nos da oposição entre o eu social e aquela espécie de fantasma da ópera que vive clandestinamente dentro de cada um de nós. É um tema banal, daí o mérito ser maior quando se consegue, como é o caso, fugir ao lugar comum. Mais difícil ainda é fazê-lo através de personagens não estereotipadas, como neste filme.
Foi a subtileza da narrativa de Coeurs (em português, Corações) que me rasteirou e aquela gente – não actores, mas gente tão real como aquela mulher que estou a ver agora da minha janela – que me confundiu os sentidos. Não o percam. É de cinco estrelas e se alguém vos disser o contrário mandem-no ficar em pousio durante uns dias à espera de um sinal. Em caso de dúvidas que voltem à sala, antes que saia do circuito.
Muito nossos
Outros blogs
Blogue da Real Associação de Lisboa
Centenário da República - Blogue
O Amor em Tempos de Blogosfera
This is not simply a metaphore
Links úteis