Terça-feira, 31 de Julho de 2007
Cinema Nostalgia (1)

Comecei a ver cinema muito cedo. Era ainda um garoto, leitor assíduo de revistas de banda desenhada, quando me deixei seduzir pelo ecrã mágico de onde irrompiam heróis de todo o género, emanados do mundo dos adultos. Fixei para sempre um sorriso de Fernandel, um silêncio de John Wayne, um trinado de Marisol, uma expressão dura de Bogart, um esgar trocista de Belmondo, Errol Flynn conquistando as matinés e o coração de Olivia de Havilland em
As Aventuras de Robin dos Bosques. E as pernas de Silvana Mangano, os olhos de Michèlle Morgan, o rosto magoado de Ingrid Bergman à beira de um vulcão a preto-e-branco em
Stromboli. Puto de calções, largava as brincadeiras da bola ou do berlinde para me pôr defronte da pantalha, quando a RTP oferecia bom cinema aos espectadores, e lá ficava, de olhos arregalados, mergulhado no fascínio da Sétima Arte oferecida ao domicílio da geração privilegiada de que fiz parte. São imagens que me ficarão gravadas para sempre: o inquietante sobrolho de Gregory Peck no
Caso Paradine, o trenó em chamas de
Citizen Kane, Gene Kelly dançando à chuva, um grão de areia no olho de Celia Johnson, a radiosa Audrey Hepburn andando de
lambretta nos dédalos de Roma.
Filmes de Verão, com Johnnny Weissmuller, Totó e Fred Astaire. Filmes de Inverno, com Giulietta Masina, Henry Fonda e Marlene Dietrich. Títulos perdidos na memória dos tempos mas recordados à simples evocação de uma cena imortal: Shirley Temple fazendo sapateado, Vasco Santana falando a uma girafa, Grace Kelly beijada por Cary Grant, Alice Faye cantando “With a Song in my Heart”, Alida Valli caminhando ao som da cítara vienense de Anton Karas.
Tardes de cinema, noites de cinema. O mundo que se movia à velocidade de 24 imagens por segundo.
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Na imagem: Silvana Mangano, em Arroz Amargo (Riso Amaro, 1949)
Gostei de ler
Se aquilo não é populismo...
Os melhores cineastas estão a deixar-nos

Monica Vitti, a musa de Michelangelo Antonioni (1912-2007)
Coisas que nunca me passaram pela cabeça
Apanhei esta frase do Arnaldo Jabor nas piores condições: estava na praia, descontraída, sem a menor intenção de desatar para ali a pensar. Resultado... fiquei meio bloqueada, sem conseguir decidir se ele terá mesmo razão. Agora que tanto se fala de direita e esquerda, só faltava mais esta para animar a discussão. Ora tomem nota:
"Actualmente sexo é de direita. Amor é de esquerda. Nos anos 60 era o contrário", Arnaldo Jabor, in "Amor é Prosa, Sexo é Poesia"
Será??
A esquina do Rio
"Um partido como o PSD tem de dar sinais de que preserva a estabilidade e não anda a mudar de líder a cada esquina". O autor da frase é Rui Rio, que hoje almoçou com Marques Mendes, no Porto, e revelou-se um feroz apoiante do actual líder social-democrata. Há menos de um mês, como se sabe, Rio andou a ser pressionado por barrosistas destacados (como José Luís Arnaut, Nuno Morais Sarmento e Miguel Relvas) para assumir a ruptura, protagonizando uma "terceira via" alternativa a Luís Marques Mendes e a Luís Filipe Menezes. Ainda pensou no assunto, sabendo que tinha também o apoio do sector cavaquista do partido, só que acabou por passar a bola a José Pedro Aguiar-Branco, com quem almoçou e jantou tentando convencê-lo a avançar para as directas. Aguiar-Branco, que acalenta a ambição de se tornar numa espécie de novo Sá Carneiro - em comum só terão o facto de serem ambos naturais do Porto, advogados, de boas famílias e com alguns cabelos brancos, pois o malogrado primeiro-ministro está a anos-luz de tudo o que há neste PSD -, anda pensou no assunto, mas desistiu por alegada falta de apoios (a verdade é que foi aconselhado a não avançar porque dividia o mendismo e daria a vitória a Menezes). Veremos se no pós-eleições de 2009, que está já aí ao virar da esquina, Rui Rio também irá achar, como disse hoje, que o PSD só teve vitórias, à excepção de Lisboa, considerada uma "eleição atípica". Em 2009, o excelente argumento que agora usou (e com o qual concordo e que na prática o diferencia de muitos no partido), de que não poderia deixar a meio o mandato na Câmara do Porto, já não existe. Nessa altura, Rui Rio é livre que nem um passarinho, pois as autárquicas irão coincidir com as legislativas.
Mais dez motivos para gostar de Portugal (X)

