Quinta-feira, 31 de Janeiro de 2008
SNS - porquê tanta revolta? (8)

Há utentes do Centro de Saúde de Aljezur que não têm médico de família há 12 anos, porque o que lhes foi atribuído está de baixa há... 12 anos (notícia da SIC).
Se não puder fumar...
... vou comer chocolates
Dois homens, a mesma luta

O
"Miguel Abrantes" e o
Paulo Gorjão, de repente, decidiram seguir o mesmo caminho. Não os levo a mal. Ao primeiro (ou primeiros), só volto a pedir que faça um pequeno comentário (e minimamente decente) sobre a mini-remodelação. Acrescento ainda, sobre o tema que o "Abrantes" levantou, que, mais uma vez, peca por defeito. Depois da referida peça, já fiz uma outra em que cito o presidente do PSD em
on sobre o mesmo tema. Se ele vai ou não realizar o que disse, é com ele e estaremos cá para atestar. Ao segundo, só lhe recomendo que leia com mais atenção o que tenho escrito no jornal. E verá que não tiveram sorte nenhuma. Mas a esse tema voltarei em breve. Meu caro, não perde por esperar.
Na véspera do 30º dia

A equipa do
Estação do Calor não descansa. Ou descansa pouco. Os 3 aventureiros continuam a percorrer a estrada, a bordo de um Falcon especialista em pregar surpresas mas que tem resistido a todas as intempéries. Os rapazes estão agora algures na Patagónia Central e uma palavra de incentivo será certamente bem vinda. Visitem-nos e deixem-lhes uma mensagem que eles respondem.
(A fotografia ou é do Jordi ou do Guillaume mas, seja de qual deles for, tem direitos reservados)
Cerca de vinte junto às campas
Leio notícia da agência Lusa, difundida às 13.33. Começa assim: "Cerca de vinte pessoas prestaram hoje homenagem aos autores do regicídio, junto às campas onde estão sepultados no cemitério do Alto de São João, em Lisboa." Não sei o que mais me espanta - se a inequívoca adesão popular a esta "homenagem" aos regicidas se a notória dificuldade do autor da notícia em contar até vinte. Mas neste caso, ao menos, existe uma atenuante: os dedos das mãos são apenas dez.
O pré-natal é quando o homem quer

Muito ouvimos dizer acerca das aulas pré-parto (ou de preparação para o parto) que funcionam como um complemento a todos os livros que podemos ler sobre o assunto. Constato que longe vão os tempos em que as salas destas aulas eram maioritariamente preenchidas só por mães. Os futuros papás agora estão por lá de pedra e cal. Devo confessar que noto uns mais vocacionados que outros. Uns escondem melhor o ar de tédio, conseguem não dormir – na aula sobre a amamentação era ver o marido da frente quase sempre de olhinho fechado –,, uns lidam com mais à vontade ao ouvir falar do corpo da mulher, outros não negam que pegam pela primeira vez num careca de borracha. Não sei o que se passa dentro de outras salas, mas a avaliar pela minha satisfaz-me dois aspectos: o primeiro é que, disfarçando melhor ou pior o “frete” de ter que ir à aula, eles estão lá todos. O segundo aspecto é mais pessoal. Considero que, se houvesse a nomeação do melhor pai das aulas pré-natal, o meu marido seria o eleito. Ele leva caneta, folhas soltas – podia ser um caderninho próprio para o efeito, mas não há problema pois quando pergunto: tens aí os apontamentos das aulas pré-parto, ele logo aponta um “Estão ali!” –, tem dúvidas, quer que eu também as tenha, e aponta tudo o que acha que pode interessar. E quando também eu possa estar desatenta, sussurra ao ouvido: “Ouviste isto? É importante.” Ou ainda: “Não queres perguntar sobre aquela dorzinha que tinhas no outro dia?” Ao que eu, no jeito de um marido envergonhado, respondo: “Não, deixa estar… já passou.” Claro que também oiço: “Já me fizeste comprar isto e não era preciso…”
Teresa, começo a achar que o meu “gato” faz concorrência ao teu ;)
A melhor década do cinema (38)

