Segunda-feira, 30 de Abril de 2007
Lá vamos cantando e rindo...
O nosso zeloso regime republicano, (de Arriaga, Teófilo, Cabeçadas, Salazar, Tomaz, Gomes, Soares e tantos outros), que tão exuberantemente nos vem governando há quase 98 anos, prepara, pela cabeça das suas
luminárias oficiais, umas opíparas e masturbatórias
celebrações centenárias. O regime implantado pela força da violência, e
arreigado à custa da mentira e da ingenuidade popular pretende dentro em breve promover-se em opulenta festa nacional. À conta dos meus impostos. Para isso, não serão poupados esforços na propaganda ou meios para a maquilhagem da história. Antevêem-se para esta orgia regimental a consumação de novas e prometidas conquistas populares, como uma lei para o
casamento entre homossexuais e quem sabe que outros brindes mais.
Link indisponível
Parece que os "apoiantes" de
Carmona Rodrigues, que não estou bem a ver quem possam ser, a não ser uma meia dúzia de dependentes na CML, lançaram um
blogue. A ideia será dar algum conforto ao autarca, fustigado pela oposição de esquerda e de direita, bem como pela comunicação social nos últimos dias.
Já se passaram vários dias desde que rebentou esta polémica e, a cada dia que passa, Carmona é menos presidente da CML. Só não vê quem não quer. O facto de não ter falado imediatamente, a ausência na sede do PSD numa reunião onde deveria ter ido dar explicações a
Marques Mendes, a fuga para Inglaterra para alegadamente ir ver exposições de motos antigas e o adiamento da audiência no DIAP só aumentam o problema.
Por outro lado, a situação no PSD não pode ser pior. Marques Mendes não pode arrastar mais a situação da CML e o facto de não ter conseguido, durante vários dias, falar com Carmona não abona nada a seu favor. É suposto o autarca dever respeito ao líder do PSD. Sem ele, não era presidente de câmara, sem as bases de Lisboa e o apoio do partido não ia a lado nenhum. Mas está visto que Carmona e Mendes já não
linkam bem, para usar uma expressão típica da blogosfera.
A ler
1. "
São rosas, senhores", de
José.
2. "
CGD = Novo IPE", de
Pedro Marques Lopes.
3. "
Eleições francesas", do
Francisco José Viegas.
4. "
A importância das motas", da
Susana Barros.
5. "
Lembrar a diferença", de
Francisco Mendes da Silva.
6. "
Aquilino Ribeiro - Um regicida no Panteão Nacional", do
Mendo Castro Henriques.
Pausa publicitária
Se gosta de literatura, se é um leitor paciente, tem coisas para ler
aqui, de vários autores.
E a Monsanto, chega?
«Videovigilância não chega às matas algarvias». Título do Público.
É só fazer as contas
Vinte anos de espera, uma inauguração um ano e cinco meses depois do previsto, mais 72 milhões do que os 320 previamente orçamentados, um Primeiro-Ministro que celebra o acontecimento que é a abertura de quatro-quilómetros-quatro de rede do Metro Sul do Tejo e 264 anomalias detectadas pela Câmara do Seixal apenas nesse percurso (Fonte: Público). Para além das infra-estruturas entretanto saqueadas em tudo o que se possa revender na praça. A viagem inaugural vai durar 11 minutos. É Portugal no seu melhor. Venham daí o TGV e a OTA.
O maçador de touros
Ontem o melhor sketch dos Gato Fedorento foi este. Para quem, como eu, reparte o seu convívio entre alentejanos e ribatejanos, vai dar com certeza pano para muita conversa à mesa.
A propósito, ontem e à hora em que parece que houve para aí um jogo de futebol, foi maravilhoso regressar vindo de Montemor-o-Novo como se tivesse entrado na máquina do tempo e voltado aos anos 70. Meia dúzia de carritos na ponte e nem um camião na estrada. Bem haja o derby e que venha outro depressa.
Música do meu tempo (10)
Umbiguismo

A rubrica «Gente» do
Expresso afirma que foi «ao baú e desencantou uma entrevista» dada por José Sócrates ao
Dna em Setembro de 2000, para retirar de lá uma citação. A rubrica «Gente» omite que essa citação foi retirada do livro agora lançado e da autoria de João Pombeiro, «Pela Boca Morre o Peixe», que o Francisco já citou
há vários dias aqui e nós depois disso também, para além de diversos outros blogues. Que o
Expresso na sua habitual sobranceria ignore os blogues, é algo que não espanta. Mas que não cite o livro de onde retirou a citação, o qual foi distribuído a todas as redacções, já me parece umbiguismo a mais e desprezo pelo trabalho do autor. Ou então, a «Gente» foi mesmo ao baú. Ele, às vezes, há mesmo coincidências...
Domingo, 29 de Abril de 2007
No coração das trevas