SETE CIDADES.
A paixão messiânica do PSD
Caro Duarte Calvão,
O seu último texto e os comentários que suscitou deixaram-me apreensiva. Haverá razões para tanto desânimo? Eu acho que não. O PSD sempre teve uma paixão pelo messianismo, encantadora mas pouco eficaz. Talvez seja a marca de Sá Carneiro. Cavaco Silva, com o mito inaugural de ter ido ao congresso da Figueira da Foz fazer a rodagem do Citroen, alimenta esse romantismo. Calhou-lhe ter o carisma e a oportunidade, mas isso nem sempre acontece. Veja-se o caso de Santana Lopes, que teve os dois, mas não ao mesmo tempo.
Fora das épocas de graça, são os aparelhos que sustentam os partidos de poder. Não percebo, por isso, esse horror ao aparelho. Cavaco Silva, por exemplo, nunca rompeu com o aparelho, e há mesmo quem diga que, por tê-lo deixado crescer demais, acabou devorado, no último mandato. A Sócrates, o poder caiu nas mãos, quase sem lhe dar tempo de se desgastar a conduzir um partido na oposição. Algumas figuras do PSD tentaram construir uma aura messiânica, mas nunca chegam à oportunidade. Recordo António Borges que, a certa altura, até foi notícia de primeira página no Expresso pelo voo que nunca chegou a apanhar no 11 de Setembro...
Os aparelhos fazem falta para as travessias do deserto. Descanse que, quando o PSD voltar a ser governo - e isso vai acontecer, é fatal - os bons vão aparecer. Até lá, o melhor líder é o que existe - qualquer que seja - mais do que os que optaram por ficar no sofá. Há outra forma?
Segunda-feira, 30 de Julho de 2007
Sócrates como Cavaco vinte anos depois

José Sócrates está a produzir hoje na política portuguesa um efeito simétrico ao que Cavaco Silva conseguiu há duas décadas. Na década de 80, ao irromper surpreendentemente na cena política com um discurso que transcendia largamente as fronteiras do seu partido, Cavaco cativou a esquerda com um êxito sem precedentes na história do PSD. O seu domínio das finanças públicas, a sua imagem austera, o seu vocabulário expurgado de qualquer vestígio de “politiquês”, a sua preocupação com questões sociais secaram a esquerda, então caracterizada por uma evidente ineficácia e pela mais estéril retórica. Na altura, não faltaram até transferências directas de voto do PCP para o PSD. Vinte anos volvidos, Sócrates produz o efeito contrário: o seu estilo sóbrio, as suas aparições esparsas, a sua imagem de “decisor” e a autoridade que cultiva como imagem de marca seduzem crescentes sectores da direita, tornando inútil o palavreado de oposição formal que emana dos estados-maiores do PSD e do CDS. Com Cavaco no poder, a esquerda teve os piores resultados eleitorais de sempre. Agora, com Sócrates, a direita afunda-se num abismo. Entre as personalidades que Sócrates tem conseguido seduzir incluem-se tradicionais figuras da direita portuguesa, como Freitas do Amaral, Basílio Horta, José Miguel Júdice e Maria José Nogueira Pinto. Duas décadas, o mesmo efeito. E agora a necessidade, à direita, de repensar tudo. Como a esquerda teve que se adaptar à década cavaquista que mudou drasticamente a política portuguesa.
Que brasa

Com um calor destes, só apetece um
vodka-martini junto ao mar ou à beira da piscina. Se for à sombra, tanto melhor.
Shaken, not stirred...
Férias I