SHANE
(Shane, 1953)
Realizador: George Stevens
Principais intérpretes: Alan Ladd, Jean Arthur, Van Johnson, Brandon de Wilde, Jack Palance, Ben Johnson
"Um dos poucos westerns que podem reclamar o estatuto de obra de arte." (John Douglas Eames)
Antologia Corta-Fitas (XIII)
Factos ao pequeno-almoço
Nesta viagem oficial à China há muitas oportunidades para convívio. Ontem, ao pequeno-almoço, encontrei o Manuel Pinho. Nós os dois temos muitas conversas sobre temas económicos e julgo que o ministro aprecia os meus conselhos e, não raramente, segue-os. Mas, desta vez, reparei que o Manuel estava preocupado.
“Ó Pinho, o que se passa?”, perguntei.
“Tu nem imaginas a minha vida, Zé Nero”, disse ele, visivelmente abalado. “Tenho esta manhã uma conferência e preciso de convencer os chineses a investirem em Portugal, o que não é nada fácil. Não sei se lhes fale do choque tecnológico, se lhes diga que, depois de pôr todas as crianças a falar inglês, vamos pô-las a falar chinês... O MIT? O Sr. Bill Gates?”
“Dá-lhes factos. Os chineses gostam de factos”, atalhei. “Diz-lhes, por exemplo, que temos salários baixos. Com isso, atrais o investimento e ao mesmo tempo promoves a contenção salarial e, consequentemente, da espiral inflacionária nos restaurantes chineses e nas lojas dos 300”.
Dei-lhe o exemplo do meu amigo Ling Ling Qi, que tem um restaurante chinês ao pé de minha casa. Um dia ele disse-me: ‘Zé Nelo, os poltugueses têm salálios de chinês e tlabalham como chinês’. Acho que foi muito acertado. Trabalhamos como chineses e temos salários de chinês, portanto, somos competitivos, à nossa maneira, e não deve ser difícil para um empresário chinês instalar-se lá na nossa terra”.
Vi um brilho surgir nos olhos do ministro, mas rapidamente uma sombra perpassou pelo seu nobre semblante. “Mas não achas que o PS pode criticar? Afinal, ainda somos de esquerda... Da esquerda moderna, mas de esquerda...”
Peguei de imediato no telemóvel e liguei para o Largo do Rato. Atendeu o Vitalino, a quem expliquei a ideia. “Não há dúvida que é um facto”, respondeu. Desliguei e comuniquei ao Pinho a resposta. Fora os sindicatos, a oposição, os jornalistas do costume e alguns clientes habituais do Fórum TSF, toda a gente entenderia o que ele queria dizer.
Ao ouvir isto, o Manuel Pinho ficou muito contente. Parecia que lhe tinha tirado um grande peso de cima dos ombros. Devorou o resto do pequeno-almoço e falou todo o tempo, com extrema alegria. O resto é História. Hoje, toda a gente conhece as vantagens competitivas que temos a oferecer. Quer na China quer em Portugal quer, espero bem, vários empresários que estavam a preparar-se para deslocalizar as suas empresas para o Sri Lanka e para o Uganda. Valeu mais do que não sei quantas campanhas do ICEP a falar da convergência estratégica entre Belém e São Bento.
José Nero Fontão, 1 de Fevereiro de 2007
Future Asked Questions, dizem eles
Por qué no te callas? (8)
"Isto vive da confiança e dos resultados."
José Sócrates, ontem, em Lisboa
Por supuesto