Uma excelente reportagem assinada pelo jornalista britânico Alex Perry, publicada há dias na revista
Time, revela bem o inferno em que se transformou o
Zimbábue, que nos anos 80 tinha a segunda mais próspera economia da África Austral – logo após a imbatível África do Sul. Sob o mando despótico de
Robert Mugabe, o país afundou-se, recuando a padrões de vida que remontam ao início da década de 50, quando ainda estava sob o domínio colonial. O desemprego atinge 80% da população activa e a inflação subiu a 1.792,9% em Fevereiro, pensando-se que no fim do ano atinja níveis ainda mais astronómicos, rondando os 3700%.
“Uma perda da moeda com esta magnitude significa, por exemplo, que na prática um só tijolo custa hoje mais do que uma casa com piscina em 1990”, escreve Perry, que foi detido logo no primeiro dia em que chegou à antiga Rodésia e relata com minúcia a sua amarga experiência prisional neste país transformado num imenso cárcere que perdeu cerca de dois milhões de habitantes nos últimos anos e onde grande parte dos que ainda não partiram são forçado a caçar animais selvagens para sobreviverem.
Segundo dados da Organização Mundial de Saúde, a esperança de vida no Zimbábue é de 34 anos para as mulheres e 37 para os homens – a mais baixa do planeta. E no entanto o ditador, de 83 anos, mantém-se agarrado ao poder, procurando perpetuar o seu regime de terror que não hesita em silenciar todas as vozes discordantes – incluindo políticos, sindicalistas, clérigos e jornalistas.
Nada inédito no continente africano, desde sempre um fértil viveiro de tiranias. Admira-me apenas o silêncio cúmplice de tantos intelectuais comprometidos com o progresso, que nem uma palavra de indignação exprimem contra a ditadura de Mugabe. Ou talvez nem deva admirar-me: conheço demasiado bem os manuais de indignação selectiva deste gente, que fala alto e se cala, alternadamente, consoante o quadrante geográfico ou a costela ideológica que estiverem em causa.
Conversão à liberdade
A propósito da leitura do livro dos
Actos dos Apóstolos em baixo: o cristão convertido é existencialmente insatisfeito, tem sede de uma verdade maior. Não é feliz por ter, antes por ser. É feliz numa paz interior, de quem é profundamente livre da alienação, porque sabe ao que vem, e a quem serve. Porque aprende a amar. Porque aprende a confiar, porque aprende a entregar-se.
O cristão convertido assume o compromisso de viver em Cristo. Na prossecução da felicidade, no cumprimento desse amor, e porque não é egoísta, procura espalhar a preciosa Palavra redentora. Com humildade aos acomodados e distraídos. Com valentia, não temendo os poderosos do mundo, apregoa a Boa Nova bem alto aos novos fariseus "os de maior categoria". Despreza a sua mundana glória fácil, sendo piedoso e complacente com as modernas “
Senhoras devotas”. Porque o cristão convertido acredita no livre arbítrio de toda a criatura de Deus. Acredita que enquanto existir desejo de verdade, enquanto houver um excluído do opulento banquete dos homens, aí encontrará terra fértil para a palavra de Deus. Aí se encontrará Cristo vivo, a felicidade verdadeira e a esperança na ressurreição. Mesmo que ainda tenha de voltar à clandestinidade das catacumbas, e ser humilhado no circo da soberba e da arrogância.
Eu, católico confesso, tenho esperança numa profunda conversão.
Não há rapazes maus

