Sábado, 30 de Junho de 2007
A cambalhOTA
A propósito da licenciatura de Sócrates correu muita tinta, tanta que até houve quem se apressasse a vaticinar uma queda do Governo, caso essa bola de neve continuasse a rolar. Mas os portugueses são muito complacentes em relação a certos pecadilhos e quando, na sequência desse episódio, se fizeram as primeiras sondagens, verificou-se que a sua popularidade não tinha sido afectada. Afinal, a existirem algumas inverdades quanto ao seu currículo, era lá com ele...
Já o mesmo tipo de raciocínio (tão português), não se aplicou, não se podia aplicar, à Ota. Algumas inverdades – como a de o Governo não ter conhecimento de mais estudos sobre alternativas à Ota – pelos vistos, não caíram nada bem. De Maio para Junho, de acordo com o barómetro DN/TSF, a popularidade de Sócrates caiu 16 pontos e a do seu governo, 7. Desta vez ele não teve perdão.
A vida das coisas

Sim, é um facto que os bens materiais nos podem desfocar das coisas importantes. Há dias recebi o meu carro novo, reluzente cor de prata e às vezes até dou por mim armado em parvo a espreitá-lo à janela. Como uma criança e o seu brinquedo novo, muito desejado. Como o carro é um pouco maior que o meu velhinho Rover (que a minha filhota pequena teve tanta pena de ver partir para mãos estranhas, quem sabe até "infiéis"), ainda não lhe “tirei as medidas”, e vai daí, tem acontecido suar aflito com receio de raspar a reluzente chaparia numa coluna ou parede traiçoeira. E as primeiras pegadas das crianças nas costas dos assentos impecáveis... E eu hoje de coração na boca a estrear a viatura ali para os lados da Alcácer aos solavancos no caminho de cabras com que se acede à casa da minha irmã...
Raios! ...acontece que tenho “saudades” que a omnipresente carripana adquira a necessária "patine" e de caminho a sua importância real...
...
(Que se lixe aquela corrosiva caca de pássaro no
capot!)
Vinte motivos para gostar de Portugal (IV)
Sexta-feira, 29 de Junho de 2007
Saudades do MEC
A notícia da patética exoneração da directora do centro de saúde por causa do cartaz contra o ministro Correia de Campos tem-me trazido à memória uma crónica antiga de Miguel Esteves Cardoso, em que um taxista concluia um discurso contra os políticos com a frase lapidar: "Isto devia ser como na Holanda, que os matam logo à nascença!".
E mais não comento, porque sou utente do Serviço Nacional de Saúde e com a saudinha não se brinca. Por acaso, também sou utente do país e, reparo agora, com "eles" também não se brinca.
Remar contra a maré

Excelente, a colecção que a
Sábado vem lançando em complemento (gratuito) a cada edição da revista. Numa altura em que tanto se criticam as ofertas complementares na imprensa, destinadas a seduzir leitores, eis um exemplo que merece ser elogiado – e partilhado por outras publicações. Fomentar o gosto pela leitura é não só um direito, mas um dever dos jornalistas.
Agradou-me particularmente o exemplar de há duas semanas –
Algumas Distracções, do
Francisco José Viegas. Trata-se de uma recolha de múltiplos textos publicados originalmente nos blogues
Aviz e
A Origem das Espécies. Vou lê-los (e relê-los, em diversos casos) com todo o gosto: há muito que me habituei a admirar a escrita do Francisco e a estar em sintonia com grande parte das opiniões que emite. Esta é, aliás, uma das maiores qualidades dele: expressar opiniões. Atributo tanto mais de enaltecer numa época em que regressam, velozes, os dias da precaução, do comedimento, desse jeitinho tão português de falar sem dizer nada. Começo a ouvir de novo, quase em sussurro, frases que julgava há muito sepultadas que nos incentivam à inacção cívica: “Toma cautela, olha que saber calar é uma virtude... Quem se cala é que chega longe...”
Abro o livro e deparo com estas palavras do Francisco, também apreensivo com este clima de demissão moral:
“Uma das coisas que mais me preocupa hoje, em Portugal, é a tendência para que a opinião individual desapareça diante das chamadas ‘opiniões maioritárias’ – é cada vez mais rara a figura do colunista, do cronista ou do cidadão comum que arrisca a sua opinião sem cuidar das consequências e do desprestígio que uma ‘má opinião’ lhe pode trazer. Alguns, perdem o emprego. Outros, perdem a consideração das maiorias. (...) Perder a consideração das maiorias, que antes podia ser o primeiro degrau no caminho da glória, é hoje uma infelicidade. Que isso ocorra também é uma infelicidade.”Lá teremos alguns, portanto, de persistir em remar contra a maré. Como o Francisco insiste em fazer. É também por isto (sobretudo por isto) que me preparo para ler este livro com todo o prazer.
Do dicionário (2)
Big Brother - alter ego de conhecido político português
Cinco mil
Só para assinalar: já cortámos cinco mil fitas. A número 5001 é esta.
Encontros com Lisboa

