Estou farta dos professores. Farta! Não haverá por aí outra profissão com problemas?
A CONDESSA DESCALÇA
(The Barefoot Contessa, 1954)
Realizador: Joseph L. Mankiewicz
Principais intérpretes: Humphrey Bogart, Ava Gardner, Edmond O'Brien, Marius Goring, Valentina Cortese, Rossano Brazzi, Elizabeth Sellars
"Tudo sobre Hollywood - onde os homens não são homens e as mulheres são animais magníficos e frustrados." (Pauline Kael)
Loura e burra são sinónimos? Nada disso. Vejam Sienna Miller em Entrevista, o melhor filme que está por aí em cartaz. Dirigido (e também interpretado) por Steve Buscemi - um dos Sopranos. Há muito tempo que não via um desempenho feminino tão bom. Em todos os sentidos que esta palavra encerra.
P. S. (sem conotações) - A "crítica" portuguesa deu poucas estrelas ou ignorou por completo esta película. Não façam caso, como eu não fiz.
Selva? Será que não consigo usar outra palavra? “Selva” é um lugar comum tão insuportável! Mas frequentemente os lugares comuns são assim: incontornáveis (Oops! Não é o Pedro Correia que odeia esta palavra?).
Pois seja: a escola era uma selva, que começava por nos ameaçar, mas que aos poucos íamos sentindo como nossa. Esse sentimento de posse excluía, sempre excluiu, os professores. Por isso nós, os donos daquele território – mesmo no tempo em que os docentes não tinham sido totalmente despojados de autoridade pelo sistema – éramos implacáveis e cruéis na avaliação que fazíamos deles.
O exame era sumário e realizado, invariavelmente, na aula de apresentação. Passados poucos minutos já todos tínhamos uma opinião, não raro unânime. Sempre me fascinou essa sintonia. Aos 13, 14, 15 anos dava comigo a interrogar-me sobre como é que fazíamos aquilo. Numa turma de 25, 30 almas tão desiguais, como é que quase todos, sem sabermos uns dos outros, cheirávamos nos primeiros minutos se o professor que estava naquele momento na arena iria ser, ao longo do ano, respeitado ou torturado por nós? Era incrível como ficava quase tudo decidido nesse primeiro encontro e como as nossas expectativas relativamente ao estilo de relação que iríamos estabelecer com ele se confirmavam com o passar do tempo. Questão de instinto? I guess... Na selva os bichos também fazem assim.
Vi os Mazione, com as suas capas de cruzado, espalhados pelas praias de Maputo. Pareciam pairar entre o mar e o areal. De vez em quando, um grupo dentro de água fazia um novo baptismo pentecostal. Pessoas de capa, com cruz vermelha ou branca, empurravam suavemente a cabeça do novo membro da seita para dentro das águas pacíficas do Índico. Se o ritmo daquela tarde de quarta-feira for constante, são dezenas os novos baptismos diários e incluem velhos, novos, mulheres, homens, gordos, magros. Contaram-me que, às vezes, há maziones que entram no mar e regressam meses depois. Têm uma aparência normal e dizem apenas que estiveram com os espíritos.
Está prestes a nascer um novo blogue que promete festa de arromba. Chama-se Câmara de Comuns e inclui bloggers de todos os partidos, do PS ao PSD, passando pelo CDS/PP. O CC tem deputados, gente que anda nos blogues há imenso tempo e uns ilustres desconhecidos. Aos amigos que tenho nesse blogue, desejos de boa sorte e a todos os outros que entrem com o pé direito...
O blogue já existe há uns dias, mais concretamente desde o dia que o IVA baixou para os 20%, mas parece que só arranca mais a sério no dia das mentiras. É verdade, é.
"Consta por aí que Luís Filipe Menezes, sob o pseudónimo de 'Bases', prepara uma grande purga no grupo parlamentar (que, de resto, Santana em 2005 escolheu) e o acesso a S. Bento do 'verdadeiro' militante, género Ribau, até hoje vexado e oprimido pelo elitismo e sulismo dos drs. de Lisboa. Não duvido que um parlamento com maioria Menezes consiga estarrecer a 'Europa' e animar os portugueses. Mas pode suceder que Menezes perca e que, perdendo, ele próprio desapareça de cena, deixando ao sucessor um rancho folclórico inútil para a oposição e fatal para a 'reconstrução' do partido. Nessa hipótese, o PSD acabou e não há um congresso, nem Messias que o salve. Um desastre? Não sei. Sei que Menezes tem a faca e o queijo na mão".
Vasco Pulido Valente, hoje no Público.