Rui Pena Pires, com uma ingenuidade tocante, resume a ida de Joaquim Pina Moura para a TVI a uma
"escolha empresarial". Nada de pressões políticas, pois. Nada de interferência do poder socialista numa televisão privada, portanto.
O Canhoto, está visto, vive num mundo de santos e heróis, onde não há rapazes maus. Fica o registo, para memória futura.
Domingo
Livro dos Actos dos Apóstolos 13,14.43-52.
Quanto àqueles, deixaram Perga e, caminhando sempre, chegaram a Antioquia da Pisídia. A um sábado, entraram na sinagoga e sentaram-se.
Depois da reunião, muitos judeus e prosélitos piedosos seguiam Paulo e Barnabé, os quais, nas suas conversas com eles, os exortavam a perseverar na graça de Deus.
No sábado seguinte, quase toda a cidade se reuniu para ouvir a palavra do Senhor. A presença da multidão encheu os judeus de inveja, e responderam com blasfémias ao que Paulo dizia.
Então, desassombradamente, Paulo e Barnabé afirmaram: «Era primeiramente a vós que a palavra de Deus devia ser anunciada. Visto que a repelis e vós próprios vos julgais indignos da vida eterna, voltamo-nos para os gentios, pois assim nos ordenou o Senhor: Estabeleci-te como luz dos povos, para levares a salvação até aos confins da Terra.»
Ao ouvirem isto, os gentios encheram-se de alegria e glorificavam a palavra do Senhor; e todos os que estavam destinados à vida eterna abraçaram a fé.
Assim, a palavra do Senhor divulgava-se por toda aquela região.
Mas os judeus incitaram as senhoras devotas mais distintas e os de maior categoria da cidade, desencadeando uma perseguição contra Paulo e Barnabé, e expulsaram-nos do seu território.
Estes, sacudindo contra eles o pó dos pés, foram para Icónio.
Quanto aos discípulos, estavam cheios de alegria e do Espírito Santo.
Da Bíblia sagrada
Tertúlia literária (175)
- Gosto mais da Margarida Rebelo Pinto do que da Rita Ferro. Tem melhor pena.
- Também gosto mais dela. Tem melhores pernas.
Do efémero ao eterno
Eduardo Pitta vai lançar esta semana, com chancela da Quasi, uma recolha de textos publicados no seu excelente blogue,
Da Literatura. Postas que passam do efémero ao eterno, sob um título muitíssimo inspirado
: Intriga em Família. Vou (re)ler.
Acordei optimista
Sarkozy vai ganhar, Cameron vai ganhar, Rajoy vai ganhar. Ou muito me engano ou a Europa vai mudar bastante nos próximos anos. E por cá? Bem, por cá, por enquanto, Alberto João Jardim vai reforçar a maioria absoluta o que já não é nada mau. E o Sporting vai ganhar logo à noite.
Sábado, 28 de Abril de 2007
Hoje apetece-me

Ter
esta menina a cantar só para mim. Voulez-vous,
Charlotte?
Blogues em revista
31 da Armada: "Antes do 25 de Abril, os comunistas iam para a prisa. Agora, vão para a Prisa." (Francisco Mendes da Silva)
O Arrastão: "Com a ida de Pina Moura para a Media Capital é o governo que quer controlar a TVI ou são os espanhóis que querem controlar o governo?" (Daniel Oliveira)Hoje Há Conquilhas: "Portugal especializou-se na exportação de ex-primeiros-ministros e ex-Presidentes da República para o desempenho de cargos em instituições internacionais. (...) O problema é que estas exportações, ao contrário do concentrado de tomate e das conservas de atum, não ajudam a equilibrar a balança de pagamentos." (Tomás Vasques)
Mar Salgado: "A única coisa relevante no episódio do Chiado - indivíduos de cara tapada a gritar morte ao capitalismo e a praticar simples e inofensivo vandalismo - é a forma como os media se referiram ao assunto. Nem uma vez a expressão 'manifestantes de extrema-esquerda' foi utilizada." (Filipe Nunes Vicente)Escola de Lavores: "Coitadinhos dos anarquistas. Só queriam fazer uma manifestação 'antifascista, anti-autoritária e anticapitalista'. O sistema é tão mau. A democracia é tão injusta que obrigou a primeira fila a andar tapada. Tão corajosos que nem querem dar a cara. Mas os papás pagam a advogada e os médicos, está bem?" (Susana Barros)
A Terceira Noite: "Gosto, gosto muito, dos blogues que me surpreendem com uma fala que nada tem a ver com a minha, com nomes que nada me dizem. Pensar como jamais poderei pensar, escrever como não sei escrever nem conheço quem saiba. E ler pelo prazer simples de ler." (Rui Bebiano) Estado Civil: "Um dos mais espantosos livros sobre a paixão foi escrito por Emily Bronte, que morreu com 31 anos, vivia no cu de Judas e nunca tocou num homem na sua vida." (Pedro Mexia)
Boca de Incêndio:
"Quando hoje acordei estava um barco veleiro a espreitar pela janela." (António Godinho Gil)
Hollywood em Lisboa