Gosto de sair do escritório para "distâncias a pé". Passo a passo na calçada, aproveito para olhar a cidade, as casas, viajar na história escondida nas velhas cantarias, portas e fachadas. Sob o azul brilhante do céu, embalo-me com o movimento das pessoas e do trânsito animado, em circunstancial mas sincera cumplicidade.
Um dia espero voltar para a minha terra. Mas pergunto-me se então sentirei Lisboa assim com este mesmo olhar saudoso de... “exilado”?
,Imagem daqui
Vinte motivos para gostar de Portugal (III)

TAVIRA.
Assim não vão lá
Talvez o Governo devesse olhar
para esta sondagem de hoje e depois analisar - através de
focus groups por exemplo - o peso que têm
recorrentes notícias como esta na queda da sua popularidade. Se a coisa continua neste ritmo, retiro o que escrevi há dias. Bem pode Sócrates suar pelo país mais o seu
Governo Presente. Ainda acaba sem futuro.
É a cultura, estúpidos!

PADMA LAKSHMI, a mais recente "cara metade" de Salman Rushdie (a quarta, se não me falham as contas). Percebe-se agora por que motivo o autor de Versículos Satânicos, ao que rezam as crónicas, anda a escrever cada vez melhor.
Porque Belmiro não é Berardo
Alguém sabe que dia é hoje?
Rhona Mitra
Adeus ó vida malvada
Parto amanhã para um curto período de descanso. É raro conseguir ir de férias,
ao contrário deste senhor aqui (quem conseguir ver isto e não sentir inveja já chegou às portas do nirvana). Mas, antes, ainda vou almoçar ao
Paparrucha para celebrar o aniversário e a aposta ganha pelo diário gratuito
OJE e dar dois abraços ao Álvaro de Mendonça e ao João Bugalho. Ao fim do dia, há que reunir as energias que restarem, após uma loooonga semana, e rumar até ao edifício da Edimpresa e à festa da
Blitz que comemora o seu primeiro ano como revista. Não quero perder a oportunidade de ouvir Júlio Isidro como um dos
djs convidados e a sua selecção de rock português. A vida é bela. Mas cheira-me que é melhor fazer hoje as malas, porque amanhã não acordarei com facilidade.
Quinta-feira, 28 de Junho de 2007
Berardo à CML
João Távora à cabine de som
Rosebud
Queres andar comigo? Perguntou a rapariga entre o ruído dos pratos, as conversas gritadas, o som devolvido amplificado pelo eco dos azulejos.
Fosse capaz de ler nos lábios e conheceria a resposta. Assim, inventei-a. Nada na face de ambos revelou emoção, alegria ou perda. Só consegui - como um velho que discute um qualquer preço recordando o que comprava com uma nota de cem escudos - regressar a esse tempo em que só o homem se propunha, escondendo a dúvida em gestos nervosos camuflados sob a mesa. Vivendo uma ficção cuja beleza habitava essa casa, tão feminina, chamada silêncio. Um tempo não tão antigo como
the time when Lucky Strike meant fine tobacco. Mas igual a ele na distância.
Os tugas (22)