O
Jornal de Negócios noticia hoje que o BCP «está a perder mais de 220 milhões» com a sua participação de 9,9% no BPI. O La Caixa, por seu lado, tem 25% do capital do banco. Em Espanha,
as notícias centraram-se apenas na distribuição de dividendos e no encaixe recente de 35,5M€. Mas quanto representam, contas feitas à data, as menos-valias potenciais para o La Caixa? Uns 500 milhões, mais tostão menos tostão?
Na altura da recusa dos accionistas de referência à OPA de Paulo Teixeira Pinto, a oferta era de 7€ por acção. Hoje, a cotação do BPI está a 3,43€. Menos de metade. Para mais, Fernando Ulrich antevê um «ano difícil» e apalpa terreno para um aumento de capital. Do outro lado da fronteira devem estar a pensar: «De Portugal, nem bons ventos nem bons casamentos».
Se de um lado chove, do outro troveja
Recordo-vos que logo à noite, pelas 21.00h na Lusíada,
LPM e
JPP vão explicar-nos como lidar com os
lobbies, moderados pelo nosso
Pedro Correia. Precisamente à mesma hora, Judite de Sousa entrevista Marinho e Pinto (ou é só «Marinho Pinto»? Agradecia que os jornalistas se decidissem sobre o nome exacto do senhor). Prevê-se uma noite com maior número de
soundbytes do que os exemplares vendidos da
FHM com a Luciana Abreu.
A alta governamental
No Governo do sr. Sócrates os ministros não são removidos. Têm "Alta". Porque, de alguma maneira, estiveram retidos numa unidade de terapia imune ao abominável som da rua. Aquele que fazem os eleitores e contribuintes e que tanto irrita o sr. Vital Moreira no alto da sua cátedra. Se não fosse o som da rua, governar era um idílio, uma espécie de spa. Correia de Campos e Isabel Pires de Lima tiveram alta, depois de uma terapia liderada pelo sr. Sócrates. Novos candidatos a uma posterior alta entraram já nos serviços. Por enquanto estão livres de contaminações da rua e vão direitos para o divã, onde se espera que o primeiro-ministro lhes explique psicanaliticamente a aplicação de um princípio quase freudiano da política: em caso de culpa, o culpado é o ministro e não o primeiro-ministro, apesar deste definir a política que os seus “colaboradores” executam com denodo. Às vezes, depois desta remodelação só apetece pedir: quando é que o sr. Sócrates tem "alta"?
Regicídio - Em abono da verdade

Foi ontem apresentado no Palácio da Independência, ao Rossio, o
Dossier Regicídio – O Processo Desaparecido, um trabalho de dois anos de investigação coordenado por Mendo Castro Henriques e com a colaboração de Maria João Medeiros, João Mendes Rosa, Jaime Regalado e Luiz Alberto Moniz Bandeira. O livro, com 348 páginas e 400 ilustrações, resulta de dois anos de investigação que tratou cerca de 1.500 documentos, alguns inéditos, 400 artigos e opúsculos, 60 livros, de arquivos públicos e particulares.
Na falta do processo instaurado na época pelo juízo de instrução criminal e convenientemente sumido depois do cinco de Outubro algures no gabinete de Afonso Costa, a obra centra-se na documentação possível dos factos ocorridos na trágica data, obviamente sem que se possam assacar conclusões cabais.
Sobre o assunto, o Juiz Desembargador Rui Rangel, a quem coube a apresentação da obra, salientou a fatídica tradição nacional da incapacidade da instituição judicial portuguesa em evitar a interferência dos poderes políticos. Como exemplo, o orador referiu, além do regicídio de 1908, o assassinato de Humberto Delgado e o caso Camarate.
Uma obra a não perder, em abono da verdade.
Votaria no centrão
Como o definiria politicamente? Difícil. Ele nunca me fala desses assuntos, mas a avaliar pela indiferença com que segue o noticiário politico-partidário diria que é um outsider.
Se votasse suponho que seria no centrão. Mais pelas afinidades que eu noto entre ele e alguns líderes dessa área, do que por questões de ordem programática. É que reconheço no seu porte alguma arrogância socrática e tal como Cavaco também não lê jornais, nunca se engana e raramente tem dúvidas.
Quarta-feira, 30 de Janeiro de 2008
Há 60 anos, assassinaram Mohandas K. Gandhi

«I suggest that we are thieves in a way. If I take anything that I do not need for my own immediate use and keep it, I thieve it from somebody else. It is the fundamental law of Nature, without exception, that Nature produces enough for our wants from day today, and if only everybody took enough for himself and nothing more,there would be no pauperism in this world, there would be no man dying of starvation».
M. K. Gandhi
Antologia Corta-Fitas (XII)
«Mila kuda su plania» ou «Mila kura si planina»?
Consta que a derrota da Inglaterra frente à Croácia na passada quarta-feira não foi marcada apenas pelo afastamento dos ingleses do Euro-2008. O momento alto da festa (croata) foi mesmo uma interpretação algo original do seu hino. Esta originalidade pode ter escapado à maioria dos 80 mil espectadores do estádio de Wembley, visto serem ingleses, mas não deixou de suscitar dúvidas aos adeptos croatas: “O que foi que ele disse?”, terão perguntado. É que Tony Henry, cantor de ópera britânico, ao invés de ter dito «Mila kuda su plania», que quer dizer «sabes querida como gostamos das tuas montanhas», entoou «Mila kura si planina», que significa «minha querida, o meu pénis é uma montanha». Mas parece que os croatas atribuem a vitória sobre a selecção inglesa a esse episódio – que terá, porventura, relaxado os jogadores – e, assim, como em equipa que ganha não se mexe, convidaram-no já para entoar o hino nacional por alturas do Europeu. Pelos vistos, a língua croata é, também, muito traiçoeira…
Maria Inês de Almeida, 25 de Novembro de 2007
O auto-retrato