Pensava eu que os cineastas tinham uma vida difícil em Portugal, sempre à míngua dos subsídios estatais que tanto reclamam para produzirem as suas incompreendidas (e muitas vezes também incompreensíveis) obras-primas. António-Pedro Vasconcelos, autor de
Perdido por Cem, é um dos que mais se queixam de estar “anos sem filmar”, ao ponto de receber uma avença no canal público de televisão como arauto do Benfica para poder ganhar a vida.
Extraordinário! Dividido entre o amor aos puros e os “jantares rabelaisianos”, o nosso Orson Welles chega ao fim do mês sem graveto para ligar a câmara. Percebo-o bem: a vida é uma curta-metragem, há que curti-la. Felizmente o charuto à Hitchcock e à John Ford ajuda-o “a não tomar decisões precipitadas”. Fazer filmes, por exemplo. Defender Luís Filipe Vieira e Fernando Santos na pantalha custa um pouco menos do que rodar um filme. E, apesar de tudo, Nuno Gomes falha menos golos do que alguns actores falham “deixas” no plateau. Uma grande maçada.
E por falar nisto: já marchava uma massada de cherne com lagostins, ou um fondue de lagosta verdadeiramente “rabelaisiano”, regado com uma garrafa de Veuve Cliquot, geladinha comme il faut. Depois, um conhaque com o café. Nada de decisões precipitadas: o cinema pode esperar.
Postais blogosféricos
1. É um novo blogue, tem um elenco de luxo e promete dar que falar. Vamos estar muito atentos à
Geração de 60.
2. Espreitei
este blogue do
Daniel Marques e fiquei com vontade de voltar a fazer uma visita.
3. José Carlos Matias abriu
O Sínico. É bom para matar saudades do Oriente.
Tendências, sim. Fretes, não

Há uns tempos, quando ficou claro que a Prisa queria tomar conta da Media Capital, lembro-me de comentar com amigos que achava bem, porque ia finalmente haver uma clarificação sobre as tendências dos órgãos de Comunicação Social em Portugal, tal como acontece em Espanha, mas também em democracias mais maduras como a Inglaterra (por exemplo, Guardian, pró-trabalhista, Times, pró-conservador) ou França (Monde, socialista, Figaro, gaulista), e íamos deixar de ter uma falsa independência, que, aliás, só beneficia a esquerda, já que a grande maioria dos jornalistas identifica-se com ela. É verdade que na Espanha de hoje se exagera, confundindo tendência com jornalismo de fretes. Espero que por cá seja diferente e que a direita também crie, tal como aconteceu noutros países, os seus jornais de tendência. Acho até que essa clarificação trará mais leitores, tanto aos jornais mais à esquerda como aos mais à direita. Se houver espaço para jornais verdadeiramente independentes, tanto melhor. O mercado é livre.
Curiosamente, o único jornal que em Portugal se assumiu como de tendência tinha o nome de O Independente, mas viu-se que era apenas um projecto conjuntural de afirmação de uma ala do CDS contra o PSD de Cavaco SIlva. Antes, também o Semanário foi um projecto conjuntural da direita para derrubar o Bloco Central. Atingidos os respectivos objectivos, estes projectos morreram. Falta agora a direita pensar a sua intervenção na Comunicação Social a longo prazo, mas não caindo na tentação do jornalismo de fretes e do imediatismo. Pensar que Pina Moura e os socialistas, portugueses ou espanhóis, vão arrepiar caminho é perda de tempo. Esperar que Cavaco exerça o seu poder moderador perante abusos da maioria, já se viu que também é perda de tempo. E já nada causa escândalo à "opinião pública" portuguesa, que nem sequer está historicamente habituada a independências na imprensa. A Comunicação Social é, cada vez mais, com o advento das televisões privadas, o principal campo de batalha político.
Referendo à vista