Férias é largar a quadricula dos rituais utilitários,
E improvisar novas rotinas.
Férias é gradualmente desregular os horários.
E ficar na praia até às nove da noite.
Férias é preguiçar longamente a ler o jornal...
até o obituário se encher de areia.
Férias é jogar à rabia na maré vazia...
Até estourar humilhado pela rapaziada nova.
Férias é dar lastro às crianças,
... e a chave de casa aos mais velhos.
Férias é tempo de conhecê-las melhor.
Na hora da morte de Ingmar Bergman

A minha cena favorita do filme dele de que mais gosto: O Sétimo Selo (1957). Inesquecível partida de xadrez entre o cavaleiro e a morte que mudou para sempre a face do cinema, eterno jogo entre a luz e as trevas.
Ao nível do Chão
Luís Marques Mendes lá foi ontem à festa do Chão da Lagoa, na Madeira, e apareceu no palco juntinho ao presidente do Governo Regional da Madeira, enquanto este disparava contra Sócrates e lançava avisos ao Presidente da República: "Senhor PR tenha atenção ao que é uma obsessão doentia com a Madeira", soltou Alberto João Jardim. Depois de não ter sido convidado nos dois anos anteriores, Mendes surgiu todo satisfeito e soltou frases como esta, reproduzida na SIC Notícias: "É melhor do que eu imaginava. Era o que faltava no meu currículo". Partindo do princípio de que até possa ter sido sincero, não percebo o esforço que Mendes fez para não aparecer a beber cervejinhas geladas, como Alberto João. Nem percebo como é que, com uma temperatura a rondar os 40 graus, apareceu de calças azuis escuras vincadas e uma camisa apertada até ao último botão. Deve ter sido para dar um ar mais credível, ali ao lado de Jardim, de pólo preto, Swatch cor-de-laranja e um chapéu de palha na cabeça. Mas já percebo que Mendes tenha chamado "o nosso grande líder" a Jardim. Um é grande, o outro....
Estado de espírito do treinador do Benfica

Fernando Santos (20 de Julho de 2007)
Leituras de Verão: "Silly post"
Sobre as leituras de Verão já se escreveu de tudo em revistas, jornais, blogs e papel de gelados. Listas de policiais, romances e livros de palavras cruzadas têm sido temas recorrentes a partir da altura em que deixa de haver assunto. Porém, desde que me encontro a banhos, há um outro assunto sobre o qual me tenho debruçado, sentado e mesmo deitado: qual a melhor posição para ler na praia?
Uma vista de olhos ao areal leva-me a concluir que existem diversas modalidades de leitura, sendo de considerar a logística que cada banhista/leitor se dispõe a movimentar. À excepção da leitura de jornais em geral, estamos perante um cenário algo penoso, com as folhas a fugir por entre as mãos e as letras a dançar ao sabor do vento. Fechemos pois o jornal e tentemos ler um livro.
Pelas minhas contas e pelas dores nas costas, ler um capítulo inteiro sentados na toalha de praia em cima da areia já é obra. A páginas tantas, vemo-nos forçados a fechar o livro e a esticar a coluna.
Por outro lado, basta uma breve experiência com cadeiras de praia para rapidamente se poder concluir que ler exige costas direitas e apoio de braços. Cadeiras baixas são uma boa alternativa, mas, sinceramente, prefiro as altas. Desde que não seja eu a carregá-las, claro.
Há, mas ainda são verdes
No sábado estive em Alvalade, para assistir ao jogo de apresentação do Sporting (1-1 com o Recreativo de Huelva) e pude constatar alguns dos meus receios quanto ao plantel para esta época. Acho que a equipa está desligada e, sobretudo, faltam laterais e extremos. Não deu para ver se a saída de Ricardo foi bem preenchida por Stojkovic, que apesar de tudo me parece que vá ser a escolha óbvia para titular. A dupla de centrais vai ter que ser Polga e Tonel (que, pasme-se, foi capitão na segunda parte) e nas laterais tivemos Ronny muito inseguro e um Pereirinha inadaptado ao lugar. No meio, ficamos bem servidos com Moutinho e Miguel Veloso. Gostei de rever Romagnoli e achei que Simon Vukcevic mostrou óptimo futebol, ao contrário de Ismailov. Na frente, Derlei não pode fazer dupla com o levezinho. Sempre quero ver quem é que vai servir o Liedson, com a ida de Nani para o Manchester United. Djaló terá que ser sempre titular.
Mais dez motivos para gostar de Portugal (IX)