Estação fluvial do Cais do Sodré. Grande fila de gente para comprar bilhete para Cacilhas. A máquina automática, ali ao lado, encontra-se “fora de serviço”. Aguardo enquanto o funcionário do único guichê disponível, de cigarro na boca, vai fazendo trocos com uma lentidão exasperante. Chegada a minha vez, percebo porquê:
- Quando custa o bilhete?
- Setenta e quatro cêntimos.
- Setenta e quatro cêntimos? Não se arranjava um número mais redondo?
- Isso não é comigo...
Indago se vendem bilhetes de ida e volta. O indivíduo olha-me como se lhe tivesse perguntado o paradeiro da Rainha de Sabá. Pelos vistos, ninguém na Transtejo terá pensado alguma vez nestes assuntos tão irrelevantes para facilitar o escoamento de passageiros. Empresa nacionalizada, “nossa”, é mesmo assim...
Chegado a Cacilhas, nova fila. Desta vez junto à paragem de táxis. Dez minutos depois, tudo na mesma: nem um para amostra. Reparo nas pessoas que me antecedem: têm aquela mansidão resignada a que jamais me conseguirei habituar nos portugueses. Ao meu lado direito, uma mulher cospe convictamente as unhas que vai roendo com indescritível minúcia. Há também alguns turistas: talvez achem tudo isto very typical.
- Porque não haverá táxis?
- Ah, é quase hora de almoço. Costumam ir todos comer ao mesmo tempo – elucida-me um sujeito de barba por fazer e pálpebras semicerradas, como se tivesse toda a paciência do mundo.
Continuamos todos à espera. Uns de olhos fitos no rio, outros mirando o infinito, pensando sei lá o quê.
Do lado de lá do Tejo: Lisboa tão perto mas já tão longe. Um outro país dentro do País.
Postais blogosféricos
Talvez especule...
Mas, depois de ler
esta interrogação de Luís Paixão Martins a propósito de Joe Berardo dei por mim a reflectir, coisa que faço pouco e mal ao contrário do Luís. Este protagonismo furacão do empresário não é novo, mas ganhou uma dimensão adicional com a operação financeira no Benfica e a questão do CCB. Antes, na qualidade de accionista quer do BCP quer do BPI (só para dar um exemplo) ele foi o único a colocar questões delicadas em cima da mesa durante a OPA, em particular a relação entre a administração de Fernando Ulrich e os catalães do La Caixa. Agora, juntou-se a João Rendeiro e João Pereira Coutinho num grupo que pretende afastar Jardim Gonçalves eliminando o Conselho de Supervisão do Banco.
Isto para dizer que Joe Berardo afronta tudo e todos: Rui Costa e Ulrich, Jardim Gonçalves e Mega Ferreira. Fá-lo convicto da pequenez do país e seguro de que, pelo dinheiro e informação que acumulou, ninguém surgirá para fazer-lhe frente. E este momento é particularmente propício para Berardo porque, para onde quer que olhe e em qualquer área, o empresário só vê em seu redor pessoas que crê serem mais fracas do que ele.
No fundo, passámos da
Era Belmiro para a
Era Berardo. Com o chumbo da OPA da PT, fechou-se um ciclo que se concluiu com a derrota de um outro empresário que todos tinham em conta como alguém capaz de enfrentar o
status quo. Não foi assim. Agora, a ver vamos quem e quando coloca uma barreira no caminho do iconoclasta e idiossincrático madeirense. Porque, se ninguém o fizer quando a ocasião o justificar, o problema não é esse que coloca Paixão Martins. É a consciência que se formará (que está já a formar-se) de que Berardo representa o verdadeiro poder que é tão somente o do dinheiro. E os outros, sejam quem forem, são apenas desautorizadas e transitórias figuras sem mando.
Tomar duche de roupão
Imperdível, a entrevista de Fernando Negrão à revista Sábado. Quando os jornalistas Jaime Martins Alberto e Maria Henrique Espada lhe perguntam se "quando acorda a primeira coisa que faz é ver-se ao espelho", o candidato do PSD à Câmara de Lisboa responde sem hesitar: "Não, primeiro visto um roupão e tomo duche."
Negrão é mesmo caso único. Não conheço mais ninguém que tome duche de roupão...
Vinte motivos para gostar de Portugal (II)

SINTRA.
Esperar para ver
Entre amigos
- Reparaste na Luísa? Aquela sim, é um avião!
- Só um ceguinho é que não via. Mas olha que ela anda a aterrar no aeroporto do Rodrigo.
- Epá! Isso hoje em dia não interessa nada. O que está a dar é a Portela + 2.
Sintomas da falta de oposição
Algumas figuras acham que liderar a oposição é não dizer mais nada durante semanas a não ser que o Tratado Constitucional europeu deve ser ratificado por referendo. Mesmo que não se saiba ainda que tratado vamos ter e com a presidência portuguesa da União Europeia aí à porta. Os portugueses, como se sabe, vivem e respiram referendos. E há por aí tantas matérias a merecerem a atenção de uma oposição que se preze:
Li mas não percebi
Afinal, Saldanha Sanches chumbou porquê?
Se realmente foi um «chumbo inédito» e dando como adquiridas as inevitáveis repercussões mediáticas em tempo de campanha, não ficava mal ao júri explicar as suas razões.
Período de carência