Penso que está definitivamente esclarecida a questão do referendo sobre o tratado europeu: ele vai mesmo realizar-se. Essa é a posição dos dois maiores partidos e o que diz o primeiro-ministro não deixa dúvidas.
Haverá certamente argumentos sobre a necessidade de tornar o sistema mais democrático, de consultar os cidadãos, entre outras sentenças sobre o défice democrático europeu, a cidadania, a democracia e etc.
No entanto, a realização de um referendo europeu em Portugal será quase surrealista.
O País terá a presidência da UE no segundo semestre do ano. Até lá, na cimeira de Junho, sob presidência alemã, haverá uma decisão sobre o que fazer ao tratado. Há duas hipóteses nos extremos (abandonar o texto ou não mudar uma linha) e a solução escolhida estará algures na zona intermédia. Penso que acabaremos por estar muito perto de não mudar uma linha. Mais de dois terços dos países não aceitam alterações no coração do tratado, sobre as regras institucionais. As dúvidas que persistem dizem respeito à manutenção da parte económica e social, que pode até ser reforçada, sobretudo se Ségolène Royal ganhar em França. Outra incógnita é sobre o eventual aparecimento de novas políticas (reforço dos artigos sobre ambiente, política comum de energia).
O texto vai mudar de nome e deixará de ser Tratado Constitucional. Desaparecerão alguns artigos polémicos (todos os que têm carácter de Constituição). Enfim, pode haver uma simplificação do texto rejeitado em França e Holanda, mas as alterações serão relativamente reduzidas, pois isso facilitará a sua negociação a tempo de se cumprir o calendário de 2009.
Esta será a decisão alemã: não mexer no essencial, o que parece garantido com qualquer dos dois candidatos à presidência francesa.
A partir deste ponto, entra Portugal. No semestre português, deverá ocorrer uma Conferência Intergovernamental para negociar e decidir as alterações. Se tudo correr bem, o novo tratado estará pronto para ser ratificado em 2008 nos parlamentos dos países que já ratificaram o anterior (por isso se retiram os artigos polémicos e de carácter constitucional). Como muda de nome, o tratado até poderá chamar-se Tratado de Lisboa, que será designação mais inócua.
Ora, Portugal realiza um referendo, pelo que provavelmente nos vão perguntar se queremos ratificar o Tratado de Lisboa, que a presidência portuguesa conseguiu fazer aprovar, com tanto esforço. E os referendos normais têm o “sim” e têm o “não”.
Os partidos principais vão dizer que sim, senhor. As franjas políticas dirão que não, senhor. E, claro, o País estará proibido de responder “não”, porque essa resposta dará origem a uma crise europeia e ao absurdo de vermos o Estado que negociou a recta final do tratado a rejeitar esse mesmo tratado. E se toda a gente ratificasse, menos nós?
O partido dos valores

A semana que passou foi muito interessante em termos políticos e apetece-me comentar alguns casos. Para isto não ficar muito longo, vou dividir os textos, começando pela eleição de Paulo Portas. Em primeiro lugar, devo dizer que acho que a ambição num político (desde que não seja a famosa ambição desmedida) é uma qualidade e não um defeito. Depois, por muito que não goste do estilo de Portas, e eu não gosto, tenho que reconhecer que ele se portou muito bem na coligação com o PSD no Governo (o partido em que milito, para quem ainda não saiba) e ganhou pontos na minha consideração. Portanto, não me causa nenhuma irritação ou preocupação especial ele ter sido eleito para líder do CDS e já sei que vai ter a benevolência dos socialistas e dos jornalistas e comentadores que lhes são próximos (como se viu ontem no Parlamento), sempre que não estiver coligado com o PSD e pareça servir para dividir a direita.
Para mim, o dado mais interessante da eleição de Portas é mostrar como estão as pessoas em Portugal. A verdade é que, ao escolherem o dirigente que sabiam que tinha andado a intrigar nos últimos dois anos contra a direcção legitimamente eleita por quatro de Ribeiro e Castro, os militantes do CDS mostraram, de forma esmagadora, que (ao contrário do que passam a vida a proclamar) se estão a borrifar para os "valores", preferindo um líder que, na sua opinião, terá mais destaque mediático e assim mais fácil acesso ao poder. Para quem tanto critica o "pragmatismo" do PSD, onde apesar de tudo os confrontos são mais às claras (veja-se, no actual episódio, Mendes, Menezes e Santana), não está nada mau.
O teste final
1. A forma como irá lidar com a questão da Câmara Municipal de Lisboa é o derradeiro teste para a liderança de Marques Mendes. Concordo com Marcelo Rebelo de Sousa quando ele disse há meses que Lisboa era provavelmente o maior e o mais duradouro dos problemas que Mendes tinha para enfrentar. É verdade.
Para já, aquilo a que estamos a assistir é uma total ausência de discurso, de tacto de de sensibilidade política para lidar com o envolvimento de Carmona Rodrigues no caso Bragaparques. Mendes devia ter agido logo. As informações que dão conta da vontade do PSD em não realizar eleições na capital são um sinal ainda mais preocupante. A partir deste momento, é simplesmente impossível que não haja eleições em Lisboa. Não é só Carmona que está ausente, algures em parte incerta, é Fontão de Carvalho com o mandato suspenso, é Gabriela Seara com o mandato suspenso, é Maria José Nogueira Pinto que já não está lá, é aquele candidato do PS que se pirou para o Parlamento, farto das reuniões na CML até altas horas.
Marina Ferreira, por mais que o núcleo duro de Mendes queira, não pode ser presidente da CML. Não é a questão de ninguém saber quem ela é, a não ser parte da distrital de Lisboa do PSD. É a capital que não votou nela. Nem ontem, nem nunca. Que se saiba, a senhora só foi candidata por duas vezes em secções locais do PSD e perdeu das duas vezes. Não pode estar à frente da CML. Não tem legitimidade democrática e se Marques Mendes for por aí estará a dar a machadada final na sua liderança do partido.
2. A haver eleições em Lisboa, quais serão os candidatos do PSD? Dizem-me que Mendes terá sondagens com testes a vários nomes e que o único capaz de obter um bom resultado, segundo o estudo, é o de Manuela Ferreira Leite. Que não será candidata. Portanto, quem resta? Poucos. Para mim, a única solução e a mais óbvia será Paula Teixeira da Cruz, uma mulher inteligente e com garra, capaz de disputar o palco a António José Seguro, João Soares ou Mega Ferreira. Mas não acredito que esteja interessada. O próprio Mendes não poderá ser candidato, pois daqui a dois anos, na sua óptica, será candidato a primeiro-ministro. Mesmo que fosse, o resultado seria um desastre. Pedro Passos Coelho? Cortou com Mendes e, segundo se diz, não quer ter nada a ver com a actual solução. Fernando Seara? Não me parece que seja homem para deixar Sintra e entrar numa luta imprevisível por Lisboa, mas logo se verá. António Capucho? Um homem sério, mas também não irá trocar o certo pelo incerto.
Ou seja, Mendes terá a vida muito complicada nos dois casos. Quer decida ficar com Marina Ferreira, quer não tenha outra solução senão as eleições, porque não irá conseguir arranjar um bom candidato.
Sexta-feira, 27 de Abril de 2007
Por me ter feito saltar a tampa
Estava aqui um texto que retirei depois de colocado. Vou voltar a publicá-lo amanhã, para que a bílis não me tolha o raciocínio.
Tem a ver com isto e posso adiantar que não é um elogio.
Adenda: De facto, depois de ser obrigado a ouvir ontem Luís Delgado no «Expresso da Meia Noite» e de uma noite bem dormida, concluo que não vale a pena dar importância áquilo que não a tem. O post de Pedro Marques Lopes é só mais um de vários arrazoados de lugares comuns que está na moda escrever sobre Marques Mendes. Ignora o seu papel na privatização do sector da comunicação social e fala na «especificidade dos media» como se o autor conhecesse cada um deles muito melhor e soubesse onde fica, na TVI, a máquina do café. Os comentadores de trazer por casa preferirão sempre elogiar Paulo Portas a Marques Mendes, o espectáculo à substância, o suposto «carisma» ao conteúdo e capacidade política, as quezílias partidárias internas ao esforço desenvolvido e às vitórias alcançadas. É deixá-los estar e deixar andar. Além disso, não gosto de falar em causa própria. Por vezes, no entanto, a pressão na panela torna-se difícil de suportar.
Notas sobre o debate parlamentar (I)