CURRAL DAS FREIRAS.
Usando o corta-fitas como janela
Domingo, 29 de Julho de 2007
O pior cego é aquele que não quer ver

Confirmando-se que só Mendes e Menezes se candidatam à liderança do meu partido, é mais do que provável que não vote em nenhum. Depois da eleição, vou esperar mais um pouco para saber o que o líder eleito tem para dizer e ver que pessoas o acompanham. Mas não acredito que haja alguma coisa que me surpreenda positivamente. Talvez espere por Rui Rio, ou alguém dessa categoria, para 2009. Talvez não. Talvez ache que o PSD já não tem salvação, com o vazio de poder causado pela elite do partido, paralisada em tacticismos e comodismos. Um vazio de poder ocupado por um tipo de gente do aparelho de que só quero distância.
Mesmo que Mendes ou Menezes viessem a ganhar em 2009, que tipo de gente levariam para o governo? Acham que essa gente do aparelho não cobra a factura quando chega a hora? Acham que podem aliar-se a eles sem perder a alma? Se pensam assim, não aprenderam nada com o que se passou em Lisboa, e não vale a pena apostar em ingénuos ou cínicos.
Perante este cenário, fico pasmado em ver como a ideia de um novo partido no espaço não-socialista é condenada logo à partida. Quem faz comparações com o PRD ou a Nova Democracia não percebe nada do que se está a passar nesse espaço. É claro que um novo partido nunca poderia ser unipessoal, servindo apenas às ambições políticas de um líder incontestado. Nem Santana Lopes, nem Portas, ganhariam nada se apostassem num partido assim. Mas porque não um novo partido formado por gente que já não aguenta o aparelhismo que tomou conta do PSD, que fizesse uma clara ruptura com as más práticas e os programas indistintos que vigoram na chamada "direita"? Com gente de valor que está congelada nos partidos de "direita"? Estamos condenados a um eterno sistema partidário que, como se viu nas eleições de Lisboa, já pouco ou nada diz a muitos eleitores?
Pacheco Pereira, por quem tenho uma enorme admiração, espanta-me agora. Depois de ter descrito magistralmente o estado a que o PSD chegou, é o primeiro a dizer que não há espaço para um novo partido. Ele e outros por quem tenho apreço que digam onde pode haver esperança de uma regeneração do PSD e prometo que vou ouvi-los com toda a atenção. Não gostaria de deixar o partido de que sou militante. Mas, para já, parece-me melhor começar a pensar em alternativas. Ou então desistir de vez.
Lopes da Costa
Sobre a trapalhice do pagamento de quotas aos militantes, queixa-se a senhora no DN de hoje: - "O PSD fez-me cair numa esparrela". Não ponho em causa, há partidos capazes de tudo, mas acho que o mais difícil para o PSD foi ter que, primeiro que tudo, inventar a senhora.
Domingo
Evangelho segundo São Lucas 11,1-13
Naquele tempo, estava Jesus em oração em certo lugar. Ao terminar, disse-Lhe um dos discípulos: «Senhor, ensina-nos a orar, como João Baptista ensinou também os seus discípulos». Disse-lhes Jesus: «Quando orardes, dizei: ‘Pai, santificado seja o vosso nome; venha o vosso reino; dai-nos em cada dia o pão da nossa subsistência; perdoai-nos os nossos pecados, porque também nós perdoamos a todo aquele que nos ofende; e não nos deixeis cair em tentação’».
Disse-lhes ainda:
«Se algum de vós tiver um amigo, poderá ter de ir a sua casa à meia-noite, para lhe dizer: ‘Amigo, empresta-me três pães, porque chegou de viagem um dos meus amigos e não tenho nada para lhe dar’. Ele poderá responder lá de dentro: ‘Não me incomodes; a porta está fechada, eu e os meus filhos estamos deitados e não posso levantar-me para te dar os pães’. Eu vos digo: Se ele não se levantar por ser amigo, ao menos, por causa da sua insistência, levantar-se-á para lhe dar tudo aquilo de que precisa.Também vos digo: Pedi e dar-se-vos-á; procurai e encontrareis; batei à porta e abrir-se-vos-á. Porque quem pede recebe; quem procura encontra e a quem bate à porta, abrir-se-á. Se um de vós for pai e um filho lhe pedir peixe, em vez de peixe dar-lhe-á uma serpente? E se lhe pedir um ovo, dar-lhe-á um escorpião? Se vós, que sois maus, sabeis dar coisas boas aos vossos filhos, quanto mais o Pai do Céu dará o Espírito Santo àqueles que Lho pedem!».
Da Bíblia Sagrada
Olha quem fala
"A democracia faz-se também e sobretudo da capacidade de dizer 'não', da capacidade de dizer 'não' ao autoritarismo, a qualquer espécie de tentativa de controlo político-partidário sobre a administração pública, sobre a sociedade civil, sobre a comunicação social livre ou sobre a vida de cada um de nós".
Augusto Santos Silva, ministro dos Assuntos Parlamentares (hoje, na Madeira)
Os tugas (29)