Contaram-me em Moçambique as coisas terríveis que as mulheres fazem com os venenos para prender os homens. Diz-se que há casos em que os homens são envenenados durante anos. Há outros em que as doses se tornam mortíferas. Contaram-me de um português, oficial da Força Aérea, rapaz apessoado, que se meteu com uma moçambicana e ao cabo de um ano estava a pesar 40 quilos. Morreu pouco depois, de causa desconhecida. Mas a morte não é regra; a regra é os homens ficarem mansos e sem força de vontade para as enganarem. Diz-se que o segredo da mistura de venenos é ancestral e passado de mães para filhas. Diz-se que um professor de uma univerdade britânica conseguiu deitar mão a um desses preparados e levou-o para analisar. Até hoje, uma das substâncias não foi identificada.
Confirmei a potência do veneno esta manhã, num supermercado em Lisboa. Um homem de polo cor-de-rosa bebé, barriga proeminente e sapatilhas de vela que pareceiam incliná-lo para a frente empurrava um carrinho de supermercado cheio. À fente, uma mulher gritava: "- Não te disse para ires para a bicha do peixe? És mesmo inútil! Tenho que ser eu a pensar em tudo!".
Fui atrás dela pelos corredores, na esperança de detectar a substância desconhecida. Ou é tabasco ou Vim.
"Um político tem o dever de disfarçar os seus estados de alma e apresentar boa cara."
É difícil perdoar à Empire esta pífia lista das 50 melhores séries televisivas de sempre, ganha pelos Simpsons. A vitória, quanto a mim, teria de caber aos Sopranos, a coisa mais próxima de cinema que já vi até hoje em televisão. Mas James Gandolfini e tutti quanti ficam em terceiro lugar nesta lista, feita obviamente por gente com muito fraca memória. Gostei de ver 24 (6º) e os Ficheiros Secretos (9º) entre as dez primeiras. Já gostei menos que Twin Peaks fosse relegada para um distante 24º lugar. Mais absurdos ainda são o 28º posto atribuído à inesquecível Fawlty Towers e o distante 39º lugar dos Monty Python. Isto para não falar de flagrantes omissões, como as de Columbo ou Moonlighting. Vejam e ajuízem.
Robert Mugabe, ditador do Zimbábue desde 1980, prepara-se para ser "reeleito" para um novo mandato. O ditador tem já 84 anos mas parece mais apegado que nunca ao poder. Herdou um dos países mais prósperos de África, hoje transformado num dos mais miseráveis. Se cumprir este sexto mandato, talvez o Zimbábue deixe de existir. Já falta pouco.
"A segunda travessia do Tejo já tem dez anos", disse-nos há pouco uma voz supostamente bem informada no Jornal Nacional da TVI. E eu a julgar que "a segunda travessia do Tejo" - das mais de duas dezenas existentes, em Portugal e Espanha - já tinha mais de 110 anos, por remontar a meados do século XIX...
José Pacheco Pereira escreveu dois artigos no Público (um deles pode ser lido no Abrupto) sobre o conflito no Iraque e a justificação da guerra. Como é habitual no autor, os argumentos são inteligentes e eruditos, mas passam ao lado do essencial: a estratégia já falhou e, por isso, a guerra está perdida.
Quando derrubaram Saddam Hussein, os americanos queriam democratizar o Médio Oriente, através de um efeito dominó de democracias, controlar o preço do petróleo, testar a modernização que tinham efectuado nas suas forças armadas na década anterior, ganhar a opinião pública árabe contra o terrorismo e dar um passo decisivo na sua meta de só ter aliados no Golfo Pérsico, o coração petrolífero do planeta.
A democratização do Médio Oriente está comprometida. Sempre que se falar em democracia num país árabe, a liderança no poder dirá que esta é igual a caos: "vejam o que aconteceu no Iraque".
O preço do petróleo entrou em parafuso, embora a Guerra do Iraque não seja o único factor nem talvez o mais importante.
A modernização das forças armadas americanas teve de ser desacelerada, pois é preciso pagar os elevados custos da guerra. De qualquer forma, neste ponto, os EUA têm um avanço de 20 anos.
A opinião pública árabe será provavelmente mais anti-americana do que era. Aqui, houve mesmo um desastre.
E o Golfo Pérsico ficou mais instável. Onde havia três forças, há duas: Arábia Saudita e Irão. O Iraque está fragmentado em três partes, cada uma das quais precisa de ajuda externa para sobreviver. Os curdos estão rodeados de inimigos e serão um factor de perturbação para a Turquia e Irão. Os árabes xiitas, no sul, precisam dos americanos para não serem dominados pelos iranianos (persas) e mesmo assim há quem discorde, como é o caso de Moqtada al-Sadr. Os árabes sunitas precisam de protecção contra todos os outros.