1. Marques Mendes passou os últimos dias a bradar contra José Sócrates nas questões da Universidade Independente e da ida de Pina Moura para a TVI. Na hora da verdade, no debate mensal desta manhã no Parlamento, o líder do PSD meteu a viola no saco. Sobre a Independente, nem um sussurro. Sobre a TVI, só falou depois de Sócrates o ter desafiado para o efeito. Saiu mal no retrato.
2. O primeiro-ministro esteve bem neste regresso ao Parlamento após ter andado semanas acossado na questão da sua formação académica. Jogou ao ataque, falou com desassombro, confirmou que é um "animal feroz" na arena parlamentar. Era até desnecessária aquela sessãozinha de aplausos em pé com que a bancada socialista o brindou após a intervenção inicial. Bem fez Manuel Alegre, que nesse momento se manteve fora do plenário. Apoio político é uma coisa, fazer vénias ao chefe é outra.
3. Mendes estava nervoso. Percebe-se porquê: o regresso de Paulo Portas à primeira linha do debate parlamentar, anunciado em sucessivos títulos da imprensa, levou o líder laranja a acentuar o tom agressivo para marcar terreno. Disparou contra Sócrates um arsenal de qualificativos desabonatórios - de prepotente a caprichoso, de arrogante a insensível. Não havia necessidade: afinal Portas foi muito mais tolerante para o PS do que os sociais-democratas receavam. Na sua última prédica dominical, Marcelo Rebelo de Sousa já tinha avisado que tudo se passaria assim...
Notas sobre o debate parlamentar (II)
4. Não há que enganar: o novo CDS é a oposição de que este Governo há muito estava à espera. Sócrates e Portas trocaram amabilidades sem rodeios. O sucessor de Ribeiro e Castro desafiou o primeiro-ministro a comparecer mais vezes no Parlamento: Sócrates acedeu de imediato, demarcando o CDS das "insinuações" e "ataques pessoais" que lhe têm sido dirigidos pelo PSD.
5. Por uma vez, a esquerda parlamentar cedeu terreno à direita. Jerónimo de Sousa e Francisco Louçã estiveram apagados neste debate. Foram brandos nas críticas, deixaram a Marques Mendes o monopólio das frases contundentes. E assistiram calados quando o líder laranja se insurgiu contra a ida de Pina Moura para a TVI, a seu ver "uma vergonha, um escândalo, uma promiscuidade". Sócrates retorquiu-lhe: "Em matéria de controlo dos media públicos, o PSD não pode dar lições de moral." As bancadas do PCP e do Bloco de Esquerda nada disseram sobre a nova administração da TVI. Sobre a Independente, também nem uma palavra.
6. Santana Lopes nem se deu ao incómodo de bater palmas a Marques Mendes para (a)parecer bem na fotografia.
7. O debate acabou, três horas depois, com apenas 13 deputados sociais-democratas na sala das sessões. Pormenor elucidativo sobre a qualidade da oposição que temos...
Momentos Kodak (48)