Que Blair se vá embora dialogar com as paredes no Médio-Oriente é algo que não me aquece nem arrefece. Simpatizo bem mais com Gordon Brown, tão britanicamente eurocéptico que até faz rir. Mas que o
Dr. House abandone hoje os ecrãs até Outubro que vem, isso é que me deixa verdadeiramente órfão de
role-models.
Tapete voador
Eu sei que se procura muita coisa… Infelizmente, até pessoas. Mas desconhecia que se procurassem tapeçarias. Um anúncio colocado na página 23 do jornal Público, misturado entre notícias do Mundo, ditava o seguinte há uns dias:
Grande Tapeçaria de Portalegre Desaparecida
Autor – Figueiredo Sobral, 1970
Procura-se Tapeçaria portuguesa da autoria de Figueiredo Sobral com dimensões de 7 metros de comprimento por 2 metros de altura. Agradecem-se informações conducentes à sua localização para o nº 1/2623 deste jornal.
Leitura prioritária

A partir da próxima quinta-feira, 5 de Julho, quando este livro for lançado em Lisboa, vamos ter o prazer de reencontrar a escrita de
Pedro Rolo Duarte. A não perder.
Quarta-feira, 27 de Junho de 2007
Se me permitem o conselho
Por falar em siglas (2)
EPUL - Empresa Portuguesa (não, desculpem!) Empresa Pública de Águas (perdão!) Empresa Pública de Urbanização de... Setúbal (façam favor de desculpar!) Empresa Pública de Urbanização de Lisboa. Otta!! (perdão) Uffa!!
Um pedido
Reparei que nos visitam a partir da Áustria: Dado que vou passar em breve alguns dias de férias em Budapeste, gostava de recuperar o contacto de uma amiga que vive em Viena. Chama-se Annete Aust, é arquitecta e pintora. Enviou-me há um par de anos um amável convite para a sua exposição mas não pude comparecer dada a distância. Obrigado. Ela é também muito amável e - se alguém a encontrar aí em Viena - só fica a ganhar se lhe der uns beijos por mim.
Por falar em siglas
CML quer dizer Câmara Municipal de Lisboa.
Meninas e moças
- Boa tarde, é possível falar com X?
- Ele não está, isto é o escritório.
- Tem então outro telefone que me possa facultar?
- Não. Eu sou a
moça das limpezas. Só se ligar amanhã e falar com a
moça do escritório.
- Obrigada, ligo então amanhã.
Leituras de Verão

Em pleno período de férias até me roía a consciência se não divulgasse, em tempo útil, uma informação que, quem sabe, até pode ter algum fundamento. Recebi-a há poucos dias, por email. Ora leiam:
“Cientistas descobriram que livros de aventura, sexo e acção levam o corpo a produzir mais adrenalina, substância que reduz o apetite e queima calorias. A pesquisa, encomendada pela cadeia de livrarias britânica Borders, comparou as calorias que se despendem ao ler diferentes tipos de livros. O resultado foi uma lista das obras que mais ajudam a emagrecer. O topo da lista é ocupado pelo thriller Polo, da escritora britânica Jilly Cooper. A leitura completa das quase 800 páginas de sexo e escândalos gasta o equivalente a 1,1 mil calorias”. E mais não digo, porque não estou para fazer publicidade gratuita a obras de qualidade duvidosa. Enfim, mas pelo sim, pelo não, tomem em conta esta informação quando escolherem os livros que vão levar para férias!
Vinte motivos para gostar de Portugal (I)

GUIMARÃES.
Farewell, Mr. Blair

Os britânicos ainda hão-de ter saudades deste senhor que hoje abandona Downing Street após dez anos de mandato: juntamente com Margaret Thatcher, foi o melhor chefe do Governo londrino desde o pós-guerra. E um dos grandes dirigentes da Europa contemporânea, tão pobre em talentos políticos.
Tertúlia literária (200)
- Luandino?
- Não. Sou lisboeta.
Coisas para fazermos antes de morrer
Alma gémea, procura-se

Anda para aí um spam inovador. Quero pensar que é spam e não alguma nossa leitora anglo-saxónica que, lendo os posts que escrevo, avalia os meus dislates de natureza mais íntima como desespero. A mensagem que recebi é diferente porque a senhora sua autora procura um relacionamento romântico e não gaba os atributos físicos com que a Natureza a dotou, mas antes a bondade do seu coração: «I am a nice lady with a big and tender heart», diz ela sem receio. «I am looking for my prince to give him joy and happiness and to share my life with. I think you can be the one I am looking for. I am attractive and kind, joyful and open-minded».
Por alguma razão e na infinitude das suas boas intenções, a autora da missiva julga que a vontade de partilhar uma vida inteira com a mesma mulher é o grande desejo de um homem. Pobre iludida. Estou a ponderar enviar-lhe alguns conselhos de amigo, ai Deus e u é. Ou então o endereço de uns príncipes encantados que eu cá sei...