"Uma das auto-estradas de saída de Madrid, a Ap-6, esteve hoje cortada ao trânsito nos dois sentidos durante mais de meia hora, devido à presença de seis touros que fugiram de uma propriedade próxima e começaram a atacar veículos que circulavam na zona. Fontes da Direcção-Geral de Trânsito (DGT) informaram que a manada invadiu de repente a via e investiu contra vários automóveis, que foram obrigados travar para não atropelar o gado. A Guarda Civil cortou imediatamente o tráfego na auto-estrada, durante 40 minutos, o que provocou atrasos e filas de veículos ao longo de cinco quilómetros. Agentes da Guarda Civil estão agora a investigar quem são os proprietários dos animais, que entraram na auto-estrada por uma área que está em obras. Segundo as autoridades, o proprietário do gado, depois de identificado, terá que assumir a responsabilidade decorrente desta infracção contra a segurança no tráfego".
Parece que é verdade, até porque saiu na Agência Lusa. Dá para acreditar?


Ter história e vinte anos. Que bela quimera! Manter o ar incauto e possuir um pouco da biografia do tempo. Passei pela adolescência na década de noventa - dizem que é por essa altura que se forma a personalidade, não discuto - e de história apenas aquela que usei nos pés. Uns All-Star recorrentes, já que a marca é centenária. Nada de entrincheiramentos no Quartier Latin, ladainhas revolucionarias, RGA, provocações de mini-saia ou, porque não, um ou outro encarceramento em nome da democracia. Temo pelas conversas virtuais que vou estabelecer com os meus netos, quando os vir bocejar depois de perceberem que a avó teve uma juventude fastidiosa, que se encaixa entre décadas na linha do tempo. Os anos noventa foram lânguidos e desapareceram sem rasgo. Prevejo um futuro incerto para a honesta frase que começa “No meu tempo…”.
A visita de Estado que Nicolas Sarkozy fez ao Reino Unido revelou o pior do jornalismo tablóide. Alguns jornais mostraram a nova primeira dama francesa nua na capa, outros ridicularizaram-na, outros disseram que falava melhor inglês que "Sarko", outros compararam-na a Jackie ou a Diana. Enfim, um rol imenso de disparates. No meio do caos, salvou-se o jornalismo sério do The Independent: "The French president's wife Carla Bruni looked "sophisticated" and "chic", fashion experts said today after she arrived in Britain wearing a French-designed high-necked coat and matching grey hat. But opinion was split as to whether the first lady's fashion sense was fit for the occasion or a little too conservative. Ms Bruni arrived at Heathrow in a Dior light grey wool and jersey belted coat, with a black leather bag, hat and gloves, by the same designer. The ultra-demure image was in stark"...
Ao menos, se tinham que discutir a aparência, fizeram-no com bom gosto.
Depois de alertado para o texto do nosso João Távora fui então ler a coluna da Fernanda Câncio. Posto o que...tchan tchan tchan tchan... Devo dizer que lhe dou toda a razão. À Fernanda, entenda-se. E mais: gabo-lhe a coragem de ir contra a corrente do apedrejamento colectivo que por aí vai.
Para além de já não aguentar rever e voltar a ver a chinfrineira do video difundido por dá cá aquela palha - ou a fotografia com os contornos esbatidos de aluna e professora publicada todo o santo dia - o que acho mesmo extraordinário é que se tenha sequer concebido a ideia de proceder criminalmente contra uma aluna que, para além das suas histéricas hormonas adolescentes e manifestação da educação que lhe dão em casa, nada fez que tenha merecido esta projecção mediática normalmente reservada para uma Britney Spears careca.
Gostava também de saber se a dita aluna, que vai ser transferida sabe-se lá para onde, está ou vai receber apoio psicológico. Já quanto ao jovem realizador grunho imbecilóide, quero que ele se dane e parece-me que só uma lobotomia lhe punha o cérebro no lugar. Em suma, caro João, não estou de acordo contigo. Mas que o título do post foi bem esgalhado, lá isso foi.
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Na imagem, entre todas aqui a mais indicada, Marina Mantega. Onde está o you tube quando precisamos dele?
1. O símbolo da paz acaba de festejar meio século de existência. O seu criador, um desenhador gráfico britânico chamado Gerald Holtom, não chegou a viver o suficiente para celebrar a efeméride: morreu em 1985.
2. Ira generalizada no mundo muçulmano: o Papa baptizou o jornalista italiano de origem egípcia Magdi Allam, subdirector do Corriere della Sera e crítico intransigente do fanatismo islâmico.