Para quem ainda não o conhecia ou não via com assiduidade os seus excelentes comentários na SIC-Notícias (agora, infelizmente, transferiram-se para a TV Net), está disponível na blogosfera o
auto-retrato de
Paulo Gorjão. Em pose séria e com a arma do crime ao fundo (o teclado assassino),
Gorjão está no seu melhor. Gostei de o rever, meu caro. E fique sabendo que não estou
impedido de comentar nada, nem o PSD (desde Setembro, como você ironiza), nem o seu auto-retrato.
P. S. - Peço desculpa por ilustrar este meu humilde post com um outro auto-retrato, de certo menos ilustre que o supracitado...
Remodelação? Não houve...

Este
blogue de marretas, como diz um amigo meu, passa completamente ao lado da mini-
remodelação de
José Sócrates. Também seria pedir muito a um grupo de
spinners a soldo do
Governo. Eles não escrevem porque o chefe não deixa. Ou então os sub-chefes têm guia de marcha daqui a pouco tempo e o mais vale é ficar quieto. Ficam caladinhos sobre o assunto do dia e depois inventam umas trapalhadas que só comprovam que não percebem mesmo nada disto tudo. Eu a defender quem? Eu não defendo ninguém, só faço jornalismo. E no caso que relatam, pecam por defeito. Dei notícias nos últimos dias sobre os vários
players em jogo. Mas ao tal do
"Miguel Abrantes" basta-lhe ler uma, se possível a última, e inventar uma série de disparates.
Vá lá, ó "Abrantes" escreva qualquer coisinha sobre os dois ministros que foram despachados. Estamos todos em pulgas para saber a sua opinião isenta, em mais um brilhante post escrito a quatro ou a seis mãos.
Antologia Corta-Fitas (XI)
Morreu alguémque me vai fazer falta
Há mortos que nos levam um pouco com eles. Calculo que em Portugal haja meia-dúzia de pessoas que conheçam o Bussunda, o maior humorista brasileiro da actualidade, que morreu ontem, aos 44 anos. Conhecia-o (mal) de há muito tempo, quando, no início dos anos 80, estudámos na Universidade Federal do Rio de Janeiro, ele em Comunicação Social, eu em Economia. Depois, também eu, brevemente, em Comunicação Social.
Na altura, já era conhecido como Bussunda, embora o seu nome fosse Cláudio Besserman, e editava, com um grupo de amigos, o jornal Casseta Popular, que se vendia no campus e nas praias cariocas, ou em shows inesquecíveis em pequenos bares de Botafogo.
Falei com ele apenas três ou quatro vezes, mas o humor radical que já então praticava marcou-me até hoje, apesar de nunca mais o ter encontrado. Bussunda nunca poupou ninguém. A Direita, que então todos combatíamos, e a Esquerda, o que então era novidade. Ridicularizava os clichés de todos os quadrantes, com uma crueldade fascinante.
Na altura, eu era militante do PT (e durante um tempo pertenci a uma corrente trotskista, imaginem) e concorri numa lista para a direcção do núcleo estudantil da Universidade. Bussunda e um grupo de “anarcas” concorreu numa outra lista intitulada “Overdose, esfaqueie sua mãe”. Prometeram “caipirinha no bandejão” (nome como era conhecida a cantina universitária) e, antes da eleições, mostrando que iriam cumprir, foram despejar uma cachaça de terceira categoria no aguado sumo de limão que era servido aos estudantes.
No momento da apuração dos votos, cada vez que um membro da sua lista era chamado para fiscalizar a contagem, ele e os seus companheiros da “Overdose”, devidamente embriagados em pleno anfiteatro da universidade, gritavam “deixa roubar, deixa roubar” e não mandavam ninguém. Mesmo assim, ficaram logo atrás da nossa lista “petista” e à frente da do PC (pró-Moscovo) e do PC do B (maoistas) que ambos desprezávamos.
O seu jornal tornou-se conhecido, a Globo convidou-o para um programa de televisão semanal, que eu costumava ver no GNT, e ele tornou-se famoso em todo o Brasil. Apesar da “normalização”, Bussunda continuava a ter lampejos de selvajaria humorística que trucidaram consecutivamente Collor de Mello, Itamar Franco, Fernando Henrique Cardoso e Lula. Este último era caricaturado pessoalmente por ele, embora Bussunda o tivesse apoiado em várias eleições.
Mas não eram só políticos. Intelectuais e artistas de novela, empresários e pregadores de moral, corruptos de vária ordem, machões e bichas loucas, ninguém escapava ao humor de Bussunda e do seu grupo.
Em Portugal, nem nos bons tempos de Herman José, nunca tivemos ninguém parecido.
Foram estas as recordações imediatas que me ocorreram quando soube da morte dele, eu que o conheci tão mal. Mas a notícia deixa-me triste e com a sensação de que perdi alguém que iria sempre ridicularizar por mim aqueles que eu não tenho coragem, nem talento, nem oportunidade para enfrentar. Sei que no Brasil há milhões de pessoas que sentem o mesmo.
É bom ter um blogue para poder escrever isto.
Duarte Calvão, 18 de Junho de 2006
Malhas que as petições tecem
As críticas de Alegre e o receio de Sócrates