Mulher falando ao telemóvel numa carruagem de metro, em voz cada vez mais alta.
- Tou! Não te percebo bem. Tou a chegar ao Campo Grande!
...
- Tou! Tou!
...
- Tás onde? Eu tou a chegar ao Campo Grande.
...
- Campo Grande, Campo Grande! Tás aí já?
...
- Como? Não consigo perceber! Quê? Eu tou a chegar ao Campo Grande!
...
- Quê? Quê? Quê?
...
- Tás já à minha espera? Eu tou a chegar. Tou, tou!
...
- Quê? Quê?
...
- Ah, tás no Parque das Nações. Agora percebi. Eu tou a chegar ao Campo Grande... Espero aqui por ti.
A blogosfera tem destas coisas

Por causa da
Nancy, da
Geração Rasca, já tenho
Orgulho e Preconceito de volta à minha mesa de cabeceira. E desta vez juro que vou lê-lo até ao fim.
Mais dez motivos para gostar de Portugal (VIII)

PONTE DE LIMA.
Sexta-feira, 27 de Julho de 2007
Usando o corta-fitas como janela
... esse grande escultor
O Luís Filipe Menezes que vi hoje entrevistado por José Alberto Carvalho no Telejornal surpreendeu-me. Sou obrigada a admitir que, durante estes anos em que não reparei nele, o senhor melhorou o discurso, a pose, a atitude (embora falte ainda trabalhar a gravata, sempre acinzentada). Se calhar vencer as eleições no PSD e se fizer o que disse (uma moção de censura por causa das manifestações de sindicatos e funcionários públicos, por exemplo), o partido terá um líder que vai dar muito trabalho ao governo.
As eleições no PSD têm sempre algum grau de imprevisibilidade, e só por isso, e pela subida de Sócrates nos barómetros de opinião, a vitória de Marques Mendes não são favas contadas. O problema é que, daqui até às directas, as expectativas para a liderança em 2009 podem pesar mais do que a vontade de construir uma oposição aguerrida.
Apesar de isto não ser justo para Marques Mendes - que teve nas eleições de Lisboa o seu único erro sério - muitos sociais-democratas preferem despachá-lo em 2009 do que correr o risco de eleger alguém que, daqui a dois anos, não vai educadamente ceder o lugar.
Três dias sem televisão