3. Sarkozy, pressionado por membros do seu próprio partido, rompe o silêncio sobre o Tibete para admitir um boicote francês aos Jogos Olímpicos de Pequim.
4. Israel "Cachao" López, génio do violoncelo e criador do mambo, morreu longe da sua Cuba natal, aos 89 anos. Abandonara o "paraíso" castrista em 1962, como tantos outros músicos cubanos no exílio - Tito Puente, Paquito d' Rivera, Tito Rodríguez e Bebo Valdés, por exemplo. A notícia da sua morte foi ignorada em Havana.
5. J. K. Rowling confessa ter pensado suicidar-se há 15 anos, quando vivia com um jornalista português.
6. Ambientalistas alertam: os pinguins começam a ressentir-se com o afluxo de visitantes à Antárctida, onde se calcula que já tenham estado 150 mil pessoas. Assim não há gelo que aguente.
Quinze anos depois da implosão da URSS, ainda há por cá quem sinta a compulsão de escrever isto. No sítio do costume.
A morte de Richard Widmark - um dos últimos actores da época áurea de Hollywood - mereceu hoje grande foto a duas colunas ao alto na capa do Le Monde. Widmark, que desapareceu com 93 anos, foi talvez o melhor dos piores: nunca vi ninguém desempenhar tão bem o papel de mau. Rodou com Ford, Kazan, Mankiewicz, Fuller, Sturges, Preminger. Terá o seu nome associado para sempre a filmes como Pânico nas Ruas, No Way Out e Terra Bruta - neste último, um excelente western, trava com James Stewart um dos mais inesquecíveis diálogos da história do cinema.
Começou nos filmes em 1947 com Kiss of Death, de Henry Hathaway, mas esteve a um passo de ser rejeitado: parecia demasiado "culto" e demasiado certinho. Quem diria que estava ali um dos maiores psicopatas da ficção negra, capaz de encarnar no grande ecrã o mais brutal dos criminosos? Mesmo quando surgia do lado do Bem, havia sempre algo de inquietante na forma como compunha as personagens. Foi assim, por exemplo, em Mãos Perigosas (1953), de Fuller - um thriller que se tornou emblema da guerra fria e da paranóia anticomunista nos Estados Unidos.
Guardo dele as melhores memórias, mesmo nos piores papéis: Widmark tinha instinto de representação, tinha fibra, tinha garra, tinha classe - nenhum dos seus desempenhos foi alguma vez manchado pela banalidade. Por isso os cinéfilos o lembram com saudade crescente em interpretações tão diferentes como a de Jim Bowie no subvalorizado Álamo (John Wayne, 1960), a do procurador americano em Julgamento em Nuremberga (Stanley Kramer, 1961) ou a do oficial que protege os cheyennes nesse fabuloso western crepuscular de Ford intitulado O Último Combate (1964). No Way Out (Joseph L. Mankiewicz, 1950) mereceu um belíssimo poema de Ruy Belo, que várias vezes trouxe o cinema para a sua obra: "Sei hoje que sou pequeno / e não é esse o meu menor mal / mas faço meus os problemas / da gente de beaver canal."
Quando em 1995 a Cinemateca Francesa lhe prestou uma merecida homenagem, com uma retrospectiva dos seus filmes, Widmark era já uma lenda viva da Sétima Arte. Mas numa entrevista concedida ao Le Monde não escondia a sua profunda decepção pela rota dominante nos filmes surgidos desde que se retirara dos ecrãs, quatro anos antes. "A imbecilidade tornou-se um valor positivo. Por isso Forrest Gump, um elogio da estupidez, é um triunfo", observou então, com o desencanto característico de quem já vira tudo e já não se deixava comover com quase nada.
Tinha todo o direito de falar assim: ele integrou a galeria dos melhores, em dias irrepetíveis, numa colecção de películas que a passagem do tempo só consagra e valoriza.
É por estas mas também por outras que gosto tanto do blogue da Susana.
"A porta mais bem fechada é a que pode deixar-se aberta", diz ela, induzindo o visitante a entrar. Apesar de lhe ter chamado Porta do Vento, neste sítio não há correntes de ar, nem sinais de intempérie. Luminoso e ameno, este blogue revela uma Ana Vidal despretensiosa (ah, como isso é raro na blogosfera!), atenta (os assuntos que marcam a actualidade não lhe escapam), bem-humorada e dialogante (nenhum comentário fica sem resposta). É por isso que me sinto bem lá em casa, onde às vezes entro à socapa e me deixo ficar, incógnita, a ouvi-la falar de tudo um pouco e que escolho Porta do Vento para blogue da semana. Saravá AV!
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