A mini-remodelação que
José Sócrates ontem anunciou, enquanto decorria a abertura oficial do ano judicial, responde a todos aqueles que juravam pela inutilidade do milhão e duzentos mil votos obtidos há dois anos nas urnas por
Manuel Alegre. Percebe-se agora muito bem que o histórico socialista pode condicionar a renovação da maioria absoluta do PS. A possível repetição nas legislativas de 2009 do que ocorreu nas presidenciais de 2006 e da eleição intercalar em Lisboa do Verão passado (em que Helena Roseta, sem máquina partidária, obteve 10%) é talvez hoje o maior pesadelo do primeiro-ministro.
As críticas de Alegre ao péssimo desempenho do ministro da Saúde, dando voz ao que milhares de socialistas pensam, ditaram o destino de Correia de Campos. Mais ainda: a substituição de Campos por uma ex-apoiante de Alegre, com a clara intenção de condicionar as intervenções críticas do poeta nesta área, são a melhor prova de que Sócrates receia o ex-candidato presidencial. Há uma esquerda socialista que, não se revendo no PCP nem no Bloco, jamais voltará a votar no actual primeiro-ministro mas optaria por uma alternativa eleitoral corporizada por Alegre, que também sem aparelho obteve 20% na corrida a Belém. Quem desvalorizar isto arrisca-se a falhar todos os vaticínios.
Alegre, que teve um papel importante nas presidenciais, pode ter uma intervenção decisiva nas próximas legislativas. Tudo depende da sua vontade. E Sócrates sabe isso melhor que ninguém. Daí o seu receio.
Admiração profissional

Os meus parabéns a quem calculou, com milimétrica precisão, o
timing do anúncio da micro-remodelação governamental. Mesmo a tempo de desviar os directos já preparados para as declarações de Marinho e Pinto. Muito bom trabalho, rapaziada! Mesmo assim, houve algum eco... eco...eco...
Por qué no te callas? (7)
"O Estado está a modernizar-se para servir melhor as pessoas."
José Sócrates, hoje, em Lisboa
A melhor década do cinema (37)

VIAGEM EM ITÁLIA
(Viaggio in Italia, 1953)
Realizador: Roberto Rosselini
Principais intérpretes: Ingrid Bergman, George Sanders, Maria Mauban, Anna Proclemer, Paul Muller, Anthony LaPenna, Natalia Ray
"Faltava este filme para limpar de uma vez por todas a Sétima Arte das suas escórias declamatórias e sentimentalistas." (Claude Beylie)
Toca a votar
Já aí está, o nosso novo inquérito. A ver se os nossos leitores têm uma pontaria tão afinada para prever quem ganhará os Óscares como tiveram para antever a saída de Isabel Pires de Lima.
SNS - Porquê tanta revolta? (7)