Três dias sem televisão. Aproveito para ler um romance fabuloso, passado no norte de África, nos turbulentos dias do pós-guerra: O Céu que nos Protege, de Paul Bowles. Prosa envolvente, magnífica, com o deserto do Sahara em hipnótico pano de fundo. Há muito que não descobria um escritor assim, que me agarrasse tanto e me fizesse devorar tantas páginas. Esquecido do mundo, esquecido do tempo.
Com parágrafos como este: “Olhou para fora, para o vazio varrido pelo vento. A lua escondera-se atrás da aresta aguda da terra. Ali, no deserto, ainda mais do que no mar, ela tinha a impressão que estava sobre uma grande mesa, que o horizonte era a beira do espaço. Imaginou um planeta em forma de cubo, algures sobre a terra, entre esta e a lua, para a qual de alguma maneira tinham sido transportados. A sua luz devia ser difícil e irreal como ali, o ar devia ter a mesma secura extrema, aos contornos da paisagem faltariam as reconfortantes curvas terrestres, exactamente como ao longo de toda aquela vasta região. E o silêncio seria último, definitivo, deixando lugar apenas ao som do ar que passava. Ela tocou a vidraça; estava fria, gelada. A camioneta seguia aos solavancos ao longo do planalto.”
Admirável tradução de José Agostinho Baptista, excelente edição da Assírio & Alvim. Ler um livro destes, tão arrebatador, é um imenso prazer. Ainda bem que tive a TV avariada. Oxalá o arranjo não dure muito...
Populismo
Consta que Luís Marques Mendes vai estar no domingo na super-festa do Chão da Lagoa, na Madeira, ao lado de Alberto João Jardim. Que bonito. Nos últimos dois anos, Marques Mendes não foi sequer convidado para estar ao lado do presidente do Governo Regional da Madeira, um gesto muito mal digerido na São Caetano à Lapa, mas que ia servindo para o comandante Azevedo Soares e outros dirigentes dizerem que cada um convida quem quer, ao passo que em surdina iam suspirando de alívio, pois o facto de o líder do PSD não ter que ir à ilha encaixava que nem uma luva na defesa da credibilidade e no afastamento de figuras "populistas" como Valentim Loureiro e Isaltino Morais. Há mais de dois anos que não interessava a Mendes aparecer ao lado de Jardim, no domingo ainda vamos vê-lo de cervejinha na mão a cantar e a dançar ao lado do presidente do Governo Regional. Quando dá jeito - e neste momento já começou a campanha para as directas no PSD - pode-se sempre chutar para canto. E abraçar o tal populismo...
A banhos
Amanhã pela manhã a “família pipocas” parte rumo ao Sudoeste para umas merecidas férias. Um ritual incontornável, indispensável. Malas feitas, gás desligado, trancas na porta, todos na carrinha, alguma excitação: um choro aqui, um ralhete ali, todos na carrinha, todos ao caminho. Uma pequena temporada de Sol, roupa lavada e comida feita. Uns dias de indolência, livros, jornais e muita praia, muito mar. Gelados, sandwiches e bolas de Berlim também. E como é próprio da estação e dos “ares”, os miúdos aproveitarão para crescer. Em tamanho e (espera-se) em graça. Novidade é que desta vez levo computador, já que arranjei uma impecável Internet portátil. Hasta la vista!
Gostei de ler
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, mas a democracia resiste. Do Tomás Vasques, no
Hoje Há Conquilhas.
Más escolhas. Do Carlos Abreu Amorim, no
Blasfémias.
Se está a pensar ir à Venezuela, pense duas vezes. De Carlos Manuel Castro, no
Tugir. O CES e Boaventura Sousa Santos. De Tiago Barbosa Ribeiro, no
Kontratempos. E, no entanto, sobrevivi... Do Helder Robalo, no
Pensamentos.
Porque hoje é sexta-feira

As mulheres deixam-se conquistar facilmente pelos homens que as fazem rir, mas o inverso, em regra, não é verdadeiro. Para eles, nada como trocar umas boas gargalhadas entre compinchas, de preferência numa daquelas rodas de amigos em que mulher não entra. Percebe-se. Afinal, o prazer de rir entre companheiros precede, na vida deles, o de gozar a companhia das mulheres, pois remonta ao tempo em que ainda as olhavam cheios de reserva, a pensar: “Mas afinal, para que é que elas servem? Nem sequer sabem jogar à bola...”
Nesses verdes anos, do outro lado da barricada, bem os víamos agitados, desajeitados, esganiçados, parvos, mas muito cúmplices. Às vezes eu ficava a observá-los, meio ressentida com a sua autosuficiência, cheia de vontade de pertencer também à irmandade da carica, porque sentia que eles tinham mais capacidade de se divertir uns com os outros do que nós.
Será isto que nos atrai quando nos fazem rir? Esta sensação de redenção? A aventura finalmente consentida de nos rirmos com as suas piadas? Às vezes tão parvas, mas mesmo tão parvas que até parece que no instante seguinte ainda nos arriscamos a que eles nos convidem para ir ali para o passeio da rua jogar ao bilas...
Já que hoje é sexta-feira
Momentos Kodak (54)