Que a história se repita! De preferência sem lances polémicos...
(Maio de 2006)
Fotografia:
Rodrigo Cabrita
Firme e hirto
Hoje, durante o debate mensal, Paulo Portas disse a José Sócrates que tinha voltado para lhe fazer uma oposição "firmíssima". Sócrates respondeu-lhe que se fosse só firme compreendia, agora "firmíssima" denotava alguma insegurança.
De facto, e à primeira vista, o regresso de Portas não correu às mil maravilhas. Apareceu no debate mensal sem ideias (a segunda ronda foi até ligeiramente patética) e a achar-se o melhor condutor do mundo. Da soberba sobrou a ideia de passar os debates mensais a meia hora por semana. Sócrates, esperto que nem um carapau, aceitou logo - mesmo dando de barato que já tinha concordado com um modelo semelhante ao actual mas mais leve no projecto de reforma do Parlamento do seu potencial sucessor, António José Seguro.
O primeiro-ministro não quis acreditar na esmola. Portas voltou manso como um cão amestrado. Marcelo Rebelo de Sousa e Manuela Ferreira Leite tinham razão: até podíamos ter a ilusão de pensar que Portas voltaria para complicar a vida a Sócrates e, por arrasto, a Marques Mendes. Afinal veio mesmo para ser o seguro de vida de Sócrates para 2009. Se falhar a maioria absoluta, há sempre ali um partido à disposição para aprovar uns orçamentos, deixar passar umas propostas de lei e, no limite, fazer um acordo de incidência parlamentar, aceitando uns lugarejos no melhor que o Estado tiver para oferecer. A nova embalagem de Portas tem mesmo sabor a queijo...
Uma questão de fundos
Carlos Albino desafia Vital Moreira. Um duelo (ao sol) deveras interessante e para ir seguindo...
Interregno tablóide

Enquanto os meus camaradas que realmente têm algo de importante a dizer sobre o país não se decidem a escrever, faço aqui um intervalo a propósito do
mail de uma amiga que acabei de receber, comunicando-me o fim do seu romance com um príncipe indiano e a muito interessante experiência que ambos tiveram com a
ayahuasca. Conheci a Emily há três anos - tinha ela 21 acho eu por razões legais que me convêm - no Largo Camões, em Cascais, onde cantava o seu último álbum «Domination». Isto à noite. Durante o dia exibia o seu corpo nu pintado de verde em jeito de mulher estátua. Após a primeira hora de conversa, convidei-a para ficar em minha casa porque achei que não fazia sentido estar acampada em frente à igreja paroquial (nem mesmo eu desejo tal escândalo na vida do Padre Raúl). Fiquei a saber que a Emily fazia o curso de estudos orientais em Londres,
aos 18 vivera 6 meses na Indonésia onde aprendera a língua, surgira
nos escaparates dos jornais ao acorrentar-se - também nua e vestida de verde - ao portão de um jardim em vias de se tornar parque de estacionamento na cidade de Winchester e, por prazer que não por necessidade, gostava de fazer
table dancing num bar de
strip londrino. Entender a Emily é entender a globalização. Acreditem no que vos digo.
Nas colunas
Curiosity killed the cat

Quem vê caras, não vê saldos de multibanco.
Foi isso que pude comprovar com o talãozinho que aquele cavalheiro deixou descuidadamente na máquina após ter levantado... dez euros.
Garanto que nunca tinha visto um talão com tantos números. Antes de chamar o senhor, não consegui resistir. Duas Avé Marias e três Pais Nossos.
Rivalidades