Durante as visitas à enfermaria dos Capuchos havia dois assuntos que dominavam as conversas da minha avó: as queixas sobre o seu estado de saúde, que evoluía com demasiada lentidão para o seu gosto, e as queixas sobre o pessoal de enfermagem e auxiliar.
Confesso que as descrições dos seus padecimentos me aborreciam, mas quando ela começava a contar o que se passava com as enfermeiras, ouvia tudo com muita atenção. Como nas histórias, havia as boas e as más. Às boas, para ficarem ainda mais boas, dava-se dinheiro, mas com as outras parecia que não havia nada a fazer. Uma delas, que eu identifiquei logo como a chefe das más, era odiada por todos. Respondia torto a toda a gente e sempre que a chamavam não vinha, ou então aparecia só para dar uma descompostura nos doentes, por estarem a incomodar.
A minha mãe ficava muito revoltada com estas coisas, mas quando dizia que ia fazer queixa ao médico, a avó entrava em pânico e pedia-lhe que não o fizesse, com medo de represálias. Eu percebia muito bem o problema dela e ficava cheia de pena a imaginá-la à mercê daquela megera.
Quando a víamos passar pela enfermaria, fazia questão de lhe deitar o meu olhar mais rancoroso. Era o mínimo que podia fazer pela minha avó!
Doutores de Spin

Houve forte comoção em torno da ideia de controlar a política parlamentar do PSD através de uma agência de comunicação. Alguns políticos desse partido ficaram indignados, mas a divisão que fizeram entre política de ideias e política de plástico não faz sentido, pois a primeira não passa de quimera.
Qualquer eleição num país industrializado (veja-se a campanha nos EUA) é cuidadosamente controlada por spin doctors. Nenhum candidato se atreve a falar aos media sem esse controlo. Aliás, todos os desastres ocorrem em declarações ou gestos instintivos. Há inúmeros exemplos, dos gritos de Howard Dean ao mais recente ataque de Bill Clinton a Obama na Carolina do Sul, erro que pode ter custado a Presidência a Hillary.
Nas eleições a sério, pouco divide os candidatos, excepto as suas mais ou menos brilhantes personalidades. Mesmo a governação é hoje de plástico, fortemente condicionada pelos media, nunca perdendo de vista a mediania da classe média (nove em cada dez eleitores) e os seus mínimos denominadores comuns. Tudo é mediatizado, nomeadamente segundo o tempo da televisão, que se mede aos segundos. Não há ideias na política contemporânea, apenas fait divers e simplificações, e o PSD está em pleno debate saído dos anos 70.
D. Carlos, um rei constitucional
(...) "A construção da actual democracia em Portugal foi feita não apenas contra o Estado Novo, mas também contra a I República. Dependeu de uma nova cultura política, em que se admitiu o princípio de que a validade das eleições dependia mais das instituições e procedimentos do que das "qualidades" da população. Dependeu também de se ter voltado a reconhecer novamente, como no tempo da monarquia constitucional, que a razão é algo distribuído a mais de uma opinião ou partido. Obteve-se assim um regime aberto a todos, e em que o voto de todos é a base da alternância no poder.
Os exclusivismos, porém, deixaram herdeiros frustrados. Há quem ainda não tenha percebido por que é que não é dono desta democracia, tal como o PRP foi dono da I República ou os salazaristas do Estado Novo. Eis o que representam os contestatários da comemoração de D. Carlos."
.
Rui Ramos no jornal Público
Terça-feira, 29 de Janeiro de 2008
Nos bastidores da remodelação

Sócrates avisou: - "Correia de Campos sai, mas não sai sozinho".
Os ministros começaram todos a sussurrar: - "É o Lino, é o Lino"
Mário Lino, rápido: - "O sr. primeiro-ministro é que escolhe!"
Sócrates olhou em volta. Isabel Pires de Lima estava com aquele ar vago, que tanto o irritava...
Os leitores é que sabem
Com a "remodelação" hoje anunciada, chega ao fim mais um inquérito Corta-Fitas. Os nossos leitores acertaram: Isabel Pires de Lima, a quem Sócrates acaba de conceder guia de marcha, foi a mais votada neste questionário: 96 votos (21% do total). Já Correia de Campos, o outro "remodelado", só ficou em quinto (51 votos, 11%). Mas os leitores estavam cheios de razão: Mário Lino (78 votos, 17%), Maria de Lurdes Rodrigues (63 votos, 14%) e Alberto Costa (53, 12%) também mereciam ir mais cedo para o duche, como se diz em jargão futebolístico. Em compensação, Sócrates fez bem em manter o inconfundível Manuel Pinho (sexto classificado, com 43 votos, 9%). Se existe alguém difícil de substituir neste Executivo é o titular da pasta da Economia...
Recebemos 459 votos neste inquérito. Amanhã começa outro na nossa barra lateral.
SNS - Porquê tanta revolta? (6)