Alberto João Jardim
Fotografia: Rodrigo Cabrita
Cinco dias, cinco pratos

Juro que só agora me lembrei de que o
Adolfo Mesquita Nunes me incluiu há já vários dias numa destas listas circulares que abundam na blogosfera com o pedido de lhe dar nota das minhas
cinco mais recentes refeições. Vai atrasado, mas vai à mesma: cá fica o inventário, de segunda a sexta. Assim mesmo - uma por dia. É uma regra já antiga: quando almoço, não janto; quando janto, não almoço.
2ª feira - Paella. No Solar dos Presuntos. Sem dúvida a melhor de Lisboa.
3ª feira - Risotto de pato. No Sucre. Uma das mais estimulantes descobertas gastronómicas que fiz ultimamente na capital (ups, se calhar não devia ter falado disto: qualquer dia começa a ser difícil arranjar lá mesa...)
4ª feira - Empadas de galinha. Na imprescindível Charcutaria (a da Rua do Alecrim, que prefiro à outra).
5ª feira - Cataplana de bacalhau. No velho Tico Tico, de Campo de Ourique, que hoje se chama não sei o quê. Com a turma cá do blogue.
6ª feira - Spaghetti caprese. O meu prato vegetariano favorito. No Valentino.
E por aqui me fico. Com um abraço ao Adolfo. E sem maçar ninguém com uma pergunta tão indiscreta.
Cem anos de História para isto

Por todo o lado, em especial no
D.N. que até publica a palavra malgrafada na sua capa, ele é «escutismo» para aqui e «escuteiros» para ali. Sucede que tais palavras não existem. Em português, escrevem-se «escotismo» e «escoteiros»,
como podem verificar no site oficial da A.E.P. (o «ó» está bem destacado a verde para não haver enganos). Depois, o que há são «escutas». De Corpo Nacional de Escutas. Adaptação do escotismo feita pela igreja católica, como a fizeram também os adventistas do sétimo dia com os «desbravadores» ou o partido comunista com os seus «pioneiros», se é que tal coisa ainda existe. Escoteiros de verdade há só uns.
Os meus. Em 1907, Lord Robert Stephenson Smyth Baden-Powell levou consigo um grupo de 20 rapazes para a Ilha de Brownsea, para realizar o primeiro acampamento escotista de todos os tempos. «Escotista», perceberam? Arre.
O partido do "porque não"
"O PSD nasceu como partido do 'porque sim' e está transformado num partido do 'porque não'. Não é saudável que todos os 'laranjinhas' com que me cruzo achem que Marques Mendes não serve, que Menezes é um perigoso populista a deter a todo o custo e que, apesar disso, se resignem a este estado de coisas."
José Miguel Júdice, Público
"A personagem precisa de ficar remota para sobreviver. Basta que o país saiba que Sócrates manda e gosta de correr; e que o veja de longe em ocasiões cuidadosamente encenadas. Qualquer improvisação é um perigo, como já se constatou no estádio do Benfica. Seguro (e normal) é o episódio do Centro Cultural de Belém a 30 euros por figurante. No dia em que o país confundir o primeiro-ministro com um ser humano acaba a festa, ou, se quiserem, o 'evento'."
Vasco Pulido Valente, ibidem
A verdade é esta. Mais coisa, menos coisa. E é grave que no PSD ninguém queira agarrar as rédeas de um partido que, historicamente, nunca virou a cara à luta. A maior parte da elite laranja pensa que Sócrates está de pedra e cal antes e depois de 2009. Tudo gente que não sabe o que se passa nas ruas, nas empresas, nas escolas e nas casas. Gente que confunde o green do golfe que joga ao fim de semana com a paisagem que está à volta de milhares e milhares de pessoas. Que de verde não tem nada.
Postais blogosféricos
1. O
Nuno Galopim e o
João Lopes prosseguem, imparáveis, um dos melhores blogues especializados - o
Sound+Vision, dedicado às artes, sobretudo à música (domínio privilegiado do Nuno) e ao cinema (onde o João dá cartas). A partir de hoje na nossa barra lateral.
2. O
Fernando Martins deixou
O Amigo do Povo mas não abandonou a blogosfera: está agora em casa própria.
Aqui. Vale a pena ir lá visitá-lo.
Mais dez motivos para gostar de Portugal (VII)

ALTE.
Dia C

De cinema. E de Cameron Diaz.