Gostar de futebol a sério é viver a vertigem dum
derby. É assumir uma apaixonada rivalidade. É agigantar as expectativas e atirar os foguetes todos, mesmo antes da festa. Desdenhar os rivais, arranjar lenha para nos queimar. É a desonestidade intelectual com antecipado perdão. É um jogo perigoso para uma eufórica glória... ou apenas uma efémera desilusão. Uma amável e salutar criancice.
33 anos depois
É bom saber que os jovens de hoje continuam a saber fazer um cocktail Molotov. E ainda dizem que é a geração dos shots, tsc, tsc.
Vou deixar de ler notícias
É que se um homem começa a ler tudo o que se publica, é um passo até desatar a bater mal e a ver causas e efeitos em todo o lado, qual Mel Gibson no «Teoria da Conspiração». Por exemplo isto:
«O primeiro-ministro, José Sócrates, anunciou hoje, no Parlamento, que os planos municipais de ordenamento do território vão deixar de ser submetidos a ratificação do Conselho de Ministros». No Diário Digital.
«Investimento em resorts deverá chegar aos 13.500 milhões de euros até 2017. 61 projectos previstos para a próxima década». No Público Imobiliário.
Estão a ver, ou não?
A escassa minoria
Imagino que o João Pedro Henriques não tenha tido muito tempo, depois de receber e analisar os resultados da sondagem, para escrever
este artigo de hoje no DN. Nele, fala-se por duas vezes numa «escassa maioria» que acha que Sócrates saiu fragilizado do caso UnI. A «escassa maioria» são 50,2% dos inquiridos e isso, de acordo com JPH, «choca com a opinião de alguns comentadores, que afirma que o caso produziu um abalo forte na sua imagem». Lido isto, fico com a impressão de que se cria uma discordância onde ela não existe. Quanto muito, seria a escassa minoria dos 41,8% a «chocar» com os comentadores. Ou não? Não quero armar-me em Paulo Gorjão, mas há aqui uma lógica qualquer um bocado desafinada.
Sexta-feira (bis)

Sem desprimor para a rapariga abaixo que gastou todo o seu ordenado em injecções de silicone na zona labial e uma vez que o debate da nação paralisou também este blogue, como parte integrante da mesma, aqui fica:
Emanuela Folliero (A programação habitual segue dentro de momentos).
Sexta-feira

Denise Richards.
Quinta-feira, 26 de Abril de 2007
E agora?
Segundo informações de última hora, Carmona Rodrigues poderá sido constituído arguido no âmbito do caso Bragaparques. A confirmar-se, espera-se que Marques Mendes clarifique se mantém ou não a confiança num presidente de Câmara Municipal que pode ser arguido, critério aliás usado para retirar o apoio a figuras como Valentim Loureiro e Isaltino Morais. Se bem que há arguidos e arguidos (a condição não implica que venha a ser condenado por algum crime, porque tem direito a defesa), Marques Mendes fez, e bem, da credibilidade um factor de preferência nas escolhas dos candidatos do PSD nas últimas autárquicas. Este critério serviu de base para afastar outros eventuais candidatos.
Acontece que Carmona Rodrigues já garantiu que não se demite e que pretende levar o seu mandato até ao fim. Está no seu direito e, aliás, o seu gabinete desmente que o autarca tenha recebido qualquer notificação oficial. A ver vamos. Mesmo que receba, Carmona deverá querer provar a sua inocência - e eu acredito que seja um homem bem intencionado. O problema, contudo, não reside só aí. Neste momento, a CML não tem vice-presidente, arguido no mesmo processo e com o mandato suspenso, não tem a vereadora mais poderosa em funções, também constituída arguida e com o mandato suspenso, não tem uma administração da EPUL na plenitude de funções, pois os seus administradores foram também constituídos arguidos. Isto a juntar à saída voluntária da vereadora do CDS/PP, Maria José Nogueira Pinto, por ter abandonado a militância do seu partido, à saída do candidato principal do PS, para se dedicar a outros voos, e às confusões de outro vereador eleito pelo PSD. A CML que foi eleita pelos lisboetas não tem qualquer legitimidade democrática. E, a continuar por este caminho, o executivo camarário e o seu grupo de vereadores constituirão mesmo uma trupe de estranhos ao eleitorado. Um exemplo: se Marques Mendes eventualmente viesse a retirar a confiança a Carmona e não quisesse eleições antecipadas, a presidência da CML seria entregue a... Marina Ferreira. Por melhor que a senhora seja, e tenho amigos que dizem que é uma trabalhadora edicada, não foi escolhida pelos eleitores de Lisboa e a sua subida a número um da CML iria equivaler a uma grande perversão da democracia directa. O espectáculo soma e segue.