O pior não foram as manifestações à porta dos hospitais e dos centros de saúde que fecharam as urgências. Lembro-me que com o encerramento das maternidades também houve muito alarido e nem por isso o governo recuou. O sinal mais inquietante surgiu nestas duas últimas semanas, quando as notícias de contestação à política de saúde se começaram a somar a histórias que escapavam à acção do governo mas reflectiam o péssimo funcionamento do nosso SNS.
A caixa de Pandora estava a abrir-se. Coleccionador há longos anos de desconforto, negligência, e precaridade na assistência médica, o povo começou desta forma a responder às restrições do executivo. É que de facto não é legítimo pedir, como nos países desenvolvidos, onde tudo funciona bem, que os utentes prescindam de benefícios, quando aqueles de que gozam não são nem nunca foram razoáveis.
Foi um diálogo surdo, mas não de surdos. E Sócrates percebeu o recado. Com tanta razão de queixa e ressentimento acumulados, esta sucessiva divulgação de casos na praça pública acabaria por incendiar o país.
Antes que o efeito bola de neve se criasse o primeiro-ministro percebeu que tinha que meter travões a fundo. Despediu Correia de Campos e de caminho aprendeu uma lição: “Com a saúde não se brinca”.
Antologia Corta-Fitas (X)
Momentos Kodak (1)
Rodrigo Cabrita, 12 de Julho de 2006
A voz da sabedoria
Vital Moreira consegue
aqui um prodígio de equilibrista: contesta a saída do ministro da Saúde, que vinha
defendendo contra todas as evidências, sem beliscar José Sócrates. A isto é costume chamar-se a voz da sabedoria.
Magistratura de influência
Sim, por que não?
JOSÉ ANTÓNIO PINTO RIBEIRO, «Breve Sumário da História de Deus: uma visão augustiniana da História?».
Já agora e depois de ter sido simpaticamente corrigido na caixa de comentários, estou com o Pedro Sales:
Tanta franqueza comove
«Deram tudo o que tinham a dar».
Vitalino Canas sobre os ministros substituídos
De fachada
Curiosas companhias, as do novo ministro da Cultura de José Sócrates no
Movimento Cidadania e Responsabilidade pelo Sim. José António Pinto Ribeiro, de seu nome. Apesar de tudo, a remodelação neste caso só pode ser para um bocadinho melhor, porque Isabel Pires de Lima estava condenada há meses, mais concretamente desde que o Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva, disse publicamente que não concordava com o afastamento de Dalila Rodrigues da direcção do Museu Nacional de Arte Antiga. Se ela já estava em maus lençóis por outros motivos, esse acabou por ser o seu fim.
Quanto à saída de Correia de Campos, mais do que o dedo de Cavaco Silva (que também houve), vejo ali o dedo muito comprido do PS. Contestado dentro do partido, foi Manuel Alegre quem há dias veio dizer que o ministro tinha perdido o pé. Já João Amaral Tomás, saiu porque tinha pedido. Pediu há muito. Sai agora, depois do infeliz episódio de ir à Assembleia da República no dia em que se confirmou que estava demissionário. Curiosamente, segundo consta, Correia de Campos ia amanhã à AR. Já não irá, foi demitido a tempo.
Mas o que espanta nesta mini-remodelação para inglês ver é a resistência do primeiro-ministro em remodelar quem precisa de ser remodelado. Mário Lino à cabeça, Luís Amado (que terá pedido para sair, por motivos pessoais), Jaime Silva ou a ministra da Educação são ministros a prazo. A curto prazo. Já para não falar de Alberto Costa, que não teve nos últimos dias uma reacção decente às polémicas declarações do novo bastonário, António Marinho Pinto.
É por isso que esta remodelação é de fachada e já não esconde o óbvio. Desde que António Costa deixou o executivo para ir para a Câmara de Lisboa que Sócrates não tem um número dois político à altura. Um conselheiro e um estratega. Silva Pereira é verde para isso, Teixeira dos Santos é um técnico. Os outros são todos bons rapazes.
O ministro embaciado fora do Governo
José Sócrates, num assomo de lucidez, decidiu afastar do Governo o ministro cuja imagem estava
irremediavelmente embaciada. Já começa a cheirar a eleições. E o que tem que ser tem muita força.